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I. D’UNE ACTUALISATION RESONANTE DE LA MUSEALITE

4. LA RELATION AUX ELEMENTS DE LA REALITE

4.4. METHODOLOGIE

4.4.1 Le diagnostic olfactif des collections

A eclosão da Guerra Beócia, em 395, resume-se ao assumir de casus belli e de frontalidades entre as autoridades lacónicas e tebanas, após cerca de uma década de

41 Palavra que pode ser equiparada a «adivinho».

42 Este é o primeiro indício claro de que Isménias e os seus associados dominavam a cena política tebana

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agravamentos de vínculos, num ensaio preliminar à Guerra de Corinto. Ao longo deste capítulo, temos procurado observar a evolução política tebana e as causas que conduziram a essas crispações, em formato de conspiração sussurrada pela facção de Isménias. Embora os motivos sejam evidentes, o impulso para o estalar do conflito beócio pode encontrar as suas raízes nos condicionalismos externos.

Em 396, a revolução democrática na ilha de Rodes43 revelou as primeiras vicissitudes da anabasis de Agesilau, embora com graves implicações na estratégia belicista lacedemónica pelo controlo da Ásia Menor. De facto, o ónus estratégico de Rodes só é compreensível se tivermos presente a importância da região da Cária – o grande sustentáculo da dominação persa na Jónia44. Baluarte nas operações navais de controlo do sul da Cária, a perda de Rodes decapitou a possibilidade de articulação da frente terrestre e as forças anfíbias estacionadas na ilha.

Relacionado com os acontecimentos de Rodes, encontramos a complexa questão em torno do suborno persa às autoridades das principais poleis helénicas – Tebas, Corinto e Argos – por intermédio do ródio, Timócrates, com o móbil de fazerem guerra aos Lacedemónios e a fim de impossibilitar Agesilau de se embrenhar no interior da Ásia45. Xenofonte indica que o ouro persa foi factor primário para o crepitar da

Hellados polemos, mas esta avaliação é incorrecta46. Tebas e Corinto tinham vindo a

cultivar uma política anti-lacónica desde o fim da Guerra do Peloponeso (Hell. Oxy. 7.3) e a rivalidade ancestral entre Argivos e Lacedemónios era um dado adquirido (Hell.

Oxy. 7.2). A promessa de fundos persas seria, todavia, um estímulo suficientemente

sedutor para deslocar a esfera bélica para a Hélade, além de reforçar o espirito de coesão entre as poleis escolhidas numa Grande Aliança (symmachia) patrocinada pelo Império Aqueménida.

Mas a génese da Guerra Beócia suscita algumas dificuldades analíticas, uma vez que as fontes – Xenofonte, Pausânias e os Hellenica Oxyrhynchia – divergem entre si.

43 Cf. Hell. Oxy. 15. A ilha de Rodes encontrava-se sob alçada lacedemónica e governada por um governo

oligárquico fantoche, desde 411. O processo de sinecismo da ilha situa-se à volta de 408; sobre o assunto vide McKerchnie e Kern (2007) 149.

44 Sobre a importância vital de Rodes pelo controlo do Egeu e da Asia Menor, vide Hornblower (2006)

66-68, Perlman (1964) 79-80 e Rhodes (2010) 209.

45 Cf. Xen. Hell. 3.5.1; Plut. Ages. 15.1-2. A datação avançada por Morrison e W.-G (em 402) para o

suposto suborno, com base na literatura (e.g. Plat. Rep. 336a; Meno 90a), deve ser rejeitada; vide W.-G e Morrinson (1942) 76-78.

46 Cf. Hell. Oxy. 18.1. Concordamos com a visão do historiador dos Hellenica Oxyrhynchia em considerar

que o ouro persa foi uma questão superficial relativamente às transformações intestinas em Tebas e Corinto, mas em consonância com os acontecimentos no Egeu e na Ásia Menor; vide Perlman (1964) 64- 81. Buck afirma que «“No doubt, Timokrates came around; but it seems more reasonable to believe that he promised Persian funding for military operations…”», vide Buck (1994) 34.

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Contudo, e apesar das disparidades, o ponto de confluência entre autores está no tom acusatório à facção de Isménias e Androclides de germinarem as hostilidades, por meios conspirativos, entre Focenses e (tudo leva a querer) os Lócrios Opúncios47. Por razões óbvias, seguiremos com mais afinco o passo de Xenofonte:

Os dirigentes de Tebas ao compreenderem que, se nada começava a guerra, os Lacedemónios não iriam querer romper os pactos com os aliados, convenceram os Lócrios Opúntios para que cobrassem impostos no território disputado entre os Focenses e eles mesmos, pois consideravam que se isto ocorresse, os Focenses dirigir- se-iam contra a Lócride. E não se enganaram, e imediatamente os Focenses dirigiram-se contra a Lócride e apoderaram-se de muitas riquezas. Os de Androclides rapidamente convenceram os Tebanos para que acudissem os Lócrios, pelo facto dos Focenses terem invadido, não território em disputa, mas a Lócride, com quem se havia chegado a acordo de ser amigo e aliado. Quando os Tebanos, por sua vez, se dirigiram contra a Fócida e devastaram o seu território, os Focenses enviaram embaixadores à Lacedemónia e pediram que os acudissem, com o argumento de que não haviam iniciado a guerra, mas que tinham avançado contra os Lócrios para defenderem-se (Hell.3.5.3-4).

O autor de Helénicas é imperativo na acusação que faz à facção de Isménias de estar por detrás do artifício que originou as escaramuças entre Lócrios Opúncios e Focenses, e de colocar em causa a koine eirene, estabelecida em 405. Explorando as pontas soltas e as velhas disputas territoriais entre ambas as poleis, as autoridades tebanas incitaram junto dos Lócrios a colectar impostos numa área de jurisdição flexíloqua e origem da tensão entre Lócrios e Focenses48. Através desse procedimento a Lócride Opúncia revindicava a posse do território. A acção conspirativa do grupo de Isménias e Androclides perspectivava uma reacção dos Focenses, e esta não se fez esperar, ao atacarem directamente a Lócride. Tirando partido da situação e das relações amistosas com os Lócrios, a facção de Isménias instigou os Tebanos, e restantes Beócios, a intervirem na peleja. Com o território a ser avassalado, os Focenses dirigem- se a Esparta, a fim de obterem ajuda exterior.

Outras leituras podem ser retiradas da interacção entre a elite governante cadmeia e os dirigentes de Opús. Se de facto houve contactos entre as duas autoridades

47 Para uma perspectiva pormenorizada das diferenças entre Xenofonte, Pausânias e os Hellenica Oxyrhinchia e respectivas conclusões e sugestões levantadas pelos historiadores contemporâneos, vide

Buck (1994) 30-35 (e respectivas notas).

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para instigar o conflito, os Lócrios estariam cientes de que os seus actos conduziriam à guerra com os seus vizinhos, e Tebas teria de dar garantias que iria cooperar na sua defesa. Outra possibilidade é que Isménias e os seus correligionários ter-se-iam aproveitado do reacender pontual dos antagonismos entre Lócrios e Focenses, para intervir nas suas disputas particulares e actuando como um chamariz aos Peloponésios. Apesar da plausibilidade desta perspectiva, a hipótese apresenta sérias dificuldades de corroboração.

A simples tentativa de ilibar a heteria de Isménias de qualquer maquinação não tem pontos de apoio e a tradição é unânime em apresentá-la como culpada pela eclosão da guerra, pelo que devemos colocar esta conjectura de lado mas não descartá-la na sua totalidade. Não obstante, é certo que o grupo de Isménias se predispunha na vanguarda para o ataque cerrado a Esparta, mas o ímpeto estava subordinado à vontade da politeia tebana e ao juízo da boulê dos Beócios. Podemos, efectivamente, imaginar a resistência interna, não só dos cidadãos «apartidários» mas também da facção de Leontíades, ao projecto belicista de abordagem directa aos Lacedemónios; o historiador dos Hellenica

Oxyrhynchia é assertivo nesse exame (18.2). O status hegemónico lacónico ainda

constituía uma barreira quase intransponível, ainda que imaginária, para os grupos socioeconómicos da polis tebana, e da restante Beócia, para declarar guerra aberta. Seja como for, o conflito lócrio-fócio abria à cidade de Cadmo a contingência evasiva para a colisão indirecta com Esparta, invadindo a Fócida.