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123 Des orientations de principe pour différentes instances culturelles

A escolha da teoria de uma dissertação deve guiar-se pelo objetivo definido para o desenvolvimento redacional. No presente trabalho, estudamos aspectos residuais no

Auto da Compadecida. Um estudo com essa finalidade não pode ser feito do ponto de

vista da periodização.

Como vimos, a Compadecida apresenta resíduos da Idade Média européia, compreendendo uma época finda antes do Descobrimento do Brasil. Assim, é impraticável estudar o fenômeno dos resíduos medievais na cultura nordestina através da historiografia oficial, pois estaremos confinados às paredes limítrofes dos períodos. Os próprios historiadores literários sentem essa dificuldade, visto que as divisões periodológicas são arbitrárias e quase sempre condicionadas às divisões políticas — os períodos recebem nomes de monarcas (Luís XV, por exemplo) ou etiquetas derivadas desses nomes (era vitoriana, era elisabetana) — ou às divisões cronológicas (Renascimento, Quinhentismo), mescladas a termos de conteúdo estético (Classicismo, Romantismo), que “significam apenas a necessidade de um esquema para a apresentação da obra, sem qualquer princípio normativo”, conforme atesta Afrânio Coutinho, em A literatura no Brasil132. Esclarece o historiador:

Destarte, o critério político ou meramente numérico, de acordo com as separações políticas ou indicadas por grandes acontecimentos históricos ou literários, não oferecem qualquer orientação para a caracterização literária do período, pois implicam o reconhecimento da dependência e determinação da literatura pelos acontecimentos políticos ou sociais.133

Coutinho reconhece que a periodização literária, assim como o princípio da história literária, deve proceder de um “conceito geral de literatura”. Observa ainda que

132

COUTINHO, Afrânio e COUTINHO, Eduardo de Faria. A literatura no Brasil, vol. 1, 3ª ed. Revista e atualizada. Rio de Janeiro: José Olympio / EDUFF, 1986, p. 12.

a periodização literária ideal deve obedecer a critério estreitamente literário, “a partir da noção de que a literatura se desenvolve como literatura”.134 Tentando equacionar esse problema, Coutinho apresenta o conceito de “zonas fronteiriças” de transição entre os períodos. Em sua opinião:

a nova periodologia assim equacionada encerra outra noção importante: em vez da sucessão dos períodos, como blocos estanques, o que ressalta é a imbricação, porquanto os sistemas de normas que se substituem em dois períodos jamais começam e acabam em momentos precisos, porém se continuam em certos aspectos, repelindo-se em outros; as novas normas substituem as antigas progressivamente, imbricando-se, interpenetrando-se, entrecruzando-se, e se superpondo, criando “zonas fronteiriças”, de transição, nas fímbrias dos períodos. Assim, em vez de unidades temporais, eles são antes unidades tipológicas, a articulação fazendo-se em profundidade ou por camadas.135

No entanto, esse conceito, apesar de muito importante no ensino de Literatura, não é eficaz, quando se tenta enquadrar autores de obras discrônicas — como é o caso de José Albano, que os periodologistas não sabem em que grupo incluir, ora colocando- o entre os renascentistas, maneiristas ou neoclássicos, ora entre os simbolistas136 ou parnasianos, mas, conscientes de que não têm como classificá-lo, consideram-no ou “fora dos quadros da poesia brasileira”137, ou, como faz Sânzio de Azevedo, nele vêem

o Solitário, uma figura independente.138

134 COUTINHO, Afrânio e COUTINHO, Eduardo de Faria. Op.cit., p. 14. 135 Op.cit., p. 15.

136

Manuel Bandeira em Antologia dos Poetas Brasileiros, apesar de considerar José Albano “inclassificável dentro dos quadros da poesia brasileira”, entende que “Pela espiritualidade de sua inspiração, pela musicalidade de sua forma, pela sensibilidade por assim dizer outonal de seus versos, é dentro do quadro simbolista que melhor cabe a sua singular figura.” In: AZEVEDO, Sânzio de. “José de Albano, o Solitário” in Aspectos da Literatura Cearense. Fortaleza: Edições UFC/ Academia Cearense de Letras, 1982, p. 60.

137

BANDEIRA, Manuel. Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Simbolista. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1965, p. 176, apud AZEVEDO, Sânzio de. “José de Albano, o Solitário” in Op.cit.., p. 60.

O mesmo ocorre com António Ferreira, na Literatura Portuguesa. António José Saraiva e Óscar Lopes139 o consideram “um clássico renascentista isolado”:

Os poetas nascidos entre 1520 e 1530 cultivam as formas consagradas pelo Renascimento e introduzidas por Sá de Miranda — de quem quase todos se declaram discípulos — e ainda por vezes ecoam o triunfo momentâneo do Humanismo nos cursos de Artes de Coimbra. No entanto apenas um, o Dr. António Ferreira (1528-1569), pode considerar-se representante íntegro e sem concessões do espírito classicista e humanista que entre nós se confrontou com a tradição literária e com o espírito da Contra-Reforma.

Essas mesmas dúvidas motivaram críticos de outros países, de diferentes épocas. J. Tynianov, em seu ensaio Da Evolução Literária, escreve que “determinar o gênero dos poemas de Pushkin era um problema extremamente agudo para os críticos da década de vinte; isso porque o gênero de Pushkin era uma combinação mista e nova para a qual não se dispunha de “designação”140 .

Em 1825 o poeta A.S.Pushkin, num ensaio intitulado O poésil classitcheskoi i

romantitcheskoi (Sobre a poesia clássica e a romântica), já havia se pronunciado sobre

o assunto:

Nossos críticos ainda não chegaram a acordo, para uma clara distinção entre os gêneros clássico e romântico. Devemos a noção confusa sobre este assunto aos jornalistas franceses, que geralmente atribuem ao romantismo tudo o que lhes parece trazer o selo do devanear e do ideologismo germânico ou baseado em tradições e preconceitos do povo simples [...]. Uma poesia pode apresentar todas essas características e, ao mesmo tempo, pertencer ao gênero clássico. 141

139 SARAIVA, António José e LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. 12ª ed., corrigida e

atualizada. Porto: Porto Editora, 1982, p. 265.

140 TYNIANOV, J. “Da Evolução Literária” In: TOLEDO, Dionísio de Azevedo (org.). Teoria da Literatura:

formalistas russos. Porto Alegre: Ed. Globo, 1978, p. 114.

141

PUSHKIN, A.S. “O poésil classitcheskoi i romantitcheskoi (Sobre a poesia clássica e a romântica)”,

apud SCHNAIDERMAN, Boris. Prefácio. In: TOLEDO, Dionísio de Azevedo (org.). Teoria da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Ed. Globo, 1978, p. XI.

Se a periodologia vinculada ao conceito das zonas fronteiriças se mostra ineficaz para explicar obras discrônicas, também o é quando tenta explicar a subsistência de

resíduos de remotas eras em obras literárias atuais, porque as zonas fronteiriças

ressaltam a imbricação de dois períodos vizinhos, mas não ocorrências cuja temporalidade é de “longa duração”.

Alfredo Bosi também sente essa dificuldade. No oitavo capítulo de sua História

Concisa da Literatura Brasileira, que trata das tendências contemporâneas, no tópico

intitulado “Dois momentos”, comenta que “não é fácil separar com rigidez os momentos internos do período que vem de 1930 até nossos dias”.142 Observando o cenário literário brasileiro a partir de 1950/55, constata que a renovação do gosto pela “arte regional e popular” está direcionada para o “potencial revolucionário da cultura popular”, apresentando resultados desiguais, com exceção de alguns poemas e de “alguns textos dramáticos de Ariano Suassuna143, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Dias Gomes”.144

Roberto Pontes observa ser o resíduo a essência da literatura e, por isso, é contrário a que se enquadre uma obra ou um autor num determinado estilo de época. Sua opinião está fundamentada no artigo Em torno de um resíduo: Santa Maria

Egipcíaca. Ao analisar a Balada de Santa Maria Egipcíaca, de Manuel Bandeira,

aludindo ao título de seu trabalho, Pontes comenta ser o tema hagiográfico de Santa Maria Egipcíaca, resíduo medieval do século V d.C, o qual permanece dois anos após a

142

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 37ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999, p. 385.

143 Afora essa alusão a Suassuna, Bosi faz uma outra, no tópico “Permanência e transformação do

regionalismo”. Comenta o autor: “Combinando lenda e humor, tradição popular e paródia, o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna surpreendeu seu público com duas narrativas de fôlego, A Pedra

do Reino (1971) e O Rei Degolado (1977). Op.cit., p. 428.

Semana de Arte Moderna145, na “produção da primeira fase poética daquele que foi cognominado por Mário de Andrade o “São João Batista do Modernismo” brasileiro.146 Comprova, assim, ser o resíduo a essência da cultura e da literatura: “Significa dizer que no âmbito da cultura e da literatura não podemos falar em produções originais, sendo errôneo igualmente enquadrar determinada obra ou dado autor num estilo de época, numa escola ou num exclusivo movimento estético”.147

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