à quel point ?
6.2 Main invisible et ordre spontané : de Mandeville à Hayek
6.2.5 L'interprétation néoclassique des concepts évolutifs
Aqui estou dentro destas colunas como dentro de uma trincheira. A violencia sofrida não nos arrefeceu o animo; as vinganças e arreganhos do mandonismo de botas não esmagam, nem esmagarão, jamais, a nossa resistência moral que, nesta terra, será sempre um baluarte contra as arremetidas de todos os jupteres tonantes.
Aqui estamos como surgimos, dentro das coordenadas de um ideal, que é maior que os círculos do ódio e mais luminoso que uma estrela tremula do céo...
Enrijados na luta, a luta nos retempera o espirito e nos caldeia o animo para às justas em prol da grandeza de nossa terra immensamente bela, imensamente rica.
[...] maranhenses, eu vos conclamo:
- Sejamos dignos de nossa terra. Procuremos eleger candidatos que tenham credenciaes para falar em defesa de nossa gente soffredora.
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Acordemos a consciencia adormecida de nossos deveres.
O Maranhão, que passou dois anos e mezes dirigido por extranha gente, saberá mostrar, agora, à boca das urnas, que ainda possue filhos dignos e capazes de lhe manter o renome e fama e a sua brilhante laurea intellectual. Maranhenses, estamos livres.
Parabenizemo-nos! ASTOLPHO SERRA (Notícias, 30/04/1933, p.1)
Vamos começar pelas concepções de imprensa e/ou jornalismo expressas e mobilizadas pelo agente em sua atuação nestes domínios imbricados da política, do jornalismo e da intelectualidade maranhenses. O lugar da imprensa, tal como ele a percebe, é de uma “trincheira” contra as “violências sofridas” e os “arreganhos do mandonismo de botas”, os quais, no entanto, não conseguiam “arrefecer o [seu] animo”, a sua “resistência moral que, nesta terra, será sempre um baluarte contra as arremetidas de todos os jupteres tonantes”. Guiado pelas coordenadas de um “ideal” (referência recorrente também em outros agentes), o qual seria “maior que os círculos do ódio”, sua experiência de luta o teria fortalecido (“a luta nos retemperou o espirito e nos caldeia o animo”) de modo que poderia continuar a combater “em prol da grandeza de nossa terra immensamente bela, immensamente rica”.
Logo em seguida, demarcando identificações regionais, conclamava por uma união dos maranhenses (“a hora é de solidariedade, e sobretudo de ação”) em benefício do Maranhão (“Sejamos todos pelo Maranhão”) que, segundo suas palavras, “precisa[va] entrar na posse de seus domínios”. Conforme se depreende do seu discurso, o pleito de maio de 33 representaria uma oportunidade para essa libertação (“Maranhenses, estamos livres”) que, no entanto, exigia de todos “serenidade de espirito e consciencia avisada na escolha de nossos representantes” (Notícias, 30/04/1933, p.1). O agente faz referência ainda ao fato de que o Maranhão tinha passado “dois anos e meses dirigido por extranha gente”, ou seja, alguém que não era maranhense. Agora, nas eleições, era o momento de mostrar que o estado ainda tinha “filhos dignos e capazes de lhe manter o renome e fama e a sua brilhante láurea intelectual”. É, portanto, a condição de intelectual que o tornava “digno” de representar o Maranhão na Constituinte. Dessa forma, reivindicando-se enquanto intelectual, Serra acreditava-se habilitado “para falar em defesa de nossa gente sofredora”. Nesta sua “Chronica do dia”, título da coluna que assinava em Noticias, percebe-se o uso de referências míticas
139 para representar “Maranhão” como “terra de intelectuais” e que, por isso, não devia ser dirigida por “gente extranha” mas sim pelos seus “filhos”, “dignos e capazes de lhe manter o renome e a fama”.
Nota-se ainda uma postura conciliadora, posto que, em relação aos adversários do embate político-eleitoral, Serra prefere ignorá-los, falando apenas das suas próprias qualidades, as quais lhe credenciariam a bem representar o “Povo Maranhense”. Através do seu jornal Noticias ele procurava, assim como fizera à frente da interventoria, conforme vimos anteriormente, se aproximar das camadas populares e dos sindicatos de trabalhadores urbanos. Acreditando dispor das simpatias do eleitorado da capital e de parte do interior, Serra não precisou se posicionar de modo mais explícito em relação às outras forças políticas do estado que se mobilizavam em torno daquelas mesmas lideranças políticas da chamada República Velha, tentando reorganizar suas antigas bases e redes políticas. Por outro lado, nesta campanha, enquanto candidato avulso, Serra podia lançar mão de um discurso de independência frente àquelas facções políticas, procurando assim marcar suas diferenças. No entanto, não se percebe nenhum tom mais incisivo, ou mesmo críticas específicas, a qualquer desses concorrentes. Parece ter prevalecido em sua campanha política à Constituinte o que havia defendido na crônica de reabertura do seu jornal: “a hora é de solidariedade”; “levantemos os corações para o alto”.
Esta edição de reabertura do jornal acabou trazendo aspectos que não podemos deixar de notar: em relação à liberdade de imprensa, Noticias colocou, na primeira página, em letras garrafais, acima do título do jornal, as seguintes frases:
A força moral das collectividades é mais eficiente que a mais truculenta das arbitrariedades.
A imprensa foi é e será a expressão mais elevada e mais brilhante daquela força.
E porque assim é, NOTICIAS voltou a circular. (NOTÍCIAS, 30/04/33, p.1).
À “imprensa” atribuía-se uma “força moral” oriunda da “collectividade”, ou seja, sua legitimidade adviria do fato de que expressava o conjunto da sociedade, sendo, portanto, sua porta-voz. Ainda tratando da imprensa, o editorial de Noticias deste retorno focalizava o estatuto da imprensa enquanto força social, acentuando sua
140 contribuição decisiva, tendo sido mesmo “um dos elementos mais fortes que contribuíram para a Revolução Brasileira”. Entretanto, teria sido “uma das primeiras victimas do movimento vitorioso, nos primeiros dias de perturbação” (30/04/33, p. 4: “Editorial”). E, no caso do Maranhão, a imprensa teria sofrido ainda mais, o que representava uma “contradição evidente”, segundo o editorialista, pois a “Revolução Brasileira”, que
pregou a liberdade de pensamento, a emancipação política de nosso povo, aqui no Maranhão, desde os seus primeiros dias, estrangulou o pensamento, coartou a idéa, esmagou de um só golpe, a palavra falada e escripta.
Indagava retoricamente: “Por que?”. Para, logo em seguida, responder:
Ninguém soube. Ninguém sabe. A imprensa que havia combatido os erros do governo, a imprensa que havia criticado com isempção de animo as irregularidades administrativas, a imprensa que havia sofrido tantas vicissitudes, essa imprensa maranhense, que se expressa em nossa sociedade politica, por uma trajetória luminosa, cheia de sacrifício de toda sorte, foi aqui ferida na sua liberdade, recebeu afronta tão grande, como jamais se verificara no antigo regime.
Porque a escolheram para victima? Ninguém soube. Ninguém sabe.
Porque o povo maranhense, de quem esta imprensa é a expressão, reflectindo a sua opinião, recebeu a revolução de braços abertos, com a maior alegria, com os mais brilhantes ímpetos de enthusiasmo.
Todas as classes se congregaram em redor do Ideal Novo. Todas as famílias maranhenses correram à praça publica para aplaudir o novo regime que se iniciava, o advento do credo revolucionario.
Por que, então, se fulminou a imprensa, que seria, como indicava o seu passado de luctas, de analyses e de criticas, um dos elementos mais preciosos ao trabalho de construção que se ia iniciar?
Ninguém soube. Ninguém sabe!
Não parou, porém, neste passo, o vilipendio da imprensa.
O Capitão Serôa da Motta, assumiu o governo do Estado, divorciado da imprensa maranhense [...]. Era uma questão de estylo, ao que se dizia. Acreditava-se assim fosse. E acreditava-se, porque o capitão Serôa da Motta declarou que não precisava de jornaes, mas que a todos [...] daria explicação de seus actos, fazendo, deste modo, luz necessária e bastante sobre a sua directriz administrativa.
Infelizmente, tal não aconteceu. A intreventoria Serôa da Motta não ligou a menor importancia à imprensa.
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Era procedente ou improcedente a critica?
O governo não se animou a dizel-o. Manteve o mais rigoroso silencio. E um dia, não sabemos porque motivo, o governo mandou suspender a publicação do COMBATE, da TRIBUNA e de NOTICIAS.
Este jornal foi que recebeu o golpe por derradeiro.
E por que dizemos que não sabemos o motivo que teve o governo para suspender a publicação dos jornaes?
Porque o que a policia declarou foram dois factos que se não verificaram – que os jornaes moviam campanha difamatória contra o governo e procuravam alterar a ordem publica!
[...] Todos compreenderam que o governo não apresentava causas, mas pretextos, e ninguem duvidou acreditar que a suspensão da publicação dos jornaes visara apenas asfixiar a voz da opinião publica.
E asphixiou-a durante dez longos mezes!
Não se pode deixar de dizer, que, considerando-se a doutrina revolucionaria, os principios básicos da nova republicanização do Brasil, este facto foi o mais impressionante [ilegível] que fez curvar a cerviz da sociedade e do povo maranhense.
A intellectualidade maranhense sofreu com ele uma depressão sensível. [...]
(NOTÍCIAS, 30/04/1933, p.4: “Editorial”).
Como se vê neste trecho do longo editorial que marcava o retorno do jornal de Astolfo Serra, é em nome da “opinião publica” que ele reivindicava sua legitimidade para criticar os governos, apontar-lhes os erros, etc. Essa condição de porta-voz lhe permitiria também afirmar-se enquanto conhecedor dos problemas e sofrimentos vividos pela população trabalhadora maranhense e, desse modo, justificava sua autoridade; não só para identificá-los, mas, principalmente, para propor-lhes as soluções julgadas necessárias.
A posição de intelectual caminhava pari passu com o exercício do jornalismo, como já afirmara Coradini (2014), analisando outra configuração regional nessa mesma quadra histórica. Ainda segundo este autor, o jornalismo naquela configuração funcionava muito mais como um locus para o exercício da atividade intelectual do que como um espaço em que se estivesse plasmando uma atividade profissional com princípios ou regras específicas de entrada e atuação.
No caso do Maranhão, assim como no Rio Grande do Sul, as fronteiras do jornalismo são apenas esboçadas, e muito mais em decorrência de fortalecer seu uso político do que propriamente guardá-las de critérios e princípios exógenos. Tome-se, por exemplo, o caso da Associação Maranhense de Imprensa (AMI), entidade na qual
142 Astolfo Serra ingressou, após a saída de Reis Perdigão68, e que existia desde a década de 1910. Não se pode deixar de observar que a atuação desse órgão ia no mesmo sentido das entidades culturais existentes no estado, preocupando-se, por exemplo, com a adoção de uma ortografia única entre os jornais maranhenses. Além de auxiliar, no pós 30, no registro junto aos órgãos federais do trabalho [delegacias do trabalho], dos indivíduos que atuavam na imprensa. Em um episódio de empastelamento de um jornal na cidade de Caxias, em 1917, a Associação de Imprensa interpelou o governo do Estado, através de ofícios. Não obtendo nenhum retorno, em nova assembleia cogitou, então, de enviar diretamente ao presidente da Republica um telegrama, dando ciência do ocorrido no Maranhão. Depois de certa discussão devido alegações de que este ato feria a autonomia do estado (ou seja, do governo estadual), finalmente aprovou-se o envio do documento. Todavia, esta carta, também não obteve retorno da parte do “mais alto magistrado da nação”. A sua “autoridade” no início dos anos 1930 não apresentara inflexões significativas em relação ao quadro descrito.
Conforme se depreende dos fatos narrados pelo editorial, a imprensa maranhense não teve tratamento muito diferente desse que se verificara quinze antes. “O Capitão Serôa da Motta, assumiu o governo do Estado, divorciado da imprensa maranhense”, tendo o mesmo “declarado que não precisava de jornaes” e, desse modo, “não ligou a menor importancia à imprensa”. Ao sobrevir as críticas (“E a critica arrancou ... contra a interventoria”) o governo, sem nenhuma justificativa legal para sua atitude, reclama o editorialista, “mandou suspender a publicação” de três dos principais jornais em circulação na capital do estado. Este ato teria prejudicado sobremaneira a “intellectualidade maranhense” que por sua conta “sofreu” uma “sensível depressão”. Ou seja, enquanto meio primordial para o exercício da atividade intelectual a sua supressão teria impactado a “vida intelectual” maranhense.
Sendo a imprensa maranhense esse meio de atuação privilegiado dos intelectuais, o ufanismo regionalista tinha que se manifestar também em relação a ela. E Serra, cioso das “tradições da terra berço” enfatiza a “trajetória luminosa” da “imprensa maranhense”. Por conta disso, reivindica para ela (e para si, posto que se coloca enquanto jornalista também) a condição de “força propulsora do progresso, nervo da
68 Perdigão deve ter deixado esta associação somente após sua partida do Maranhão entre setembro/outubro de 1933. Conforme visto no tópico referente aos posicionamentos deste agente, em julho de 1932, quando ocorreu o fechamento dos jornais Tribuna, O Combate e Notícias, Serra não integrava a Associação Maranhense de Imprensa (AMI), à época dirigida por Perdigão.
143 sociedade e sentinella avançada dos governos”, não podendo “jamais soffrer, sem desafronta, o opróbio que mergulhava a nossa [imprensa] no pântano miasmático da mais dolorosa desesperação!”. Desfeito, através da determinação do ministro do guerra, o “regime de violências” que proibia (“há longos dez meses”) a circulação dos três jornais, e que fora implantado na administração Seroa da Motta, voltavam a circular e, assim, “garantidos pela força federal”, “aqui estamos, no exercício do nosso mister sagrado de jornalistas”.
Ao eleitorado maranhense
Astolpho Serra, convencido de que todos os seus amigos, que lhe vão sufragar o nome nas eleições de 3 de maio, querem que seus votos sejam aproveitados, vem, por nosso intermédio, prevenir a todos que o seu nome deve ser posto em primeiro logar nas chapas conforme exigência do código eleitoral, para que possa ser eleito em 1º turno. Outrossim adverte que poderão repetir o seu nome, em 2 º logar.
As chapas poderão ser datilografadas não podendo ser feitas à mão.
Na Redação de NOTICIAS os amigos do Astolpho Serra poderão de amanhã em diante receber as cedulas eleitoraes.
(NOTICIAS, 30/04/1933, p.1)
As eleições de 1933 tinham algumas características que a singularizaram em relação aos pleitos anteriores, da chamada República Velha. A partir do Código Eleitoral instituído em 1932 pelo decreto nº 21.076 do Governo Provisório, ficou estabelecido o voto secreto, o voto feminino e o sistema de representação proporcional de votação. Todos eles elementos inéditos “na experiência democrática brasileira”. Eles também nos ajudam a entender melhor a preocupação dos candidatos em orientar seus “amigos” a não desperdiçar seus votos, sendo “todos aproveitados”, e naturalmente evitando-se que fossem anulados.
Conforme se vê no fragmento transcrito acima, era na redação do jornal que se datilografavam e distribuíam as chapas eleitorais a serem usadas no dia da votação, bem como se destacavam pessoas para atender aos “amigos” interessados em sufragar o nome do candidato, no caso o de Astolfo Serra, naquelas eleições. Importante destacar que a redação dos jornais, de todos eles, funcionava como “escritório” da facção, lá eram feitas as reuniões e organizadas as medidas e ações visando o sucesso dos pleitos eleitorais.
O papel da imprensa enquanto uma suposta força propulsora do soerguimento econômico e cultural do Maranhão, apesar de um elemento do seu discurso
144 performativo, tornou-se recorrente nesse período, encontrando exemplos nos demais veículos em circulação.
Ao tom otimista que se seguiu à reabertura de Notícias (fins de abril de 1933), passando pelas eleições de maio, sucedeu-se paulatinamente um viés mais cético, até alcançar um pessimismo mais explícito, tanto em relação ao passado recente quanto ao presente: “O Maranhão de hoje esqueceu suas tradições, é um Maranhão triste e arruinado” (NOTÍCIAS, 24/05/1933, p.1: “Chronica do dia”). A decepção com a “gloriosa revolução de outubro” vai surgindo: “O Maranhão foi comido, devorado e hoje só restam as cascas como últimos despejos de tão impatriótico banquete” (Notícias, 27/05/1933, p.1: “Chronica do dia”). Parodiando Olavo Bilac, Astolfo Serra afirmava, numa “Chronica do dia”, que, para interpretar a história maranhense era “preciso ter alma [..] e amor sincero para soffrer a derrocada da terra berço.” Esse doloroso reconhecimento da “derrocada” do Maranhão era a conclusão que tirava após narrar a “história do ovo da ema”, a qual ocupara praticamente todo o espaço dedicado à sua coluna naquele dia 27 de maio de 1933. Resumimos, com a ajuda dele: a ema, após colocar seus enormes ovos, e tendo um cuidado muito grande com os mesmos, deixa ao lado do ninho um ovo isolado, que ela não choca, e que fica, assim, condenado a apodrecer. “E de facto apodrece, e cria vermes”. “É a providencia maternal do famoso ‘dromaceus’, que sacrifica, assim, um dos ovos que servirá para alimentar os filhotes mais tarde” ao saírem da casca...
Segundo Serra o Maranhão, após a “victoriosa Revolução”, “ficou sendo o ovo de ema do glorioso feito de outubro de [1]930”. Os “filhotes” vindos de “outras terras”, e “com muita fome de mando”, devoraram “tudo” num “impatriótico banquete”.
Neste cenário, não seria possível encontrar-se a solução para os “males do Maranhão”. E um dos principais seria a falta de iniciativas, conforme apontava artigo intitulado “As iniciativas maranhenses” (Notícias, 11/05/1933, p.1). Era assim tanto da parte dos “indivíduos” quanto do “governo”. “Das iniciativas particulares sabem todos que tem pertencido a associações que nascem e morrem poucos dias depois [...]”. E no caso das “inciativas do governo”, verificavam-se os “mesmos fracassos” (idem). Assim acontecera, ainda no governo Luiz Domingues (1910-1914), com abertura do “canal do Gerijó”, o qual, caso tivesse sido concluído, “facilitaria as relações comerciaes desta cidade com a baixada”. Ainda que o governo federal tivesse ajudado e que “machinas e mais machinas” chegassem e fossem “transportadas para o local”, o canal “não se
145 abriu!”. “As machinas, de elevado preço e superior qualidade ficaram expostas ao tempo e não tardou muito que a lama tomasse conta dellas” (Notícias, 11/05/1933, p.1).
O mesmo acontecera com dois vapores adquiridos na gestão Luiz Domingues com o objetivo de incrementar “a expansão comercial do Maranhão” e que estavam “apodrecendo, mansa e pacificamente nas aguas lôdacentas do porto”. Com este último, sucedia-se da mesma forma: “comissão de estudos”, “sondagens”, “levantamentos hydrographicos, estudos de correntes marítimas e aéreas, estudos geológicos” e no entanto, o porto não passava de “um grande sonho, um magnifico pensamento”. E a lista prossegue: “hospital para tuberculosos”, “Avenida Beira-Mar”, “a estrada do Caminho Grande”, “Mercado”, “Leprosario”. “Mas poderíamos citar todos os fracassos das iniciativas do governo no Maranhão? Impossível! [...] vamos apenas lembrando os que avultam mais” (idem).
O fecho do editorial obedece ao padrão discursivo encontrado nas produções que versam sobre a temática dos problemas ou “males” que afetariam o “desenvolvimento material” do Maranhão, produções essas recorrentes na imprensa do período aqui considerado: “Os maranhenses que se interessam pelo Maranhão devem observar esses factos e procurar saber as suas causas determinantes”. Após identificar-se o(s) mal (es), o procedimento seguinte é apontar senão a(s) solução(ções), pelo menos as prováveis “causas determinantes”, o que muitas vezes funciona como indicador de possíveis medidas a serem tomadas para combater aquele(s) mal (es), como no caso em tela: “Será falta de boa orientação administrativa? Será falta de civismo? Será que interesses maiores que esse de prestar bons serviços ao Maranhão se levantem mais fortes, mais soberbos, eloquentes?” (Notícias, 11/05/1933, p.1).
A inflexão no discurso de Notícias e mais especificamente no do próprio Astolfo Serra fica mais acentuada e visível quando analisamos a evolução/variação de sua relação com os outros agentes desse espaço de posições.
É o caso de Lino Machado, uma das principais figuras do chamado “marcelinismo”. Se mesmo antes, durante e imediatamente após as eleições de maio, o posicionamento de Serra frente a todos os concorrentes era de indiferença, preferindo focar em suas próprias qualidades de “intelectual”, “revolucionário”, “espirito preparado pelas lutas” e devotado às causas populares, etc. a partir de julho de 1933 percebem-se tomadas de posição francamente contrárias ao que denomina a “política de
146 campanários e igrejinhas” que predominaria no Maranhão. Este tipo de “política” seria dominado pelos “interesses subalternos”, pelos “interesses de clan”, seria, portanto, o “avesso da política”, perdida esta no “labyrintho sombrio” das “transações” e da “arte de especular”. Ele faz uso de uma comparação entre o universo religioso e a “política”. Vejamos a tessitura de uma de suas “crônicas”:
Chronica do dia
A crença illuminou o homem, deu-lhe azas poderosas, despertou-lhe o sentimento de religiosidade.
A fé operou milagres, criou, no mundo, uma nova força quasi divina: a de elevar do nada para à imortalidade, a criatura vil e transitoria.
Os templos nasceram do mysterio da crença. [...]
Mas houve tempos em que a crença perseguida desceu para os subterraneos, abysmou-se nos labyrinthos das catacumbas [...]
Ocultou-se para vencer.
Depois, surgiram os templos e as igrejas como monumentos de arte, pesados de séculos [...]
Dominaram o mundo, e multiplicaram-se por todos os recantos da terra... A politica imitou a crença, mas ao envez de templos e egrejas levantou para