Como frisamos, analisaremos os dados referentes à renda familiar, à cor e à pertença religiosa da população local e, para tanto, nos valeremos dos dados colhidos por Ueliton Santos em sua pesquisa de mestrado, defendida em 2011. Acreditamos que o autor traz um retrato fidedigno da realidade local, apoiado num denso questionário (quatrocentos) aplicado em diferentes pontos do bairro, o que confere legitimidade ao citado trabalho. Também nos apoiaremos nos dados de Ramos, em sua tese diversas vezes citada nesta dissertação, na qual a autora se vale dos resultados do censo de 2010.
Inicialmente, podemos destacar que, dentre os trabalhadores, 87,7% destes agentes têm suas atividades fora do bairro (SANTOS[b], 2011, p.65), mesmo com o certo desenvolvimento comercial do lugar, notadamente no que concerne aos mercados e mercadinhos, contando ainda com outros serviços: farmácia, mercearias etc. A necessidade de “migrar” para poder trabalhar é, em geral, uma característica dos bairros periféricos; estes não possuem postos de trabalho para atender a demanda local e isso faz com que seus moradores procurem oportunidades de emprego em outros locais.
Com relação à renda da população, segundo os dados do Censo 2010, cujos valores referem-se ao valor do rendimento nominal médio mensal das pessoas ativas (pessoas de 10 anos ou mais de idade com rendimento), 89% possuem renda média mensal de 1,7 salários mínimos, o que configura um bairro considerado de baixa renda. Vale a ressalva de que boa parte dos limites do bairro está situada na poligonal da Zona Especial de Interesse Social (ZEIS 13 – Engenho Velho da Federação); excetuam-se os terrenos da primeira quadra da Rua Henriqueta Martins Catarino, os terrenos lindeiros à Av. Vasco da Gama e o Conjunto Parque Santa Madalena, nos adverte Estela Ramos (2013, p.130), como atesta seu mapa (figura 5), sendo a área rosada a correspondente aos limites da referida ZEIS. A autora acrescenta que a área em destaque na cor laranja é a APCP-003 - Área de Proteção Cultural e Paisagística - que abrange as áreas do Terreiro da Casa Branca, do Terreiro Patiti Obá e do Terreiro do Bogum (p.131).
63 Figura 7: Porção da ZEIS Nº 13 e Abrangência no Engenho Velho da Federação (PDDU/2008 Salvador) Fonte: Base do Mapa - LOUOS/1984
Fonte: Estela Ramos, 2013.
Finalizando a análise sobre a renda local, a parcela referente aos 11% restantes tem renda média mensal igual a três salários mínimos. Esse percentual populacional ocupa as imediações entre a Avenida Cardeal da Silva e a Rua Henriqueta Catarino junto ao Parque São Gonçalo, e ainda a área do Parque Santa Madalena (RAMOS, 2013, p.161). Segundo Ueliton Santos, a modesta classe de renda média também reside na Rua Apolinário Santana (rua principal do Engenho Velho), tendo seus imóveis nas dorsais e cumeadas dotadas de melhor infraestrutura, enquanto as baixadas e descidas das encostas abrigam as famílias de menor poder aquisitivo (SANTOS[b], 2011, p.67), algo fácil de notar ao olharmos a paisagem do bairro.
64 Figura 8: Residências localizadas na Rua Apolinário Santana
Autor: Caê Carvalho, 2016.
Figura 9: Residências localizadas nas baixadas
Autor: Caê Carvalho, 2016.
No tocante à religião, analisemos a disposição da tabela abaixo com os percentuais de adeptos no Engenho Velho da Federação.
65 Tabela 2 - Percentual de participações nas religiões dos moradores do Engenho Velho da Federação em 2010. Religião Porcentagem Católica 62,5 Evangélica 16,3 Candomblé 5,6 Espírita 2,6 Outros 4,8 Sem religião 8,2
Fonte: Uelinton Santos.
Vemos que a ampla maioria da população se declara católica, enquanto os evangélicos ocupam o segundo lugar (quase quatro vezes menor em comparação com os católicos) e, em terceiro, os candomblecistas (estes, por sua vez, se apresentam em número quase três vezes menor frente aos evangélicos).
Como salientam Estela Ramos (2013) e Alberto Santos (2011), o número de adeptos do Candomblé tende a ser maior do que os dados trazidos por Ueliton Santos, uma vez que a histórica – e ainda presente – perseguição às religiões de matriz africana pode inibir alguns dos indivíduos a afirmar sua verdadeira religiosidade, declarando-se, possivelmente, como católico.
Ainda podemos trazer mais uma característica da religiosidade do Engenho Velho se compararmos os dados já citados com aqueles dos censos, seja de 2000 ou 2010, nos quais os adeptos do Candomblé e da Umbanda somam, juntos, 0,34% e 0,3% da população brasileira, respectivamente (remeto-me aos anos do censo), com relação às demais religiões. Em comparação aos dados referentes à capital baiana, os números, apesar de serem maiores em relação ao quadro nacional, ainda permanecem baixos e apenas 1,05% dos soteropolitanos se declararam pertencentes às religiões de matriz africana.
Os dados da pesquisa de Ueliton Santos, por sua vez, em comparação aos números do parágrafo acima, revelam o quão forte o Candomblé é, ou tende a ser, nas periferias das grandes cidades. Esse é o caso do Engenho Velho da Federação e, certamente, de outros bairros de Salvador. Essa força do Candomblé, materializada nos terreiros, aliada ao próprio processo histórico da formação do bairro e a sua vinculação com as religiões negras, terminam por constituir uma identidade ao Engenho Velho, reconhecida por ambos os grupos estudados, em maior ou menor grau.
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É certo que o Candomblé resguarda os valores e a identidade da cultura negra, entretanto, segundo Santos ([b] 2011, p.83), não há, em termos proporcionais, uma maior parcela de negros que pertençam ao Candomblé, não há esse paralelismo. Em nossa pesquisa, por questões metodológicas, não perguntamos a cor dos nossos entrevistados, pois na tentativa de aproximação dos evangélicos, pessoas de uma mesma família foram entrevistadas, o que, numa abordagem qualitativa com número nem tão amplo de entrevistas, causaria distorções graves no presente quesito. Na Universal havia uma pluralidade de cores: brancos, pardos e negros. De acordo com os dados do censo de 2000, porém, os últimos, de maneira geral, conformam o grupo majoritário (MARIANO, 2004, p.121-2). Já no Terreiro do Cobre, até pelos entrevistados serem de uma única família negra (à exceção de um entrevistado, “parente” não-consanguíneo), é mais que lógico supor que todos se afirmariam enquanto negros.
Apresentamos num quadro geral as características concernentes à situação financeira, sua opção religiosa e a cor. Passamos agora a uma caracterização do cotidiano do bairro, tema para a nossa próxima seção.