I. D’UNE ACTUALISATION RESONANTE DE LA MUSEALITE
4. LA RELATION AUX ELEMENTS DE LA REALITE
4.2 LES PROBLEMATIQUES EXISTENTIELLES DE BASE
Com o fim da Guerra do Peloponeso, a paz chegou ao som de flautas e com a demolição das Grandes Muralhas enquanto o mundo helénico rejubilava com o início da liberdade (Xen. Hell. 2.2.23; Plut. Lys. 15.4). Mas, no Outono de 404, a cidade de Palas voltou a assumir o protagonismo no teatro de operações gregas. Os Tebanos exerceram sólido influxo nas manobras, ao auxiliarem os refugiados Atenienses durante a conjuntura em que Os Trinta administraram funções. A propinquidade geográfica com a península ática tornou as poleis tebana e megarense os principais receptáculos das forças em fuga ao regime opressivo e à atmosfera de terror que se vivia em Atenas, marcado por um maior radicalismo oligárquico, que fracturou a sociedade ateniense e encetou uma autêntica caça aos democratas19.
de Isménias, além de Coerítadas, era composta por Anfíteo. Existem indícios que levantam a possibilidade de Antíteo e Anfíteo serem a mesma pessoa; vide McKechnie e Kern (2007)161-162.
19 Cf. Xen. Hell. 2.3.11-4.1; Aristot. Const. Ath. 35.4.1. Também Argos acolheu exilados Atenienses (cf.
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Plutarco enumera, na Vida de Lisandro e em contexto mais tardio, os vários motivos que guiaram à degradação de relações entre Tebanos e Lacedemónios e que estão na origem da Guerra Beócia, em 395. Foquemo-nos, por enquanto, no que refere à situação ateniense:
Mas acima de tudo, por terem [os Tebanos] auxiliado os Atenienses a libertarem-se do jugo dos Trinta tiranos que ele [Lisandro] tinha estabelecido, e cuja atmosfera aterrorizadora os Lacedemónios tinham aumentado ao decretarem que os fugitivos Atenienses deviam ser trazidos de volta a partir dos locais em que se tinham refugiado, e que todos os que impedissem o seu retorno seriam considerados inimigos de Esparta. Em resposta, os Tebanos emitiram «contra-decretos», semelhantes em espirito aos deveres beneficentes de Héracles e Dioniso, no sentido em que cada casa e polis da Beócia deviam estar abertas a esses Atenienses que pedissem socorro e todos aqueles que não ajudassem um fugitivo, deveriam ser multados no valor de um talento; e se alguém carrega-se armas através da Beócia contra os tiranos de Atenas, nenhum Tebano o veria ou ouviria. Mas eles não se limitaram a votar tais decretos, que de tão helénico e humano tinham sem, ao mesmo tempo, fazerem as suas acções corresponderem aos éditos; mas Trasibulo e todos os que estavam com ele na ocupação de File, tinham avançado desde Tebas, e os Tebanos não só lhes forneceram armas e dinheiro, mas também sigilo e uma base de operações (Plut. Lys. 27.2-4).
Os incidentes decorridos ao longo da stasis ateniense propiciaram ao clima de suspeição e desconfiança no eixo tebano-lacónico. O passo é explícito: os Lacedemónios acusavam as autoridades cadmeias de terem deferido salvo-conduto aos refugiados Atenienses, com a concessão de determinadas benesses a esse extracto democrático, e de estarem implicados nas manobras que derrubariam a estrutura oligárquica e filo-lacónica vigente na polis ateniense. A proveniência das movimentações bélicas das forças rebeldes lideradas por Trasibulo, democrata convicto e um veterano de guerra, a partir do território jurídico de Tebas, ao fortificado fronteiriço de File, enfatiza o ineludível associativismo (Xen. Hell. 2.4.2; D.S. 14.32.1). É, todavia, certo que esse auxílio fosse inicialmente de expediente particular e só pouco mais tarde, extensível a toda a Beócia, sob forma de decreto, segundo o qual os lares da Beócia deviam estar abertos a todos os Atenienses que o pedissem; na recusa ao acto de
com proscrições e processos injustos, motivados por razões político-pessoais, cuja condenação do estadista Terâmenes foi a mais flagrante; vide Swoboda (1900) 89; Parke (1930) 52.
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hospitalidade, o infractor deveria pagar o valor de um talento de multa20. Elaborando esses decretos, sustentados em fundamentos religiosos, os Beócios contornavam habilmente as intransigências lacedemónicas, concebendo o álibi perfeito que evitou a extradição dos refugiados Atenienses.
Todos os indícios apontam para que o grupo de Isménias estivesse nos bastidores a coordenar as actividades de Trasibulo para o grande palco ático, base pelo qual lhes seria conotado – erradamente – o termo pro-atenienses. É manifesto que o estatuto atribuído à facção de Isménias é apenas de carácter acusatório, possivelmente estigmatizada pelos próprios adversários políticos. O autor dos Hellenica Oxyrhynchia reitera ainda que Isménias e os seus seguidores “não estavam preocupados com os Atenienses…” (17.1). A narração é interrompida, contudo, pelas fatalidades do tempo que deterioraram o fragmento. Na realidade, a matriz político-ideológica da facção de Isménias era, ipso facto, de natureza oligárquica, mas a ameaça latente do espectro da
arche espartana, as necessidades do momento e o ónus da própria Machtpolitik tebana
foram a força locomotora para suprimir eventuais intempéries num auxílio pragmático aos atenienses revoltosos21.
Infelizmente, o silêncio das fontes inviabiliza uma percepção totalizante do cenário político tebano e do papel de Leoncíades na nova abordagem beócia, em 404. O historiador dos Hellenica Oxyrhynchia é categórico em considerar a facção de Leoncíades sectária da política lacedemónica (17.1; 18.1). Mas, estariam os acontecimentos a posteriori, ou seja, de 382 (vide infra 4.3) na base para essa designação? É provável que não. Se houve de facto permutação de heterias à frente dos negócios da polis tebana e da simaquia da Beócia, a ilação exequível a retirar seria que, além de eventuais declives na estratégia local e/ou regional, o programa de ambas as facções era incompatível no modus operandi na política externa22.
Foi mencionado nas secções antecedentes que o fracasso diplomático tebano, reflectido na recusa à proposta de Erianto no Sinédrio dos Aliados, enfraqueceu a autoridade de Leoncíades, na qualidade de líder da facção governante em Tebas, em 405, potenciando eventuais implicações colaterais no quadro interno tebano. Não
20 O passo de Plutarco é também atestado em Diodoro, cf. 14.7; cf. Hell. Oxy. 17.1; vide McKechnie e
Kern (2007) 162; Cook (1988) 62-63.
21 Com o fim da Guerra do Peloponeso, a forte política “anti-aticista” desenvolvida pelos Beócios perdeu
a sua substância com a capitulação ateniense e, assim sendo, não seria mais necessário apoiar a “causa espartana”, vide Mckechnie & Kern (2007) 162; Buck (1994) 26; Cook (1988) 63; Perlman (1964) 65.
22 Alguns investigadores têm apontado, com algumas reservas, a hipótese de uma aparente simbiose de
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obstante, é impossível ficar alheio a quanto Tebas (e a Beócia) prosperou e auferiu com o fortificado de Deceleia, pelo espólio adquirido na pilhagem da Ática e obtenção de pontos-chave na linha de pressão fronteiriça ático-beócia. A actuação nesse período da guerra garantiu à facção de Leoncíades um estatuto de clara proeminência e de prestígio em Tebas e na simaquia, que lhes terá permitido firmarem posições nos órgãos de soberania locais e beócias na primeira lua nova a seguir ao solstício de Inverno23, ou seja, cerca de quatro meses antes do estabelecimento do regime d’Os Trinta, em Abril de 404 e numa altura em que o futuro era ainda indefinido. O turbilhão dos novos tempos e as circunstâncias políticas em torno de Atenas viriam, porém, marcar o ponto de viragem (evidente) na política tebana – a alavanca que forneceu os instrumentos para a crescente influência da heteria de Isménias.
A abordagem hostil de Esparta, em forma de ultimato, na requisição do repatriamento dos refugiados atenienses abrigados em território tebano (Plut. Lys. 27.2), permitiu à facção de Isménias sólidas intervenções, com tónica anti-lacónica, junto do corpo eleitoral da classe hoplítica e cavaleira (hippeís) tebana e beócia, na boule tebana e na boule dos Beócios24. De resto, o grupo de Isménias tinha um leque de argumentos que jogavam a seu favor e que obrigaria a politeia beócia a olhar em prol dos seus próprios interesses e a temerem o novo status de Esparta. Alguns foram já aqui referidos: o desprezo lacedemónico pelo tratado tebano-lacónico e a humilhação no Sinédrio dos Aliados (vide supra 2.1 e 2.2), além das novas condicionantes políticas na
polis ateniense com Os Trinta, as actividades lacedemónicas na Tessália e quanto esse
êxito comportaria riscos para a Beócia. Mas outras premissas se assomam a estas: as vantagens e os dividendos que poderiam obter, no caso dos Atenienses revoltosos, sob o comando de Trasibulo, saírem vencedores na querela ática25; a ausência de entrega e divisão do dekatos (um décimo) dos espólios de guerra resultantes de Deceleia, exigidos, por direito, pelos Tebanos aos Lacedemónios26 e com particular destaque na
23 Cf. Plut. Pel. 24.1; Xen. Hell. 5.4.4; Ou seja, nos finais de Dezembro de 405, inícios de Janeiro de 404,
onde é datável o início do ano civil no calendário beócio. Margareth Cook oferece uma nova perspectiva através deste pormenor que tem sido negligenciado pela escolástica e que certamente nos dá uma nova luz sobre a problemática, embora Cook situe – erradamente – o Sinédrio dos Aliados na Primavera de 404; vide Cook (1988) 62.
24 A agora como local de “angariação” de votos pelo seu carácter público, vide Cook (1988) 80-81. Sobre
a boule beócia, vide Cook (1988) 67.
25 Vide Buck (1994) 28
26 Cf. Plut. Lys. 27.2; Xen. Hell. 3.5.5; Que seriam dedicados a Ptoan Apolo, vide Buck (1994) 25;
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propaganda anti-Lisandro27. A exposição destes tópicos pela heteria de Isménias, perante os seus concidadãos, terá sido fundamental para manipular o grosso do eleitorado e cingir o espaço de acção da facção de Leoncíades28.
Contudo, os eventos em Atenas, com as actividades de Trasibulo, não passaram despercebidas no Peloponeso. Prevendo os riscos em torno do governo patrocinado d’Os Trinta, os Lacedemónios accionaram os mecanismos de alianças para a realização do cerco ao Pireu. Os Beócios e também os Coríntios foram os únicos que não corresponderam ao comando29. A agitação interna ateniense foi resolvida mediante arbitragem lacedemónica com a restauração da democracia por juízo popular, em 403, naquela que foi a primeira divergência pós-Guerra do Peloponeso mas que evidenciou os primeiros indícios de resistência ao projecto lacedemónico por Tebas e Corinto. O carácter pontual da situação não conduziu a qualquer acto de revanche a ambas as
poleis. Porém, um novo teste de lealdade para com Esparta surgiria, pouco tempo
depois, na mobilização punitiva à Élide, em 402 (Xen. Hell. 3.2.21-30; D.S. 14.17.4- 12).