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MERIMEE, BALZAC, DUMAS

1 LA REPRESENTATION DU POUVOIR

1.1.2 L’image que le roi donne de lui-même

académicas, etc) e crenças orientam a sua preleção?

Como fazer uma Análise Retórica

Feita uma pequena introdução aos principais elementos a considerar, passa- mos agora ao exercício metodológico da Análise Retórica.

Nesta secção, apresentamos alguns passos que devem ser percebidos ape- nas como um dos vários métodos possíveis para conduzir a análise das estratégias persuasivas. A sua grande vantagem é que permitem tornar mais concreta a nossa investigação, consagrando-se como uma espécie de marcações que assinalam o trilho que pretendemos seguir no caminho em direção à descoberta do funcionamento da persuasão num discurso em particular. O terreno pode ser difícil de desbravar. Contudo, se utilizarmos estes passos metodológicos ou marcações, obtemos facilmente um rumo capaz de conduzir a análise.

Os passos que se seguem regulam o exercício de examinação, aprofundan- do os elementos constantes do acrónimo MELCA. No fundo, cada um destes marcadores contribui para dar “corpo” à análise. Dito por outras palavras, a Análise Retórica parte da fórmula MELCA, desenvolve-se nas seguintes tarefas e culmina – como veremos de seguida – na redação da Análise.

1. Quem fala, A Quem fala, Quando fala, Com que Objectivo fala, o Tema e o Tom do discurso

O objetivo primeiro de qualquer Análise Retórica é responder às seguintes questões: COMO é que o autor do texto ou o orador do discurso mobiliza os diferentes ensinamentos do sistema retórico (Parte I deste livro) com vista

ao sucesso persuasivo? PORQUE escolheu ele esses ensinamentos e estraté- gias tendo em vista aquele auditório/audiência e ocasião particulares? Estas duas questões explanam-se num conjunto de diferentes instâncias que vão esclarecer os grandes parâmetros definidores do discurso retóri- co. Se reparar, o acrónimo MELCA contém já a maioria destes elementos. Porém, por se tratar de um acrónimo que sintetiza os principais elementos analisados, ele deixa de fora alguns aspectos que são agora objecto da nossa atenção.

Referimo-nos ao Objectivo, ao Tema e ao Tom do discurso.

Embora a fórmula MELCA preveja a motivação, ela não supõe o objectivo com que o orador discursa. Assim sendo, há que separar aquilo que despole- ta a argumentação daquilo que a argumentação pretende realizar. Assim, a motivação pode ser sensibilizar os cidadãos para a sustentabilidade ambien- tal, mas o objectivo ser conseguir que mil pessoas subscrevam uma petição. Igualmente, num discurso político, a motivação pode ser responder às insi- nuações dos adversários e o objectivo passar por aumentar a notoriedade do pequeno partido junto do eleitorado. Enfim, num anúncio de publicidade, a motivação para a construção do discurso persuasivo pode ser a diminuição do número de vendas de iogurtes da nossa marca mas o objectivo ser pro- mover um novo sabor.

O tema é, também, um aspecto a ponderar. Um orador pode discursar acer- ca de um mesmo tema mas com diferentes tons e argumentos. Assim, o tema geral pode ser a saúde mas a originalidade do discurso pode residir na forma como esse tema é tratado de forma tão inovadora. Não identificar o tema pode, deste modo, afectar a interpretação das estratégias persuasivas, tal como não ter em linha de conta o tom do discurso pode levar a análises erróneas.

Por tom do discurso, entendemos com o conjunto complexo relacionado com a atitude, postura e disposição que o orador imprime ao seu discurso. Neste caso, não designa uma propriedade vocal mas uma orientação rela-

cionada com a imagem que o orador pretende dar de si. O tom pode incluir elementos linguísticos (usar calão), paralínguísticos (falar demasiado baixo) ou não-verbais (por exemplo, a linguagem corporal). Ele é determinante no modo como o orador estabelece a sua credibilidade (Ethos). Criar o tom dis- cursivo adequado numa reunião de negócios é substancialmente diferente do tom discursivo de um discurso de motivação para surfistas. Assim, aqui- lo que no caso dos surfistas seria aceitável (o orador usar calções, falar alto uma vez que se encontra junto da rebentação das ondas do mar, gesticular muito, ou usar gíria como “o mar está flat”) seria totalmente inconcebível numa reunião de negócios. O contrário também sucede: imagine um gestor de produto que se dirige aos seus colegas surfistas, sob um sol escaldan- te, com fato e gravata, incluindo sapatos pretos engraxados, falando numa gramática irrepreensível e com palavras muito rebuscadas (e desadequa- das à ocasião, tal como “fazer o upgrade da prancha através de uma Joint Venture”).

É claro que estes são exemplos extremos que dificilmente ocorrem na rea- lidade. Porém, na Análise Retórica lidamos frequentemente com pequenas nuances e será a identificação do tom discursivo que nos ajudará a descobrir o porquê de certas estratégias persuasivas terem – ou não – sido usadas. Assim, o tom do discurso prende-se com a natureza do discurso bem como a sua ocasião, motivação e objectivo. Juntamente com o tema, orador, audi- tório, e ocasião, ele forma os atributos incontornáveis de qualquer Análise Retórica.

2. Os Apelos, os Argumentos e as Provas Artísticas

Como já observámos, são vulgares os apelos emocionais bem como certo tipo de argumentos (por exemplo, os quase-lógicos) e a escolha de determi- nadas provas artísticas em detrimento de outras (Ethos, Logos, Pathos). O segundo passo analítico é identificar, compilar e interpretar os mecanis- mos retóricos empregues no discurso (seja ele verbal ou visual, um texto escrito ou oral, um anúncio de publicidade ou um artigo de imprensa).

Os argumentos de autoridade são ocorrem muitíssimo, inclusivamente de forma espontânea. Recorda-se quando a sua filha mais velha tentava per- suadir o irmão mais novo a vir com ela para o jardim? O que costumava ela dizer? Talvez: “Foi o pai que disse para vires comigo!”. Repare que aludindo à figura paternal, associada à autoridade, a sua filha procurava convencer o irmão. Também são frequentes, argumentos de autoridade no mundo da economia política (“Como dizia Marx…”) ou mesmo no mundo Académico (“De acordo com Aristóteles, podemos afirmar que…”).

Também é fácil detetar a ocorrência do predomínio de certas provas artísti- cas face a outras em determinados discursos retóricos.

Assim, um discurso de âmbito económico tende a privilegiar o Logos e a argumentação racional. Afinal, a reivindicação da rentabilidade, produ- tividade e economia acentuam a natureza racional do ser humano e são acompanhadas de inúmeras provas de carácter lógico e racional: gráficos de desempenho, percentagens, cálculos de probabilidade, cálculo de oportu- nidades e ameaças, etc.

Analogamente, os discursos políticos baseiam-se (ainda que não exclusiva- mente) no Ethos do orador e na sua idoneidade. É por isso que os escândalos políticos (independentemente da sua natureza criminal, sexual ou econó- mica) são tão penalizadores e tão insistentemente evitados: eles quebram a confiança (Ethos) do eleitorado na personalidade política, destruindo a sua imagem pública. Apenas em raras exceções, o político condenado por frau- de fiscal ou corrupção, reabilita a sua carreira e regressa ao antigo cargo ocupado. A identificação da prova artística dominante é, deste modo, mais um elemento central da Análise Retórica ao fornecer-nos, de forma muito rápida, o “carácter” mais racional, emocional ou credível do discurso.

3. O Estilo (dicção e/ou elegância de escrita, sintaxe, vocabulário)

O terceiro passo a dar no caminho da Análise Retórica prende-se com o es- tilo num sentido muito aproximado do de Elocução (Elocutio). Nesta parte, a pesquisa sobre o discurso retórico concentra-se nos elementos linguísti-

cos: construção frásica, conjugação verbal, rimas, concordâncias de género, figuras de estilo como aliterações ou anacolutos, ou ainda, a riqueza e a diversidade do vocabulário.

Repara-se na elegância, decoro e versatilidade da prosa e procura-se os elementos de singularização do discurso. O Estilo diz respeito à forma sim- bólica, à palavra escrita ou falada e envolve discernir como a linguagem é utilizada como veículo das assunções e ideias do orador. O encadeamento entre parágrafos, bem como a escolha sintagmática dos termos é reveladora do tipo de persuasão envolvida, e encontra-se, em parte, ligada à identifica- ção do tom do discurso.

Há textos cuja persuasividade é imediatamente remetida para um deter- minado domínio social, como por exemplo, as tomadas de posse, ou os discursos nas cerimónias públicas oficiais. Apenas pelo tratamento protoco- lar (ex: “Excelentíssimo Senhor Presidente da República…”, Ou “Sr. Presidente”) retiram-se ilações acerca da ocasião e motivos do discurso.

A dicção refere a forma de pronúncia das palavras, no caso de discursos apresentados oralmente. Mas pode igualmente referir, no caso de textos escritos, a escolha das palavras que o orador utiliza para dar formas às suas ideias. Assim, dizer “consultor imobiliário” ou “vendedor de casas” não é exactamente a mesma coisa, uma vez que, apesar de designar a mesma profissão, evoca diferentes registos de linguagem.

Neste ponto da Análise, é útil identicamente de encontrar padrões discur- sivos, seja na repetição, regular e coerente, de palavras, seja na repetição intencional de frases (parcial ou integralmente).

O famoso discurso “I Have a Dream” de Martin Luther King faz um uso ex- celente da Anáfora repetindo o inicio da frase sucessivamente como meio de enfatizar as suas teses levando o auditório a antecipar o desfecho. Atente-se neste excerto do discurso de Martin Luther King:

“Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais”.

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de an- tigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufo- cado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa na- ção onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.

Tenho um sonho, hoje”.

Ao nível sintáctico, importa observar a existência, ou não, de esquemas lin- guísticos e a sua alternância. Por exemplo, em vez da ordem habitual “Sujeito, Verbo, Complemento Directo” é possível que o orador, por algum motivo, opte pelo hipérbato e inverta a ordem para “Verbo, Sujeito, Complemento Directo”. Nalguns casos, tendo em conta a métrica e a rima, o orador tem necessariamente de recorrer ao hipérbato. Eis um pequeno exemplo: “Nação porque reencarnaste,

Povo porque ressuscitou

Ou tu, ou o de que eras a haste – Assim se Portugal formou”

(Fernando Pessoa, Mensagem, “Os castelos”, Viriato)

Ainda ao nível sintáctico, o discurso pode manifestar-se através da pontua- ção, frases simples ou complexas (com muitas orações); ou através de frases curtas e frases compridas; ou ainda, insistir em construções frásicas ten- dencialmente declarativas, exclamativas ou imperativas. Considere-se este