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Em Arendt, a tradição é constituída pelos postulados do passado que ajudam os homens do presente nos momentos de decisões, de crises, de dificuldades e de mudanças. Os alicerces da tradição são corroídos pela Modernidade, com o novo lugar da ciência e da tecnologia na vida da sociedade. Assim, esse fio que ligava o passado ao futuro, esses elementos, que permitiam aos homens mudar o mundo ao mesmo tempo em que o conservavam, foram rompidos pela ciência Moderna através do imperativo da dúvida cartesiana, que põe em cheque toda forma de autoridade, de hierarquia e de herança do passado sobre o presente.

É necessário pensar a que tradição a medicina se liga, a saber, que tipo de elementos ajudou os médicos, através da história, a nomear e a selecionar, a transitar e a preservar. Quais elementos lhes indicavam os rumos a serem tomados? E, principalmente, como essa tradição entrou em crise?

Seguindo as entrevistas realizadas por Schraiber (2008) com médicos paulistas, do ponto de vista das dinâmicas produtivas de uma dada

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Importante notar que Arendt realiza a historiografia do conceito de autoridade ligada às mudanças nas instituições políticas e seus fundamentos na Grécia Antiga e Roma. Nosso trabalho se dá na transposição dessa reflexão para o campo da relação clínica que, embora político, tem uma natureza diversa.

sociedade, a tradição da medicina está ancorada no ideário do trabalho liberal, ou seja, naquele trabalho no qual o produtor detém o controle sobre os meios de produção de seu trabalho e o fluxo de sua clientela. Assim, o médico como profissional liberal detém uma autonomia de caráter mercantil – em razão da ampla liberdade na execução de sua prática como produção social de um serviço e da liberdade na fixação de sua remuneração –, a que irá se somar a autonomia técnica, além da autonomia da organização e do controle de seu serviço (Schraiber, 2008).

Donnangelo (1975) definirá tal condição – posse dos meios de produção, controle sobre o fluxo da clientela e liberdade na execução técnica – como ‘autonomia típica’, em contraste com as mudanças na passagem para a medicina tecnológica e empresariada, tal qual apresentada no capítulo 1. Como expusemos anteriormente, a passagem para a medicina tecnológica empurra a categoria médica para o trabalho assalariado, no qual ela não tem a posse dos meios de produção do serviço, tampouco o controle sobre o fluxo da clientela, detendo apenas uma relativa autonomia sobre a execução técnica do trabalho.

O imaginário social que conformou o referente tradicional da medicina é o do médico que carregava uma pequena maleta e ia até a casa dos pacientes portando pouco mais que seu estetoscópio, conhecia a casa, os familiares, o trabalho e os costumes de seu cliente. Munido de pouca tecnologia, tanto na forma de instrumentos como de medicamentos, esse profissional fundamentava suas decisões clínicas tanto nos elementos anátomo-fisio-patológicos da transposição do corpo abstrato da ciência para o caso concreto, quanto nas dinâmicas da vida e do trabalho, nos costumes e nas condições sociais de seus pacientes.

Além de ancorar a decisão clínica nos saberes científicos, na análise das condições sociais e sanitárias do paciente e no próprio saber do doente sobre seu corpo e sua doença, esse referente tradicional da medicina tinha, ainda, outra fundamentação: a própria experiência do médico.

Schraiber (2008) mostra que o tempo da medicina liberal se caracterizava por um tempo em que o saber prático, a experiência do

cotidiano de trabalho, tinha lugar na prática clínica. Essa experiência aparecia, por exemplo, quando um médico jovem era tutorado por um mais velho e, por vezes, se aconselhava com ele. Esse aconselhamento tem uma dimensão fundamental: mostra que essa transposição dos entes abstratos da ciência para o corpo real de um sujeito inserido em determinada sociedade, com determinada história e possibilidades materiais, não é algo simples e nem direto. Por vezes essa transposição tem um caráter complexo, uma série de pesos e medidas para serem avaliados e balanceados, a fim de se chegar à melhor decisão em termos tanto de julgamento quanto de escolha da terapêutica. Nesse sentido, a experiência pregressa do médico, em casos semelhantes ou não, tem seu lugar, já que nem sempre a primeira e mais óbvia resposta dada pelo conhecimento científico é a melhor. Entram em jogo as possibilidades econômicas, as disposições materiais, os efeitos colaterais na vida do paciente e as possíveis iatrogenias.

A crise da tradição do trabalho médico é o rebaixamento de todas essas formas de saber – do paciente sobre seu corpo e sua doença, do médico sobre tudo aquilo que envolve o seu paciente para além do corpo e da doença e, por fim, da própria experiência do médico – em relação ao conhecimento anatomo-fisio-patológico da ciência.

Na medicina tecnológica, como o próprio nome aponta, a ciência se tornará o grande crivo do trabalho médico, através de suas renovadas técnicas, de maquinarias e dos mais diversos tipos de novas tecnologias. Essa maquinaria será responsável por empurrar a classe médica ao assalariamento com a posterior perda do controle sobre o fluxo de clientes e sobre os meios de produção de seu trabalho.

Sem poder apelar para essa outra gama de saberes – da sua experiência pregressa e dos médicos a sua volta, assim como dos saberes dos pacientes acerca do seu corpo e do seu adoecimento – e tendo perdido o controle sobre os meios de produção e o fluxo da clientela, ao médico só resta a confiança absoluta nos aparatos tecnológicos, rompendo, assim, nos termos de Arendt (2011a), o fio que liga o passado ao futuro.

Mesmo que a medicina de caráter liberal tenha existido no Brasil por tão pouco tempo, chama a atenção como ela deixou suas marcas nesse sentido de tradição. Embora esse tempo já tenha passado, essa imagem clássica da atividade médica ainda persiste tanto na população em geral, quanto nos próprios médicos, como mostram Schraiber (2008) e Gomes (2010).

Essas noções residuais da prática médica liberal criam uma conformação bastante única do trabalho médico contemporâneo em relação às outras categorias de trabalhadores. Seguindo a forte ligação entre tradição e autoridade na obra de Arendt, analisamos, agora, a autoridade médica.