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b D'autres outils de catégorisations : « après raffinage »

Chapitre 2 : Pratiques actuelles de catégorisation

VI.2. b D'autres outils de catégorisations : « après raffinage »

O título deste capítulo - “Nada para a criança, sem a criança” - inspira-se na divisa , “Nada para nós, sem nós” (“Nothing about

us, without us”)2, proposta pelo movimento internacional de pessoas com necessidades especiais. O subtítulo decorre de uma reflexão em andamento sobre o reconhecimento da percepção de si e do outro enquanto seres “dotados de razão e capazes de amar, de recordar ou de dialogar”, que encontro tanto em Taylor (2009, p. 62) quanto em Ricoeur (2006). Título e subtítulo expressam, portanto, o desejo de evidenciar a alteridade da criança, em nossos projetos e estudos3, cujo objetivo maior é reivindicar, com ela, a legitimidade do que diz sobre si e sobre a escola como algo digno de interesse para a pesquisa educacional, a formação de professores e as políticas públicas. Espaços nos quais, nós adultos, esquecidos do que aprendemos na infância, tendemos a diluir, substituir ou mesmo a silenciar a palavra da criança e as questões que ela coloca para a educação por considerar ingênuos seus propósitos.

1 Este texto, com pequenas modificações, foi publicado no livro: MIGNOT, A.; SAMPAIO,C. ; PASSEGGI, M.C. (Org.) Infâncias, Aprendizagem e Exercício da escrita. Curitiba: CRV, 2014, p. 133-148.

2 Devo aos estudos de Gianini (2012) as aprendizagens realizadas com os professores surdos de LIBRAS.

3 Projeto financiados pelo CNPq: “Narrativas da infância. A criança como

agente social”, bolsa de produtividade em pesquisa (CNPq- 2014-2017;

2017-2020); “Narrativas infantis. O que contam as crianças sobre as escolas

da infância?”[CNPq/CAPES 07/2011-2, Processo nº 401519/2011-2]. “Narrativas da infância: o que contam as crianças sobre a escola e os pro- fessores sobre a infância” (MCTI-CNPq/Edital Universal - 14/2014, processo no. 462119/2014-9) – Parecer do Comitê de Ética – 168.818 HUOL-UFRN,

Nossos interesses se situam na direção das promessas enunciadas na Convenção da ONU, que desde 1989, asseguram à criança o direito de inserir sua voz nas tomadas de decisão do estado, reafirmado, recentemente, no Brasil, no “Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes”. Em sua Diretriz 05, o Plano estabelece o “Fomento de estratégias e mecanismos que facilitem a expressão livre de crianças e adolescentes sobre os assuntos a eles relacionados e sua par- ticipação organizada, considerando sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento” (Brasil, 2010).

Nossa reflexão se baseia em resultados de pesquisas em que buscamos compreender com as crianças, as relações que elas estabelecem com o mundo escolar e analisar como negociam os sentidos, as normas, os ritmos e valores das instituições educativas que as acolhem na promoção de sua formação inte- lectual e cidadã.

Em nossos estudos adotamos princípios epistemológicos da pesquisa (auto)biográfica em educação, cujo objeto, como afirma Delory-Momberger (2012, p. 524) “é explorar os processos de gênese e de devir dos indivíduos no seio do espaço social e mostrar como eles dão forma a suas experiências, como fazem significar as situações e os acontecimentos de sua existência”. Nesse sentido, a pesquisa (auto)biográfica, ainda segundo a autora (ib.), assume uma das questões centrais da antropologia social: como os indivíduos se tornam indivíduos?

Nessa perspectiva, as narrativas na primeira pessoa são fontes de pesquisa privilegiadas para se compreender como os indivíduos percebem sua condição humana em diferentes momentos da vida e em diversas situações, e como eles se ins- crevem em diferentes categorias sociais e geracionais, enquanto sujeitos singulares e universais. Ao narrar para si e/ou para o outro a própria experiência, atividade que Delory-Momberger (2008, 2012) denomina de biografização, o narrador realiza ações mentais, comportamentais e verbais pelas quais dá sentido a suas experiências, organizando-as na temporalidade de sua existência. Procuraremos aqui esboçar respostas a algumas inda- gações que se colocam quando nos propomos legitimar o

reconhecimento da palavra da criança como abertura para um novo horizonte de investigação: o da pesquisa (auto)biográfica

com crianças, a saber:

Se as pesquisas desenvolvidas com adultos têm nos aju- dado a compreender o valor heurístico da narrativa, é com a mesma convicção que podemos nos voltar para narrativas autorreferenciais de crianças?

Se a atividade de biografização é produtora de conheci- mentos para o adulto, ela o é também para a criança que narra suas experiências? Ou seja, em que medida a biografização apresenta-se como uma hermenêutica prática e portanto como prática de formação para criança?

Se a atividade de biografização se manifesta desde tenra infância, o que ela nos ensina sobre a narrativa como fenômeno antropológico (psíquico, social, linguístico, cultural)?

Se o objeto da pesquisa (auto)biográfica é explorar a gênese e o devir dos indivíduos no seio do espaço social, a pesquisa com crianças não seria então um campo privilegiado para esse objeto de investigação?

Essas perguntas que tomamos como hipóteses de trabalho apoiam-se na defesa do reconhecimento da criança como ser capaz de lembrar, refletir e projetar-se em devir, reconhecimento no qual se sustenta a tese da legitimidade de sua palavra como fonte de investigação para a pesquisa (auto)biográfica com crianças em educação.

Este texto de cunho mais teórico discute a reflexividade

autobiográfica como modo de inserção dos indivíduos na História,

não apenas como espectadores do espetáculo da vida mas também como autores e agentes dessa história. A intenção é mostrar que essa disposição humana para a reflexão sobre as experiências vividas se manifesta desde tenra infância. As narrativas das crianças nos permitem sinalizar que a reflexão estaria na base do processo de constituição da criança enquanto sujeito da experiência. Daí a importância de escutá-las e de observar como dão sentido às instituições que as acolhem na infância. Apresentamos, primeiramente, uma síntese dos

cenários e do método das pesquisas em andamento, para situar as bases de nossa reflexão, em seguida, pontuamos, aspectos mais teóricos da pesquisa, para sustentar, com as crianças e a partir do que elas nos contam, a importância de suas narrativas como fonte digna de interesse para a pesquisa (auto)biográfica em educação.

Cenários da pesquisa

O propósito central das pesquisas que conduzimos com crianças de 04 a 12 anos de idade é pois o de seu reconhecimento como sujeito de direito capaz de refletir sobre o que lhe acontece, o que lhes garante que nada para elas se faça sem elas. Trata-se portanto de compreender as relações que elas estabelecem com os cenários sociohistóricos nos quais vivem a experiências de escolarização. Como elas constroem a dimensão temporal de sua existência, tão presente em suas narrativas: “quando eu crescer...”; “para quando for grande...”; “ainda sou criança...”.

Nossos projetos abrangem três regiões brasileiras: Norte, Nordeste e Sudeste, e se desenvolvem nos municípios de Natal (RN), São Paulo (SP), Niterói (RJ), Recife (PE) e Boa Vista (RR), compreendendo escolas públicas e classes hospitalares, com o propósito de examinar nessas amostragens a diversidade cultural do país e duas modalidades de acolhimento escolar da criança: as escolas regulares e as classes hospitalares. O corpus da pesquisa está constituído por narrativas gravadas e transcritas, recolhidas pelas próprias pesquisadoras, em três escolas de aplicação, vinculadas a universidades federais, implicadas na pesquisa (UFRN, Unifesp, UFF); duas escolas da rede municipal, uma em Recife, outra em Natal; uma escola no extremo Norte do país, situada numa comunidade indígena, que reúne crianças de três etnias: Macuxi, Taurepang e Wapixana e, finalmente, uma classe hospitalar em um hospital pediátrico de Natal-RN. Como critério dessa escolha, decidimo-nos por aquelas que acolhem crianças de diferentes origens sociais, com o propósito de cruzar informações que pudessem dar início a um primeiro mapeamento de escolas da infância a

partir da visão de mundo de crianças representativas de parte da diversidade cultural país.

A escolha da faixa etária - de 04 a 12 anos de idade - situa a proposta numa perspectiva transversal, com o objetivo de obser- var como evoluem, em suas narrativas, os modos de significar a travessia da educação infantil para o ensino fundamental. Um dos objetivos da pesquisa é compreender a criança em seu duplo estatuto: o de criança pequena que ingressa no mundo escolar, bem mais diversificado do que o universo familiar, e o estatuto de aluno(a) na interação com o universo escolar, supostamente promotor da constituição da criança cidadã e como sujeito de direito.

Para a recolha das narrativas optamos por rodas de con- versa, constituídas por grupos de no máximo 05 crianças e no mínimo 03, de faixa etária próxima. Participaram da pesquisa em torno de 90 crianças, mas esse número tende a crescer pela inclusão de crianças que vivem em comunidade quilombolas no Rio Grande do Norte e no Maranhão. Quanto à forma de desencadear a conversa, partilhamos um protocolo comum4, que propõe a presença de um pequeno alienígena que vem de um planeta onde não tem escolas. A presença do alienígena no grupo responde ao desejo de provocar o distanciamento necessário entre a criança e as pesquisadoras, convocar o ima- ginário infantil, a ludicidade e a reflexão crítica da criança face a necessidade de negociações culturais com o Alien e a pesquisadora. A função de mediador da construção narrativa, desempenhada pelo Alien, como o chamamos, é a de ajudar a criança a lidar com eventuais conflitos e desenvolver meios de sedução e de persuasão para envolve-lo naquilo que contam. Podemos dizer que o protocolo vem atingindo os objetivos esperados em todas as unidades da pesquisa, permitindo a familiarização da criança com o pesquisador, e vice-versa, o desvelamento do universo escolar, construído pela criança, e o

4 O protocolo do projeto internacional “Raconter l’école en cours de sco-

larisation” [Falar sobre a escola durante a escolarização], coordenado

por Martine Lani-Bayle, da Université de Nantes, do qual participam colegas de mais quatro países e ao qual o nosso projeto se vincula.

reconhecimento da criança como ser capaz de refletir e dialogar sobre suas experiências e as diferenças entre elas e o outro.

As rodas de conversa foram estruturadas em torno de três momentos: abertura (momento da apresentação do Alien); desenvolvimento (conversa das crianças com o Alien e a pes- quisadora); fechamento (retorno do Alien ao seu planeta).

Embora ainda estejamos longe de responder às complexas perguntas que foram se impondo à nossa reflexão à medida que buscamos interpretar as falas das crianças sobre elas mesmas e a escola, alguns trabalhos dão conta de diversos aspectos da pesquisa: Passeggi et al (2014a, 2014b) apresentam o conjunto da pesquisa; Furlaneto et al (2014) centram-se na dimensão do corpo na escola; Gabriel et al (2014) focalizam a pesquisa numa escola indígena; Chaves, 2014, o imaginário; Passeggi; Rocha (2012, 2014), as classes hospitalares; De Conti; Passeggi (2014), a importância do lúdico como método de pesquisa. Esses primeiros resultados tornam-se instigantes pelas novas entradas para a pesquisa (auto)biográfica com crianças.