• Aucun résultat trouvé

Atmosphère Océan

4. La répartition internationale des efforts, entre efficacité et équité.

4.3. A long terme, la convergence

Como já é notável, ao abordar a Internet, este trabalho adota várias das concepções de um otimista da Internet. Castells (2004, p. 20) acredita que a rede é, em suas palavras, “um instrumento fundamental para o desenvolvimento do Terceiro Mundo”. E sua perspectiva para tal afirmação pode vir do fato de que ele acredita que qualquer que seja a tecnologia, ela pode ser transformada por meio da apropriação, modificação e experimentação que a sociedade em geral faz dela. E é, segundo Castells (2004, p. 71) “precisamente nas situações de extrema

pobreza, quando as pessoas criativas não têm acesso a recursos econômicos, que elas têm tendência a inventar as suas próprias soluções, e o conseguem”.

No entanto, é preciso pensar que as tecnologias que dão sentido à Cibercultura não estão presentes da mesma forma na vida de todos os cidadãos do planeta e o próprio Castells (2004, p. 17) ressalva que “apesar da ampla propagação da Internet, a sua lógica, linguagem e limites não são totalmente entendidos para além dos aspectos tecnológicos”. Segundo ele, a influência da rede não está relacionada apenas ao número de utilizadores que possui, mas à qualidade desta utilização. Para Castells (2004, p. 17), em um cenário onde tudo estrutura-se por meio da Internet e das redes informáticas, “a exclusão destas redes é uma das formas de exclusão mais graves que se pode sofrer na nossa economia e na nossa cultura”.

E para refletir sobre isto, surgem conceitos como exclusão digital, brecha digital, fissura digital, digital divide, apartheid digital, digital gap, entre outros termos que, segundo Barbosa Filho e Castro (2005, p. 276), são utilizados para enquadrar “o vasto universo de pessoas que não têm acesso aos computadores, aos provedores de conteúdo, às informações e conhecimentos disponíveis na rede”, a maior parte da população latino-americana, africana e dos países asiáticos, como exposto a partir dos dados apresentados no capítulo anterior.

Ao tratar dessa questão do ponto de vista da universalização dos serviços de informação e comunicação, Takahashi (2000, p. 57) confirma que a difusão do acesso às redes no mundo é desigual e defende soluções urgentes e efetivas “para que as pessoas dos diferentes segmentos sociais e regiões tenham amplo acesso à Internet, evitando assim que se crie uma classe de ‘info-excluídos’”. Além da universalização, Takahashi também lembra a necessidade imprescindível de promoção do que ele chama de alfabetização, algo que, segundo ele, deve propiciar a “aquisição de habilidades básicas para o uso de computadores e da Internet, mas também que capacite as pessoas para a utilização dessas mídias em favor dos interesses e necessidades individuais e comunitários, com responsabilidade e senso de cidadania.” (TAKAHASHI, 2000, p. 57).

Ao discutir as dimensões da exclusão digital, Sorj (2003, p. 59) ressalta que a questão da distribuição desigual do acesso não está relacionada apenas à Internet, mas aos diversos meios de comunicação, sejam eles livros, jornais, rádio, telefone, televisão e Internet. Segundo ele, “embora estejamos focalizando o acesso à Internet e seu uso, a exclusão digital não pode ser dissociada do acesso a outras tecnologias da comunicação, com as quais tem várias complementaridades e, até mesmo, tendências à convergência”.

Ao buscar uma definição para exclusão digital, Lemos e Costa (2007, p. 42) a relacionam à incapacidade técnica, social, cultural, intelectual e econômica de acesso às TIC e aos desafios da Sociedade da Informação. Segundo eles, “essa incapacidade não deve ser vista de forma meramente técnica ou econômica, mas também cognitiva e social”. Visão esta que corrobora o pensamento de Sorj (2003) sobre exclusão digital, quando este último a relaciona a outras formas de desigualdade social, esta representando uma de suas dimensões. Assim, naturalmente, “as taxas mais altas de exclusão digital encontram-se nos setores de menor renda.” (SORJ, 2003, p. 59). Além disso, a exclusão digital “mede a distância relativa do acesso a produtos, serviços e benefícios das novas tecnologias da informação e da comunicação entre diferentes segmentos da população.” (SORJ, 2003, p. 62). Esta relação entre exclusão social e exclusão digital também é ressaltada por Lemos e Costa (2007, p. 39). Para estes autores, a primeira questão perpassa a segunda.

E como se configura esta exclusão? De acordo com Silveira (2001), isto ocorre a partir da privação das pessoas de três instrumentos básicos: o computador, a linha telefônica e o provedor de acesso.

Em um trabalho sobre as questões relacionadas à exclusão digital no Brasil, Neri (2003) a mapeou a partir de bases de dados primárias e secundárias de diversos órgãos, dentre eles as pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de outros registros administrativos e pesquisas em estabelecimento, como os do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB) e do Ministério do Trabalho e Emprego, dentre outros. A pesquisa, realizada pela primeira vez há 10 anos, identificou e estabeleceu uma correlação entre bases de dados para identificação de diversos contextos de análise da exclusão e da inclusão digital no Brasil logo a partir de 2000, quando o IBGE passou a coletar dados relacionados à Internet na pesquisa domiciliar. Com isto, são identificados e trabalhados o que Neri (2003, p. 6) chama de principais canais de inclusão digital existentes, sendo eles os domicílios, o emprego, os negócios, a escola e o governo. Sobre a pesquisa, afirma que ela “traça perfis nos diversos segmentos da sociedade da extensão do acesso, dos determinantes e conseqüências da tecnologia de informática, tratada num sentido amplo”. Neste sentido, o Mapa da Exclusão Digital reúne um acervo disperso de informações sobre inclusão digital e o disponibiliza de forma integrada. Segundo Neri (2003, p. 59), “este dados são úteis para traçar o alvo das políticas de inclusão digital (ID) e para organizar as fontes de financiamento dessas empreitadas”. Isto permite que gestores públicos possam “traçar o público-alvo das ações de

inclusão digital; e ao cidadão comum interessado no tema enxergar o seu país, a sua cidade e mesmo seu bairro desde uma perspectiva própria.” (NERI, 2003, p. 60).

Dados mais atuais deste Mapa da Exclusão Digital serão comentados no tópico 1.3.1. Porém, de uma forma geral é importante pontuar que este mapa permite uma visão geral sobre diversas bases de dados e tem em sua proposição uma crítica clara e objetiva às consequências do não acesso às TIC pela população brasileira. Como ressalta Neri (2003, p. 14), “o analfabetismo digital, ao afetar a capacidade de aprendizado, a conectividade e a disseminação de informações, gera conseqüências virtualmente em todos os campos da vida do indivíduo”.

Lemos e Costa (2007, p. 40), por sua vez, lembram que o pressuposto da exclusão é a inclusão e a sua consequente superação. Este termo, segundo eles, “pode abarcar uma série de significados, desde estudos na área da psicologia (...) até os estudos de sócio-economia mostrando as desigualdades de renda ou sexo.” (LEMOS e COSTA, 2007, p. 37). Já Barbosa Filho e Castro (2005, p. 276) afirmam que a inclusão digital depende de um processo de “capacitação dos atores sociais para o exercício ativo da cidadania”. Isto ocorreria, segundo eles, por meio de aprendizado tecnológico, uso de equipamentos e produção e disponibilização na rede de conteúdo e conhecimento gerado no ambiente do próprio grupo envolvido no processo de inclusão.

A inclusão digital é hoje uma das experiências mais dignificantes pela qual uma sociedade moderna pode estabelecer condutas que a conduzam à conquista dos ideais de justiça social e da plena cidadania para todos os seus integrantes. Esse é o nosso grande exercício de reflexão. (BARBOSA FILHO e CASTRO, 2005, p. 292)

Ao refletir sobre as dimensões da exclusão e inclusão digital, Sorj (2003, p. 63) traça um quadro no qual apresenta cinco fatores que considera determinantes para um maior ou menor grau de universalização dos “sistemas telemáticos”, algo que pode ser conferido no quadro 1. Antes de analisá-lo, é importante notar, como ressalta o autor, “enquanto os primeiros dois critérios se referem a dimensões passivas do acesso à Internet, as três últimas definem o potencial de apropriação ativa”.

Fatores determinantes para universalização dos sistemas telemáticos

• a existência de infraestruturas físicas de transmissão;

• a disponibilidade de equipamento/conexão de acesso (computador, modem, linha de acesso);

• treinamento no uso dos instrumentos do computador e da Internet;

• capacitação intelectual e inserção social do usuário, produto da profissão, do nível educacional e intelectual e da sua rede social, que determina o aproveitamento efetivo da informação e das necessidades de comunicação pela Internet;

• a produção e uso de conteúdos específicos adequados às necessidades dos diversos segmentos da população.

Adaptado de Sorj (2003, p. 63)

Quadro 1: Fatores para universalização dos sistemas telemáticos

Na análise do quadro, deve-se considerar que cada um dos níveis é condição do seu subsequente, da mesma forma que estes são determinantes na utilidade do nível anterior. Segundo Sorj (2003, p. 63), “a distinção entre os diferentes níveis de acesso e uso é fundamental para desenvolver metodologias de avaliação, acompanhamento e atuação na luta contra exclusão digital”. E neste sentido, ainda faz uma crítica aos programas públicos de universalização dos serviços de comunicação que, segundo ele, “focalizam em geral o primeiro e segundo níveis, os da infra-estrutura físicas e equipamentos individuais, que são somente parte das precondições para transformar a Internet num serviço público”.

Nesta discussão sobre inclusão digital, no entanto, Lemos e Costa (2007) fazem algumas perguntas fundamentais para o entendimento desta dinâmica. Eles questionam: Por que incluir? O que significa incluir? Incluir para quê e para quem? Incluir é adaptar?

Naturalmente, as perguntas soam como provocações. Encontrar uma resposta é um desafio constante e algo que deve referenciar o trabalho de quem atua com a inclusão digital. A resposta a estas questões pode, em algum momento, alertar sobre planejamentos e objetivos mal traçados ou que não estejam alinhados com um efetivo processo de universalização do acesso às tecnologias. Neste sentido, buscando refletir sobre suas próprias perguntas, Lemos e Costa (2007, p. 40) ressalvam que em muitos casos o termo incluir é utilizado para referenciar a oferta de condições materiais para o manuseio das TIC, num sentido de destreza técnica. Eles questionam que “trata-se, não de reforçar processos cognitivos questionadores, mas de adaptar procedimentos às técnicas correntes. Será mesmo incluir formar alguém em Word, Excel e Windows?”. Trata-se, assim, de um sentido de adaptação dos indivíduos para que sejam “capazes de manipular programas e sistemas operacionais que poderão estar superados daqui a alguns meses.” (LEMOS e COSTA, 2007, p. 41).

O que será essa sociedade da informação? Quem será esse indivíduo incluído? E o que ele fará em posse dessas novas ferramentas? Pouco importa. (…) O discurso da inclusão digital feito dessa forma parece contentar apenas algumas empresas, ONGs e tecnoutópicos que vão nos vender, sob essa ideologia, mais e mais 'novidades' tecnológicas. (LEMOS e COSTA, 2007, p. 40)

Em muitos casos, parte-se de uma máxima, de um princípio, segundo o qual “se deve, a qualquer preço, e sem saber muito o porque, incluir”, algo que, segundo os autores, é encarado “sem nenhum questionamento e de maneira tecnocrática.” (LEMOS e COSTA, 2007, p. 40).

A partir desta crítica, Lemos e Costa (2007, p. 42) defendem um processo de inclusão que supere a formação técnica dos aplicativos, da aprendizagem de determinados softwares e sobre formas de navegar na Internet. Idealiza-se, em contraposição, algo que favoreça o desenvolvimento de habilidades cognitivas, num processo capaz de favorecer a transformação da informação em conhecimento e de utilização em apropriação. Segundo eles, o que está em jogo na Cibercultura é a liberação do polo de emissão, a reconfiguração do universo midiático contemporâneo e a conectividade generalizada por meio de redes telemáticas. Esse modelo de inclusão deve, segundo os autores, “compreender e estimular diversas formas de emissão de informação, criando mecanismos para uma maior inserção social e cultural do indivíduo.” (LEMOS e COSTA, 2007, p. 41).

Ao buscar uma visão em que a inclusão seja vista sob diversos indicadores, sendo eles o econômico, o cognitivo e o técnico, Lemos e Costa (2007, p. 42) apresentam a proposta de uma Matriz de Análise de Projetos de Inclusão Digital, como poderá ser conferido no quadro 2. Nele é possível observar que há situações em que a inclusão ocorre, inclusive, de forma espontânea, num processo que, como descrevem Lemos e Costa (2007, p. 43), o cidadão, “utiliza, querendo ou não, diversos dispositivos eletrônicos (…) sendo, de alguma forma, obrigado a incluir-se/aprender a usar as diversas ferramentas da era da informação”, algo que corrobora as ideias apresentadas no tópico 1.

INCLUSÃO DIGITAL

Espontânea

Formas de acesso e uso das TICs em que os cidadãos estão imersos com a entrada da sociedade na era da informação, tendo ou não formação para tal uso. A simples vivência em metrópoles coloca o indivíduo em meio a novos processos e produtos em que ele terá que desenvolver capacidades de uso das TICs. Como exemplo podemos citar: uso de caixas eletrônicos de bancos, cartões de crédito com chips, smart cards, telefones celulares, etc.

Induzida

Projetos induzidos de inclusão às tecnologias eletrônicas e às redes de computadores executados por empresas privadas, instituições governamentais e/ou não governamentais.

Três categorias de Inclusão Digital Induzida:

Técnica – Destreza no manuseio do computador,

dos principais softwares e do acesso à Internet. Estímulo do capital técnico.

Cognitiva – autonomia e independência no uso

complexo das TICs. Visão crítica dos meios, estímulo dos capitais cultural, social e intelectual. Prática social transformadora e consciente. Capacidade de compreender os desafios da sociedade contemporânea.

Econômica – capacidade financeira de adquirir e

manter computadores e custeio para acesso à rede e softwares básicos. Reforço dos quatro capitais (técnico, social, cultural, intelectual).

Fonte: Lemos e Costa (2007, p. 43)

Quadro 2: Matriz de Análise de Projetos de Inclusão Digital

Na matriz de análise de Lemos e Costa (2007, p. 35) a inclusão digital “é compreendida sob o pano de fundo dos quatro capitais (social, técnico, cultural e intelectual) que constituem todo o processo coletivo”. Segundo eles, a partir destes capitais pretende-se compreender a inclusão digital a partir de três categorias principais, sejam elas técnica, cognitiva e econômica; categorias que eles também relacionam a outros dois planos gerais da inclusão digital, que podem ser, neste sentido, induzida ou espontânea. Esta matriz é apresentada aqui apenas como uma referência de tipos de análise para inclusão digital. Assim como no trabalho de Neri (2003), que busca analisar os dados a partir da questão do acesso e outros indicadores sociais, há na literatura várias proposições para categorizar a inclusão digital, assim como é possível observar no trabalho de Sampaio (2001). Outras iniciativas, no entanto, também serão encontradas, abordando questões específicas e vieses da inclusão digital, como em Silveira (2001), Scudere (2006), Waiselfisz (2007), Van Acker (2009), Rabia (2009), Becker (2009), dentre vários outros que, por questão de foco e tempo, não serão comentados aqui, mas é preciso nominá-los como experiências importantes para construção de entendimentos sobre inclusão digital.

Documents relatifs