Déterminer l’existence de la surmortalité des jeunes
2.1 Modèles de mortalité
2.1.5 Choix des modèles concurrents
Ao discutirmos a tradição escrita da língua portuguesa é necessário considerar a dita norma. Atualmente, muito debatida por linguistas e sociolinguistas, a norma, enquanto gramática normativa86, vem sendo questionada por ser fonte de preconceito linguístico, e por ter carácter de segregação social da maior parte dos falantes87. A norma padrão da língua portuguesa formada, principalmente, a partir do século XIX, constantemente serve de modelo para a língua falada88
Entretanto, essa oposição entre norma e fala cotidiana tem sua origem muito anterior até ao surgimento da língua portuguesa, remetendo diretamente ao latim. Segundo Coutinho (1976, pág. 29), o latim possuía duas variedades, denominados pelos romanos de sermo urbanus e sermo vulgarisque se distanciavam em termos de estrutura, mesmo sendo parte de um mesmo sistema linguístico. Conhecidos como latim clássico e latim vulgar, há consenso na literatura de que o primeiro tratava-se do latim escrito, enquanto que o latim vulgar era a língua falada89, um proto-romanceque vai se romanizar e dar origem às línguas românicas, ou também chamadas línguas italícas, da península ibérica, entre elas, e a partir do galelo, a língua portuguesa. Tal proto-romance vai dar origem às línguas românicas não só por um processo de deriva, mas
85Sobre os métodos históricos que reconstróem a memória de um povo a partir da tradição oral e os mecanismo de atuação da mesma, conferir VANSINA, J. Oral tradition: a study in historical methodology, traduzido por H. M. Wright, 1965.
86Neste tópico, norma será compreendida como a gramática gerativa, a norma culta, a forma escrita de prestígio como demonstrado ao longo do capítulo.
87Aqui reside uma das maiores discussões atuais no campo da sociolinguística, incluindo até o falantes comum, que é o preconceito linguístico. O dialeto de cada comunidade é compreendido como uma característica identitária adquirida, não por escolha, mas fruto das relações sociais, geográficas do indivíduo, e assim seria parte essencial da sua cultura não podendo ser julgada segundo padrões normativos de imposição, porque não dizer, imperialista. Há que se considerar as consequências de uma possível busca pela abolição da norma, vez que nesta ainda reside uma estilística de poder social o qual pessoas sem o conhecimento da norma poderiam não alcançar. Então como fazer para valorizar os dialetos regionais e identitários sem promover a segregação dos conhecimentos veiculados pela norma?
88A essa discussão podemos acrescentar os estudos linguísticos formais, estruturais, que incialmente não incluíam a fala por considerá-la assistemática. O estudo da língua falada só se fez possível, em relação a sua estrutura, com o surgimento de tecnologias de gravação que permitissem a repetição e a transcrição da fala. Assim, tornando-a um objeto a ser compreendido, antes disso, as observações fonéticas de variação dialetal da fala só era possível via testes e pequenas anotações.
89Coincidentemente, há dois empregos distintos para a língua, o literário, em sua maioria escrito, usados pela sociedade culta, e dinfundido nas escolas e Academias, e o popular, em sua maioria falado, que serve o povo despreocupado e inculto. Atualmente, percebe-se essa oposição como uma discriminação. Como o adjetivo culto é, em geral, utilizado como qualidade superior, parece atribuir uma valoração maior à variedade literária.
por um processo de contato, que os filólogos analisaram enquanto substratos e superstrato, este último o latim vulgar. Essa visão será incorporada nos estudos de línguas de contato, sem a ideia de que necessariamente uma dominaria sobre à outra, mas enquanto adstratos, partes formadoras de uma mesma língua.
Carvalho (2004) chama atenção ao fato que o latim vulgar, ao invés de como parece na discussão ser uma língua uniforme que vai se dialetar, desde o início já apresentava múltiplos usos de onde decorriam múltiplos dialetos:
Ora, êsse linguajar do povo, corrente entre as diversas classes da sociedade romana, tinha que apresentar defeitos e diferentes aspectos, conforme almejado pela classe média (latim familiar), pela classe baixa (latim plebeu), pelos soldados (latim castrense), pelos marinheiros (latim náutico), pelos operários (latim proletário) e, enfim, pelos camponeses (latim rural). É nesse sentido que entendemos o que se disse que "a designação Latim Vulgar não conceitua uma língua, mas um conglomerado de falares de vários tipos".90
Apesar de haver vários socioletos na sociedade romana, alguns de mais prestígio, outros de menos, essa oposição latim clássico versus latim vulgar será marcante na formação da tradição literária latina91, como nos mostra Ilari (2008, p.58-9):
Um aspecto da diversificação da sociedade romana é o aparecimento da literatura latina; durante muito tempo, os autores latinos procuraram pautar seus escritos pelo ideal urbanitas, evitando formas ou expressões que conotassem arcaísmo ou provincianismo, ou que lembrassem a educação precária das classes subalternas e do campo (ruscitas). (...) Os autores latinos aludiram frequentemente à existência de uma variedade de língua denominada ruscitas, peregrinitas, sobre a qual fizeram pesar uma severa sanção, impedindo que suas formas tivessem acesso à escrita.
A preocupação dos patrícios romanos se perpetuará pelas sociedades latinas até alcançar as novas colônias além-mar e além-tempo. No campo da linguagem, esta preocupação se destaca dentro dos estudos da gramática e das descrições das línguas latinas, que tomará por base a língua culta dos literatos, como o modelo padrão92. Assim, o latim clássico foi amplamente difundido pelos escribas da Idade Média e pela adoração às obras clássicas no período renascentista, sendo a variedade mais compreendida até hoje. Assim, o que dificulta o estudo do latim vulgar é justamente o seu acesso precário aos meios escritos. Nesse ponto a pesquisa converge no quesito do estudo das vertentes linguísticas populares diacrônicas, para o estudo do latim vulgar Coutinho (1976, p.31) cita:
90Carvalho (2004) ainda acrescenta o: Baixo-Latim, que seria o latim dos padres da Igreja da Idade Média, que, preferiam ser entendidos com seu linguajar simples, cativando os fiéis, a serem ignorados com a sua eloquência; e o Latim Bárbaro, exclusivamente escrito, era o latim escrito pelos copistas da Idade Média, era tido como bárbaro porque mesclava vocábulos romances e provinciais.
91Segundo Coutinho (1976, p. 29) a tradição literária latina começa em Roma no séc. III a.C., com o aparecimento dos primeiros escritores: Lívio Andronico, Cneu Névio, Enio, e seu período de ouro é representado pela época de Cícero e de Augusto.
92Até hoje, no campo da linguística, a modalidade padrão é uma das maiores promotoras de emprego para a área, advindos da necessidade das pessoas de adequar seus escritos à norma. Além disso, até os linguistas escrevem suas críticas à norma, em uma norma impecável, o que por si só demonstra o enraizamento destes valores na tradição escrita brasileira.
Os poucos informes que temos do latim vulgar são-nos ministrados: a) pelos trabalhos dos gramáticos, na correção das forma errôneas usuais; b) pelas obras dos comediógrafos, quando apresentam em cena pesssoas do povo, falando; c) pela inscrições, que nos legaram humildes artistas plebeus; d) pelos cochilos dos copistas; e) pelos erros ocasionais dos próprios escritores, principalmente dos últimos tempos.
Estas ainda são as principais fontes de variedades populares da língua na sua história. Se, hoje, contamos com mecanismos avançados de gravação e documentação linguística, anteriormente, e com tantos entraves sociais que ainda persistem, as fontes residem basicamente nas mesmas citadas por Coutinho (1976), o que dá uma guinada no acesso à língua escrita e desponta como nova fonte de dados das variedades populares é justamente a imprensa e mais especificamente os jornais93. Anterioemente, os estudos de dialetologistas portugueses e brasileiros, como Adolpho Coelho, Amadeo Amaral e Marcos Marroquim focavam na observação e relato das peculiaridades do falar brasileiro em relação à norma portuguesa, ou mesmo à norma padrão já veiculada no Brasil94. Por isso, dados como os deste trabalho, mesmo que escassos, podem trazer contribuições ao estudo histórico da língua falada de modo semelhante, por terem sido produzidos por autor à margem social da sociedade dita culta da época. Mesmo constituído por documentos burocráticos e com várias tradições discursivas decorrentes de seu gênero (ou intergênero como será debatido), a escrita do autor revela muito do seu dialeto nas divergências gráficas de uma norma ortográfica e gramatical (se considerarmos a norma brasileira) ainda em contrução.
Pode-se considerar que diante da rigidez dos textos burocráticos, a alfabetização deste autor, possivelmente, se deu de maneira direcionado para o gênero termo em questão, semelhante a um copista medieval. Para que este alcançasse prestígio e cargo de vogais, como juiz e escrivão, era condição fundamental que Manoel de Barros aprendesse a ler e escrever, pelo menos o necessário para exercer as suas funções. Por isso, não seria estranho pensar que desenvolveu a alfabetização a partir destes textos e para produção dos mesmos, sem ter tido neste caso uma alfabetização formal, explicando, deste modo, a apropriação do gênero termo, com a variação ortográfica intensa, típicas de mão inábil. Outro fator que corrobora essa hipótese é que os termos foram escrito ao longo de três anos, durante estes intervalos e sem uma prática cotidiana, o autor não detinha um conhecimento profundo da norma, apesar de conseguir realizar os gêneros tranquilamente.
A história da língua portuguesa tem início no século XIII período em que datam os primeiros documentos escritos. Para esta pesquisa o foco é a uniformização ortográfica da língua portuguesa, que decorre dentro do aspecto da tradição literária. Lima (2009, p.21-3), na sua dissertação de mestrado, faz um apanhado dos principais autores, incluindo os
93Conferir: PINTO, E.P. O português popular escrito. São Paulo: Contexto,1990.
94A respeito dos estudos que apontam a deriva secular como motivo para a dialetação e diferenciação do PB, apontando em dialetos portugueses características típicas do PB, fica a pergunta sobre o porque destas observações linguísticas em solo brasileiro no início do século XX serem consideradas peculiares e dignas de notação científica. Se houvesse uma dialetação que apontasse unicamente na direção de uma deriva, não seria de se esperar que tais ocorrências passadas causassem tanto estranhamento por pesquisadores portugueses.
considerados anteriormente, sobre os períodos da história ortográfica portuguesa dividindo-a em três períodos: 1) o fonético, compreendido a partir dos primeiros textos escritos até o século XVI (surgimento de "Os lusíadas" de Camôes), que tinha motivação fonética; 2) o pseudo-etimológico, do Renascimento aos primeiros anos do século XX, mais especificamente até 1904, quando surge o "ortografia nacional" de Gonçalves Viana, caracterizado pelo "emprego das consoantes geminadas e insonoras, dos grupos consonantais impropriamente chamados gregos, de letras como y, k e w, sempre que ocorrem nas palavras originárias." (COUTINHO, 1976, p.72); e 3) o histórico-científico, ou simplificado, que data dos primeiros anos do século XX.
Coutinho (1976) explica que incialmente a motivação ortográfica era fonética e por isso as características fonéticas do português arcaico eram bem claras, "fazia-se distinção perfeita entre o valor do s e ç, do s intervocálico e z, do ch e x". A perda dessa característica, especialmente neste exemplo, vai se confundir bastante a partir do período pseudo-etimológico, uma vez que fortemente influenciados pelo conhecimento do latim, sobretudo com o Renascimento e a necessidade de se conhecerem os escritores clássicos, começam então a aparecer complicações gráficas. As palavras começam a receber influência etimológica, marcando um período de extrema variação ortográfica. Então, Gonçalves Viana simplifica a ortografia, ditando um novo período, o simplificado, que buscava resolver a grande quantidade de variações anterior.95
Seguindo a proposta demonstrada e periodização da ortografia, Manoel de Barros estaria entre os dois primeiros períodos, à iminência de uma mudança. Seguindo a proposta de mão inábil, Manoel de Barros, apesar de habilitado para produção de termos, ainda encontrava-se em período de aquisição da escrita na sua forma plena, apontando para uma falta de contato cotidiano com a dimensão escrita, e, o período ortográfico pseudo-etimológico não tornou esta tarefa mais fácil. Logo, estes dois aspectos convergem para uma escrita mais influenciada pela fala.