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DEUXIEME CHAPITRE

3. La variation linguistique dans la perspective interactionnelle

No tocante aos riscos organizacionais, entendidos como os riscos provenientes da organização do trabalho, é possível perceber que tais condições ocorrem em virtude de condições estruturais (do organograma da estrutura e da estrutura física) peculiares e que fogem ao controle do profissional que atua no âmbito hospitalar.

Segundo o discurso dos médicos residentes acerca dos riscos encontrados no dia a dia de suas atividades, o principal seria a precariedade da estrutura física e organizacional do hospital: “questão estrutural mesmo do hospital, que a gente tem dificuldade com

relação à estrutura do hospital, em relação a exames” (P7, Clínica Médica).

Pela reconhecida referência do hospital, no cenário local em que se encontra, sendo de domínio público a assistência que presta a pacientes advindos de cidades circunvizinhas, com isso, as implicações que essa demanda causa, como a falta de leitos disponíveis e suficientes para todos que procuram, tudo isso faz com que, muitas vezes, o

profissional de plantão tenha que escolher entre internar o paciente mais grave ou aquele que tem mais chances de receber um diagnóstico e recuperar-se da patologia.

Dilema expresso como uma inquietação de um sujeito da pesquisa, que revela em seu discurso o prejuízo, por ser fonte de angústia decidir esse dilema, bem como enfrentar o risco que tal situação acarreta para o desempenho de seu exercício profissional, fruto da falta de estrutura física, organograma estrutural e suporte de leitos.

Diante dessa precariedade estrutural, é comum encontrar uma falta generalizada, desde reagentes básicos, medicações até a falta de exames e necessidade de recorrer a serviços externos ao hospital universitário:

Tem muitas limitações nos exames que o hospital não faz (...) exames mais específicos que a gente tem dificuldade aqui, e isso limita muito por conta disso, os pacientes ficam mais tempo internados. E às vezes é uma coisa que você poderia resolver mais rápido. (P8, Clinica Médica)

Em razão dessa situação, cabe ao médico residente a postura de, literalmente, resolver por conta própria e, nesse momento, ele se depara com um entrave, como pode ser observado a seguir:

A gente corre atrás, faz pedido de compra, vai na direção, tenta falar, mas é muito frustrante, agora é muito complicado porque não tem, a gente não tem, aí esbarra na gente como estudante e não como profissional. Eu chego na direção falo que o paciente está precisando desse exame, e eles não tão nem aí, tem que esperar o protocolo deles, pedir, até passar de uma direção pra outra, e isso é muito frustrante. (P2, Clinica Médica)

Tais condições dificultam a prática desse profissional em formação, que, em alguns casos, ainda sofre discriminação devido à sua condição de aperfeiçoamento e certo desmerecimento em suas condutas, apesar de já serem habilitados a exercer a medicina. Atrelado a isso, em determinados casos, agrega-se um ônus adicional à rotina laboral, um acúmulo de funções, em virtude da necessidade de destinar um período de seu turno na busca por informações relativas à autorização, e resultados, como revela o fragmento: “parte do meu dia é consumido indo atrás, e sempre tem um exame que tá faltando” (P2, Clínica Médica).

Existe ainda a responsabilização dos médicos residentes por falhas da própria organização, que, por problemas de escala, acabam ficando sem preceptoria à frente de um serviço em que a imprevisibilidade é rotineira, o que implica num atendimento sem as condições adequadas, onde o médico residente, ainda durante o seu processo de treinamento em serviço, é impelido a agir sozinho pelas circunstâncias do próprio serviço. Em razão dessa peculiaridade, acabam tendo que recorrer à Medicina Defensiva que, segundo Agosto, Peixoto e Bordin (1998), trata-se de um estilo de prática médica em que o profissional, antes de mais nada, adota preocupações para evitar processos por erro ou por outras causas. A fala a seguir ilustra claramente tal posicionamento:

(...) qualquer coisa pode acontecer com o paciente, e acontecendo, a responsabilidade é minha (...) é o meu nome que está em jogo. (...) Aí tudo eu deixo por escrito, tudo o que eu faço coloco por escrito no prontuário, eu sempre deixo tudo escrito pra se acontecer alguma coisa ficar respaldada. (P1, Clinica

Paralelo a esse panorama delineado, mas não contrastante, existe ainda uma discussão pertinente no que concerne à jornada horária, na maioria das vezes, sem horário para o seu término, o que acarreta implicações para a vida social e hábitos alimentares, conforme pertinência declarada a seguir:

Meio corrido o dia, às vezes não dá tempo nem de se alimentar direito, às vezes não dá tempo nem de comer. (P14, Anestesiologia)

Nem almocei hoje, nem tomei café da manhã. Minha primeira refeição é isso

[sanduíche com refrigerante]. (P27, Psiquiatria)

Por questão da carga horária, porque assim, como é uma pós-graduação, não é só o contato com o paciente, tem toda a parte teórica, seminário, caso clínico pra apresentar, tem discussão. Então você abdica sono, já vem trabalhar cansado.

(P8, Clínica Médica)

É possível perceber que a conjuntura desses fatores pode contribuir para a geração de outros tipos de riscos para a saúde e integridade física dos médicos residentes, visto que a irregularidade horária implica falta de tempo para as refeições, ou, por outro lado, uso e abuso de lanches rápidos motivados pelas rotinas extensas e com curto período destinado às refeições. No tocante à demanda de atividades práticas e teóricas exigidas na RM, outro aspecto da saúde preterido acaba sendo o descanso noturno, abdicado em razão da necessidade de estudos para a sedimentação do arcabouço teórico imprescindível.

Falta de rotina com relação a horários, a gente não tem hora pra nada bem dizer, só tem hora pra chegar, não tem hora pra sair, não tem hora pra almoçar, então isso provoca um certo estresse, uma perda da qualidade de vida, isso é importante. (P13, Cirurgia)

(...) Comumente perdemos horário de almoço, como hoje, e costumamos sair daqui geralmente entre 17:00h, 18:00h. (P12, Cirurgia)

Destaca-se ainda a burocracia do serviço, quando na necessidade de solicitação de exames, que, por razões distintas, não estão sendo realizados no hospital, e precisam ser realizados por outras instituições. Situação essa que, segundo os participantes, ocorre com relativa frequência, sendo necessário deles “jogo de cintura pra você poder tentar ajudar

os pacientes”, apesar de toda a burocracia e da premência de fazer algo externo devido às

reiteradas faltas de insumos básicos. Esse jogo de cintura mencionado reflete-se, ainda, no estabelecimento e apoio da rede de contatos, a quem se recorre nessas eventualidades na tentativa de resolver o impasse e ajudar os pacientes.

O trabalho em um hospital público brasileiro, segundo Alves e Osório (2005), envolve também decisões relativas às condições inadequadas de trabalho (falta de funcionários, de material, de recursos, instalações precárias etc.) que interferem na organização do mesmo. Tais autores acreditam que esses fatores, obrigatoriamente, têm que estar presentes durante uma análise qualitativa, pois, do contrário, tornam a análise incompleta e não autêntica em relação à realidade.