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De la servitude volontaire à l’hyper-attention ?

Apesar de uma compreensão, ainda lacunar, sobre a fenomenologia dos A. Funcionais, em Portugal, a análise de conteúdo dos grupos focais sugere que esta constitui uma constelação de distintas dimensões analíticas: atitude face à tecnologia utilizada na indústria alimentar; conhecimentos e literacia em nutrição; perceção dos riscos para saúde; a confiança na qualidade/marca dos produtos; a inocuidade associada aos alimentos; o gosto; o preço; a regulamentação e as perceções, reais ou projetadas, sobre a eficácia. Bibliografia, já vasta, e com resultados contraditórios ou no mínimo desalinhados (Özen et al., 2014: 476), releva a importância de variáveis sociodemográficas, como o nível de escolaridade (Landstöm et al., 2007:1066) ou sabor (Urala & Lähteenmäki, 2003:157; Verbeke, 2006: 130), como determinantes a considerar no acesso e consumo dos A. Funcionais. A variabilidade de resultados no que respeita a capacidade preditiva das variáveis sociodemográficas, para o consumo de alimentos funcionais, pode ser explicada pela multidimensionalidade da aceitabilidade destes produtos (Niva & Mäkelä, 2007:41) e pela circunstância de imperarem razões que se prendem com processos, isolados ou combinatórios, de filiação ideológica (ideologia da prevenção), engajamento cultural (cultura do bem-estar) ou veículo da medicalização do ato alimentar. Duas conclusões principais emergem (e que se alinham com a bibliografia publicada): (i) Apesar do papel que as variáveis sociodemográficas podem desempenhar, como acelerador ou travão do consumo, elas são ultrapassadas pela disposição em adotar uma alimentação saudável e manter adequados níveis de saúde podendo o consumo de AF ser entendido como integrando um ‘guião’ de práticas saudáveis (Niva & Mäkelä, 2007:42) ou constitutivo de um ethos consciente e intencionado (Landstöm et al., 2007:1067); (ii) os alimentos funcionais não são entendidos como um grupo homogéneo verificando-se distintas lógicas em função de cada categoria de produto (Urala & Lähteenmäki, 2003:157) e dos níveis de eficácia, verificados ou percecionados, da presença de doença ou ainda dos distintos graus de credulidade atribuídos a abordagens consideradas menos ortodoxas (“ Não acredito; onde é que eles vão buscar ómega 3 para pôr nos ovos?”, conf Anexo B – GF Misto 2, Mulher, p.128).

Este ceticismo alinha-se com reservas, de que a bibliografia dá conta, da capacidade dos alimentos enriquecidos com ómega-3 de libertarem, no organismo, níveis suficientes para propiciarem qualquer benefício de saúde (Williams & Ghosh, 2008: S91) revelando que nem todas as abordagens técnicas são merecedoras do mesmo grau de aceitabilidade mesmo que,

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como no caso presente, o método seja simples e o princípio engenhoso (as galinhas são alimentadas com rações enriquecidas com ómega-3).

A exploração analítica das variáveis, acima descritas, sugere a existência de relações de associação, de robustez variável, mas não de causalidade, as quais enfatizam o atual e progressivo processo de desintermediação que se verifica entre os cidadãos e as soluções personalizadas, de saúde e bem-estar, que procuram e implementam, e as fontes de referência e validação revelando um quadro compósito de perceções e racionalidades.

A reflexividade própria da modernidade constrói-se, não em contexto de crescente certeza, mas de dúvida metodológica (Giddens, 1999). Segundo aquele autor, até mesmo as mais reputadas autoridades são confiáveis sob reserva (“until further notice”), os próprios especialistas discordam entre si no que respeita quer às teorias quer aos diagnósticos práticos, e os sistemas abstratos, que penetram tão profundamente no quotidiano, oferecem múltiplas possibilidades, e não orientações ou receitas fixas, para a ação. Alguns autores são ainda mais contundentes denunciando a excessiva fragmentação, e especialização, do conhecimento e a sua encapsulação em disciplinas burocraticamente definidas (Castells, 2004).

Sendo a comunicação massificada, uma das características da modernidade, o papel dos media tradicionais e dos novos formatos, em particular a Internet, altera a tradicional conexão entre “local físico” e “situação social”, facilitando a pesquisa e o acesso a fontes de informação e conhecimento, até agora inacessíveis, promovendo a construção de novas comunidades, entre formas de experiência social, pré-constituídas, facilitando a divulgação e “popularização” do conhecimento especializado, e em paralelo, das conceções e conselhos dos “líderes de opinião”, e assim estimulando a endogeneização de saberes periciais pelos sectores leigos, em particular aqueles com mais elevado nível de escolarização. Geram-se, assim, círculos sociocognitivos de fluxos de saber esotérico e exotérico, em que o conhecimento nasce como exotérico (experiências, emoções, intuições e senso comum) e é depois refinado, transformado e reconstruído, pelos sistemas esotéricos, que lhe acrescentam uma dimensão teórica-conceptual, retornando depois para os círculos exotéricos, ficando nesse processo, mais simples e acessível, cristalizando-se muitas vezes como a matriz cultural que condiciona e influencia o especialista, encerrando-se desta forma o círculo da interdependência dos saberes. Os tradicionais modelos epistémicos de produção do conhecimento são hoje confrontados pelo que pode ser designado de modelos de ‘circularidade’ de ideias entre um centro (técnico-científico) e a periferia (leiga) (Arksey, 1994:451). Como o saber está associado à decisão e à ação individual e coletiva, no contexto

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de uma sociedade de risco, o especialista (leigo e ‘oficial’) assume o papel de tradutor ou mediador entre conhecimento e respetiva aplicação (Grundmann, 2017:39).

As sociedades pós-modernas desenvolvem-se numa lógica dual, já que por um lado estimulam a divisão cognitiva do trabalho, hierarquizando e especializando saberes, muito por via do reforço da componente teórica, promovendo a racionalidade, à custa da tradição e do misticismo, sendo, por outro lado, dominadas pelo vortex comunicacional, que homogeneíza saberes, que promove “reapropriações” biunívocas, com a consequente especialização do saber leigo. Apesar da incorporação, por parte do saber leigo, de ramificações mais ou menos capilares do saber especializado, aquele não perde, segundo alguns autores, o seu carácter de leigo, sendo que, tão-somente, aumentou a diversidade dos seus componentes, e por essa via, a capacidade de melhor interagir e aglutinar a informação científica (Lopes, 2001). Aliás, a proliferação de perícias na sociedade do conhecimento (Grundmann, 2017:42) suscita um interessante questionamento quanto à atual taxinomia que procura distinguir os saberes periciais e leigos a qual, de alguma forma, atribui estatutos, ideologicamente não-neutros, a ambos os territórios do conhecimento: por um lado conhecimento ´científico’ sistematizado, e editado, oriundo de centros de produção de saber, certificados por normas e procedimentos, na maioria das circunstâncias, sujeitas unicamente a processos de autorregulação e, por outro um conhecimento difuso, não sistematizado e não ‘validado’ e de maior dificuldade na sua transmissibilidade e reprodução. Não será que o crescente volume de cidadãos com formação universitária diminui a literacia funcional ‘leiga’, com a consequente incremental capacitação para apreensão e processamento de informação especializada, a par do potencial da internet e redes sociais para se constituírem como instrumentos de disseminação do saber, até agora somente possível por via dos livros e manuais científicos, faz emergir dois sistemas periciais distintos com poder para influenciar o processo decisional, individual e coletivo? Apropriadamente, a tradicional dicotomia, formulada pelas ciências sociais, entre conhecimento pericial e leigo não deveria ser substituída por perícias teórico-científicas e perícias técnico-práticas o que constituiria, aliás, uma reformulação das propostas de McClean & Shaw da existência de um continuum entre dois conhecimentos não-polarizados (2005:746)?

Existe, hoje, sobre os mais variados assuntos – sendo a alimentação, pela sua centralidade no quotidiano dos sujeitos, um exemplo paradigmático – um corpus de conhecimentos combinatórios entre as verdades e modas científicas e o saber ‘prático’ dos utilizadores assumindo aqueles um carácter relacional porque se destina a uma audiência e

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clientela (Grundmann, 2017:31) ávida de novidades, e testemunhos, que facilitem o processo de experimentação.

Seguramente que os alimentos funcionais não serão imunes a estes fluxos de conhecimento, e à interação que daí resultará entre saber e normas periciais, nomeadamente dos nutricionistas, a tecnicidade que resulta da sofisticação dos processos produtivos e a apropriação, dos AF, para usos vulgares como seja a regulação do trânsito intestinal, por parte dos utilizadores. Para um melhor entendimento dos processos de adesão, dos consumidores portugueses, aos alimentos funcionais seria importante conhecer o papel das redes sociais e em particular do Facebook, como veículo de vulgarização do consumo, já que constitui atualmente a ferramenta mais eficaz na transmissão de conhecimento ‘boca-a-boca’, disseminação de conceitos e a formação e acumulação do capital social (Ellison, et al. 2007:1164).

O conhecimento leigo tem-se expandido, questionando as anteriores fronteiras entre saberes leigos e periciais: “A Internet remove ostensivamente o intermediário expert – farmacêutico ou médico – do espaço físico, científico e regulamentar, entre indivíduos e medicamentos” (Cohen, 2001). O acesso a informação sobre saúde, disponível na Net, tem suscitado os mais variados questionamentos, nomeadamente o contributo que aquele acesso pode ter no encorajamento de abordagens pluralistas na gestão da saúde, individual ou familiar, o mérito do contacto com outros doentes e grupos de autoajuda, e da pesquisa “customizada” de informação, no processo de construção e reconstrução identitária (Hardey, 1999), ou a qualidade da informação colocada online e seus perigos potenciais, a intervenção da indústria farmacêutica e/ou agroalimentar, e sobretudo as consequências resultantes da facilitação da participação do consumidor, como proeminente ator, na construção do conhecimento sobre saúde e doença, alargando o leque de atores neste processo (Cohen 2001). Em pouco mais de duas décadas a internet revolucionou muitos aspetos da dimensão experiencial, sobretudo da doença, evidenciando um efeito transformador nas subjetividades que estão a esta associadas (Conrad & Stults, 2010:189). Não tendo resultado, das retóricas e discursos que emanam dos Grupos Focais, como elemento saliente (somente 3 correspondências na análise de discurso), no contexto de consumidores sempre conectados, as tecnologias de informação, e em particular a Internet, merecem futura exploração empírica e analítica quanto ao papel que desempenham na relação dos consumidores portugueses com os alimentos funcionais já que, de acordo com a bibliografia disponível, a Internet constitui, em complementaridade com outras fontes, um veículo de procura de informação (para 48,8% dos participantes no estudo – n=200) sobretudo no que respeita os benefícios de saúde dos

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alimentos funcionais (26,8%), os componentes bioativos associados aos AF (15,8%) e os riscos/efeitos secundários associados aos AF (14,2%) (Vella et al., 2014:4).

O processo de endogeneização de conhecimentos periciais de saúde, por parte dos leigos, e da partilha de informação entre leigos e comunidades leigas, articula-se com o poderoso incremento da literacia tecno-funcional, da generalidade dos consumidores, originando um contínuo processo de reapropriação, processamento e assimilação de conhecimentos e consequente sensação de controlo sobre as suas vidas; novas tecnologias, encorajam a disseminação de nova informação, a qual, por sua vez, ajuda os consumidores a reganhar o controlo que sentiram ter perdido, durante uma fase intermédia, devido à tecnologia. A mudança, neste processo cognitivo global, reside nas fontes de informação.

O consumo, significativamente ‘desintermediado’, dos alimentos funcionais sugere questionamentos analíticos nos planos quer de construção da autonomia dos indivíduos, com eventuais implicações de carácter ético, no que respeita novos conceitos de cidadania, quer no plano dos pluralismos terapêuticos e dos correspondentes interfaces e interações entre os diferentes níveis e agentes do sistema, e correspondentes variações de sentido: “ o indivíduo que vai de cuidado em cuidado, não pratica unicamente, um empreendimento terapêutico: ele é um peregrino cultural que aprende, pelo caminho, códigos novos” (Benoist, 1997).

Procurando estabelecer pontes entre o mapeamento empírico, que resulta da presente análise de conteúdo, e quadros de conceptualização teórica justifica-se mobilizar conceitos propostos por Bourdieu, como seja a “distinção social” e “capital cultural”, já que a análise do consumo de alimentos particulares, e de padrões alimentares classistas, ocupou lugar de relevo na sua obra:

“Resulta claro por que razão o materialismo prático, o qual é evidente no que respeita o alimento, é um dos mais fundamentais componentes do ethos e mesmo da ética popular” (Bourdieu, 1984 [1979]; 183).

Se a democratização no acesso aos alimentos funcionais tende a negligenciar o seu consumo como um marcador de classe ou estatuto afastando-se da perspetiva de Bourdieu de classificação social das diferenças grupais na lógica da “posição”, e da relação dos atores sociais entre si, e das identidades de classe construídas, e das relações de poder interiorizadas que daí resultam, já a construção de um self responsável, seja por delegação da superestrutura da sociedade (ideologia do empowerment) seja por ativismo gerado por exercícios de reflexividade, encontra acolhimento epistemológico nas propostas de Bourdieu sobre valores

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e estilos de vida associados à predominância de capital cultural (Bourdieu, 1984 [1979]: 455) objetivado em objetos técnicos (Bourdieu, 1984 [1979]: 387) e acumulado, pelo menos parcialmente, através de autodidatismo (Bourdieu, 1984 [1979]: 328).

Já a exploração conceptual e teórica de Conrad et al. (2005) no que respeita os novos motores de medicalização suscita, uma década depois, novas pistas de reflexão e questionamento sociológico sustentados em três dinâmicas sociais que se retroalimentam e potenciam entre si, a saber:

1. Para além de investimento na saúde futura, afetando recursos materiais, cognitivos e emocionais aos processos preventivos, os cidadãos envolvem-se ativamente na busca de soluções personalizadas para assegurar um quotidiano de bem-estar ”despatologizando” muitos dos desafios que se lhes colocam. Neste quadro a saúde deixa de ser um objetivo longínquo, culminar de um conjunto de decisões, muitas vezes desconfortáveis, recomendadas pelos especialistas dos serviços de saúde (deixar de fumar, fazer exercício, dieta alimentar pobre em sal, açúcar e gordura etc.), para ser o somatório de decisões diárias, submetidas a racionalidades probabilísticas e heurísticas (Fox, 2015) quanto à sua eficácia, influenciadas pela publicidade e o exemplo e conselho da rede de amigos e familiares e moduladas por fatores circunstanciais tais como o acesso, o hábito, o sabor e a moda ou subjetividades associadas a processos de gratificação e recompensa. O processo de medicalização da sociedade coloniza agora territórios (“bem-estar”, “qualidade de vida”) que dispensam a “patologização” de queixas e sintomas.

2. A disputa, do mesmo mercado, por parte das ciências médica e alimentar convive com a convergência das práticas e métodos das indústrias farmacêutica e agroalimentar fazendo emergir um conjunto de novas necessidades de consumo (utilização de super - alimentos, bactérias amigas, nutracêuticos e alimentos funcionais) para as quais apresentam respostas sob a forma de novos produtos e fórmulas, prontos a consumir, e para os quais necessitam do apoio e legitimação de nutricionistas e da comunidade médica (McConnon et al., 2004:17). Esta dinâmica tem promovido o surgimento e afirmação de novas profissões, tais como os Nutricionistas, os quais, também pela linguagem utilizada que transporta tecnicidade para o território da alimentação (Gingras, 2010: 438), tendem a medicalizar a sua relação com os clientes/consumidores (pacientes/doentes na sua linguagem clínica) numa lógica de ganhos de respeitabilidade, e disputa de territórios terapêuticos à classe médica, expandindo assim a visão clínica sobre processos e hábitos alimentares. Motivados, primordialmente, pela descrição e prescrição da “dieta correta” (Lupton, 1996: 7) constituem-se como “construtores e agentes do mito da saúde perfeita” (Lopes, 2006:

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168). Não é de somenos relevância mencionar que, em Portugal, muitos dos atuais Nutricionistas são Ex - Dietistas reconvertidos em consequência da constituição da Ordem dos Nutricionistas80; o Dietista foi uma profissão de base hospitalar integrando, numa lógica de retaguarda, os cuidados médicos a prestar aos doentes internados. A situação portuguesa não se distancia daquela de outras latitudes, em particular os países de influência anglo-saxónica, nos quais a educação e treino dos Dietistas/Nutricionistas é baseada, ainda que parcialmente, num modelo similar ao modelo médico (Gingras, 2010:449). O processo de afirmação dos Nutricionistas como Profissão conhece, em Portugal, particulares singularidades já que procura combinar o conservadorismo de um projeto profissional o qual, por definição, se estrutura em paradigmas, códigos e estatutos rígidos, com a exposição mediática e a competição com atores, não-técnicos, vindos do mundo da moda e das redes sociais. Sendo uma profissão com forte componente de trabalho emocional (Gingras, 2010:442), pela proximidade com os corpos imperfeitos que escrutina, orienta e procura disciplinar (Gingras, 2010:450), os Nutricionistas constituem um forte amplificador social das propostas de novas alternativas e estilos de vida alimentares contribuindo para institucionalizar um modelo dietético informado pelas lógicas médica e estética (Lopes, 2006:169).

3. A explosão do acesso à internet, e do consequente desenvolvimento das redes sociais, fez emergir duas tendências características do mundo conectado de hoje: (i) a informação infiltra o quotidiano e expande o acesso a fontes não-periciais e (ii) o surgimento de novos fazedores de opinião (opinion makers), hábitos e atitudes, sob a forma de bloggers e emissores de posts e comentários no Twitter, mas sobretudo no Facebook. Esta nova realidade transforma a ”informação” numa nuvem omnipresente, mas sem contornos definidos, e que, ao combinar publicidade formal, correntes de opinião (não filtradas) nas redes sociais e a “verdade” difundida pelas comunidades virtuais que enquadram hoje a grande maioria dos indivíduos, infiltra o quotidiano e dissolve responsabilidades individuais; “A informação na era da Internet vem de pessoas, pessoas que produzem a sua informação e a trocam na net. Esta é a verdadeira revolução” (Castells & Ince, 2004:154). As redes digitais que constituem as estruturas do que alguns autores designam de “Sociedade em Rede” (Espanha, 2009:19) reformatam o conceito de “paciente informado” em favor do conceito de “indivíduo emancipado” (Espanha, 2009:76), movido pela

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Em Dezembro de 2010 é publicada em Diário da República a Lei 51/2010 que cria a Ordem dos Nutricionistas e aprova o respetivo Estatuto

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racionalidade que toma como base o conhecimento de base reflexiva de que fala Giddens a propósito da sua teoria da estruturação (Giddens, 1984:3), o qual toma decisões sem a necessidade de processos de mediação pericial, mas sem dispensar a informação pericial, já que funciona em modo de aprendizagem ao longo da vida, e em regime de multiprocessamento de informação, recombinando-a ao serviço de tarefas específicas e projetos concretos (Castells & Ince, 2004:158).

Confrontados com uma crescente “bipolaridade” alimentar (ganhos de saúde suportados por um “regresso á natureza” vs. a ingestão dos micro e fito nutrientes81

, adequados a cada caso concreto, proporcionados pela tecnologia) os indivíduos tenderão a ser capturados pelo inevitável desenvolvimento dos meios de diagnóstico e de autodiagnóstico. Estes estimularão progressivas soluções personalizadas que esbaterão as fronteiras entre alimento e medicamento e veicularão uma medicalização intersticial do ato alimentar de forma natural e inconscientemente aceite. Importará aqui detalhar a relevância dos meios de diagnóstico nas biografias dos indivíduos já que “ o diagnóstico não é somente realizado pelos médicos e outros profissionais de saúde mas igualmente pelo self” (Jovanovic, 2014:643) num processo de permanente auto e heteroavaliação social. Constituindo um procedimento, eminentemente, técnico localiza o resultado obtido num plano puramente biomédico, individualizado e socialmente descontextualizado. Quando o resultado é negativo, ou de “fronteira”, confere legitimidade à etiquetagem duma doença ou proto doença (Jovanovic, 2014:644) e apela a soluções de urgência, no que respeita a intervenção médica, e de acrescida responsabilização individual. De acordo com o continuum dos cuidados de saúde, já descrito no Capítulo 1, agora os indivíduos encontram-se, não na lógica polarizada dos constructos saúde e doença, mas em permanente estado de evolução da respetiva situação clínica, podendo ser/estar mais ou menos saudáveis em função da disciplina de que deem provas, do estádio em que a nova condição foi diagnosticada, do acerto da medicação prescrita, da adequação do regime alimentar etc. Os meios de diagnóstico, cada vez mais potentes, ultrapassam a fronteira do visível e penetram, interrogam, escrutinam e por fim classificam e categorizam na lógica do que Rosenberg denominou de “Tirania do Diagnóstico” (Rosenberg, 2002:256).

Os resultados de alguns recentes inquéritos com componente alimentar (ONAP, INSEF) combinados com os resultados da presente investigação parecem sugerir o convívio de duas grandes formas de vivenciar a modernidade alimentar em Portugal:

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 Experimentalista, como ideal-tipo de uma oferta alimentar fragmentada em múltiplas variedades e dispositivos, sujeita aos modismos e avanços e recuos das ‘verdades’ e ‘tendências’ alimentares, tão fluídas quanto o espaço digital em que emergem e desvanecem e, mais do que crente nos resultados prometidos pelas fontes periciais ou institucionais, disponível para testar, e se necessário reorientar, as suas opções na busca de benefícios de saúde de curto ou médio prazo.

 Passiva, com um regime alimentar afastado de orientações ‘normativizadas’ (ex. Guidelines institucionais sobre a ‘alimentação saudável’), submissa às circunstâncias dos ‘modos de vida’, nos quais os indivíduos se inscrevem, e condicionada pelas determinantes estruturais tais como escolaridade, rendimento e acesso.

Estas duas formas de relacionamento com o alimento não existem, seguramente, no estado puro antes coexistindo em regimes de facultatividade e pendularidade, a confirmar em investigação futura. Configuram, no entanto, grande plasticidade no redesenho identitário, conceito analítico que, por comparação com ‘construção identitária’, me parece menos hermético na captura da fluidez que caracteriza a modernidade alimentar.

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