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Le commerce transfrontalier avec le Mizoram indien

Dynamiques agraires et économiques

IV. LA DIVERSIFICATION DES ACTIVITES COMMERCIALES

1. Le commerce transfrontalier avec le Mizoram indien

Uma boa amostra da territorialização da juventude e da adolescência pode ser encontrada no relatório da pesquisa Juventude e Escolarização, coordenada por Marília Sposito e publicada em 2002. Trata-se de um primeiro balanço, em nível nacional, de dissertações e teses apresentadas e defendidas nos programas de pós-graduação em educação, entre 1980 e 1998, abordando o tema juventude.

Embora seu tema se diferencie do nosso, este trabalho é especialmente útil para exemplificar os modelos psicológicos e sociológicos, pois as teses e dissertações apresentadas recorrem quase que inevitavelmente à psicologia, à psicanálise e à sociologia – talvez porque a pedagogia não possua, propriamente, uma teoria da adolescência ou da juventude. É por esse motivo que, a partir da publicação, essa pesquisa passou a analisar também teses e dissertações nas áreas da psicologia e das ciências sociais. Um breve recorte desta pesquisa pode melhor clarificar a discussão. Vejamos o seguinte:

Temas Disser-tações Teses Total %

Jovens, mundo do trabalho e escola 73 7 80 20,67

Aspectos psicossociais de adolescentes e jovens 67 9 76 19,63

Adolescentes em processo de exclusão social 57 7 64 16,53

Jovens universitários 40 14 54 13,95

Juventude e escola 45 5 50 12,91

Jovens e participação política 15 8 23 5,94

Mídia e juventude 11 2 13 3,35

Jovens e violência 8 3 11 2,84

Grupos juvenis 9 0 9 2,32

Jovens e adolescentes negros 4 0 4 1,03

Outros 3 0 3 0,77

Total 332 55 387 100

(SPOSITO, 2002, p.16-17) Ao observar a tabela anterior, merecem nossa consideração pelo menos dois pontos em particular.Primeiro, o fato de encontrarmos, em profusão, ao lado de trabalhos que tratam da escola e do ensino superior (pois a área de pesquisa é a educação), os temas “mundo do trabalho”, “aspectos psicossociais de adolescentes e jovens” e “adolescentes em processo de exclusão social”, somando cerca de um terço das produções discentes. Segundo, a escassez de temas que, a princípio, estariam tão relacionados à educação quanto estão o trabalho, os “aspectos psicossociais” e a exclusão social. O tema “mídia e juventude”, dentro do qual se enquadraria este trabalho, está dentre os menos explorados, muito embora, já a partir do início dos anos 90, como expõe Fischer (1996), a mídia tenha explodido em produções voltadas a esse “público”, na televisão, nas revistas, nos jornais e folhetins etc.29

E o que foi elencado nos aspectos psicossociais? Nesta categoria, figuram os temas “orientação escolar”, “sexualidade e relações de gênero”, “valores”, “família”, “drogas” e “identidade” etc. Reúne-se nela todos os problemas que foram explorados através de teorias psicológicas nesses trabalhos de pós-graduação. Ora, mas não estariam a família, os sistemas de valores e a sexualidade tão relacionados à forma de viver em sociedade quanto o “mundo do trabalho” e a “exclusão social”? Não há porque realizar tal categorização e limitar tais territórios existenciais da adolescência e da juventude a algo de natureza puramente psicológica, relacionando, contrariamente, as questões laborais e de exclusão social às teorias sociológicas. Afinal, em ambos os casos, os processos são duplamente descentrados ou, pelo menos, podem se explorados pelas vias psicológicas e sociológicas.

A exploração de qualquer um desses territórios existenciais, os vínculos familiares, o vício em drogas, o mundo do trabalho, a situação de exclusão, faz parte de uma mesma

29 O objetivo dessa exposição não é uma demonstração estatística. Ressaltamos os temas mais e menos

fortemente relacionados à juventude e à adolescência pelos saberes científicos, de modo a desenhar um limite territorial para a publiciade televisiva.

máquina de produção da subjetividade adolescente e juvenil. Se, de um lado, se produz coletivamente determinados modelos de identidade para a adolescência e para a juventude no senso comum, esses se entrecruzam e se agenciam ao discurso dos especialistas, psicólogos, psicanalistas, sociólogos etc. Assim, ao adotar um ou outro método de pesquisa, e ao eleger determinados fatores como fundamentais, reduzindo outros a derivações ou complementos dos primeiros, pode-se produzir um modelo de identidade da juventude ou da adolescência.

É assim, por exemplo, que a psicologia do desenvolvimento, segundo Jobim e Souza (1997), autoriza e legitima a construção de teorias e conceitos sobre os aspectos sociais, cognitivos, afetivos e psicomotores, tanto da infância como da adolescência. Esta produção científica não se limita, entretanto, simplesmente a observar e a descrever cientificamente seu objeto, mas, na mesma ação de investigação, também formula ideais para o desenvolvimento e aprovisiona os meios para promovê-los nas crianças, nos adolescentes e até mesmo nos adultos. Seu discurso, assim, é um dos componentes responsáveis por produzir a adolescência.

[...] Se por um lado a psicologia do desenvolvimento pretende compreender e iluminar fatos desconhecidos sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente, por outro, ao investir nesta direção, acaba por se tornar propriamente estruturadora da experiência da criança, ou seja, os comportamentos cognitivos, afetivos, psicomotores, psicossociais, etc., passam a ser moldados por determinadas características descritivas, além de emergirem cada vez mais cedo na vida da criança. Isso significa afirmar que os estudos e pesquisas psicológicos têm conseqüência sobre o sujeito em formação, ou seja, sua função interpretativa permite a produção e o consumo de conceitos pelo conjunto da sociedade. Esses conceitos vão sendo construídos e reconstruídos no interior das teorias, passando a interferir diretamente no comportamento de crianças e adolescentes, modelando formas de ser e agir de acordo com as expectativas criadas, tendo por base interesses culturais, políticos e econômicos do contexto social mais amplo. O poder, nas sociedades contemporâneas, não se faz tão somente pelo controle dos meios de produção, mas também pelo controle da produção de sentidos. (Jobim e Souza, 1997, p.41-42)

O que percebemos também é que esses discursos científicos sobre a juventude e a adolescência passam, hoje, necessariamente pela mídia. Como observa Fischer (1996), nos meios de comuncação em massa é produzido um discurso especializado em adolescência e juventude. Estes especialistas, das mais diferentes áreas do saber, da medicina, psicologia, sociologia, pedagogia etc procuram definir o que é ser jovem ou adolescente e quais as preocupações, precauções e prescrições necessárias a esta condição. Estes discursos, portanto, se fazem acompanhar de lutas e de conquistas sociais para a proteção dos adolescentes e jovens, que encontram grande receptividade da mídia.

Num tempo de AIDS, de histórias de anorexias e bulimias, de inúmeras campanhas dirigidas ao adolescente, para que aprenda a fazer o “sexo seguro”, desfilam os arautos de um novo modo de “cuidar” e de definir o jovem e o adolescente. Nos consultórios médicos, nas universidades, nas clínicas psiquiátricas, nas escolas, nas famílias, nas instituições jurídicas, assistencialistas e políticas, nas agências de publicidade, nos institutos de pesquisa e, sobretudo, na mídia, o sujeito adolescente é constituído, falado, pensado e colocado na ordem do dia. Seu corpo e sua sexualidade merecem estudos diferenciados, conforme os grupos e classes sociais considerados: médicos criam grupos de educação sexual, para prevenir gravidez e AIDS na adolescência, dedicando atenção especial às meninas de camadas populares. Pesquisadores da área da educação incluem em suas investigações um grupo novo: os meninos de rua, para quem as palavras adolescência e infância traduzem mais uma ausência do que propriamente um estágio da vida. Pedagogos ocupam- se com crianças precocemente “adolescentizadas” e com jovens “infantilizados” que adentram as universidades. (FISCHER, 1996, p.21, grifos nossos)

Através da mídia, esses saberes se entrecruzam com um sentimento da “realidade”: os mais corriqueiros fatos cotidianos (aquela reportagem da escola de subúrbio), depoimentos personalíssimos da intimidade (a adolescente que decidiu ser emo), trajédias que são exploradas à exaustão pelo jornalismo (o “menor” que matou a namorada) ou filmes baseados em experiências pessoais (a adolescência delinqüente de Kids30). Ao mesmo tempo, estes discursos se encontram com um quê de “magia” da juventude e com sua “beleza eterna”: ficções holywoodianas que capturam nosso olhar (de Juventude Transviada31 a High School

Musical), novelas adolescentes (como Malhação, da Rede Globo32) e produções publicitárias

as mais desejáveis (da famosa propaganda do “primeiro sutiã”, de Olivetto, ao uso quase imperceptível de merchandising dentro das novelas).

E podemos mesmo nos perguntar: o quanto o discurso da mídia, inclusive a produção publicitária, se apropria do mesmo tipo de objetivação do sujeito empreendida pela ciência? Nas publicidades voltadas para o jovem, de revistas à televisão, passando pelo rádio etc, o que

30 Kids é um filme estadunidense de 1995, que apresenta um conturbado e chocante mundo de adolescentes que

consomem drogas, cometem violência e praticam sexo indiscriminadamente. O filme apresenta uma série de tramas paralelas, que produzem a adolescência como um período perigoso, na qual o próprio adolescente pode prejudicar seriamente sua vida.

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Juventude Transviada (Rebel Without a Cause) é um filme de 1955, que apresenta a história de Jim Stark, um jovem “rebelde”, interpretado por James Dean. Na trama, Jim é preso por embriaguez e desordem, enquanto detido, conhece um rapaz e uma moça também “problemáticos”. Depois de ser libertado, ele tenta se aproximar da garota, mas cria um desentendimento com o namorado de Judy, que é o líder de uma gangue do colégio.

32 Malhação é uma novela teen, no ar desde 1995 e que mostra o cotidiano fictício de adolescentes de classe

média do Rio de Janeiro. Durante seus 14 anos de existência, a novela mudou inúmeras vezes de cenário, de trama e de personagens. A primeira fase de Malhação teve como cenário uma fictícia academia Malhação, que deu nome ao programa. Com o fim da academia, criou-se o colégio Múltipla Escolha. Atualmente, o local tornou-se metade universidade e metade shopping.

vemos é um discurso de sedução através de um suposto saber sobre a identidade verdadeira deste sujeito – discurso que se faz seguir da estratégia de associação dessa identidade produzida a certos bens para, por meio deles, poder comercializá-la. Como pensar a construção ou produção de modelos de identidade nesse contexto?

Quanto a essa questão, Sampaio (2004), aponta todo o investimento de capital e de pessoal efetuado pelas agências de publicidade para traçar perfis de consumo da infância e da adolescência. A autora chama à atenção, em particular, para a pesquisa intitulada Projeto Kids, produzida pela agência de publicidade Young & Rubicam e, posteriormente, editada pela Rede

Globo. Essa pesquisa foi desenvolvida por psicopedagogos, com base na sistematização de

aspectos fundamentais das teorias de Piaget, Freud etc.

O estudo empreende, com base nas territorializações da psicologia, a segmentação de diversas faixas etárias, buscando a circunscrição de suas “características” de personalidade específicas e tranformando tais idades em targets da publicidade. O Projeto sugere ainda, com base nestas características do desenvolvimento, quais estratégias de comunicação seriam mais eficazes nas produções publicitárias, com relação a cada faixa de idade.

Segundo a pesquisa, a adolescência seria composta por aqueles entre os 12 e 17 anos de idade – portanto, em conformidade com o ECA. Nessa fase, ainda segundo a pesquisa, os adolescentes experimentariam mudanças corporais e descobririam que suas idealizações do mundo, dos adultos e de si mesmos não correspondem aos fatos reais e, portanto, seriam extremamente sensíveis. “Inseguros quanto à própria identidade, num período de transição da infância para a vida adulta, eles assumem comportamentos e recorrem a objetos que sinalizem o seu vínculo com grupos que eles tenham mais afinidade.” (SAMPAIO, 2004, p.184). Além disso, nessa fase, estariam também bastante interessados na questão da sexualidade. Ao mesmo tempo, começariam a raciocinar em hipóteses e a imaginar um mundo diferente daquele com o qual se deparam. Dessa forma, já tendo abandonado o mundo de imaginação, passam a se voltar para os ídolos da música, do futebol, da luta política etc.

O Projeto conclui, portanto, que a comunicação deve focalizar a forte ligação do adolescente com seus grupos, mas deve também ter sensibilidade de considerá-lo enquanto indivíduo frágil e suscetível. Isso significa, então, que a comunicação deve considerar a fragilidade individual é compensada pelos signos – grifes, etiquetas, jeans, tênis, camisas – que são comportilhados pelos grupos. Dessa forma pode-se perceber que “o eixo fundamental do ordenamento das diversas faixas etárias é estabelecido com base no desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente e compreendido como tendo uma validade genérica indiscutível.” (SAMPAIO, 2004, p.186).

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