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Chapitre  III   –  Le  terrain  ethnographique  :  méthodes,  apprentissages  et  expériences

1.   Le  terrain  et  les  méthodes  :  des  premiers  constats  au  recours  à  la  cartographie

1.2.   Première  approche  du  terrain

O capitalismo não é simplesmente um modo de produção do capital, ele é também modo de reprodução do capital. Em outro artigo desta coletânea (Novaes e Castro), procuramos fa- zer uma breve síntese sobre o papel da escola capitalista e as lutas pela pedagogia da produção associada. Circunscrevemos nossa análise no século XX para mostrar algumas continuida- des na relação trabalho e educação: as diferentes escolas para diferentes classes sociais. Mostramos também algumas descon- tinuidades e continuidades do taylorismo em função da divisão internacional do trabalho, das particularidades dos países e das regiões dos países.

Procuramos ressaltar que uma das funções da Escola pú- blica é a disseminação do currículo oculto: a aceitação submissa da ordem social, criação de “conformismo de classe”. A escola tende a colocar na cabeça dos alunos qual deve ser o seu papel na sociedade: assalariados pouco qualificados. Evidentemente que a escola proporciona mobilidade social. Mas para a imen- sa maioria as escolas desempenham um papel vital no sentido

de “confirmar” seu destino e seu status de classe (Miliband, 1972). Na mesma linha, outros estudos também têm mostra- do que a tendência da escola é preparar as crianças e jovens para hábitos hierárquicos (Pistrak et al. 2009; Freitas, 2009), que preparam as crianças desde cedo para a subordinação, para a apatia na fábrica etc. Mais recentemente, com a difusão do toyotismo, parcelas do capital necessitam de um trabalhador que pense nos problemas do capital e em soluções que estejam dentro da órbita do capital.

Mészáros (2004) nos lembra também o papel na promo- ção da qualificação necessária ao capital e na transmissão de determinadas interpretações da história do país, o tipo de en- gajamento e participação das pessoas para a reprodução do so- ciometabolismo do capital11. Sobre isso, basta lembrar a difusão

nas escolas da ideologia da “responsabilidade social” e do “tra- balho voluntário”.

Mészáros nos mostra também como os dominados tenta- ram subverter este papel da escola em contextos revolucionários, em processos que tentaram dar à educação o papel de descons- trução da sociedade de classes e construção de uma sociedade emancipada, sempre atrelados às modificações no trabalho alie- nado. Para citar um exemplo, Mészáros nos lembra como era a educação em Cuba antes da Revolução. Neste país, a escola na- turalizava o imperialismo, a dominação, o papel de Cuba como país periférico, o papel dos trabalhadores como entes subordina- dos e o conformismo.

Recentemente, o Estado da Coreia do Sul utilizou quadri- nhos para transmitir sua ideologia. De acordo com manchete da

11 Para este debate numa perspectiva histórica mais ampla, ver Ponce (2010),

Frigotto (1995), Dal Ri e Vieitez (2008), além de Minto (2005). Para a con- tratendência da educação, especialmente no ensino, na pesquisa e na exten- são universitária, ver Novaes (2010).

Folha de S. Paulo: “Coreia do Sul faz uso de gibi para prevenir

crianças contra Norte”. E continua:

Alegando que jovens estão mal informados, Seul lança quadrinho que retrata horrores de Pyongyang. Os serviços de segurança da Coreia do Sul estão usando histórias em quadrinhos e jogos de computador para transmitir entre crianças e adolescentes “mal in- formados” a mensagem de que a Coreia do Norte, dotada de ar- mas nucleares, ainda é uma ameaça. Na semana passada, a polícia lançou um gibi intitulado “Ji-yong parte em viagem no tempo”, voltado a crianças de 10 a 15 anos de idade. A história trata de um garoto que viaja no tempo, acompanhado do fantasma de seu avô, nas costas de um dragão vermelho gigante. O menino testemunha a invasão norte-coreana da Coreia do Sul, em 1950, e a ditadura stalinista de Kim Il-sung, além dos campos de trabalhos forçados, a fome, as armas nucleares e os ataques cibernéticos contra sites de todo o mundo. No gibi, Ji-yong vê norte-coreanos à beira da morte por inanição, cochichando às escondidas sobre seu sistema político e sendo fuzilados quando tentam deixar o país. O suces- so econômico e a democracia sul-coreanos formam um contras- te agudo quando o dragão sobrevoa a grande metrópole de Seul. “Produzimos os gibis com base na avaliação de que a maioria das crianças e dos jovens sul-coreanos têm uma visão distorcida de questões ligadas à segurança”, alegou a polícia, citando pesquisa que mostra que 57% dos alunos de escolas “não têm consciência” da Guerra da Coreia e que 60% dos jovens de 20 anos não sabem quando a guerra começou. É comum ouvir do atual governo – me- nos propenso ao diálogo com o vizinho do que os anteriores – a queixa de que a geração mais jovem ignora a ameaça representada pela Coreia do Norte ou demonstra simpatia aberta por ela. O fato é atribuído em parte a cineastas esquerdistas que, nos últi- mos anos, criaram filmes de ação populares nos quais as distinções morais entre as Coreias perderam a nitidez. A polícia sul-coreana ficou alarmada neste ano quando um grupo de crianças de menos de 13 anos montou um grupo de mensagens na Internet elogiando Kim Il-sung e seu filho e sucessor, Kim Jong-il. Seis crianças foram detidas brevemente por “colocar em risco a segurança nacional” (Folha de S. Paulo, 21/12/2009).

Nas palavras de Miliband (1972), a escola estatal oferece uma minguada educação e tende a “mutilar” o ensino, estando longe de oferecer o “desenvolvimento” intelectual do ser huma- no. As escolas colocam na cabeça do aluno que ele é culpado pela sua situação: “incapacidade pessoal”, “inata”, “dada por deus”, e “insuperável”. Confirmam a ideia de que eles são “escravos na- turais”, que há um “destino inelutável”.

A escola reforça o papel para o qual as circunstâncias de classe os destinaram desde o berço. Deste ponto de vista, uma das ideologias mais profundas é a do “fetiche da mobilidade so- cial”. É verdade que a educação permite que parcelas dos traba- lhadores ascendam socialmente. No entanto, isso tem sido muito mais a exceção do que regra.

Refletindo sobre a Inglaterra dos anos 1970, Miliband (1972) observa que o professor vem da classe média. Eles tentam inculcar nos alunos a ética e maneira de ver o mundo do ponto de vista da classe média. A professora ensina a adquirir hábitos de higiene e trabalho, fazer sacrifícios para obter “êxito”. Os que são “brilhantes” são ajudados a preparar a fuga de sua condição, o resto é ajudado a aceitar sua subordinação (Miliband, 1972).

a formação das burocracias: o que se ensina nas

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