problématique de recherche :
2.5 Conclusion concernant ces approches théoriques : quelle posture de recherche ?
Trata-se de um estudo do tipo analítico, com abordagem qualitativa, que teve como objetivo geral analisar a banalização dos problemas e das questões da saúde dos trabalhadores, como formas de violência presentes no trabalho. A abordagem qualitativa trabalha com a profundidade das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à quantificação humana (MINAYO, 2004).
Para a execução do presente estudo, utilizou-se a técnica de coleta e análise de informações através da história oral temática, considerando sua importância na narrativa dos trabalhadores, verificando as alterações na saúde desses em relação às manifestações de violência em seu ambiente de trabalho.
Segundo Meihy (2002), história oral consiste em gravações premeditadas de narrativas pessoais, feitas diretamente entre o entrevistador e o entrevistado. Destina-se a recolher testemunhos, promover análises de processos sociais do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato.
Meihy (2002) afirma que, na história oral temática, os detalhes da história pessoal do narrador apenas interessam na medida em que revelam aspectos úteis à informação temática central. Utiliza-se para a sua realização uma entrevista prolongada, em que combinam roteiros centrados em um tema, com observação e relatos introspectivos de lembranças e relevâncias, através da interação do pesquisador com o sujeito pesquisado, trazendo uma maior riqueza aos resultados dessas informações.
Nesta perspectiva, o entrevistado é a testemunha dos acontecimentos, ou seja, o ator social dos fatos presentes vivenciados em seu ambiente de trabalho, que, pela realização da entrevista centrada no tema deste estudo, irão levar à compreensão do mesmo.
Para Meihy (2002), determinados passos conduzirão a pesquisa, a saber: tema, justificativa, definição da colônia, formação da rede, entrevista, transcrição, conferência, uso e arquivamento.
O estudo foi desenvolvido no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Gerência Executiva Natal (GEXNAT), no Rio Grande do Norte, instituição Pública Federal do Ministério da Previdência Social.
Inicialmente foi definida a colônia, que se refere à população-alvo constituída pelos trabalhadores de nível intermediário, lotados nas Unidades de atendimento desta
GEXNAT, sob o regime estatutário em atividade formal, reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), e com relato de história de sofrimento por violência desencadeada pela banalização dos problemas e das questões de saúde no ambiente de trabalho. Os membros que compõem a colônia foram constituídos por uma rede que foi delimitada a partir do ponto zero, ou seja, o primeiro entrevistado que conhecia a história do grupo e serviu como guia para indicar outros componentes, os quais, por sua vez também apontaram outros colegas que passaram por situações semelhantes à sua. O momento de cessar as entrevistas foi sinalizado pela saturação e repetição das respostas, conforme orientação das pesquisas do tipo qualitativa.
A coleta de informações aconteceu no período de 22 de julho a 01 de setembro de 2008, após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFRN, através do parecer no 090/2008, protocolado sob o n0 037/08 (ANEXO A), e da autorização formal da instituição (ANEXO B e C).
Para coleta das informações, foi usado o instrumento de pesquisa de entrevista individual com roteiro semi-estruturado, contendo questões norteadoras, a partir de perguntas geradoras capazes de captar o discurso dos entrevistados enquanto importantes ao conhecimento do objeto (APÊNDICE B). Acrescentou-se, ainda, informações estatísticas a respeito de contratações, afastamentos e aposentadorias por doença e morte, buscadas nas fichas médicas dos trabalhadores nos seus locais de trabalho, bem como no setor de recursos humanos.
Para Meihy (2002), as questões devem ser contextualizadas e seguir uma ordem de importância capaz de inscrever os tópicos principais em análises do colaborador.
Segundo Triviños (1987), a entrevista tem propósitos bem definidos, permitindo a coleta de informações a partir de questionamento básico, apoiado em teorias e pressupostos de estudo. A utilização do roteiro semi-estruturado na entrevista possibilita a que os questionamentos sejam ampliados com base nas próprias respostas dos informantes, permitindo que os mesmos participem da elaboração do conteúdo da pesquisa.
Como parte de uma das etapas do projeto, a entrevista é composta de três fases: pré-entrevista, entrevista e pós-entrevista. A pré-entrevista corresponde à fase de preparação do encontro em que se dará a gravação. Após esta fase e marcados data, local e horário, acontece a entrevista. Aos momentos que seguem este passo, entre a
transcriação e a conferência, dá-se o nome de pós-entrevista, quando são estabelecidos novos contatos necessários para a continuidade do processo (MEIRY, 2002).
Com base nestas orientações, iniciou-se a coleta das informações após ser testado o instrumento em uma instituição pública municipal de previdência, momento em que foram corrigidas algumas falhas detectadas neste. A partir do contato prévio com os colaboradores, foram estabelecidos local e horário para a realização das entrevistas, apresentado-se a autorização da instituição, fornecida cópia do Parecer do CEP, e esclarecidos todos os procedimentos, objetivos, finalidade e importância do estudo, bem como garantidos o anonimato, ausência de ônus e desistência do colaborador a qualquer momento da pesquisa.
Por ocasião da realização das entrevistas, foi disponibilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), para ser assinado pelo colaborador e fornecida cópia do mesmo, conforme preconiza o Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (APÊNDICE A). Foi solicitada também a autorização para gravação do depoimento por meio de um equipamento de MP4.
O caderno de campo foi utilizado para registrar as observações nas entrevistas e na evolução do projeto. Meiry (2002) sugere que esse caderno funcione como um diário íntimo, onde se devem anotar os contatos, os estágios para se chegar aos colaboradores, como ocorreu a gravação, e eventuais incidentes de percurso.
Com isso, investigou-se o fenômeno da banalização das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores, como forma de violência presentes no trabalho desses indivíduos, a partir do ponto de vista dos mesmos, obtendo informações fidedignas que condizem com o objeto estudado.
Para Meihy (2002), a parte operacional do projeto inclui a especificação da operação e o detalhamento da entrevista, conforme já especificado, seguidos da transcrição, conferência, arquivamento e uso dos dados.
Para a abordagem das narrativas das vivências e impressões dos trabalhadores sobre a violência no trabalho, também foi utilizada a técnica de história oral temática (MEIHY, 2002), através da transcrição e conferência das informações, onde foram identificados e analisados os principais indicadores referentes aos riscos potenciais e situações de dano provenientes da exposição à violência por parte dos trabalhadores.
Após a coleta das informações, procedeu-se à transcrição, que segundo Meihy (2002), consiste na mudança do estágio oral para o escrito, que no primeiro momento se dá de forma fiel à narrativa. Posteriormente, corrigiu-se os abusos gramaticais e as
palavras repetidas para uma melhor visibilidade do tema, que faz parte da textualização, segunda etapa, caracterizada como a reorganização cronológica das entrevistas, seguindo uma lógica do texto, onde as idéias foram privilegiadas em detrimento da transcrição de um discurso, respeitando-se os critérios de percepção do leitor.
Posteriormente procedeu-se à transcriação onde houve interferência da autora e a conferência dos textos, esta última em concordância com o colaborador. A última etapa da transcrição é chamada de transcriação, comprometida com o texto recriado em sua plenitude, após ter sido refeito, combinado com o colaborador, a fim de legitimá-lo no momento da conferência (MEIHY, 2002).
Por conferência entende-se o momento em que, já trabalhado o texto, em sua versão final, é disponibilizada uma cópia para o colaborador autorizá-lo (MEIHY, 2002). No ato da conferência três dos entrevistados solicitaram algumas alterações no conteúdo das entrevistas, o que foi realizado.
A partir desta etapa, optou-se por denominar os colaboradores de trabalhadores, por entender-se que o estudo reflete empiricamente a sua narrativa. A fim de ocultar suas identidades, esses trabalhadores foram identificados com nomes de heróis da bíblia, por serem considerados, pela autora, exemplos de fé, de obediência, de testemunho e de esperança em uma vida plena. São eles: Abel, Enoque, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Gideão, Sansão, Rute, Sara, Ana, Noemi, Ester, Raquel, Maria, Vasti, Joquebede, e Marta.
As informações foram categorizados de acordo com o objetivo proposto, através do referencial de análise temática segundo Minayo (2004), que aborda como uma descoberta de núcleos de sentido evidenciados a partir dos temas que compõem uma comunicação, cuja presença e/ou freqüência apresentam significado para o objetivo analítico do estudo.
Neste sentido, sistematizaram-se as narrativas, agrupando-as por temática, as quais foram organizadas com base na análise das informações coletadas que referendam o objeto de estudo deste trabalho. Fez-se a interpretação das falas a partir das convergências e divergências nas respostas, o que possibilita a visão mais convergente da totalidade dos entrevistados, bem como as dissonâncias nas narrativas que diferiram da maioria.
Para a apresentação e discussão dos resultados, agregaram-se as informações, segundo categorias empíricas, definidas da seguinte forma: o cotidiano no ambiente de trabalho e sua influência na profissão e na vida dos trabalhadores; a violência presente no
ambiente e suas conseqüências na vida e na saúde dos trabalhadores; a banalização da injustiça social: a propósito da violência contra o trabalhador e sonhos divisados: a propósito da contribuição da enfermagem.
A análise foi realizada a partir destas categorias, considerando trechos simbólicos das falas dos entrevistados, como tradução de seus sentimentos e posturas em cada item abordado, dialogando com os autores de referência do estudo: Barreto (1998, 2003), Berlinguer (2004), Bourdieu (2007), Brasil (1975, 1978, 1988, 1990, 2001, 2002, 2004, 2006, 2007), Carneiro (2006, 2008), Dejours (1992, 2000), Galtung (1981), Haag et al (2001), ILO (2002), Lancman et al (2007), Medeiros et al (2006), Vitorino (2005), entre outros.
Mais do que o gesto, interessa como ele foi recebido. Mais do que a palavra, nos influencia como ela foi ouvida. Mais do que o fato, vale onde, como e quando ele nos tocou. (Lya Luft, senhora de preciosa poesia)