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et socio-culture

5.1 L'évolutionnisme de Herbert Spencer

Dialogando com alguns trabalhos voltados para a relação entre jornalismo, política e intelectuais, e considerando o material empírico aqui analisado, torna-se possível estabelecer, como hipótese de trabalho, o lugar da imprensa no Maranhão dos anos 1930. A leitura do quadro político a partir da atuação dos jornais maranhenses permite concluir que se tratavam de veículos diretamente vinculados ou mesmo pertencentes aos políticos ou famílias de políticos que disputavam o domínio naquela estrutura de poder.

No decorrer dos anos 1920, e mesmo durante a década de 1930, a disputa entre as lideranças políticas personalísticas, em geral oriundas de famílias de políticos (como vimos na seção anterior), expressar-se-ia por meio dos seus órgãos de imprensa, oficiais ou não. Os jornais Pacotilha e Tribuna, são classificados (CALDEIRA, 1981, p. 33; REIS, 2007, p.115) como “porta-voz[es] do magalhãesismo”. Assim ocorre, para citar um exemplo, durante a crise do governo de Achiles Lisboa (1935-1936), que era sustentado pelos “marcelinistas”. Sugerindo medidas para resolver tal impasse o jornal Tribuna, “magalhãesista”, defendia abertamente a intervenção federal:

Não se compreende que possa haver uma situação mais caracterizada de anarquia na vida administrativa do Estado, que, neste caso, se encontra fora dos preceitos fundamentais do regime político republicano. Impõe-se a intervenção federal (apud REIS, 2007, p.115).

54 O processo de profissionalização e modernização do jornalismo brasileiro pode ser situado, segundo Ribeiro (2003), numa espécie de gradiente de transformação que remonta ao fim do século XIX, quando, por volta da década de 1880, começa a cessar ou desaparecer aqueles jornais “fundados e dirigidos por pessoas que desempenhavam funções públicas”, tais como, “escritores, padres, ex-militares, médicos, políticos e revolucionários” (RIBEIRO, 2003, p. 156).

Relativizando um pouco esse panorama, verifica-se que a configuração periférica do Maranhão redundou numa persistência das características apontadas pela autora, cuja tendência foi o seu paulatino desaparecimento no centro do país desde o final do século XIX. Podemos afirmar isso tendo em vista a considerável presença de jornais fundados no Maranhão, durante as três primeiras décadas do século XX, por agentes com aquele perfil apontado por Ribeiro (idem) como em desparecimento desde o fim do século XIX. Abaixo um quadro com alguns exemplos desse perfil de proprietários e fundadores de jornais diários nas década de 1920 e 1930.

Quadro nº 01 – Fundadores de jornais

Nome Ocupação Jornal Ano/

Circulação

Genésio Rego Médico O Dia 1924-26

Marcelino Machado Médico O Combate 1925-1965

Tarquínio Lopes Filho

Médico Folha do Povo 1923-1934

Magalhães de Almeida Oficial da Marinha Tribuna 1929-1934

Pacotilha 1934-1935

Astolfo Serra Padre Notícias 1932-1934

Reis Perdigão Bacharel em Direito Diário da Tarde 1931-1933

Todos os fundadores de jornais que constam no quadro acima eram políticos em atividade quando criaram esses órgãos de imprensa. Deve-se destacar a presença de médicos entre eles. Cabendo ainda observar que, diferente de Marcelino Machado, que a partir dos 1920 deixa de exercer a profissão médica por conta de sua entrada na política, tanto Tarquínio Filho, quanto Genésio Rego, no mesmo período e até meados da década de 1930, atuavam simultaneamente como médicos, jornalistas e políticos. Os dois exerceram cargos de diretores ou chefes de redação de algum jornal, ao mesmo tempo em que ocupavam postos nos diretórios partidários de suas respectivas facções. Folha do Povo (1923-1934), foi fundada e dirigida por Tarquínio Lopes Filho; O Dia

55 (1924-1927), órgão do PR “situacionista”, tinha como redator-chefe Genésio Rego27; O Combate (1925-3728), fundado e dirigido durante esse período, por Marcelino Machado e Lino Machado, irmãos que comandaram sucessivamente o chamado PR “marcelinista”; Tribuna (1929- 1936), foi adquirido pelo militar e político Magalhães de Almeida; Diário da Tarde (1931-1933), fundado e dirigido pelo jornalista e revolucionário de 1930 Reis Perdigão; Notícias (1932-34), fundado e dirigido pelo padre Astolfo Serra, interventor do Maranhão em 1931.

Desse modo, acreditamos poder demonstrar como válidas para a configuração histórica do Maranhão da primeira metade do século XX as contribuições de Petrarca (2007) acerca do espaço jornalístico no Brasil das primeiras décadas deste século:

Durante toda República Velha o jornal tornava-se um grande espaço que congregava pessoas vindas de diversos meios, sobretudo, uma elite política e um grupo cultural em ascensão. Além disso, por meio da imprensa, era possível conhecer pessoas e até conseguir uma posição de destaque no espaço político e cultural. Por meio dela consagrava-se obras literárias e conquistava-se um espaço na política, uma vez que, dentro dos jornais, havia grande circulação de homens políticos atuando como diretores, fundadores e redatores. (PETRARCA, 2007, p.70).

Se tomarmos os jornais analisados neste trabalho, e, principalmente, os agentes que atuaram nos mesmos, desde os fundadores, passando pelos diretores e chefes de redação, editorialistas, chegando até os denominados articulistas, cronistas ou “jornalistas”, é possível demonstrar essa ausência de barreiras formais ou de critérios próprios ao espaço jornalístico que de alguma forma controlassem o acesso àquela atividade. Trata-se de uma situação que poderíamos chamar de baixa institucionalização onde as fronteiras jurídicas ainda não foram erguidas e, portanto, não passou por nenhum tipo de regulamentação que viria definir os critérios legítimos para atuação profissional29. O ofício de jornalista era visto como atividade-meio (um “bico”), sendo baixíssimos os níveis de profissionalização. Desse modo, os jornalistas viam o exercício da atividade como subemprego, conforme ilustrado pela frase atribuída a Gustavo de Lacerda, um dos jornalistas que atuaram no sentido da organização profissional e

27 Sobre a atuação dos profissionais da medicina na política regional do Maranhão ver NUNES, 2000. 28 O Combate teve três fases: 1925-37; 1945-1959 e a última em 1965.

29 Através do decreto-lei nº 910 de 1937 ocorreu a primeira regulamentação da profissão, todavia, tratou- se mais de uma forma de controle por parte do Estado-Novo sobre aquela atividade na medida em que passava a ser obrigatório o registro junto ao Ministério do Trabalho dos “homens de imprensa”. Os sindicatos profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro solicitaram que fosse incluído no decreto a exigência de formação universitária, o que não aconteceu. Para detalhes sobre o processo histórico de regulamentação e institucionalização da profissão de jornalista no Brasil ver PETRARCA, 2007. (especialmente capítulo III).

56 classista dessa atividade: “O jornalismo entre nós não é uma profissão: ou é eito ou é escada para galgar posições” (apud SODRÉ, 1977, p. 352).

Se investigarmos os perfis sociais dos agentes que atuavam na imprensa maranhense no início dos anos 1930, poderemos ter uma ideia, então, da sua posição no quadro sócio-histórico em questão, e poderemos entender como viam o exercício dessa atividade naquele contexto.

Os principais diários em circulação neste momento estavam estruturados, em grande medida, pelas mesmas lógicas presentes nos domínios políticos, ou seja, pautadas pelas relações pessoais e passionais do jogo faccional. Escrever em um determinado veículo significava aderir a um dos lados da disputa política geralmente caracterizada pelo dualismo “amigo-inimigo”. Como diz Gérard Lenclud (1987), acerca da Córsega, trata-se de uma situação onde a neutralidade é inconcebível, tão bem traduzida pela fórmula “quem não está comigo, está contra mim”.

Um outro aspecto importante que deve ser destacado diz respeito ao papel da imprensa enquanto principal agência de consagração intelectual e/ou literária, posto que não se verificava a existência de espaço de edição relativamente autônomo que permitisse a publicação de autores sem passar pelas páginas da imprensa, seja como colaborador, publicando seus trabalhos literários (poesias, contos, crônicas, etc), ou mesmo nas “lides da imprensa”, militando em prol dos interesses políticos da facção a qual estava vinculado um determinado jornal. Daí apresentar-se a atividade jornalística muito mais como uma atividade intelectual do que como uma atividade profissional, sendo exercida por agentes com ocupações diversas, tais como, advogados, médicos, militares, clérigos, magistrados, políticos etc.

O que se busca apreender é justamente esta multiposicionalidade, bem como as bases da autoridade mobilizadas pelos agentes que escrevem na imprensa. O que efetivamente lhes permite interpretar o jogo político (produzindo representações), e mais do que isso, proceder a uma leitura sobre a “realidade maranhense”, identificando “problemas” ou “males” que impediriam o desenvolvimento do estado e para os quais não deixam de apontar as soluções julgadas adequadas.

Na configuração aqui em pauta é muito saliente as interpenetrações e osmoses entre os domínios da política e da intelectualidade, através principalmente da atividade

57 jornalística, que funciona como um meio para o exercício da atividade intelectual (literária) ou do alinhamento no jogo faccional.

A análise deste capítulo se deterá, tomando como base empírica a conjuntura histórica dos anos 1930, especialmente sobre os seguintes jornais: O Imparcial, O Combate, Folha do Povo e Pacotilha, escolhidos porque, em seu conjunto, permitem abarcar o período 1932-1935, mas também porque possibilitam apreender, em diferentes composições e alinhamentos, as principais facções políticas em atuação naquele período. Com efeito, estes jornais representavam, respectivamente, os interesses políticos das facções “genesista”, “marcelinista”, “tarquinista” e “magalhãesista”. A facção genesista, que controlava o jornal O Imparcial, estava organizada em torno da liderança de Genésio Rego e se reunia, desde as eleições de maio de 1933, sob a sigla da União Republicana Maranhense (URM). A facção marcelinista era liderada por Marcelino Machado, médico e proprietário d’O Combate, um importante instrumento na consolidação desta facção como a principal oposição ao situacionismo magalhãesista, atuando principalmente na cidade de São Luís. Os “marcelinistas” estavam reunidos no Partido Republicano (PR). O jornal dos “tarquinistas” era a Folha do Povo, fundada em 1923, com o propósito de expressar as ideias daqueles militantes políticos então reunidos sob a legenda do PRM. Nas palavras de um deles, pulicada em 1924 na Folha do Povo, ficava claro o sentido instrumental da imprensa nas lutas políticas por eles travadas: “Eu não compreendo partido sem jornal. O jornal, no partido, faz o papel da bandeira, no batalhão” (Dioclides Mourão apud SALGADO FILHO, 2015, p. 245).

Os “magalhãesistas”, por sua vez, que tinham como grande liderança Magalhães de Almeida, e partir das eleições de 1934 estão organizados sob a sigla do Partido Social Democrático do Maranhão (PSDM). O jornal Pacotilha voltou a circular em agosto de 1934, como órgão do PSDM. Ademais, os referidos veículos impressos eram aqueles de maior tiragem e circulação da capital, sendo o título de jornal de maior circulação reivindicado, ao mesmo tempo, por O Imparcial e O Combate.

Além desses veículos, ligados às facções que se constituíram ainda na década de 1920, incluímos também Notícias e Diário da Tarde, que foram fundados e dirigidos por dois agentes que ingressaram na arena política no pós-30, Astolfo Serra e Reis Perdigão. Tratam-se de agentes que se destacaram enquanto produtores de discursos e representações sobre o jogo político maranhense, particularmente marcados pelas suas experiências nas interventorias que se seguiram à tomada do poder em outubro de 1930.

58 Desse modo, podemos considerar os jornais ludovicenses como órgãos oficiais, ou paraoficiais, de divulgação dos ideais das principais facções políticas em atuação naquele momento. Os jornais, portanto, defendiam abertamente as posições dos “grupos políticos oligárquicos” aos quais estavam atrelados. Tal vinculação entre veículos de imprensa e facções políticas proporcionava, de certo modo, a produção de representações (a exemplo das etiquetas políticas em “ismo”) que tendiam a ser reproduzidas nos embates faccionais, visto atingirem diretamente a identificação dos adversários a partir da adjetivação dos nomes próprios daquelas lideranças: “magalhãesismo”, “godomagalhãesismo”, “marcelinismo”, “tarquinismo” e “genesismo”.