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Chapitre III. Cadre conceptuel

4.3 La stratégie de recherche

4.3.4 Le traitement et l’analyse des données

A noção de epifania ganhou terreno em outros campos, no sentido de que ela pudesse ser entendida como um momento também de manifestação, mas da consciência, algo que pudesse ser revelado ao ser humano por meio da arte ou de algo trivial e corriqueiro e que pudesse, talvez, conduzi-lo a uma mudança de comportamento. Esse algo trivial poderia ser qualquer objeto ou acontecimento diário que inspirasse, por qualquer razão que fosse, uma sensação expurgatória no em quem aprecia.

A pragmaticidade de um objeto, ou seja, aquilo que o faz prosaico e cotidiano, não necessariamente diminui seu potencial estético, podendo ser visto como algo belo e que cause

uma epifania. Da mesma forma, um objeto artístico, feito para ser apreciado como tal, também pode passar despercebido, a depender da percepção. Entre aquilo que melhor poderia proporcionar um momento epifânico, encontra-se a obra de arte, por seu caráter sensível e diferenciado do cotidiano. Por ter sido concebido como arte, a possibilidade de apresentar beleza artística e gerar um momento de revelação é bem maior.

Em ―Arte como procedimento‖, artigo de 1917, Chklóvski apresenta essa sensação como a possibilidade de ser gerada por qualquer objeto do cotidiano, ainda que ele não tenha sido concebido para esse fim.

Sabemos que se reconhecem frequentemente como fatos poéticos, criados para fins de contemplação estética, as expressões que foram criadas sem que se tenha esperado semelhante percepção [...]. o objeto pode ser: 1) criado como prosaico e percebido como poético; 2) criado como poético e percebido como prosaico. Isso indica que o caráter estético de um objeto, o direito de relacioná-lo com a poesia, é o resultado de nossa maneira de perceber. (CHKLÓVSKI, 1978, p. 41)

Em outras palavras, pode-se entender essa explicação no sentido de que tudo pode gerar um momento contemplativo e reflexivo, a depender de quem vê o objeto ou a situação. Não é necessário que algo tenha sido criado para ser arte para que seja visto assim; da mesma forma, aquilo que não foi criado para ser arte pode ser enxergado como possuidor de estética. Esse ―objeto estético‖ de Chklóvski é explicado por ele como ―os objetos criados através de procedimentos particulares, cujo objetivo é assegurar para estes objetos uma percepção estética‖ (CHKLÓVSKI, 1978, p.41).

No romance Retrato do artista quando jovem, de James Joyce, de 1916, a estória narra, com bastante lirismo e a partir de uma reflexão sobre a epifania, as impressões da personagem Stephen Dedalus. De acordo com o que o conhecimento anterior o permite chamar de

as fases necessárias da apreensão artística. Descobre-as e terás descoberto as

qualidades da beleza universal. São Tomás de Aquino diz: ―Ad

pulcridudinem tria requiruntur integritas, consonantia, claritas‖. Eu traduzo

isso assim: ―Três coisas são necessárias para a beleza: inteireza, harmonia e radiação‖. [...] Uma imagem estética se nos apresenta no espaço ou no

tempo. O que é audível apresenta-se no tempo, o que é visível apresenta-se no espaço. Mas, tanto temporal como espacial, a imagem estética é em primeiro lugar luminosamente apreendida como autolimitada e autocontida sobre o incomensurável segundo plano do espaço ou do tempo, que não o são. (JOYCE, 1998, p. 224)

Obviamente, para se entender essas fases da apreensão artística, é necessário delimitar o conceito de arte para Joyce que, de acordo com Stephen, é ―a disposição humana de matéria sensível ou inteligível para um fim estético.‖. É possível fazer uma relação entre essa definição e a que foi dada por Chklóvski para os objetos estéticos.

À ―matéria sensível‖ acrescenta-se ―um fim estético‖, ou seja, com Chklóvski (1978, p. 45), pode-se complementar essa visão dizendo que ―o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos, e o procedimento consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção‖. O olhar sobre o objeto vai além da superfície e encontra, em sua profundidade, uma significação que não pode ser vislumbrada apenas pela mera observação. Existe, entretanto, uma ―disposição humana‖, isto é, deve haver uma inclinação por parte do homem que observa um objeto de arte a encontrar neste um significado além do pragmático. ―A arte é um meio de experimentar o devir do objeto‖ (CHKLÓVSKI, 1978, p.45).

Joyce, por meio de Stephen, acrescenta ainda o que diz São Tomás de Aquino: ―o belo é a apreensão do que agrada‖. (JOYCE, 1998, p. 219). Encontrar a beleza no objeto de arte não é simplesmente repetir conceitos previamente estabelecidos por outras pessoas que já viram o objeto ou mesmo as impressões e intenções do autor da obra; mas, sim, apreender do objeto algo que agrade a quem o aprecia. Em seguida, a personagem joyceana, busca definir, por meio de explicações, sua visão a respeito das três partes que constituem o conceito de beleza exposto por São Tomás de Aquino: integritas, consonantia e claritas. Ele afirma que integritas é o instante de delimitação em volta do objeto, o que o distingue como uma coisa vista e apreendida como um todo. Consonantia seria a análise da apreensão, ―complexa, múltipla, divisível, separável, inteirada pelas suas partes, o resultado de suas partes e a soma harmoniosa.‖ (JOYCE, 1998, p. 224-225). Após um momento de hesitação, ele encerra a explicação desdobrando o conceito de claritas como ―a descoberta e a representação artística da intenção divina nalguma coisa, ou a força da generalização que faria da imagem estética uma imagem universal, que a faria irradiar as suas próprias condições.‖ (JOYCE, 1998, p. 225).

Pode-se resumir essa explicação de Joyce da seguinte maneira: o objeto artístico, belo por natureza, é algo apreensível, destacável e irradiante, como se fosse algo que possa ser distinto dos demais, perceptível como tal, mas que não possa ser contido em uma explicação tangível. A partir do momento em que o apreciador desse objeto é impactado

involuntariamente, ele percebe que sua vida não precisa ser a mesma, e ocorre a epifania. Válido destacar que o divino, embora não esteja mais nessa acepção, ainda aparece na explicação, como resquício da concepção original do termo e como melhor explicação para o fenômeno. Cabe inserir uma explicação de Chklóvski (1978, p. 45).

O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos, é o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o

devir do objeto, o que já é ―passado‖ não importa para a arte.

A ―singularização dos objetos‖ a que se refere Chklóvski pode ser entendida como a tentativa de compreender a obra de arte e não conseguir, mas não se contentar com isso. É natural do ser humano tentar atribuir definição para o que o cerca, numa tentativa constante de pragmatizar o máximo possível cada um dos objetos e pensamentos pelos quais cruza a todo instante. Com a obra de arte, isso se dá de maneira diferenciada, pois, ainda que se encontre um objetivo para o objeto artístico, este não é o motivo para o qual ele foi criado, ou seja, ela não precisa ser reconhecida como algo usualmente dito como útil, mas, sim, como algo a ser apreciado, desenvolvido sobre uma sensação.

Para melhor explicar a singularização, Chklóvski utiliza o escritor russo Tolstói como exemplo. O teórico afirma que o prosador ―não chama o objeto pelo seu nome, mas o descreve como se o visse pela primeira vez e trata cada instante como se acontecesse pela primeira vez‖ (CHKLÓVSKI, 1978, p. 46). Essa maneira tolstoiana de perceber e retratar o mundo não só singulariza os objetos, mas dá a eles um caráter muito além do prosaico, pois os transforma em objetos estéticos que podem ser (foram, são e serão) apreciados por leitores. A arte (literária, no caso de Tolstói) singulariza o mundo, transformando-o em objeto estético a ser apreciado.

O desafio de apenas perceber a obra de arte e contentar-se com isso, sem necessariamente conseguir ou mesmo tentar explicá-la, extraindo dela beleza e significado particular, já deve se transfigurar como algo suficiente para o apreciador que intenta absorver sua beleza. Assim, a própria percepção da obra de arte pode ser comparada ao fazer artístico, pois, tal como este, não é feita por qualquer pessoa, requer tempo, um tanto de conhecimento técnico e sensibilidade. Esse choque de realidade pode transformar o apreciador, a partir do momento em que ele percebe o todo significativo que só fará sentido para quem está

diretamente envolvido no processo, ou seja, aquele que aprecia pode perceber do objeto um valor estético ou artístico que outra pessoa não necessariamente percebe.

Levada ao mais alto grau de percepção, a epifania por meio da arte pode chegar a se transformar na Síndrome de Stendhal, nome cunhado em 1979 pela psiquiatra italiana Graziella Magherini, e que consiste em um estado físico e mental experimentado por uma pessoa que se expôs durante muito tempo ao objeto de arte, a ponto de sentir náusea, tontura, desmaio e desconforto cerebral. O nome da síndrome veio do pseudônimo do romancista francês Henri Beyle, autor de romances como A cartuxa de Pa rma e O vermelho e o negro, que, em 1817 apresentou os sintomas em Florença e o descreveu em seu livro Nápoles e Florença: uma viagem de Milão a Reggio.

Obviamente, não é necessário que todas as pessoas e/ou personagens que experimentem uma epifania passem por essas sensações, mas é interessante saber que esse fenômeno existe e pode ser experienciado apenas pela contemplação da arte, seja por qual método for.