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Atmosphère Océan

Chapitre 3. Du changement climatique au problème de décision

2. Aspects socio-économiques: le sans regret et au delà.

2.2. Les actions sans regret.

Em pesquisa desenvolvida no Observatório da Cultura Digital, Capobianco (2010) explorou o conceito de literacias a partir da visão de Eshet-Al-Kalai (2008). Em seu trabalho, ela traçou o advento do termo a partir do historiador Paul Gilster (1997), que apresentou pela primeira vez o termo digital literacy como uma forma de descrever a habilidade de entender e utilizar a informação de múltiplos formatos e proveniente de diversas fontes quando apresentada por meio de computadores. Para Gilster (1997, p. 230), a digital literacy é uma “extensão lógica da própria literacia, da mesma forma que o hipertexto é uma extensão da experiência da leitura tradicional”. Segundo este autor, os recursos da Internet são fundamentais nos processos de ensino-aprendizagem e no autoaprimoramento das competências pessoais. Neste sentido, numa perspectiva de aquisição de habilidades, Gilster ressalta que para além da busca e localização de algo, é preciso também adquirir a habilidade de usar isto que foi encontrado. A Internet, neste aspecto, é defendida por Gilster como um espaço fundamental para processos de ensino-aprendizagem e para o autoaprimoramento de competências pessoais. Isto se justifica porque ela proporciona a seus usuários:

• realizar julgamentos sobre o conteúdo das informações disponíveis na Internet;

• justapor os diversos conhecimentos encontrados na Internet provenientes de diferentes fontes, de maneira não linear, para elaborar informações confiáveis;

• buscar e manter a pesquisa constante das informações atualizadas.

De Eshet-Al-Kalai, por sua vez, Capobianco (2010) ressalta seu Modelo de Literacia Digital no qual são descritos diferentes tipos de componentes para literacia digital: literacia da informação; literacia fotovisual; literacia de reprodução; literacia de pensamento hipermídia; e literacia socioemocional – termos explorados no quadro 5. Cada uma destas literacias inclui as correspondentes habilidades cognitivas e não-cognitivas, motoras, sociológicas e emocionais necessárias para a comunicação em ambientes digitais.

O investimento no estudo de um modelo como o de Esheted-Al-Kalai é justificado no trabalho de Capobianco (2000) ao entender que “a utilização de um modelo de literacias digitais facilita a compreensão e a abordagem dos diversos aspectos compreendidos pelo conceito”. Neste sentido, ela afirma que no contexto comunicacional e informacional dos ambientes digitais “há um espaço para a expressão e o desenvolvimento de habilidades

cognitivas ou não, que envolvem diferentes níveis de complexidade.” (CAPOBIANCO, 2010, p. 82).

A autora chega ao modelo de Esheted-Al-Kalai a partir do traçado do estado da arte sobre literacia digital, que revelou menção a seus trabalhos em várias bases cientificas mundiais. Segundo Capobianco (2010, p. 88) “até o momento, a estrutura de literacia digital de Eshet-Al-Kalai é considerada uma das mais completas e coerentes para pesquisas e para elaboração de ambientes digitais”.

Do entendimento de literacia em função do processo de escrita e leitura à sua utilização para designar atividades que envolvem leitura e escrita por meio dos recursos das TICs, houve apenas uma ampliação de seu significado. A idéia de literacias, no plural, surgiu posteriormente, em virtude das possibilidades oferecidas pelos ambientes virtuais. A perspectiva de literacias digitais e a conseqüente formulação de modelos resultam da busca de um segumento de pesquisa que pudesse explorar os limites do conceito tradicional de literacia, conforme estabelecido pelas ciências humanas, e da literacia da informação ou informacional, conforme os parâmetros da ciência da informação. (CAPOBIANCO, 2010, p. 83)

Outro modelo de referência para pensar as literacias digitais vem de Warshchauer (2003), que apresenta um conjunto de recursos que ele defende serem fundamentais nos estudos das literacias digitais e suas consequências em nível individual e social. Recursos que o autor apresenta estão relacionados a questões físicas, digitais, humanas e sociais. Uma sintetização do pensamento de Warshchauer sobre a relação entre literacia e acesso às TIC permite traçar as seguintes premissas:

• não há apenas um tipo de literacia e de acesso às TIC, mas muitos;

• o significado e o valor da literacia e do acesso às TIC variam em contextos sociais particulares;

• as habilidades de literacia e acesso às TIC deveriam ser vistas em gradações e não de acordo com uma oposição binária entre letrados e iletrados;

• a literacia e o acesso às TIC sozinhos não trazem benefícios automáticos fora de suas funções particulares;

• a literacia e o acesso às TIC devem ser tomados enquanto práticas sociais, envolvendo acesso a artefatos físicos, conteúdos, habilidades e apoio social;

• e a aquisição de literacia e acesso às TIC não seria apenas um problema de educação, mas também de poder.

O modelo de Warshchauer, por sua vez, foi aplicado recentemente em trabalho do Observatório da Cultura Digital para compreender a relação dos idosos com a Internet no

âmbito do programa AcessaSP, tendo obtido resultados que demonstram que estes cidadãos têm usado o computador e a Internet com mais frequência e familiaridade, ao mesmo tempo que ganham autonomia e competência no uso dos recursos digitais. A conclusão do trabalho, inclusive, ousa afirmar que até mesmo para essa parcela da população aparentemente distante das tecnologias digitais, as TIC estão se configurando para além de “uma ferramenta de comunicação ou busca de informações (...) como um importante território de produção e transformação cultural e social.” (PASSARELLI; BOTELHO-FRANCISCO; JUNQUEIRA, 2011, p. 13).

É nesta perspectiva de uma literacia digital, que considera inclusive as questões sociais envolvidas na relação com as TIC, que esta tese reconhece a digital literacy como um norteador, devido ao entendimento do digital como um paradigma e não apenas pautado nos recursos tecnológicos que o expressam, como os computadores e a Internet. Entender as literacias a partir desta compreensão, vai além dos usos e da produção de conhecimento no ciberespaço e envolve, para além disso, também questões culturais e sociais extremamente relevantes.

Várias das definições apresentadas até aqui estão centradas exclusivamente numa visão de uso da informação, como se fosse possível delas ser algum tipo de usuário. Este pressuposto não leva em consideração um novo modelo de comunicação interativo, colaborativo e autoral presente na lógica das redes e das tecnologias digitais. Tampouco a visão mais avançada de Information Literacy consegue atingir essa compreensão, já que está deveras centrada no contexto da Biblioteconomia, algo natural, já que se trata do seu nascedouro. Esta tese é favorável a uma definição ampla e generalista para o conceito de

digital literacy, como algo transversal não aos computadores, à Internet ou a qualquer TIC,

mas sim a este novo paradigma que se consubstancia na sociedade contemporânea e que perpassa não só técnicas, mas a própria Cultura. Afinal, a Sociedade em Rede não é apenas pautada na informação nem no conhecimento como algo estanque, mas como algo dinâmico e em constante mutação. E como nos lembra Negroponte (1995, p. 216), “assim como uma força da natureza, a era digital não pode ser negada ou detida. Ela dispõe de quatro características muito poderosas, as quais determinarão seu triunfo final: a descentralização, a globalização, a harmonização e a capacitação”.

Ademais, arriscamos definir, neste trabalho, que as literacias digitais envolvem as habilidades e competências para uma apropriação consciente do ciberespaço numa postura de aprendizado dinâmico, colaborativo e constante. Ainda recorrendo a Negroponte (1995, p.

218), “mais do que qualquer outra coisa, porém, meu otimismo provém da capacitação que a vida digital propicia. O acesso, a mobilidade e a capacidade de produzir a mudança são os fatores que tornarão o futuro tão diferente do presente”. Não se trata de usar a informação, mas de adotar uma postura de construção coletiva do conhecimento e de participação, comunicação e interação que, certamente, ainda não teve sequer experimentado o seu potencial. Obviamente isto é o ensaio de um conceito, já que nesta tese há a consciência de que as literacias digitais fazem parte de um terreno emergente também para novas perspectivas teóricas.

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