Devido à estreita ligação entre a Engenharia e o setor produtivo
(KAWAMURA, 1979), foi possível constatar que a nomenclatura
“reengenharia”, utilizada na reforma da Engenharia, possui referência em
modelos de produção de origem japonesa. De acordo com LAUDARES (1995),
a “primeira revolução industrial” caracteriza-se pela invenção da máquina a
vapor, com predominância de baixa produtividade; a “segunda revolução
industrial”, pela produção de motores elétricos a combustão, com
características baseadas na produção em massa e em série, e gerenciamento
centralizado/hierarquizado. Segundo o autor, a “terceira e última revolução”, em
que nos encontramos, tem sido atribuída ao uso de máquinas controladas pela
eletrônica e da informática, com a criação e o desenvolvimento de capacidade
tecnológica.
Analisando essas transformações, pode-se afirmar que, por um lado, o
campo científico ou parte dele, há algum tempo, tem se adequado aos
interesses econômicos; por outro lado, a crescente transformação dos
conhecimentos científicos em serviços e produtos tecnológicos, nas mais
variadas áreas do saber, tem constituído cada vez mais um fator
preponderante para a sobrevivência do campo econômico, sobretudo nos
momentos em que prevalece a maior liberação da economia em escala
mundial, provocada pelo processo de globalização. Esse fenômeno tem gerado
a elevação da competitividade no setor produtivo, especialmente em relação às
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 60
atividades do setor industrial
7. Diante dessa dependência recíproca entre o
campo econômico e o campo científico, e desse contexto de guerra para se
manter no mercado ou conquistar novos espaços, tornou-se relevante para
esta pesquisa a análise das novas formas de atuação e das novas relações
que se estabelecem entre o setor industrial e o setor de Engenharia.
Primeiramente, deve-se considerar que, do ponto de vista técnico,
historicamente a Engenharia tem sido a área do conhecimento humano
responsável pela transformação dos conhecimentos científicos na produção de
novas invenções tecnológicas, tais como rádio, televisão, automóvel, telefone,
entre outras. No entanto, pode-se observar que essas invenções têm sido
acompanhadas de modificações constantes, buscando-se gerar serviços e/ou
produtos diferenciados por tecnologia, normalmente denominados de
inovações. Nesse aspecto, LONGO (1997) tem procurado identificar e
esclarecer esse processo de inovações da seguinte forma:
Os EUA investem cerca de metade dos recursos mundiais para pesquisa e desenvolvimento, possuem a maior infra-estrutura universitária, científica e tecnológica do planeta e já receberam mais de duzentos Prêmios Nobel. Em contrapartida, o Japão pouco tem contribuído para o avanço científico e recebeu apenas seis Nobel. Como explicar o sucesso japonês na era da tecnologia de base científica? Evidentemente, existem muitos fatores envolvidos: psicossociais, econômicos, e políticos. Tecnicamente, porém, a explicação está na Engenharia, que é o que transforma os inventos em bens de serviço, ou seja, em inovações. A capacidade de “engenheirar” concepções próprias
7
Sobre a globalização, LONGO (1995) esclarece que esse processo não apresenta quase nada de novo quanto possa parecer, pois o que vem ocorrendo no campo econômico, nos últimos anos, é uma acentuação do processo político de planetarização, que consiste em um novo processo de acumulação capitalista em que basicamente três regiões de maior poderio tecnológico (Estados Unidos, Japão e parte da Europa) estariam provocando uma nova forma de imperialismo (econômico) sobre as demais nações. O autor acrescenta que, do ponto de vista das finanças, os governos de todo o mundo têm, cada vez mais, perdido o controle sobre a circulação dos registros contábeis devido ao fácil trânsito de capitais pelo processo eletrônico. Constata-se, assim, a presença de grandes especulações financeiras. E no que diz respeito à produção, observa-se a intensificação do processo de abertura e disputa de mercado pelos três grandes blocos econômicos, com expressivo deslocamento de empresas multinacionais por todo o mundo, devido às condições favoráveis encontradas em vários países.
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 61
ou de outros, primeiro, melhor e mais barato que os concorrentes, é fundamental. (LONGO, 1997, p.10 )
Com o intuito de discutir melhor esse fenômeno, apresento algumas
idéias sobre o tema, presentes na literatura recente. De acordo com
LAUDARES (1995), as inovações no campo da produção de bens e serviços
centram-se, sobretudo, nas “inovações organizacionais” baseadas em modelos
de origem japonesa. Nos moldes do Ohnismo ou Toyotismo
8, com forte
predominância para a otimização industrial, esse modelo econômico apóia-se
basicamente em dois pilares principais: flexibilidade e integração. Assim,
segundo BOYER (1986), encontra-se flexibilidade na organização e geração da
produção, na formação de contratos e salários, e na gestão das empresas. A
integração, conforme RUAS (1993), baseia-se na utilização de máquinas
especializadas, polivalentes e interconectadas e no desenvolvimento de
trabalhos em equipe, com vias a responder rapidamente às flutuações do
mercado para que seja atingido um elevado padrão de qualidade, com redução
de custos e elevação da produtividade. Para alcançar os objetivos desse
modelo de inovações, buscam-se as ferramentas denominadas qualidade total
e reengenharia. Diferenciando esses termos, BERTONI (1994) define
qualidade total genericamente como uma otimização dos processos e serviços
sem mudanças radicais. Entretanto, quando não se trata apenas de reformular
ou fazer mudanças que deixam as estruturas intactas, de acordo com
HAMMER e CHAMPY (1994), deve ser perseguida a reengenharia, ou seja,
uma reestruturação radical dos processos industriais.
8
Segundo CORIAT (1993) o ohnismo é um sistema de produção, em séries restritas, de produtos diferenciados e variados; difere do fordismo que se baseia na fabricação de produtos padronizados e em grande quantidade (produção em massa). Já o toyotismo, de acordo com WOOD (1993), não somente caracteriza-se com base na eliminação de estoques de reserva e em procedimentos just in time, mas também leva em consideração as relações humanas, que fornecem a base para o controle de qualidade total e o envolvimento dos trabalhadores na racionalização.
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 62
Esse modelo de produção encontra correspondência com os estudos
desenvolvidos por DREIFUSS (1996), que aponta para uma profunda
reestruturação produtiva e uma abrangente reorganização da sociedade
ancoradas no uso intensivo e em larga escala “da microeletrônica e eletrônica
digital; da eletrônica de concepção, produção e consumo; da informática; das
telecomunicações; da automação; e da robótica, tanto no processo de
produção e no próprio produto quanto nas novas formas de existência social"
(DREIFUSS, 1996, p.25). Com esse arsenal tecnológico, a produção em massa
é substituída pela especialização flexível. Nesse sentido, novas idéias podem
ser transformadas em novos produtos, e a produção passa a ser feita de
acordo com as demandas do cliente, pois exige perícia e flexibilidade tanto da
máquina quanto do operador. É claro que essas transformações ocorrem em
ritmo desigual nos diferentes países do mundo, assim também como seus
efeitos são analisados em diferentes perspectivas. De qualquer forma, sem
dúvida, elas mudam as concepções acerca do perfil do trabalhador;
consequentemente, têm um grande impacto na maneira de se pensar a
educação escolar. Em decorrência disso, assiste-se a uma intensificação de
reformas curriculares, voltadas para o desenvolvimento no aluno de habilidades
como criatividade, autonomia, desenvolvimento do pensamento divergente e da
capacidade de comunicação, competências consideradas fundamentais para o
trabalhador.
Outra questão que se tornou objeto de análise foram as modificações
nas relações de trabalho nos últimos anos. Na época do taylorismo
9, segundo
MORAES NETO (1996), assiste-se a uma “tentativa de transformar o homem
numa máquina, e não de substituir o trabalho humano pela máquina” (p.68). O
autor acrescenta que a proposição de Taylor simbolizou a quebra do monopólio
9
O método de Taylor consistia em exercer forte controle sobre a produtividade e expressava- se na rigorosa definição das rotinas operacionais e na rapidez de execução dos gestos dos operários.
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 63
das etapas do saber-fazer do operariado e a transferência das atividades de
concepção e execução do trabalho para técnicos e engenheiros. No entanto,
devido ao crescimento tecnológico das últimas décadas, o homem tem sido
substituído pelas máquinas, principalmente nos novos processos industriais,
em que o aparato instrumental de máquinas e equipamentos tem causado a
substituição direta de mão-de-obra, fato que pode ser comprovado através da
robótica e/ou do microeletrônica na redução e controle das tarefas a serem
executadas.
Contrapondo-se aos discursos de que essas modificações no campo
econômico são novas, estudos desenvolvidos por ZARIFIAN (1990) têm
evidenciado que as propostas do setor industrial representam mais “uma
combinação do que uma substituição entre formas antigas e novas de se lidar
com a questão da produtividade” (ZARIFIAN, 1990, p.73). Nesse sentido, o
autor defende a idéia de que essa tentativa de inovar pode ser considerada um
verdadeiro retrocesso. Argumenta que a busca de integração e flexibilização
“trata-se de um ressurgimento moderno do liame entre trabalho e produto que
era constitutivo do ofício artesanal” (ZARIFIAN, 1990, p.95)
10, e, no momento,
tem sido exercida de forma mais complexa e cientificizada.
Outra questão relevante defendida pelo autor diz respeito ao
movimento de retaylorização, que se vem processando
devido à “nova lógica
da produtividade, que é uma lógica de velocidade de ação do sistema técnico
em si” (ib., p.82). Isso é verificado, a partir do momento em que as regras do
trabalho têm se baseado em “não deixar a máquina parar”, com a substituição
da centralização na operacionalidade do trabalho para a centralização nas
operações das máquinas, tais como velocidade de execução, regulagem e
confiabilidade das instalações, circulação e estocagem de produtos.
10
Segundo esse mesmo autor, antes do modelo de Taylor, existia o “método por iniciativa e incentivos” para tentar melhorar o rendimento dos operários nas empresas. Tal método consistia basicamente em estimular a intensidade do trabalho executado e controlado pelos próprios operários através, por exemplo, de um estímulo financeiro.
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 64
De qualquer forma, embora não seja do nosso interesse aprofundar em
questões específicas do campo econômico, destaque-se que, de acordo com
estudos realizados por LEITE (1996), esses novos métodos têm favorecido a
atuação do engenheiro e a capacitação do grupo para lidar melhor com essas
questões; abrem-se, assim, novas perspectivas para o trabalho técnico.
Segundo pesquisas apresentadas pela autora, em várias empresas, por um
lado, há evidências de redução de emprego, o que atinge sobretudo a
categoria de trabalhadores não-qualificados; por outro, verifica-se que, “para
técnicos e operários qualificados, o emprego tende a aumentar, ou, na pior das
hipóteses, a permanecer estável” (LEITE, 1996, p.156).
A partir do momento em que o modelo de inovações ganha força e se
destaca no campo econômico, é de se esperar uma grande tendência no
sentido de adequar a vida das pessoas em todos os seus aspectos – político,
cultural e educacional – a essa nova forma de desenvolvimento do capitalismo
moderno. Nesse aspecto, os vários estudos no campo da teoria crítica de
currículo
11têm demonstrado a forte influência que o campo econômico exerce
sobre o campo educacional. De acordo com essa perspectiva, BERNSTEIN
(1996a) tem denunciado a estreita vinculação existente entre os currículos das
escolas e o campo econômico em todos os níveis da educação — desde o
Ensino Fundamental, com o desenvolvimento de “destrezas básicas”, o Ensino
Médio, através da educação “vocacional e especialização” até o Ensino
Superior, com “novos instrumentos de controle estatal e pesquisa”. Destaca o
autor:
Nas últimas décadas, com o desemprego crescente, a nova revolução nas comunicações e com uma competição internacional crescente, o vínculo entre educação e produção é visto como crucial, e o fracasso da economia em se desenvolver é atribuído ao fracasso da educação em fornecer as destrezas relevantes. A educação é vista como muito
11
Dentre os vários estudos desenvolvidos pela Sociologia do Currículo, encontram-se YOUNG (1987), APPLE(1989), MOREIRA eSILVA (1994), BERNSTEIN (1996).
Capítulo1 Contextualizando o Programa REENGE 65
abstrata, muito distante do trabalho, muito narcisista. A educação se torna vocacionalizada, mais dependente das necessidades do campo econômico e mais dirigida pelos princípios derivados desse campo. (BERNSTEIN, 1996a, p.215)
Outras contribuições do autor mostram que, devido à importância que
tem sido atribuída às questões tecnológicas em conformidade com as novas
tendências do campo econômico, tem havido uma correspondência entre o que
ocorre com conhecimento científico e o que acontece com o capital financeiro:
flui para qualquer lugar, divorciado do fator humano e, às vezes, representa o
próprio dinheiro devido à sua comercialização. Nesse contexto, deve ser
ressaltada a força que o conhecimento científico vem adquirindo como forma
de poder crescente para aqueles que o detêm, deslocando-se da produção
convencional de bens e serviços do setor secundário, para formas cada vez
mais abstratas de produção
12.
Com o propósito de ampliar a compreensão dessas questões, deve-se
ressaltar que, por um lado, os estudos da teoria crítica de currículo apontam
para a influência do campo econômico sobre o sistema educacional para
adaptá-lo às transformações do setor produtivo; por outro lado, POPKEWITZ
(1997), ao desenvolver outros estudos baseados na perspectiva pós-crítica de
currículo, alerta que a relação entre as escolas americanas e a economia é
menos direta do que parece. De acordo com autor, muitos professores têm
procurado vincular o ensino a um modelo de produção como parte de uma
estratégia para receber benefícios materiais e sociais.
Diante dos estudos apresentados sobre as transformações do campo
econômico, percebe-se que, nas últimas décadas, o modelo de produção tem
se baseado no modelo de inovações da indústria japonesa devido às
12
Neste caso, faço referência à produção simbólica, que supera economicamente a produção
de bens e serviços, como já vem ocorrendo em alguns setores da sociedade, tais como, em
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