Algo que chama a atenção no acervo de memória do Sitio Santo Antonio são as músicas que os mais velhos cantavam nos terreiros, à noite, nas brincadeiras de roda. As músicas são chamadas pelos moradores de “Dendê” e expressam um pouco de seus valores e costumes. Tais músicas contêm informações sobre os nativos que, provavelmente, habitavam as terras de Beberibe e Sucatinga, visto que a segunda é mais antiga, a criação de seu distrito data de 1833, e Beberibe de1879. Os exemplos que seguem apresentam personagens que habitam a memória do povo: o negro, o caçador, a sinhá.
As duas músicas que seguem são: a primeira, de dendê; a segunda e a terceira, de drama. Os dramas são peças teatrais, através das quais o povo criava suas próprias histórias com os personagens que habitavam o seu imaginário. Informam sobre o cotidiano das pessoas e valores culturais, é o caso da música do Belo Moço (título dado pela pesquisadora), que será o terceiro exemplo.
Primeiro exemplo:
João da Mata
Caçador riba o viado ariba cão, ecôr, ecôr, ariba cão, ecôr, ecôr. Tem os pés de bichos, nego veio sinhá.
Todo esbulambado, nego veio sinhá. Tem a venta de catarro, nego veio sinhá.
Caçador riba o viado, ariba cão, ecôr, ecôr, ariba cão, ecôr, ecôr. Tem os pés de bicho, nego veio sinhá.
Todo esbulambado, nego veio sinhá. Tem a venta chata, nego veio sinhá.
Segundo exemplo:
No rio eu passo o dia com água, roupa e sabão, morrendo, mortificando só a fim de ganhar meu pão.
Ai, ai, meus brancos, né vida não, a nega chia, mas também dança um baião.
No ferro eu sei pra que é, lisar a roupa do patrão, o Zequinha o meu cabra foi quem roubou meu tostão.
Ai, ai, meus brancos, né vida não, a nega chia, mas também dança um baião.
Na cozinha sou perito, faço doce e requeijão, na hora de minhas visitas, tenho doce e requeijão.
Ai, ai, meus brancos, né vida não, a nega chia, mas também dança um baião.
Os exemplos acima associam a imagem do negro ligada ao trabalho, seja na cozinha ou nas atividades domésticas, o que não é novidade, mas sinalizam a presença deles na localidade e suas atividades no grupo social. O que não é exclusividade da história de Sucatinga, mas fato registrado na História do Brasil, é a presença de uma sociedade declaradamente escravista. No primeiro exemplo, é visível o preconceito racial ”nego veio, sinhá”, “tem a venta chata, nego veio sinhá”. Estes fragmentos demonstram uma postura cultural em relação ao escravo, postura essa que não é contemporânea, mas retrata um momento, como se fosse uma fotografia de um valor congelado do tempo registrado na música, pela palavra “sinhá”.
Entretanto, apesar do ranço cultural expresso nas músicas, o “negro” dar sua resposta à condição imposta de trabalho e fardo de forma irreverente. Quando lhe é dado direito de falar, este não se reduz ao trabalho, diz ser capaz de não condicionar sua personalidade ao sofrimento, mas subverter sua condição social, dança um baião, mas sem deixar de protestar “ ai, ai meus brancos né vida não”. Diferente da música do João da Mata, em que este não tem a chance de falar de si mesmo, mas sua imagem lhe é imposta.
No primeiro exemplo, fica clara a posição de escravo do personagem: no segundo exemplo, paira uma dúvida, a personagem fala de patrão, ganhar tostão, não se assemelha à condição de escravo, mas causa dúvida ao falar “meus brancos”. De qualquer forma, a relevância está na postura com a qual o negro fala de si mesmo, e no potencial informativo que os exemplos (que não são os únicos) podem oferecer de informação sobre valores culturais de um grupo social.
Terceiro exemplo
Só caso contigo, velha, se for desta condição, eu deitar em boa cama, tu, velha, deitar no chão.
Ah, seu belo moço, que eu caso assim mesmo! (bis)
Só caso contigo, velha, se for desta condição, eu fumar num bom charuto; tu, velha, no cachimbam.
Ah, seu belo moço, que eu caso assim mesmo! (bis)
Só caso contigo, velha, se for desta condição, eu fazer carinho às moças; tu, velha, eu não faço não.
Ah, seu belo moço, que eu não quero mais não! (bis).
Esse exemplo é interessante por demonstrar um valor cultural na comunidade, que é o casamento entre uma mulher mais velha e um homem muito mais jovem. Em relatos vários, é visível a crença de que tal relacionamento não pode dar certo, a mulher tem que ser mais jovem. Este valor ainda persiste na comunidade, mas de forma bem mais amena que hà 70 ou 80 anos, época provável do registro de tal música na memória de seus atuais narradores.
Outros exemplos significativos são as músicas de dendê, que trazem elementos do conhecimento popular: carrapateira, chapéu de palha, cacimba, pião e também um saber popular “nunca vi carrapateira botar cacho na raiz, nunca vi rapaz solteiro ter palavra no que diz.” A música de Maricota é uma brincadeira que traz o tema do valor casamento para as moças, é o que foi visível nos relatos vários na comunidade.
Entrega o chapéu a outro, pião rodai (repete quatro vezes).
No cruzeiro, está chuvendo; na matriz, está librinando, menina pega teu lenço que a chuva tá me molhando.
Mais ô dendê, mais ô dendê (repete3 vezes).
Nunca vi carrapateira botar cacho na raiz, nunca vi rapaz solteiro ter palavra no que diz.
Mais ô dendê, mais ô dendê (repete3 vezes).
Sacudi meu lenço branco na cacimba de beber, nunca vi moça solteira ter palavra no que diz.
Mais ô dendê, mais ô dendê (repete3 vezes).
*** Maricota Ricota
Maricota Ricota da sorte que é, uma volta eu não dou, porque não seiu dar, Maricota Ricota em seu lugar.
Eu desmancho esta roda, porque quero me casar; nesta roda, eu não vejo quem é de amar.
Este não me serve, este não me agrada, só a ti que eu hei de amar, só a ti que eu hei de amar.
Maricota Ricota da sorte que é, uma volta eu não dou, porque não seiu dar, Maricota Ricota em seu lugar ( repetir duas vezes).