Agora que já se entende como surgiu o intraempreendedorismo, a evolução e os estudos a cerca do tema, sabe-se a diferença básica de perfil para o empreendedor, além das características que devem ser apresentadas, trabalhadas e exercitadas em um profissional intraempreendedor. Tem-se que entender o envolvimento da corporação com os seus stakeholders, quais medidas podem ser adotadas para incentivar essa prática, e como a empresa vai estabelecer esse processo.
Mas como saber se uma empresa é considerada intraempreendedora? Como saber quais práticas essa empresa utiliza? As respostas para essas perguntas são a chave para entender as sobre as práticas e atitudes empreendedoras.
Segundo Carneiro (2013), Gifford Pinchot indica que as organizações intraempreendedoras são aquelas que oferecem liberdade e autonomia aos seus colaboradores, estimulando-os a desenvolver inovações em produtos, serviços ou processos de negócio. O autor estabelece algumas diretrizes para que determinada empresa possa ser considerada intraempreendedora, como pode ser vista no Quadro 4 a seguir:
38 QUADRO 4 - Diretrizes de uma empresa intraempreendedora
ASPECTOS DE UMA EMPRESA INTRAEMPREENDEDORA • A empresa deve encorajar a autonomeação de intraempreendedores.
• As pessoas possuem liberdade para realizar seus trabalhos da sua própria forma. • São oferecidas formas rápidas e informais de acesso a recursos para a tentativa de
construção de novas ideias.
• A empresa desenvolve maneiras de gerenciar pequenos e experimentais produtos e modelos de negócio.
• Os líderes devem encorajar o risco e ser mais tolerantes a erros.
• A organização desenvolve iniciativas de longo prazo e projetos que podem durar anos para ficarem prontos.
• Há o estímulo para a formação de times multifuncionais autônomos e completos para a construção de novos projetos.
• As pessoas com perfil empreendedor são livres para buscar recursos em outras unidades da empresa e fornecedores em outras organizações.
Fonte: Carneiro, 2013, p. 64.
Ainda em Carneiro (2013), o estudo de Pinchot facilita a compreensão sobre o que seriam práticas intraempreendedoras, ao inseri-las no âmbito de projetosde longo prazo, times multifuncionais, processos estruturados para desenvolvimento de inovações, tolerância ao risco e fácil acesso a informações e recursos. Para ampliar esse leque, é possível relacionar os chamados comportamentos empreendedores com as práticas intraempreendedoras, devido à mesma origem desses conceitos. Pode-se elencar esses comportamentos baseados na importante pesquisa realizada pela The United Nations Conference and Development – UNCTAD2010. Como pode ser visto no Quadro 5:
QUADRO 5 - Comportamentos empreendedores
COMPORTAMENTO EMPREENDEDOR EXEMPLOS DE COMPORTAMENTO
Busca de Oportunidades e Iniciativa - Aproveita oportunidades para começar um novo negócio.
- Busca financiamentos e recursos. - Realiza ações pró-ativas.
Correr Riscos Calculados - Avalia alternativas e riscos de forma deliberada.
- Age de forma a reduzir os riscos ou controlar os resultados. - Busca situações que implicam desafios ou riscos moderados.
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Exigência de Qualidade e Eficiência - Busca maneiras de fazer coisas de uma maneira melhor, de forma mais rápida, ou com menor custo.
- Desenvolve procedimentos que asseguram o cumprimento de prazos e padrões de qualidade previamente combinados. Persistência - Age repetidamente ou muda de estratégia para enfrentar
um desafio ou superar um obstáculo. - Age diante de um obstáculo.
- Assume responsabilidade pessoal pelo desempenho necessário para atingir metas e objetivos.
Comprometimento - Faz um sacrifício pessoal ou depende de um esforço extraordinário para completar uma tarefa.
- Colabora com os colaboradores e parceiros ou se coloca no lugar deles para terminar um trabalho.
- Esmera-se em manter os clientes satisfeitos e coloca em primeiro lugar a boa vontade em longo prazo, acima do lucro em curto prazo.
Busca de Informações - Dedica-se pessoalmente a obter informações de clientes, fornecedores e concorrentes.
- Investiga pessoalmente como fabricar um produto ou fornecer um serviço.
- Consulta especialistas para obter assessoria técnica ou comercial.
Estabelecimento de Metas - Estabelece metas e objetivos que são desafiadores e que têm significado pessoal.
- Define metas de longo prazo, claras e específicas. - Estabelece objetivos de curto prazo, mensuráveis.
Planejamento e Monitoramento Sistemáticos - Planeja, dividindo tarefas de grande porte em subtarefas com prazos definidos.
- Revisa seus planos constantemente, levando em conta os resultados obtidos e as mudanças circunstanciais.
- Mantém registros financeiros e utiliza-os para tomar decisões.
Persuasão e Redes de Contatos - Usa estratégias deliberadas para influenciar ou persuadir os outros.
- Usa pessoas-chave como agentes para atingir seus próprios objetivos.
- Age para desenvolver e manter relações comerciais. Independência e Autoconfiança - Busca autonomia em relação as normas e controles de
outros.
- Mantém seu ponto de vista, mesmo diante da oposição ou de resultados inicialmente desanimadores.
- Expressa confiança na sua própria capacidade de complementar tarefa difícil ou de enfrentar desafios.
Fonte: Carneiro, 2013, p. 65.
Pode-se analisar que as práticas empreendedoras estão diretamente correlacionadas com as principais características empreendedoras, no caso, são derivas. Segundo Hashimoto (2006), os fatores a seguir, derivados dos três elementos da Orientação Empreendedora - que são: Inovação, Autonomia e Receptividade a Riscos -, norteiam bem esta questão.
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• Princípios, valores, missão e visão: Estabelecem um senso de direção aos intraempreendedores. Necessário em um ambiente em que se valoriza a liberdade e autonomia. Estes elementos devem resumir o espírito empreendedor que se cultiva na empresa.
• Interdisciplinaridade: A maior parte das inovações surgiu da convergência de vários tipos de conhecimento, promovidos pela união de competências distintas para analisar as mesmas fontes de informação.
• Estrutura de cargos: A tradicional estrutura de cargos não faz sentido no modelo intraempreendedor, pois não é o cargo da pessoa que determina a equipe que ela deve pertencer e sim o seu conjunto de competências, habilidades, conhecimentos e experiências individuais versus as necessidades da equipe empreendedora.
• Recompensas às iniciativas: Na organização intraempreendedora, todos os empreendedores são reconhecidos e recompensados por seus esforços, independentemente de seus empreendimentos terem alcançado o sucesso ou não. Esta é a postura que mais reflete a capacidade da organização de aceitar riscos • Modelos financeiros: Qualquer empreendimento requer um volume de investimentos providos pela organização, que supervisionará a aplicação destes recursos e negociará com o empreendedor sua participação no empreendimento, capacitando-o no controle financeiro por projeto.
• A relação de poder: A proposta é extinguir o modelo piramidal hierárquico em favor de células auto-gerenciáveis e autônomas. A verdadeira liderança deve surgir de forma espontânea e natural, independentemente de lhe ser atribuído um cargo de importância ou um nível hierárquico superior.
• Tempo discricionário: Das às pessoas a liberdade para usar parte do seu tempo em atividades distintas das suas funções originais ou cargos. O intraemprendedor usa este tempo para fazer suas próprias pesquisas e testes, explorar novas ideias, amadurecer seu projeto antes de finalizado.
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• Estrutura organizacional: Estruturas organizacionais enxutas permitem uma agilidade maior na tomada de decisão e aproximam mais as pessoas, havendo menos dependências de canais formais de comunicação, favorecendo, assim, o fluxo de informações que alimentam a capacidade de identificar oportunidades e desenvolver ideias inovadoras.
• Simplicidade: As grandes organizações se tornam complexas e, consequentemente, lentas. Empresas intraempreendedoras questionam quanto de profissionalização realmente precisam, procurando dosar a proporção entre profissionalização da gestão com espírito empreendedor.
E para Peters e Waterman (1982) o conceito “loose-tight” é visto como uma forma de balanceamento encontrado por organizações que promovem o intraimpreendedorismo dentro de estruturas complexas previamente existentes.
• Balanceamento entre o controle e a autonomia: As empresas intraempreendedoras possuem as propriedades loose-tight na qual a organização é rigidamente controlada, e ao mesmo tempo, proporciona autonomia, empreendedorismo e inovação na hierarquia. (PETERS & WATERMAN, 1982). Collins (2001) apud Hashimoto (2009), diz que as grandes organizações têm uma cultura em que o rigor e a disciplina encorajam a criatividade e o empreendedorismo. Embora pareça um paradoxo, a observação é relevante para a compreensão do fato de que a liberdade e a autonomia só são conquistadas na medida em que os agentes vão demonstrando traços de confiança e desmontando as barreiras e os controles impostos pelo principal. Sempre que pode, a organização vai ceder a autonomia de forma paulatina, substituindo controles mais moderados. Morris et al. (2006) verificaram que os níveis de empreendedorismo são maiores quando organizações criam um ambiente que equilibra de forma balanceada o ambiente individualista ou coletivo. Eles sugerem que esta dualidade pode ser expressa na forma da ‘liberdade sob modelos’ ou ‘flexibilidade oportunista’. As empresas precisam aprender a identificar o momento em que seu tamanho e taxa de crescimento forçam a informalidade e a flexibilidade a cederem espaço para conjuntos de sistemas e estruturas formais (MORRIS, ALLEN, SCHINDEHUTTE & AVILA, 2006).
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Segundo Carneiro (2013), é relevante também refletir que as políticas de RH das organizações são importantíssimas no processo de implantação de uma cultura intraempreendedora. Para isso, os subsistemas de RH – como as políticas de recrutamento e seleção, modelos de retenção (carreira) e avaliação de desempenho – devem considerar em suas práticas as competências empreendedoras. O Professor Jacques Filion (2004) ressalta algumas ações bem práticas no desenvolvimento e manutenção do intraempreendedorismo dentro das organizações, são elas:
• Introdução e gestão de uma caixa de sugestões, com avaliação sistemática das ideias e recompensa financeira para aqueles que sugeriram ideias, as quais foram aceitas e implementadas com sucesso pela organização;
• Sistema de incentivo à criação de novos produtos sugeridos por qualquer colaborador. Aqui, a empresa poderá realizar estudos de viabilidade dos produtos idealizados, e, caso haja a decisão de se lançar o novo produto, a pessoa que propôs será recompensada;
• Realização de treinamentos e conferências mensais com professores, consultores, empreendedores e intraempreendedores com o objetivo de se discutir as diferentes dimensões e práticas do empreendedorismo no âmbito das organizações.
Então, pôde-se notar que as práticas empreendedoras englobam vários aspectos. Tem-se as características pessoais empreendedoras e o comportamento do indivíduo, aliado com a visão intraempreendedora da organização, e suas práticas de incentivo e estímulo, criando uma política que possa salientar e formalizar essa gestão de pessoas que visam desenvolver o comportamento intraempreendedor.
Por fim, pode-se concluir que as práticas empreendedoras têm como objetivo a inovação, seja ela de produtos, serviços ou processos.