Considerando as extraordinárias alterações sociais do final do século XX, e início do século XXI, o conceito sociológico de “estilos de vida” ganha particular relevância enquanto marcador, individual e coletivo, de semelhanças e diferenças (Cockerham et al., 1997:321). As escolhas quotidianas, os círculos de sociabilidade privilegiados, a gestão da semiótica individual, atitudes e comportamentos, todas estas opções configuram uma forma de estar e de se apresentar, em sociedade, que funciona como ecrã revelador do percurso entre oportunidades, constrangimentos e escolhas dos indivíduos enquanto atores sociais; Mary Douglas sintetiza a descrição que Roland Barthes faz de estilo como “ um canal não-verbal de significado” (Douglas, 1996 [1973]: 73). Admitindo-se, como afirma Firmino da Costa, que “todo o consumo é uma prática ativa, nomeadamente de produção simbólica, manifestada nos estilos de vida” (Costa, 1999[2008]:396), a seleção e consumo de alimentos funcionais integrará, seguramente, um sistema produtor de sentido do ato alimentar o qual configurará um estilo alimentar compósito, uma “forma de estar alimentar” que se caracteriza pela coabitação e sincretismo de distintas opções alimentares, numa lógica de progressiva individualização e simultânea desestruturação da refeição como tradicional elemento de coesão social e reprodução de normas e valores. Alguns autores referem-se a este estilo, no qual convivem o biológico, o tradicional, o processado, o funcional e eventualmente o transgénico como de “mestiçagem alimentar” (Lopes, 2006: 137).
Associando uma dieta saudável à problemática do acesso (a quantidades, qualidade, variedade e informação nutricional e de saúde) é possível localizar o regime alimentar dos indivíduos na grelha de estratificação social, correlacionando os estilos de vida com a distribuição de recursos, e consequente diferenciação social, de acordo com os vários paradigmas sociológicos. Para Marx a posse dos meios de produção era determinante para os estilos de vida das duas grandes classes em confronto direto, a burguesia e o proletariado sendo que estes “nada têm de seu a assegurar” (Marx, 2004: 61-71); para Bourdieu as disposições e o conhecimento são determinantes para a forma como se adquirem objetos, por exemplo alimentos (Bourdieu, 1984 [1979]:78). No caso dos alimentos funcionais, e apesar do seu preço, habitualmente mais caro que os produtos “originais”, parece ser ténue a
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associação entre estilos de vida e trajetória social em função da democratização, no acesso ao consumo, desta categoria de alimentos (em particular pela disseminação da oferta e práticas promocionais agressivas por parte de super e hipermercados), hipótese a explorar quando da discussão dos resultados da pesquisa efetuada.
Os estilos de vida podem, igualmente, ser entendidos como a resultante cultural de processos de distinção individual da restante massa, ganhando estatuto social e integrando, numa lógica de pertença, distintos círculos de afinidades: “o número dos vários círculos a que o indivíduo está ligado é um dos aferidores de cultura” (Simmel, 2004: 574). Atualmente, nas sociedades modernas, a construção de uma subjetividade autêntica incorpora escolhas sofisticadas de produtos e serviços com atributos de modernidade e inovação. Na dimensão alimentar, tal se sustenta num nível superior ao do suprimento das necessidades básicas, pela escolha das dietas da moda, do último livro do Chef da moda, e na frequência de restaurantes da moda, afirmando a sua singularidade mais pela forma do que se come do que pelo conteúdo do que se come, processo naturalmente suportado pelo rendimento disponível já que “o dinheiro assume influência decisiva naqueles segmentos da nossa vida, cujo estilo é determinado pela preponderância da cultura objetiva sobre a subjetiva” (Simmel, 2004: 475) como é o caso das modas alimentares. À moda gastronómica, a qual se manifesta pela rápida alteração dos padrões de gosto, é-lhe atribuído o papel de veículo do reforço da unidade da classe social e de distinção entre classes, sendo que os membros das classes elevadas tendem a assinalar socialmente a sua superioridade atuando como os iniciadores de novas tendências, sendo posteriormente imitados pelas classes médias, num processo de vulgarização social, obrigando as classes superiores a regenerar os marcadores de estatuto social, gerando inovações mais sofisticadas e estilizadas. Nas sociedades modernas, nas quais prepondera a calculabilidade, o ritmo, enquanto princípio cultural racionalista-sistemático, condiciona os estilos de vida ao marcar o quotidiano dos indivíduos, assegurando a sua controlabilidade; exemplo típico é o dos horários das refeições já que “ a instituição de refeições regulares divide o dia de forma rítmica, prática desconhecida dos povos primitivos” (Simmel, 2004: 496). As formas rítmicas as quais, em certa medida, replicam a uma escala societal a organização dos tempos nas fábricas, organizam espacialmente as sociabilidades laborais e de lazer, garantindo a adequada harmonia entre o todo social e as subjetividades individuais, processo submetido ao ritmo e extensão das transações monetárias, enquanto elemento com o potencial de acelerar, ou travar, a relação dos indivíduos com os objetos e o valor que estes representam.
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Convicto que é nas interações que se desenvolvem as sociedades, Weber concedeu estatuto teórico à orientação subjetiva da ação, considerando ação social como ação intencional e a Sociologia como uma ciência que procura compreender (verstehen) a ação social para além da abordagem positivista de explicar a ação social. Neste contexto, e a propósito das “construções conceptuais (…) por meio das quais tentamos captar a realidade pelo pensamento e pela compreensão”, Weber propôs um modelo cognitivo designado de “tipo-ideal” (2004:601) funcionando como uma referência comparativa e que permite classificar os fenómenos sociais em função da proximidade ou afastamento daquela “imagem mental (…) com o significado de um conceito limite” (Weber, 2004:643). O modelo biomédico, classificativo dos estados de saúde e doença dos indivíduos, toma como base este conceito produzindo diagnósticos em função da relação dos resultados dos exames bioquímicos com tabelas pré-definidas como os valores “normais”. É possível adotar o modelo conceptual do “tipo-ideal”, para as atuais conceções institucionais de alimentação “saudável”, ao serviço “da tentativa de racionalização das práticas alimentares” (Silva, 2006) sendo esta alimentada pelos discursos periciais defensores de uma certa normatividade médico-nutricional.
Weber leva mais longe as reflexões de Simmel fazendo depender os estilos de vida do estatuto, na estratificação social, e das oportunidades de vida (life chances versus life styles), constituindo estas um conceito probabilístico positivamente correlacionado com o estatuto socioeconómico dos indivíduos, em particular o acesso a recursos tangíveis como a alimentação e intangíveis como a educação. Embora partilhando com Marx a aceitação da importância dos fatores económicos, na determinação do futuro dos indivíduos, valorizou outras variáveis; enquanto para Marx o elemento determinante era o nível de riqueza associado à classe social, Weber, recusando o determinismo, introduziu elementos adicionais como a mobilidade social e a escolha e ação individuais ou a adoção de um ethos religioso. Em a “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, Weber evidencia o distinto comportamento entre as confissões católica e protestante e de como os praticantes desta última, cumpriam um estilo de vida que era o oposto da ‘alegria mundana’ pela adoção quotidiana de certas virtudes e atitudes perante a vida económica e o trabalho: “Como diz o povo: ou se come bem ou se dorme bem. No caso presente, o protestante prefere comer bem, enquanto o católico prefere dormir descansado” (Weber, 2010: 40). Neste contexto é de assumir que a ética ascética protestante valorizasse a componente funcional das práticas alimentares, adequadas a um regime de profunda devoção ao trabalho, em desfavor daquelas de representação social, em particular quando entendidas como formas ostensivas de luxo,
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cujo apreço era “condenável como idolatria” (Weber, 2010:189), integrantes de formas de condutas coerentes e legitimadoras/certificadoras, perante a sociedade, das qualificações dos empreendedores protestantes para a atividade comercial. Weber desenvolveu ainda a formulação de grupos de status, comunidades que se baseiam em estilos de vida próprios e reconhecimento pelos outros. Estes grupos somente existem em função das perceções de prestígio, ou desonra, sendo que os indivíduos, nestas comunidades, estabelecem relações de associação unicamente com outros de igual estatuto sendo os restantes olhados como inferiores (Weber, 2004). No plano alimentar, as Confrarias, o turismo gastronómico mais experimental ou exótico, os frequentadores de rituais iniciáticos de experimentação gastronómica (veja-se o exemplo do extinto El Buli em Barcelona) e os vegetarianos ou Vegans, configuram modulações diversas duma estratificação social supraclassista (integrando para além da classe também o estatuto e os grupos de poder, designados de ‘Partidos’) reveladora da complexidade moderna que Weber pretendeu captar, questionando as “conceções ingénuas do materialismo histórico segundo as quais as ‘ideias’ apareceriam como ‘reflexo’ ou ‘superestrutura’ das situações económicas” (Weber, 2010:53).
O esforço interpretativo da sociologia defronta-se com a complexidade e diversidade dos fenómenos sociais, e a rapidez e globalização dos fluxos transacionais e informativos, sendo de assinalar o paralelismo estabelecido por Simmel para retratar os desafios da sociologia:
“Especialmente nas teorias da alimentação, vemos muitas vezes sucederem-se afirmações antagónicas sobre o valor de um alimento. Dentro do corpo humano, porém, atuam tantas forças (…) que talvez não erre nenhuma daquelas teorias que estabelece uma relação causal entre o alimento e o organismo humano” (Simmel, 2004:540).
No mundo social o ato alimentar constitui um veículo pelo qual a estrutura social influencia os indivíduos e os padrões alimentares não deixam de ser um dos mais robustos sinalizadores dos estilos de vida. O consumo de alimentos de perfil mais ritualizado (Aniversários, Casamentos, comemorações e festividades religiosas), ou mais rotinizado (refeições diárias), desempenha um importante papel nos processos sociais de coesão e integração (e de conflito no caso de escassez), fornecendo adesividade a lógicas grupais de índole diversa (familiares, redes de amigos e colegas etc.) por ativação dos atributos materiais que encerra. Sendo inegável o papel cultural desempenhado pela alimentação, na formação e desenvolvimento das sociedades modernas, é possível, em contexto sociológico, identificar
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duas correntes de pensamento, distintas, alavancadas em quadros epistemológicos propostos pelos clássicos:
Cultura enquanto recurso de dominação de classe com a distinção entre alimentos e roteiros gastronómicos a refletir a distinção social entre classes e as necessidades do capitalismo de uma mão-de-obra saudável.
Cultura como o resultado de processos não-económicos e alimentando distintos níveis de homogeneização social, refletindo a introdução de elementos de nivelação em consequência das lógicas do consumo; atualmente, a distinção não é tanto entre alimentos, mas modos de preparação (McIntosh, 1996:17-57). Weber é, nesta perspetiva, particularmente contundente contra a designada “conceção materialista da história” considerada uma “mundivisão” recusando que “ a totalidade dos fenómenos culturais poderia ser deduzida como produto ou como função de constelações de interesses materiais” (Weber, 2004:620).
O consumo alimentar é estruturante dos processos biológicos e sociais dos indivíduos e o sistema alimentar (aqui entendido como a arquitetura processual encontrada para articular a ciência, tecnologia, produção, distribuição logística e mecanismos de acesso e repartição) encontra-se no centro de movimentos sociais, e do debate político e económico, constituindo importante objeto de estudo sociológico suscitando propostas diversas quanto ao respetivo emolduramento teórico:
Uma abordagem de natureza estrutural-funcionalista sublinharia o papel da indústria agroalimentar, e a sua evolução temporal, ou ainda as distintas funções que ocorrem durante a produção alimentar, tais como a inovação, as modas e a estética (embalagens) promotoras de um desenfreado consumismo de massas.
Uma abordagem situada nas teorias do conflito sublinharia as relações de poder, presentes no processo de legislação e regulamentação, explorando as contradições entre o direito dos indivíduos a uma informação esclarecedora e a mecanismos de proteção e as motivações de otimização do lucro por parte das empresas e o papel de intermediação dos governos, ou as tensões entre os pequenos produtores locais e as grandes companhias multinacionais ou as cadeias de hipermercados ou ainda de como a nutrição varia entre diferentes classes sociais.
Uma abordagem valorativa da perspetiva interacionista-simbólica focar-se-ia mais nos planos micro, tais como a utilização simbólica do alimento nos rituais religiosos
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ou na interação que resulta de uma refeição familiar ou da partilha de hábitos alimentares singulares (ex. Vegetarianos).
Na realidade social a afirmação dum determinado estilo de vida exerce-se, predominantemente, pelo consumo de objetos, consumo este tanto ou mais exteriorizado quanto de tal dependam os processos de socialização dos indivíduos, no contexto de uma estrutura social específica (Berger & Luckmann, 2010: 169), e tão ou mais estruturante quanto significativa for a dialética entre necessidades aspiracionais e necessidades instrumentais. O que é novo, na pós-modernidade é a proliferação de objetos, e a respetiva associação a incontáveis marcas e simbologias, criando um território consumista híper- fragmentado, gerando múltiplos perfis de consumo de grande ecletismo. O estilo em que se vive constitui, atualmente, uma dimensão da vida social não completamente colável aos estilos de vida associados a classe ou género já que a multiplicidade de estilos pode, no limite, permitir aos indivíduos que mascarem o seu estatuto social (Berger, 2010:113): último modelo de smartphone é utilizado por indivíduos localizados em diferentes extratos sociais; a contrafação permite que marcas de luxo, de vestuário, sejam consumidas por mulheres de distintos níveis socioeconómicos e os hipermercados democratizaram o acesso às últimas novidades alimentares. A explosão na oferta de produtos alimentares, nas últimas décadas, favorece a construção de perfis e estilos alimentares únicos e compósitos: (i) no que respeita as combinações de produtos; (ii) a alternância entre a convivialidade na partilha de opções menos saudáveis, em momentos simbólicos, com a solidão das opções “desintoxicantes”; (iii) ingestão de alimentos mais saudáveis para contrariar reconhecidos riscos alimentares; (iv) a ingestão de alimentos funcionais como alternativa ou suplementação do medicamento. O ato alimentar, para além da incorporação da cultura e tradição, é sobretudo o consumo, altamente valorizado, porque associado a processos de sobrevivência e longevidade, de objetos, plenos de significado, na construção da relação dinâmica entre ser e parecer. Na pós-modernidade o consumo exacerbado de distintas ofertas alimentares parece promover contextos em que a “identidade é então muito recortada no sentido de representar, por completo, a realidade social em que se situa. Simplificando, cada pessoa é bastante aquilo que parece” como afirmam Berger & Luckman (2010: 170) a propósito de processos de socialização em sociedades menos desenvolvidas. Instrumento de teorização empírico-analítica o conceito de ‘estilos de vida’, aplicado ao ato alimentar, permite capturar a diversidade e fragmentação das escolhas individuais e situá-las no tempo e no espaço. Constituindo o consumo de alimentos uma forma de ação social que decorre no contexto de instituições como a família, o trabalho e o
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mercado e materializando-se em práticas consumistas, elas próprias institucionalizadas (U.Kjaernes & L.Holm, 2007:512), as segmentações de estilos de vida, “decorram estas últimas mais de constrangimentos sociais intrínsecos ou apresentem-se como de carácter mais reflexivamente opcional” (Costa, 1999:393), e tomando como objeto o que se come e como se come, permitem identificar categorias as quais organizam perceções, racionalidades e, no limite, comportamentos relacionados com a saúde. As tentativas de explicar os comportamentos relacionados com a saúde, somente com base nas convicções68 individuais, tem dado lugar a pesquisa sociológica que procura relacionar as circunstâncias sociais com a forma como e porquê os indivíduos adotam, mantém e alteram os seus estilos de vida (Williams, 1995:580). Esta tem evidenciado que aqueles, “inculcados ou escolhidos, são sempre uma relação ativa dos indivíduos com as condições sociais e culturais em que se inserem” (Costa, 1999:396) verificando-se que, no que respeita a saúde, correspondem a comportamentos largamente rotinizados, incorporados no quotidiano, e presididos por uma lógica prática (Williams, 1995:583).
A importância da seleção alimentar na gestão da saúde, energia e forma do corpo, de acordo com o habitus de cada classe, já tinha sido salientada por Bourdieu (1984 [1979]:190) assim como a dualidade entre a componente nutricional do alimento ou a prioridade dada ao seu contributo para a melhor forma física ou social (1984 [1979]:199). Na atualidade assiste- se à hipervalorização do designado estilo de vida ‘saudável’, constructo, globalmente, caracterizado pela ingestão acrescida de frutos e legumes, redução do consumo de cereais processados, seleção das lojas de produtos naturais, orgânicos e biológicos, como local privilegiado de compra, atividade física e redução do consumo de álcool (Turner & Lefevre, 2017:3). Este constructo rejuvenesce a caracterização de Crawford (1980) da construção social de vida ‘sadia’69, conceito cunhado por aquele autor para caracterizar a década de 70 do século passado quando se cruzaram duas ideologias: (i) crescimento de uma nova consciência de saúde e (ii) crescente migração de responsabilidades do plano estatal para o individual no que respeita a obrigação, moral, pelo nível de saúde desejado. A vida ‘sadia’, entendida como sendo a preocupação e investimento na saúde como o foco primário para a obtenção de felicidade e bem-estar (Anisimova, 2016:813), podendo ser obtida por vias da autodisciplina e conduta moral, modelou numerosos comportamentos e práticas compreendendo a saúde, o exercício e a alimentação (Häman et al., 2015:2). Em Portugal, curiosamente, esta construção
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“health beliefs” no original
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social tem-se procurado afirmar em oposição aquela de “gordura é formusura” determinada pelos “discursos do poder, entenda-se a medicina, a religião e o direito” (Vaquinhas, 2012:247) e refletindo o padrão estético socialmente construído nos finais do século XIX e inícios do século XX o qual procura enclausurar as mulheres, das classes sociais mais desfavorecidas, na missão reprodutora de crianças saudáveis, garante da boa saúde da ‘raça’ portuguesa, (Vaquinhas, 2012:248) valorizando a robustez das formas como o arquétipo da beleza feminina (Vaquinhas, 2012:250). Nos anos 20 do século passado começa a impor-se, no seio das classes dominantes, o conceito de “esbelteza” como contraponto diferenciador do estilo de vida das classes desfavorecidas. Este conceito, veiculado pelo discurso médico, como referencial de saúde, valoriza a atividade física, controlada e ‘normativizada’, como contributo para o novo paradigma, ideológico, de saúde: ‘uma mente sã num corpo são’. Este novo ‘modo de vida’, mobilizando-se aqui o conceito analítico proposto por Firmino da Costa que associa esta formulação mais à forma de gastar os recursos do que à forma de os angariar (Costa, 1999:396), o qual não é independente do desenvolvimento e influência das indústrias farmacêutica e cosmética (Vaquinhas, 2012:257), vai ganhar novo impulso após o 25 de Abril e a abertura às influências culturais europeia e americana.
A submissão a ‘modos de vida’ aspiracionais pode conduzir a múltiplos formatos de ação social em relação com o corpo, e o alimento, originando ou ‘tribos gastronómicas’ (ex. carnívoros, vegetarianos, flexitarianos, vegans, macrobióticos ou crudívoros) ou a desequilíbrios psicossociais como é o caso da Ortorexia. Termo originário do grego ‘orthos’, que significa ‘correto’, descreve uma fixação/obsessão na ingestão de alimentos saudáveis sendo considerado um transtorno alimentar em cujo centro está a qualidade, e não a quantidade, do alimento ingerido e assente em subjetividades valorativas de um ideal-tipo de alimentação, que recusa os alimentos considerados ‘negativos’/’errados’, e com propósitos de controlo corporal, e evidenciando traços de perfeccionismo, rigidez cognitiva e culpa sobre transgressões alimentares (Turner & Lefevre, 2017:2). Mais uma vez se evidenciando o papel das redes sociais na modelação de comportamentos alimentares, em particular pela partilha de conteúdos, é possível estabelecer uma relação direta, por exemplo, entre o maior uso do Instagram e uma maior tendência para a ortorexia (Turner & Lefevre, 2017:5).