A/ Une faculté de recours cantonnée aux seuls intérêts civils
1/ Les recours permis lors de la phase préparatoire
De acordo com Vírginia Kastrup, há a crença de que o processo cognitivo se restringe à solução de problemas, sendo, portanto, comum entender que o controle do comportamento e a realização de tarefas é imprescindível para a atenção e consequentemente, para o aprendizado.299 A pesquisadora diferencia a “distração” da “dispersão” e neste sentido me auxiliou a organizar conceitualmente o que eu já havia experimentado com os jovens em situação de rua e abrigo. O ambiente de grande liberdade na rua os treinou a atuarem com uma atenção diluída e distraída, em que se permite “experimentar uma errância, fugindo do foco da tarefa para a qual é solicitado prestar atenção e indo na direção de um campo mais amplo”.300 Isto difere, portanto, da “dispersão”, que consiste em um “repetido deslocamento do foco atencional, que impossibilita a concentração, a duração e a consistência da experiência”.301
No princípio, eu tratava como dispersivo e indisciplinado o ambiente em que os jovens construíam diante da nossa presença. Questionei se era possível que eles se concentrassem em realizar algo artisticamente programado. Apesar da potência das cenas e momentos ímpares de atuação cênica, cheguei a duvidar que eles pudessem expor aquilo perante um público, com marcações exatas de entrada e saída, pois, por muitas vezes, faziam o que queriam, e assim era impossível propor algo que não fosse acompanhar o que estava acontecendo302.
Os jovens eram movidos pela imprevisibilidade e mostravam-se avessos a qualquer indicação de rotina. Há aqui uma confluência de minha pesquisa com as investigações da pesquisadora Tatiana Dassi. A pesquisadora identificou o “imprevisível” como importante catalisador para a “adrenalina” experimentada pelos jovens, especialmente diante da prática de atos infracionais. Para tanto, vale-se das conversas com um jovem que fora traficante e posteriormente se tornou evangélico, passando a trabalhar em um escritório.
O que interessa, para os fins da análise, é que este é um aspecto relevante, e as reflexões de Francisco nos ajudam neste sentido. Ele afirma que gostava de seu trabalho como traficante porque sua rotina nunca era monótona e a qualquer momento qualquer coisa podia acontecer. Agora sente falta de contextos em que é preciso estar sempre em movimento, “ligado”, com um risco sempre presente. Contextos que oferecem a oportunidade de
299 KASTRUP, Virgínia. A aprendizagem da atenção na cognição inventiva. Psicologia & Sociedade, Rio de
Janeiro, v. 16, n. 3, p. 7-16, set./dez. 2004. Disponível em: <http://goo.gl/jnNbTF>
300 Idem, 2004., p. 8. 301 Ibid., p. 8.
302 LIVRO ANEXO – Das Provas e Indícios – ANEXO B – Dos vídeos – Vídeo 22– Brincando de Tráfico –
experiências de outra ordem, diversas daquelas oferecidas por atividades mais comuns, como o trabalho no escritório de Francisco. Estes são contextos que mantêm em aberto a possibilidade do inusitado, do imprevisível.303
Esta adrenalina advinda do perigo e do risco de viver na rua estava na fala e nos gestos dos jovens da UNIDADE, os quais afirmavam várias vezes que não tinham medo de morrer e por isso, constituía-se como uma espécie de vício, de aparente dificuldade de se abrir mão. Diziam enfrentar bandido ou polícia e me descreviam suas aventuras ao fugir após um roubo ou furto, bem como o que faziam para não ser pegos pelo traficante que deviam. As histórias eram compartilhadas pelos jovens com grande entusiasmo, como um feito heroico.
Assim, este contexto favoreceu a um formato mais livre dos encontros, mas também havia momentos em que era possível teatralizar situações que os jovens estavam experimentando em seus cotidianos, como o dia em que discutíamos sobre o fato de um jovem não conseguir permanecer no estágio. Ele reclamava que já havia passado por três funções diferentes e que ninguém explicava o motivo de ele não permanecer no posto de trabalho. Propus uma dinâmica em que encenávamos várias vezes o atendimento prestado por ele, em que o colocávamos em diferentes situações. O intuito era evidenciar as dificuldades e gerar uma discussão em torno do que acontecia, com a participação de todos os jovens.
Estes momentos em que investigávamos as dificuldades do jovem de abrigo ou de rua ao tentar se empregar no mercado, por exemplo, ou ainda afastar-se do vício das drogas; ser capaz de lidar com a vergonha de não ser alfabetizado, entre outras, aproximavam-me da
responsabilidade e ética em um plano comum entre heterogêneos – eu, os meninos, as
instituições etc.304 Parecia haver uma rachadura nas formas de trabalho verticais pautadas em
atendimentos administrativos e técnicos e abertura ao convívio e ao diálogo partilhado das questões que perturbavam os jovens, sem excluí-los.
Interessante refletir que o transcorrer da prática pelo tempo da convivência propiciou o aparecimento das cenas fóruns não como uma dinâmica que vislumbrava um fim determinado, mas como um meio pelo qual discutíamos as próprias experiências dos jovens, a exemplo do que ocorreu com o jovem Carinhoso. Com bastante empolgação, os jovens aderiram e contribuíram com “a montagem” durante quatro encontros nas quartas-feiras à noite. E por mais que Carinhoso não estivesse presente em alguns deles por estar na rua,
303 DASSI, Tatiana. É, vida loka irmão: moralidades entre jovens cumprindo medidas socioeducativas. 2010.
174 fl. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010. p. 123.
304 KASTRUP, Virgínia; PASSOS, Eduardo. Cartografar é traçar um plano comum. Fractal. Revista de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 25, n. 2, maio/ago. 2013. Disponível em: <http://goo.gl/FgyQvl>.
ainda assim jogávamos na cena com substitutos, pois todos conheciam e compartilhavam de experiências similares àquela vivida por Carinhoso. Em síntese, a situação trabalhada trazia a entrada do jovem em uma Padaria para comprar pães com sua caixa de engraxate. O dono da padaria o vigia desconfiado. De repente uma situação de “suspeita” se instaura: o dono da padaria alega que o jovem ia roubar um pacote de biscoitos. O jovem reage exasperado e a polícia é chamada, conduzindo-o até a delegacia.
Ao realizar a cena fórum, obtive adesão de cuidadores e até vigilantes do abrigo, como pode ser visto no material audiovisual em anexo305. Ao comentarem sobre a cena, os jovens conversam sobre a maneira de vestir e de falar das “pessoas da rua”.
Canto III – Duas experiências de “resultados”: Kaligrafia Maldita e A Roda do Mundo e