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Davidson et La forme logique des phrases d’action

Dans le document Être ensemble et temporalités politiques (Page 87-90)

O último tipo de erro presente nos escólios de Acarnenses que gostaríamos de apresentar é o de citação. Não é possível negar a existência de erros de citação nos escólios de

Acarnenses, dos quais uns resultam do simples descuido no momento da transcrição e outros,

da adaptação e edição propositais do texto citado.

Entretanto, não se pode imaginar que toda e qualquer citação presente nos escólios de

Acarnenses é adaptada ou editada. Na grande maioria dos casos de citação, existe precisão.

Proporcionalmente, são poucas as citações em que não há fidelidade ao texto original. Para dar uma ideia dessa fidelidade, apresentaremos alguns exemplos aleatórios de citações altamente fidedignas.

Comecemos com alguns exemplos de citações da Ilíada e da Odisseia. Σ Ac. 559, em meio aos seus comentários, apresenta a seguinte citação de Il. 1.231-2:

ἐπεὶ οὐτιδανοῖσιν ἀνάσσεις·

ἦ γὰρ ἂν Ἀτρείδη νῦν ὕστατα λωβήσαιο. Posto que governas [gente] sem nenhum valor;

Eu teria sido, na verdade, ó Atrida, ultrajado agora pela última vez.

Quando comparamos esse texto citado por Σ Ac. 559 com os respectivos versos do texto estabelecido na edição de Monro (1959), constatamos o alto grau de fidelidade da citação. Em absolutamente nada a citação difere do original.

O mesmo ocorre com a seguinte citação feita por Σ Ac. 308 (Il. 2.341): καὶ δεξιαὶ, ᾗς ἐπέπιθμεν (‘E os apertos das destras nos quais confiáramos’). Na edição de Monro (1959), o texto citado é exatamente igual.

As citações de versos da Odisseia também são bastante fiéis. Como primeiro exemplo, expomos a seguinte citação feita por Σ Ac. 1211 (Od. 1.226):

εἰλαπίνη ἠὲ γάμος; ἐπεὶ οὐκ ἔρανος τάδε γ᾿ ἐστίν.

O verso citado pelo escoliasta é admiravelmente idêntico ao correspondente no texto estabelecido nas edições de West (2017), de Mühll (1962) e de Allen (1957). Não há a menor diferença entre eles.

O seguinte hemistíquio de Od. 1.343 também foi citado com muita fidelidade por Σ Ac. 285: τοίην γὰρ κεφαλήν (‘Pois tal cabeça’). Nas edições de West (2017), de Mühll (1962) e de Allen (1957), Od. 1.343 é idêntico à citação do referido escoliasta.

Poderíamos mostrar diversos exemplos de citações dos outros cantos da Ilíada e da

Odisseia, mas essas quatro citações dos dois primeiros cantos dessas duas obras nos

proporcionam uma clara ideia da fidelidade que existia nas citações feitas pelos escoliastas de

Acarnenses.

Assim com as da Ilíada e da Odisseia, as citações dos textos de Hesíodo também são muito fidedignas. Esse fato pode ser ilustrado, primeiramente, através da seguinte citação feita por Σ Ac. 180:

τρίνινον, ὅς γὰρ βουσὶν ἀροῦν ὀχυρώτατός ἐστιν.

De carvalho, que, certamente, é mais forte para arar com bois.

Esse texto de Hesíodo (Trab. 429), conforme citado pelos escoliastas, é perfeitamente igual ao verso correspondente no texto estabelecido nas edições de Moura (2012) e de Cassanmagnago (2009).

A mesma exatidão pode ser verificada nessa outra citação de Hesíodo (Trab. 489) feita por ΣR Ac. 740:

μήτ᾿ ἄρ᾿ ὑπερβάλλων βοὸς ὁπλήν [...]. Então, nem cobrindo um casco de boi [...].

A exatidão nas citações feitas pelos escoliastas de Acarnenses não estavam restritas aos textos épicos. Também havia fidelidade nas citações de versos trágicos. Observemos a seguinte citação que Σ Ac. 46-7 faz da Ifigênia em Táuris (1-4), de Eurípides:

Πέλοψ ὁ Ταντάλειος εἰς Πῖσαν μολὼν θοαῖσιν ἵπποις Οἰνομάου γαμεῖ κόρην· ἐξ ἧς Ἀτρεὺς ἔβλαστεν· Ἀτρέως δὲ παῖς Μενέλαος Ἀγαμέμνων τε. τοῦ δ᾿ ἔφυν ἐγώ. Pélope, o filho de Tântalo, tendo ido para Pisa4 Em rápidos cavalos, casa-se com a filha de Enómao5; Com esta gerou Atreu6; e os filhos de Atreu foram

4 Antiga cidade da Élida.

Menelau e Agamêmnon. E, deste último, eu nasci.

Tal citação é idêntica aos respectivos versos das edições de Paley (2010) e de Murray (1913).

A mesma precisão que vimos na citação de Ifigênia em Táuris (1-4) pode ser vista nesta outra que Σ Ac. 308 fez da Andrômaca (446), igualmente de Eurípides:

Σπάρτης ἔνοικοι, δόλια βουλευτήρια.

Ó habitantes de Esparta, de pérfidos conselhos!

Novamente, o texto citado pelo escoliasta é exatamente igual ao que se encontra na edição de Murray (1901).

Para não nos delongarmos demais na tarefa de demonstrar a exatidão da maioria das citações feitas pelos escoliastas de Acarnenses, mostraremos apenas mais duas citações de textos cômicos, da autoria do próprio Aristófanes. Vejamos primeiro a citação que Σ Ac. 604 faz de Cavaleiros (78):

ὁ πρωκτός ἐστιν αὐτόχρημ᾿ ἐν Χαόσιν. O ânus está exatamente entre os cáones.

Essa citação de Cavaleiros (78) é perfeitamente igual ao verso correspondente no texto estabelecido por Coulon (1958). Exatidão idêntica pode ser vista nesta citação de Nuvens 1238 feita por Σ Ac. 961:

ἓξ χοᾶς χωρήσεται.

Ele comportará seis medidas.

Como se pode perceber a partir de todos esses exemplos alistados acima, a fidelidade das citações feitas pelos escoliastas de Acarnenses não está restrita a um gênero literário ou a um poeta. Ela ultrapassa os limites dos gêneros e autores, indo desde as epopeias homéricas até as tragédias euripidianas e comédias aristofânicas.

Uma vez concluída essa pequena e rápida demonstração da fidelidade que existe na maioria das citações feitas pelos escoliastas de Acarnenses, podemos mostrar os exemplos de erros de citação presentes nos escólios da referida comédia sem corrermos o risco de levar o leitor a imaginar que as citações feitas pelos mencionados escoliastas não merecem confiança.

Vejamos, finalmente, alguns exemplos de erros de citação encontrados nos escólios de

Acarnenses. Comecemos pela seguinte citação que ΣΕΓAld Ac. 86 fez de Índica (28.1), da autoria do historiador Arriano, do século II d.C.:

οἱ δὲ ξένια ἔφερον θύννους ἐν κριβάνοισιν ὀπτούς.

Estes levavam presentes de hospitalidade, atuns assados em fornos.

Os escoliastas dos códices ΕΓ e da Aldina fizeram algumas alterações no texto original de Arriano. De acordo com as edições de Hercher e Eberhard (1885) e de Dübner (1846), o texto citado por ΣΕΓAld Ac. 86 é o seguinte:

προσάγοντι δὲ αὐτῷ πρὸς τὰ τείχεα φιλίως ξείνια ἔφερον ἐκ τῆς πόλιος θύννους τε ἐν κριβάνοισιν ὀπτούς.

Levavam amigavelmente para ele, que avançava contra as muralhas, presentes de hospitalidade da cidade e atuns assados em fornos.

Como se pode notar, ΣΕΓAld Ac. 86 suprimiu esses dois trechos do texto citado: προσάγοντι δὲ αὐτῷ πρὸς τὰ τείχεα (‘para ele, que avançava contra as muralhas’) e ἐκ τῆς πόλιος (‘da cidade’). Os escoliastas também retiraram a partícula τε (‘e’). Além das supressões, ΣΕΓAld Ac. 86 também acrescentou um sujeito para o verbo ἔφερον (‘levavam’): οἱ (‘estes’).

Todas essas edições feitas pelos escoliastas, provavelmente, eram ajustes necessários para adequar os comentários aos poucos espaços em branco disponíveis. As adaptações feitas por ΣΕΓAld Ac. 86 não comprometiam a essência semântica do texto citado. No entanto, adaptações como essas não são aceitas pelos atuais padrões acadêmicos de citações.

Um segundo exemplo de erro de citação pode ser visto em ΣΕΓAld Ac. 127. Trata-se de uma citação de Píndaro (Nem. 9.2). Leiamos a citação que os escoliastas fizeram do mencionado texto de Píndaro:

ἔνθ᾿ ἄρα πεπταμέναιν ξείνων ἕνεκεν ταῖν θύραιν.

Pois ali as portas foram abertas por causa dos estrangeiros.

De acordo com as edições de Maehler (1980) e de Schroeder (1923), o texto citado por ΣΕΓAld Ac. 127 não preserva sua redação original. Segundo as mencionadas edições críticas, a forma original do texto pindárico é a seguinte:

ἔνθ᾿ ἀναπεπταμέναι ξείνων νενίκανται θύραι. Ali as portas prevaleceram abertas aos estrangeiros.

Diferentemente dos que ocorreram com a citação de Arriano, os erros dessa citação de Píndaro (Nem. 9.2) parecem ser resultantes de uma má leitura no texto uncial. Afinal, não era difícil confundir ΕΝΘΑΝΑΠΕΠΤΑΜΕΝΑΙ com ΕΝΘΑΡΑΠΕΠΤΑΜΕΝΑΙΝ, justificando a substituição de ἔνθ᾿ ἀναπεπταμέναι (‘ali abertas’) por ἔνθ᾿ ἄρα πεπταμέναιν (‘pois ali abertas’). Ξείνων ἕνεκεν ταῖν (‘por causa dos estrangeiros as’: ΣΕΓAld Ac. 127) também deve ter surgido a partir da confusão de ΞΕIΝΩΝΝΕΝIΚΑΝΤΑΙ com ΞΕIΝΩΝEΝΕΚΕΝΤΑIΝ.

Mesmo se tratando de um possível e explicável equívoco de leitura, as alterações na citação de Píndaro (Nem. 9.2) não podem deixar de ser contabilizadas em desfavor dos escólios de Acarnenses.

Σ Ac. 172 contém mais um exemplo de erro de citação. Desta vez, o texto citado é do Discurso Contra Aristogiton (25.20), escrito por Demóstenes. Essa foi a maneira como os escoliastas citaram o mencionado texto do orador ateniense:

τὰς ἔνας ἀρχὰς ταῖς νέαις ὑπεξιέναι.

[Fazendo] os antigos magistrados cederem, aos poucos, lugar aos novos.

Quando se compara a citação feita por Σ Ac. 172 com o respectivo trecho na edição de Dilts (2008), nota-se que o texto transcrito também foi editado pelos escoliastas. De acordo com Dilts (2008), a redação original do texto citado é a seguinte:

τὰς ἕνας ἀρχὰς ταῖς νέαις ἑκούσας ὑπεξιέναι.

[Fazendo] os antigos magistrados espontaneamente cederem, aos poucos, lugar aos novos.

Comparando a citação com o original, é possível perceber duas alterações: a mudança da aspiração de ἕνας (‘antigas’) e a omissão de ἑκούσας (‘que age espontaneamente’). A primeira alteração, muito provavelmente, é uma adaptação dialetal, já que Demóstenes era ateniense e os escoliastas, não (cf. tópico 3.4.2). Por outro lado, o escoliasta deve ter omitido ἑκούσας para economizar os poucos espaços em branco de que dispunham.

Novamente estamos diante de uma modificação que não compromete semanticamente o texto citado. Contudo, a edição feita por Σ Ac. 172 não pode deixar de ser apontada como um erro de citação.

Em Σ Ac. 206, encontramos um erro em outra citação de Demóstenes. De acordo com o referido escoliasta, o orador ateniense escreveu o seguinte em seu Discurso Contra Mídias (21.116): οὐχὶ συλλήψεσθε; (‘Não agarrareis?’). No entanto, quando consultamos a edição de Dilts (2005), constatamos que o escoliasta alterou o verbo, que estava na segunda pessoa do plural, para a primeira do plural: οὐχὶ συλληψόμεθα (‘Não agarraremos’). Possivelmente, o

escoliasta mudou o verbo para adequá-lo ao verso comentado, no qual os velhos acarnenses, desejosos de agarrar Diceópolis, estão falando em primeira pessoa.

Uma terceira citação de Demóstenes (Olin. 1.13) foi feita de modo problemático pelos escoliastas de Acarnenses. O primeiro problema está na referenciação: o escoliasta disse que o texto era da Primeira Filípica, mas na verdade é das Olintianas (cf. tópico 4.1.8). Eis o comentário de ΣAld Ac. 338-9:

τὸ ὅμοιον καὶ παρὰ τῷ ῥήτορι ἐν τῷ πρώτῳ τῶν Φιλιππικῶν “ἀλλὰ μὴν τόν γε Παίονα καὶ Ἰλλυριόν”.

O mesmo também ocorre no orador, na Primeira Filípica (Olin. 1.13): “Mas seguramente o peônio e o ilírico”.

Segundo a edição de Dilts (2002), em Olin. 1.13, Demóstenes não escreveu da mesma forma que o escoliasta citou, mas da seguinte maneira:

τὰς δ᾿ ἐπ᾿ Ἰλλυριοὺς καὶ Παίονας [...] στρατείας. As campanhas contra os ilíricos e peônios [...].

Como se pode constatar, ΣAld Ac. 338-9 fez graves alterações no texto citado. A ordem original e o número dos dois adjetivos toponímicos foram modificados, passando de Ἰλλυριοὺς καὶ Παίονας (‘ilíricos e peônios’) para Παίονα καὶ Ἰλλυριόν (‘peônio e ilírico’). O início da oração, τὰς δ᾿ ἐπ᾿ (‘as [...] contra’) foi drasticamente alterado para ἀλλὰ μὴν τόν γε (‘mas seguramente o’). As modificações feitas por ΣAld Ac. 338-9 foram tão grandes que até parece não ser a citação de Olin. 1.13, mas de outro texto. Esse é um dos casos mais críticos de erro de citação.

Um novo exemplo de erro de citação está presente nos escólios anexados a Ac. 231-2. Trata-se da citação de um verso da Odisseia (4.559). Eis a forma como Σ Ac. 231-2 citou o referido texto homérico:

οὐ γὰρ μοι νέες εἰσὶν ἐπήρετμοι.

Pois não há navios providos de remos para mim.

Quando consultamos esse mesmo verso nas edições de West (2017), de Mühll (1962) e de Allen (1957), notamos que Od. 4.559 tem uma redação distinta daquela apresentada por Σ

Ac. 231-2. Nas mencionadas edições críticas da Odisseia, o citado verso encontra-se

unanimemente escrito da seguinte maneira:

οὐ γάρ οἱ πάρα νῆες ἐπήρετμοι καὶ ἑταῖροι. Pois não há navios providos de remos nem amigos.

Ao compararmos as duas versões de Od. 4.559, percebemos que Σ Ac. 231-2 fez quatro modificações no verso citado. Primeiramente, ele omitiu – provavelmente para poupar os espaços em branco – a expressão καὶ ἑταῖροι (‘e amigos’) no final do verso. Em segundo lugar, substituiu a palavra πάρα (πάρεισι: ‘estão presentes’) por uma forma verbal mais simples e corriqueira: εἰσίν (‘existem’). Terceiro, confundiu οἱ (‘os’) com μοι (‘para mim’) ou trocou propositalmente para adequar a citação ao contexto, que está na primeira pessoa do singular (cf. Ac. 229-30). Por fim, usou a variante νέες (‘navios’), de νῆες (‘navios’).

Outro texto homérico foi citado de modo questionável nos escólios de Acarnenses: Il. 1.3-4. A citação dos referidos versos encontra-se em meio aos comentários que os escoliastas dos códices ΕΓ e da Aldina anexaram a Ac. 398-9. Eis a maneira como ΣΕΓAld Ac. 398-9 transcreveu tais versos da Ilíada:

πολλὰς δ᾿ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν ἡρώων, αὐτοὺς δ᾿ ἐλλώρια τεῦχε κύνεσσιν. E enviou ao Hades muitas almas valentes

De heróis, também fazia deles próprios despojos aos cães.

Comparando essa citação com os versos correspondentes na edição de Monro (1959), percebe-se que o escoliasta fez uma pequena alteração no texto transcrito. Na edição crítica de Monro (1959), Il. 1.3-4 está escrito assim:

πολλὰς δ᾿ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν. E enviou ao Hades muitas almas valentes

De heróis, também fazia deles próprios despojos aos cães.

Como se pode ver no cotejo entre a citação e o texto original, a diferença está apenas na expressão δὲ ἑλώρια (‘também despojos’), que ΣΕΓAld Ac. 398-9 – possivelmente por descuido – trocou por δ᾿ ἐλλώρια (sic), que contém um erro ortográfico. No mais, a citação é bastante precisa.

O próximo erro de citação que desejamos expor está inserido em ΣAld Ac. 232-3. Nesse comentário, o escoliasta faz a citação de uns versos da própria comédia Acarnenses. Eis a citação de Ac. 230-1 feita por ΣAld Ac. 232-3:

σκόλοψ καὶ σχοῖνος αὐτοῖς ἅτ᾿ ἐμπαγῶ.

Essa transcrição de Ac. 230-1 não se encontra de conformidade com o texto estabelecido por Olson (2002). Na mencionada edição crítica, os tais versos de Acarnenses encontram-se escritos da seguinte forma:

σχοῖνος αὐτοῖσιν ἀντεμπαγῶ <καὶ σκόλοψ>. Enfiar-me neles como um junco e uma estaca.

Como se pode verificar, existem algumas divergências entre Ac. 230-1 e a citação de ΣAld Ac. 232-3. A expressão καὶ σκόλοψ (‘e uma estaca’) foi deslocada para o início da citação. O dativo αὐτοῖσιν (‘neles’) foi substituído por sua forma mais usual: αὐτοῖς. ΑΝΤΕΜΠΑΓΩ (ἀντεμπαγῶ) (‘enfiar-me’) foi confundido com ΑΤΕΜΠΑΓΩ (ἅτ᾿ ἐμπαγῶ), o que não seria muito difícil na leitura de um prototípico texto uncial.

Um verso de outra comédia de Aristófanes, Assembleia de mulheres (255), também foi citado com erros pelos escoliastas de Acarnenses. Assim transcreveu ΣAld Ac. 863 o referido verso de Assembleia de mulheres:

τούτῳ μὲν εἶπον, ἐς πρωκτὸν κυνὸς βλέπε.

Eu disse para ele: “Vá olhar para um ânus de cachorro!”

De acordo com a edição de Hall e Geldart (1907), o texto da Assembleia de mulheres (255) difere daquele que foi citado por ΣAld Ac. 863. Na edição de Hall e Geldart (1907), que é semelhante à Aldina, lemos assim:

τούτῳ μὲν εἶπον ἐς κυνὸς πυγὴν ὁρᾶν.

Eu disse para este olhar para uma bunda de cachorro.

Mesmo não sendo semanticamente comprometedoras, as alterações feitas por ΣAld Ac. 863 em Assembleia de mulheres (255) não deixam de ser erros de citação. Foram feitas basicamente três pequenas adaptações no texto transcrito: trocou ὁρᾶν (‘olhar’) por βλέπε (‘olha’); substituiu πυγήν (‘bunda’) por πρωκτόν (‘ânus’); e inverteu a ordem do acusativo e do genitivo na expressão ἐς κυνὸς πυγήν (‘para uma bunda de cachorro’). Possivelmente, ele realizou tais adaptações para harmonizar o seu comentário com o do escoliasta do códice de Ravena, que tinha acabado de citar o provérbio da seguinte forma: ἐς πρωκτὸν κυνὸς βλέπε (‘Vá olhar para um ânus de cachorro!’).

O último exemplo de erro de citação que queremos apresentar está em ΣAld Ac. 774. Trata-se de uma citação de Teócrito (Id. 12.27-29). Vejamos a maneira como o escoliasta citou os mencionados versos:

Νισαῖοι Μεγαρῆες ἀριστεύοντες ἐρετμοῖς, ὄλβιοι οἰκείητε, τὸν Ἀττικὸν ὡς περίαλλα ξεῖνον τιμήσασθε Διοκλέα τὸν φιλόπαιδα. Ó megarenses de Nisaia, os melhores nos remos, que possais viver felizes, porque muitíssimo

honrastes o ático estrangeiro: Dioclés, o amante dos moços.

De acordo com a edição de Gow (1952), a citação de ΣAld Ac. 774 não corresponde à redação original do texto citado, que é:

Νισαῖοι Μεγαρῆες ἀριστεύοντες ἐρετμοῖς, ὄλβιοι οἰκείοιτε, τὸν Ἀττικὸν ὡς περίαλλα ξεῖνον ἐτιμήσασθε Διοκλέα τὸν φιλόπαιδα. Ó megarenses de Nisaia, os melhores nos remos, que possais viver felizes, porque muitíssimo

honrastes o ático estrangeiro: Dioclés, o amante dos moços.

Como se pode notar, existem duas alterações na citação de Id. 12.27-29 feita por ΣAld

Ac. 774. Na primeira, o escoliasta trocou o verbo οἰκείοιτε (‘que possais viver’) por uma

forma verbal questionável: οἰκείητε (sic). Na segunda, o verbo ἐτιμήσασθε (‘honrastes’) foi substituído por outra forma verbal duvidosa: τιμήσασθε (sic).

Por meio de todos esses exemplos alistados acima, pode-se ter a certeza da existência de erros de citação nos escólios de Acarnenses. Entretanto, também é possível ter a convicção de que tais equívocos – muitos dos quais são fruto apenas da falta de atenção – em nada comprometem a essência semântica dos textos transcritos.

Com os erros de citação, encerramos esse tópico que trata dos erros existentes nos escólios de Acarnenses, sem pretender de modo algum exauri-los.

Dans le document Être ensemble et temporalités politiques (Page 87-90)