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Chapitre 2 L’histoire de la recherche

1. Prolégomènes à l’étude du manuscrit

1.1. La confection d’une feuille de production (kollema/kollemata)

As representações sociais e o imaginário coletivo possuem funções políticas na legitimação e perpetuação do poder político. Manipulado e elaborado com vistas para tal finalidade, o imaginário social, por meio de seus símbolos e suas representações sociais, torna-se um importante instrumento de dominação. Essa questão ganhou destaque nas ciências humanas, pois, segundo Baczko (1984), “[...] as ciências humanas punham em destaque o fato de qualquer poder, designamente o poder político, se rodear de representações coletivas. Para tal poder, o domínio do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico”.

Tratando especificamente do caso da criação do Estado do Tocantins, entende-se que a manipulação do imaginário e da criação de símbolos foi de suma importância para a legitimação do poder político no estado. Isso porque a representação do sagrado nas falas e discursos de Siqueira Campos na elaboração do mito do Tocantins possibilita interpretar como o recurso aos bens simbólicos da religião cristã (hegemônica no estado) serviram para tal fim.

A construção de símbolos e a idéia de continuidade de uma luta histórica pela criação do Estado do Tocantins (apropriada de sua recente historiografia) que Siqueira Campos defende e enaltece em seus discursos foram utilizadas como formas de expressão de um poder simbólico que tomou emprestado, ainda, os elementos religiosos. Para Baczko (1984), o ato de exercer um poder simbólico não consiste meramente em acrescentar o ilusório a uma potência “real”. É um pouco mais do que isso: implica também duplicar e reforçar a dominação efetiva pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação das relações de sentido e poderio.

Siqueira Campos articulou a elaboração de símbolos e representações sociais do nascente estado a fim de criar uma identidade à população do norte goiano e estabelecer a partir disso um território no qual exercesse seu poder. Segundo Baczko (1984), no processo de construção de identidades está implícita a delimitação de territórios. Para o autor, o ato de designar a identidade coletiva corresponde, da mesma forma, em delimitar o seu território e, portanto, seu espaço de poder, e corresponde ainda em formar as imagens dos inimigos e amigos, rivais e aliados. Essa diferenciação entre o tocantinense e o goiano, entre o explorado e o explorador, entre a ocupação do norte por jesuítas pacíficos e a do sul por bandeirantes violentos, serviu de alimento à narração da epopéia tocantinense e de base para justificar a separação do território goiano.

que permitem sua construção adequadamente para assegurar o poder àqueles que o manipulam. Ele é uma peça eletiva do dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício da autoridade e do poder. Ao mesmo tempo, o imaginário social torna- se o lugar e o objeto dos conflitos sociais.

A legitimação do poder daqueles que manipulam o imaginário coletivo permite a dominação e o controle sobre a identidade coletiva e, por conseqüência, sobre a própria coletividade, estabelecendo uma relação de poder. A apropriação da história que atua como legitimadora do imaginário coletivo é uma das formas de apropriação do poder para ser estabelecer e dominar. Para Baczko (1984),

[...] todo o poder tem de se impor não só como poderoso, mas também como legítimo. Ora, na legitimação de um poder, as circunstâncias e os acontecimentos que estão na sua origem contam tanto, ou menos, do que o imaginário a que dão nascimento e de que o poder estabelecido se apropria. Às relações de força e de poder que toda a dominação comporta, acrescentam-se assim as relações de sentido. Qualquer instituição social, designadamente as instituições políticas, participa assim de um universo simbólico que a envolve e constitui o seu quadro de funcionamento.

A partir dessa constatação, podem-se atribuir ao ex-deputado duas funções distintas na produção dos bens simbólicos tocantinenses: a) guardião; e b) criador. Parafraseando Baczko (1984), mais do que criador, ele também se comportou como um “guardião” das simbologias. Isso porque ao produzir um sistema de representações que simultaneamente traduz e legitima a sua ordem, qualquer sociedade instala também seus guardiões do sistema, que dispõem de certa técnica de manejo das representações e símbolos construídos. Esses sujeitos, além de atuarem como protetores do imaginário social, também são os guardiões do político e do sagrado.

A utilização de elementos políticos e sagrados nos discursos de Siqueira Campos que justificam a criação do Estado do Tocantins na Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), aproximam poder e imaginário instrumentalizando os símbolos e os bens religiosos com finalidade política. O discurso fundador é o próprio imaginário social comunicável, no qual há reunidas as representações coletivas expressas por meio de uma linguagem. Dessa forma, os mitos políticos se expressam por meio das falas nas quais se propagam as ideologias e utopias que veiculam os imaginários sociais.

No paralelo entre a atuação de um “príncipe” e Siqueira Campos, as semelhanças dão o tom da apropriação, pelo político, do imaginário religioso e do poder.

Segundo Baczko (1984), o “príncipe”, rodeado pelo capital simbólico de seus próprios sinais e prestígio, manipula habilmente toda espécie de ilusões (símbolos, festas, etc.), desviando em seu proveito as crenças religiosas e impondo aos seus súditos o dispositivo simbólico de que retira o prestígio da sua própria imagem.

A constante reatualização da história do Estado do Tocantins; a exaltação dos heróis tocantinenses na figura de Joaquim Theothônio Segurado; e o destaque na letra do hino do estado tanto de Segurado como de Siqueira Campos, atuam com o propósito de perpetuação da imagem do ex-deputado e agem com o intuito de legitimar constantemente a figura do “Príncipe do Cerrado” ou, nas palavras de Campos (2008), o “Ditador do Cerrado”. Mas tudo isso tem uma finalidade: segundo Baczko (1984), nenhuma relação social e instituição política são possíveis sem que o homem prolongue a sua existência através das imagens que tem de si próprio e de outrem.

As representações sociais e o espaço de representação, originados em torno da criação do Estado do Tocantins, aproximam distintos momentos históricos. Elas resgatam o papel de cada personagem envolvido na epopéia tocantinense e recontam a história repleta de simbolismos emprestados da tradição religiosa cristã, sobretudo da Igreja Católica Apostólica Romana, dando a ela um caráter linear no qual cada personagem tem a função de herdar do anterior a luta pela emancipação do estado e dar continuidade a ela. Siqueira Campos coloca-se como o último herdeiro dessa corrente, com a missão de criar o estado tocantinense, fruto de uma luta de 179 anos.

Para Baczko (1984), no sistema de representações produzido por cada época e no qual esta encontra sua unidade, o “verdadeiro” e o “ilusório” não estão isolados um do outro, mas pelo contrário, encontram-se articulados por meio de um complexo jogo dialético. No caso do Estado do Tocantins, “verdade” e “ilusão” se confundem, se misturam e se articulam nos discursos de Siqueira Campos em prol da criação do Estado cuja representação simbólica tomou emprestados elementos religiosos de uma cultura cristã, expressos nos diversos momentos em que o ex-deputado recorre aos recursos do sagrado para uma finalidade política.

Dessa forma, o controle, a reprodução, a difusão e o manejo do imaginário social garantem uma influência sobre comportamentos e atividades coletivas e individuais, o que permite que aos detentores do poder simbólico obter resultados práticos desejados, bem como direcionar energias e orientar esperanças e sonhos coletivos sobre o futuro: o verdadeiro profeta, como nos diz Cassirer (2003).

Essa estratégia sempre estava presente nos discursos de Siqueira Campos quando este enalteceu, por diversos momentos, as qualidades e excentricidades do futuro Estado do Tocantins e produziu uma fala que tomou emprestados, novamente, mitos religiosos, e aproximou o imaginário coletivo à representação simbólica da “Terra Prometida” do povo hebreu, assemelhando-os em alguns momentos.

Entretanto, para possibilitar a influência dos imaginários sociais sobre as mentalidades desejadas, torna-se importante assegurar os meios adequados a tal difusão. Nesse sentido, um controle sobre os meios de comunicação, como rádio, emissoras de TV, livros, panfletos, e outros, torna-se necessário. Até porque, segundo Baczko (1984), para garantir a dominação simbólica, é de importância capital o controle desses meios, que correspondem a outros tantos instrumentos de persuasão, pressão e inculcação de valores e crenças. Entretanto, precisamos elaborar também uma discussão em torno do espaço político e do espaço sagrado e seus componente,s para compreendermos com uma maior elucidação como eles atuam na construção de um espaço de representação.

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