Chapitre III – Le terrain ethnographique : méthodes, apprentissages et expériences
1. Le terrain et les méthodes : des premiers constats au recours à la cartographie
1.4. Le choix de l’angle d’observation et le repérage des individus
Guillermo O’Donnel (1982) observa que a pequena mar- gem de manobra ou flexibilidade do Estado gera consentimento, o que em alguma medida reforça o fetiche do Estado. Quando o povo afirma: “Sim, o Estado pode abrigar nossos anseios”15.
15 Para dar um exemplo bastante ilustrativo do Brasil dos anos 1930-1950,
No entanto, se é verdade que as lutas sociais conformam o Estado Capitalista, também é preciso reconhecer que o Estado não é “total flex”, não podendo ser “usado” ou “apropriado” para qualquer fim, a não ser num projeto revolucionário de supe- ração do capital (Mészáros, 2002).
João Bernardo sempre nos lembra que um dos motivos para o alcoolismo de trabalhadores autonomistas é justamente a difi- culdade de transformar estruturas pesadas e consolidadas, seja o parlamento burguês seja o sindicato burocratizado. Por outro lado, Mészáros (2002) verifica que o parlamento burguês, bas- tante assimétrico e construído para as necessidades do capital, tende a “cooptar” lideranças trabalhistas em alguma medida compromissadas com os interesses dos trabalhadores (salários maiores, gratificações, regalias, mordomias, arena do capital e não dos trabalhadores etc.).
Isso nos permite perguntar: o Estado serve a todos que dele se apropriam? Ele é flexível ou inflexível? Seria o Estado total- mente autônomo, agindo previsivelmente em defesa dos interesses dos capitalistas, a ponto de não servir a quem dele se apropria? Ou seria ele “instrumental”, podendo então ser usado tanto por capitalistas quanto por trabalhadores? Em que medida os confli- tos interferem ou não na configuração do Estado?
Marx e Lenin observaram, a partir dos ensinamentos da Comuna de Paris e sobre a Rússia tsarista – para o caso de Lenin, que o Estado não cai automaticamente num processo revolucio-
mentos históricos das campanhas de estatização no governo de Getúlio Vargas são eloquentes. Na visão de Ianni, as campanhas contribuíram para a “reificação do Estado”. Nas suas palavras: “A amplitude, duração e o sig- nificado dessas campanhas produziram a reificação do Estado na consciên- cia do proletariado. No apelo contínuo ao poder público, como maneira de realizar reivindicações de classe, essa categoria tem sido levada a fetichizar o aparelho estatal, como se ele fosse o órgão que pode atender os seus obje- tivos de classe (Ianni, 1989, apud Novaes, 2011).
nário. Para usar um termo contemporâneo, o Estado não é “total flex”. Mas foi Lenin quem melhor observou a dificuldade – mas não a impossibilidade, de fenecimento do Estado capitalista em momentos revolucionários. Poderíamos citar, por exemplo, sua reflexão sobre os primeiros anos da URSS:
Nós assumimos a velha máquina do Estado, e foi esse nosso in- fortúnio. Com muita frequência essa máquina funciona contra nós. Em 1917, depois de tomarmos o poder, os funcionários pú- blicos nos abandonaram. Isso nos atemorizou, e nós pedimos: “Por favor, voltem”. Eles todos voltaram, mas esse foi o nosso infortúnio. Temos agora um vasto exército de funcionários, mas faltam-nos forças suficientemente educadas para exercer um con- trole real sobre eles. Na prática, ocorre com frequência que, na cúpula, onde exercemos o poder político, a máquina, bem ou mal, funciona. Mas, lá embaixo, os funcionários governamentais têm controle arbitrário e com frequência o exercem de maneira a contrariar nossas medidas. Na cúpula, temos não sei quantos, mas de qualquer modo creio que não são mais que alguns milha- res; e por fora, várias dezenas de velhos funcionários que rece- bemos do czar e da sociedade burguesa, e que, em parte delibe- radamente e em parte inconscientemente, trabalham contra nós (Lenin, 1976, v. 33, p. 428-429)
Lenin, em O Estado e a Revolução, também percebeu a burocratização da revolução russa: restauração da burocracia, diferenciação dos salários dos funcionários públicos, não cria- ção de mecanismos de democracia direta combinados com meca- nismos de democracia representativa, ausência de revogabilidade dos cargos eleitos nas fábricas e no Estado16. Mészáros (2002),
sem desprezar a necessidade de superar o Estado “por dentro”, traz inúmeros elementos sobre a necessidade de ação extra-parla- mentar no século XXI.
Vimos na introdução que para Przeworski (1989), o Estado não responde invariavelmente aos requisitos da produção capi- talista. A atividade das instituições e as próprias instituições são um resultado contínuo dos conflitos sociais. Devemos analisar o Estado sob circunstâncias históricas concretas e observar como e por que grupos específicos, classes ou frações de classes entram em conflito acerca de questões específicas. O resultado destes conflitos é uma determinada organização e um conjunto de po- líticas estatais.
No século XIX Engels observou que a burguesia construiu dois métodos de controle do Estado: a corrupção e a aliança en- tre governo e bolsa de valores. Gramsci e Miliband sinalizam que os mecanismos para dominação de classe no capitalismo do século XX são mais difusos e sutis do que a ideia de que uma pessoa que controla todas as instâncias do Estado17. Além dis-
so, a fragmentação do próprio Estado em instituições separadas (governo central, burocracia, polícia, juízes, governos estaduais, assembleias legislativas etc.) dificulta que qualquer fração do ca- pital conquiste o controle total de todos os instrumentos de do- minação de classe (Harvey, 2005).
Portanto, é inapropriado considerar o Estado capitalista como nada mais que uma grande “conspiração” capitalista para a exploração dos trabalhadores (Harvey, 2005). Ademais, como Gramsci assinala: “As relações internacionais se entrelaçam com as relações internas dos Estados-Nações, criando combinações novas, únicas e historicamente concretas” (Gramsci, 1971)18.
17 Segundo Harvey (2005), a famosa frase de Marx “o executivo do Estado
moderno não é mais do que um comitê para dirigir os negócios comuns de toda a burguesia” deve ser complexificada em função das transformações que ocorreram no Estado capitalista no século XX.
18 No entanto, alguns autores sempre nos lembram que em certos países uma
fração do capital conseguiu controlar o Estado praticamente em sua totali- dade ou com altíssima coordenação de todas as instituições.