Nesta comparação, perspetivamos que os jogadores de futebol demonstrariam uma acuidade propriocetiva do joelho superior à de indivíduos não-praticantes de desporto, já que tem sido demonstrado na literatura que o exercício melhora tanto os componentes periféricos como centrais, responsáveis pela mediação da proprioceção. Perifericamente, não existe evidência de que o treino modifique o número de mecanorrecetores, mas sim de que induz adaptações morfológicas no fuso neuromuscular, o principal mecanorrecetor envolvido na proprioceção. Estas adaptações resultam de alterações metabólicas das fibras intrafusais, que se repercutem na diminuição da latência da resposta do reflexo de estiramento, aumentando a sua amplitude. Ao nível central, o exercício melhora a proprioceção ao modificar os outputs dos fusos neuromusculares, e induzindo alterações plásticas no SNC, isto é, a proprioceção é melhorada através do aumento dos outputs do fuso neuromuscular através das vias γ durante o exercício, facilitando a sua projeção cortical. Para além disso, a repetição de uma tarefa motora aumenta também o output do fuso neuromuscular, o que se traduz em alterações plásticas no SNC, como por exemplo, no aumento da força das conexões sinápticas ou do número de conexões interneuronais. Os gestos técnicos repetidos observados numa determinada modalidade desportiva produzem assim inputs aferentes repetidos provenientes dos mecanorrecetores, o que se reflete numa melhor representação cortical da articulação, conduzindo a uma acuidade propriocetiva superior da mesma (Ribeiro e Oliveira, 2007).
Os resultados do presente estudo confirmaram a nossa hipótese de que os jogadores de futebol demonstrariam então uma acuidade propriocetiva do joelho superior à dos indivíduos não-praticantes de desporto. Em termos de erros absolutos, tanto antes como após a realização do protocolo de fadiga, os jogadores de futebol apresentaram erros de reposicionamento inferiores aos dos indivíduos não-praticantes, embora se tenham verificado diferenças significativas somente no reposicionamento dos 20º do membro
70
não-dominante antes da fadiga, e no reposicionamento dos 45º do membro dominante após a fadiga. Quando observamos os erros de reposicionamento relativos, verificamos que existiam diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos em todas as variáveis tanto antes como após a fadiga, diferenças estas que se deveram ao facto de os jogadores de futebol terem sobrestimado sempre as amplitudes-alvo, enquanto que os indivíduos não-praticantes subestimaram sempre as mesmas amplitudes.
No futebol, esta análise foi também anteriormente realizada por Cug, Wikstrom, Golshaei e Kirazci (2016), que contrariamente aos nossos resultados, não encontraram diferenças na acuidade propriocetiva do joelho de jogadores de futebol e de indivíduos que não praticavam desporto. No entanto, é de notar que o método de reposicionamento adotado no estudo destes autores foi o de reposicionamento passivo, o que de acordo com Proske, Wise e Gregory (2000) leva a uma menor ativação por parte dos recetores musculares, o que pode ter mascarado diferenças propriocetivas entre os dois grupos. No entanto, Muaidi, Nicholson e Refshauge (2009), apesar de terem testado a capacidade de reposicionamento ativo não para extensão, mas para rotação interna ou externa do joelho, similarmente ao nosso estudo, registaram uma acuidade propriocetiva do joelho superior em jogadores de futebol quando comparados com um grupo de controlo de indivíduos sedentários de idades e sexo semelhantes.
Em relação à direção em que os jogadores e os indivíduos não-praticantes de desporto falharam as amplitudes-alvo, estudos anteriores como o de Givoni, Pham, Allen e Proske (2007) não suportam os nossos resultados relativamente aos indivíduos não-praticantes de desporto, já que estes autores, ao avaliarem o SPA do joelho de indivíduos que não eram atletas, verificaram que após um protocolo de exercício excêntrico e um protocolo de exercício concêntrico, os erros de reposicionamento relativos aumentaram significativamente, no entanto, tanto antes como após os protocolos de fadiga realizados, os participantes percebiam o seu quadricípite numa posição mais alongada do que estava verdadeiramente, ou seja, tenderam a sobrestimar as amplitudes de teste. Relativamente aos resultados dos jogadores de futebol, estes são também opostos àqueles reportados no estudo de Salgado, Ribeiro e Oliveira (2015), em que foi avaliado o efeito da fadiga induzida através de um jogo de futebol de 90 minutos sobre o SPA do joelho de jogadores desta modalidade, e no qual se verificou um aumento significativo dos erros relativos após o jogo, mas que indicavam que os jogadores tinham subestimado a amplitude de teste, tanto em repouso como após a fadiga. No entanto, denotamos que apesar de a nossa
71
avaliação do SPA ter sido similar à da investigação destes autores, isto é, em cadeia cinética aberta e através de reposicionamento ativo, o protocolo de fadiga destes autores foi distinto, o que pode sugerir que protocolos diferentes possam induzir informações distintas nos recetores musculares acerca da posição de alongamento do músculo. Esta comparação entre atletas e não-atletas tem sido igualmente realizada noutras modalidades, nomeadamente no voleibol e no hóquei. Şahin et al. (2015) compararam o SPA do joelho de voleibolistas femininas com uma amostra equivalente de sujeitos sedentários para duas amplitudes de teste (20º e 60º de flexão), tendo também confirmado que a acuidade propriocetiva foi significativamente superior nas voleibolistas, sobretudo na amplitude intermédia de 60º. Em jogadores de hóquei, esta análise foi conduzida por Venâncio, Lopes, Lourenço e Ribeiro (2016) que demonstraram que a acuidade propriocetiva destes atletas em amplitudes intermédias era também superior à de indivíduos que não praticavam desporto. Neste estudo foi ainda reportado que tanto os indivíduos que não praticavam desporto como os jogadores de hóquei apresentaram uma tendência para sobrestimar a amplitude-alvo (Venâncio, Lopes, Lourenço e Ribeiro, 2016).
Por fim, nesta investigação foram também encontradas diferenças significativas nos erros variáveis entre jogadores de futebol e indivíduos não-praticantes de desporto, com os últimos a apresentar uma consistência nos reposicionamentos inferior à dos jogadores de futebol, tanto antes como após a realização do protocolo de fadiga. Não foram encontrados outros estudos nesta modalidade que comparassem os erros variáveis entre jogadores e não-jogadores, para ser possível discutir os nossos resultados, pelo que seria relevante investigações futuras analisarem a consistência de reposicionamentos em indivíduos com diferentes níveis de atividade física. Existem porém estudos que realizam esta análise, embora em modalidades que não o futebol, como é o caso do hóquei, que contrariamente aos nossos resultados, não encontraram erros de reposicionamento variáveis significativamente diferentes entre jogadores de hóquei e sujeitos que não eram atletas (Venâncio, Lopes, Lourenço e Ribeiro, 2016).
Apesar de grande parte da bibliografia afirmar que a acuidade propriocetiva do joelho é superior em atletas, existem também autores cujos estudos contradizem esta evidência. Um desses estudos é o de Dieling, Van Der Esch e Janssen (2014), que compararam o SPA do joelho de bailarinos com o de indivíduos que não praticavam ballet para três amplitudes de teste (30º, 45º e 60º de flexão), e apesar do ballet exigir uma coordenação
72
de movimentos superior até a outras modalidades desportivas, estes autores não encontraram diferenças na acuidade propriocetiva entre os dois grupos. No entanto, é de notar que o método de reposicionamento adotado por estes autores foi um reposicionamento passivo, ocorrendo assim uma menor ativação dos recetores musculares, o que pode ter ocultado diferenças na proprioceção de bailarinos e não- bailarinos (Proske, Wise e Gregory, 2000).
6.4. Comparação da acuidade propriocetiva do membro dominante e não-