4. ECLAIRAGES
4.6 Le fonds d’intervention régional (FIR)
médio. No capítulo nove apresenta o tema do trabalho, com o título: trabalho e alienação. O capítulo foi elaborado por Luiz Carlos Ribeiro e apresenta uma série de temáticas relacionadas ao mundo do trabalho que serão analisadas.
O primeiro subtema é o conflito entre trabalho e realização. Ribeiro, assim, entende a relação entre trabalho e realização: “se por trabalho entendemos toda atividade do homem
transformando a natureza, a relação entre trabalho e realização humana parece evidente”
(RIBEIRO, 2000, p. 195 – grifos do autor). Ribeiro diz que esta relação perpassa as relações sociais históricas. “Essa relação é tão antiga quanto a história da humanidade. Dos gregos antigos às sociedades industrializadas norte-americana ou japonesa de hoje, passando pela experiência socialista, o homem procura a sua realização por meio do trabalho” (idem, p.195). O trabalho aparece de modo geral, não entra nas especificidades históricas. Será que é possível definir o trabalho deste jeito? Genericamente, independentemente do modo societal? Até que ponto o autor consegue explicar o trabalho no modo capitalista de produção, denominando trabalho como a ação transformadora (material ou intelectual) do homem,
realizada na natureza e na sociedade em que vive? O autor parece não estar muito confortável
com essa conceituação e questiona: “por que trabalho e realização parecem viver um eterno conflito? Se a realização do homem se encontra no trabalho, por que ele necessita ser educado para o trabalho? Por que é necessário convencê-lo – muitas vezes até pela força – da necessidade do trabalho?” (idem, p. 195). É de se perguntar se sua definição de trabalho tem um caráter explicativo da realidade e se sua inquietação faz sentido? Será que a definição de trabalho não poderia ser outra e, por conseguinte, também os questionamentos? Para Ribeiro, parece que não. O autor vai procurar explicações na própria palavra “trabalho”, do latim “tripalium” para justificar que o trabalho guarda o sentido de tortura. No entanto, o mesmo trabalho que é “opressivo e estafante” pode ter um caráter de realização. “Porque o homem, mesmo quando se sente impotente, é inventivo e produz seus espaços de liberdade e criação, onde encontra um grau de felicidade” (idem, p.196). Esta problemática do trabalho e realização “é um processo de eterna luta, como nos mostram alguns exemplos históricos” (idem, p. 196). Ribeiro passa a situar o trabalho desde a sociedade greco-romana, na qual a
divisão do trabalho era vista de maneira natural, passando pela experiência medieval, até a “sociedade de mercado”.
O foco principal será análise do trabalho na economia de mercado feita por Ribeiro. O autor destaca que o trabalho na sociedade capitalista mantém ainda velhas formas das sociedades antigas e medievais. “Fez renascer de novo o trabalho compulsório dos africanos nas colônias da América” (idem, p. 198). Porém para as “elites” que comandavam esse sistema o “trabalho livre era a forma ideal” (idem, p. 198). O escravo não tinha liberdade, mas “ao trabalhador europeu era concedido o direito soberano da liberdade” (idem, p. 198). Todavia essa liberdade burguesa é relativa, pois o trabalhador europeu, com o passar do tempo, também teve que se submeter ao império do capital.
Ocorreu a separação entre o trabalhador e os meios de produção. “Podemos afirmar que a essência do sistema capitalista encontra-se na separação entre o capital e o trabalho” (idem, p. 199). Isto gerou dois tipos de homens livres: “o trabalhador livre assalariado, que vivia exclusivamente de seu trabalho, ou seja, da venda de sua força de trabalho, e o burguês, ou capitalista, proprietário dos meios de produção” (ibidem). Observa-se que o autor não explicita a relação que se estabelece entre ambos. No entanto, ele chama a atenção para “o novo conceito dado ao trabalho” (ibidem) que possuía uma “dupla face: de um lado, o trabalho como fruto da vontade e de objetividade livremente determinados (trabalho dos donos dos meios de produção); de outro, o trabalho mecânico e subordinado a uma vontade exterior (trabalho de quem não possuía os meios de produção)” (ibidem). Ribeiro parece entender que o trabalhador, de fato, não é livre. O trabalhador trabalha porque se sente constrangido a trabalhar, porque não é dono dos meios de produção, por conseguinte, trata-se de uma relação desigual, “dupla face”, aquele que tem os meios de produção tem direito a um tipo de trabalho e os não possuidores dos meios de produção têm outro tipo de trabalho.
Ribeiro identifica que a sociedade capitalista criou uma “ética capitalista do trabalho” (ibidem), na qual passou-se a pregar que o “trabalho é inerente ao homem”, o “trabalho como essência da natureza humana” (ibidem). O trabalho adquiria “legitimidade na conquista da cidadania” (ibidem). Recorre a Maquiavel e Martinho Lutero para concluir que a nova moral tem a valorização do trabalho produtivo como sinônimo de progresso e de salvação divina. Adam Smith também é lembrado pelo autor, por considerar o “trabalho como fonte de toda riqueza, individual e coletiva. A riqueza de uma nação depende essencialmente da produtividade baseada na divisão do trabalho” (idem, p. 200). Enfim, “só o trabalho produtivo, fundado na máxima utilização do tempo, dignifica o homem” (idem, p. 201). O projeto burguês precisava vencer, cristalizar-se,
para tornar vitoriosa a nova ordem, procurou-se eliminar qualquer forma de resistência. Impôs-se um modelo de sociedade em que só o trabalho
produtivo fabril imperava. Quem se encontrasse fora desse modelo era
expurgado da sociedade. A grande massa de europeus que imigraram para a América no século XIX pode ser tomada como exemplo desse expurgo
(idem, p. 2002 – grifos meus).
Ribeiro traz à tona a idéia de “trabalho produtivo”. Pelo contexto deve ser entendido como aquele trabalho que produz mercadorias, coisas, riquezas. Não deve ser tomado como trabalho produtivo de capital, tal como Marx apresenta no capítulo XIV de “O Capital”, bem como no capítulo VI Inédito de O Capital.
O autor, citando Adam Smith, afirma que o valor dado ao trabalho é o salário para
manter-se. Deve-se “fornecer ao trabalhador o mínimo necessário para sobreviver e procriar
novos operários” (idem, p. 203). Portanto, a realização dos operários pelo trabalho era a “sobrevivência” e a “procriação”. Ribeiro faz então uma associação a respeito da situação dos trabalhadores no capitalismo e nas sociedades anteriores, nas quais “os prazeres do espírito ficam reservados à elite. O trabalhador, em geral, deve bastar-se no exercício do trabalho braçal” (idem, p. 203). Também o “trabalho produtivo tinha por fim gerar uma riqueza que não deveria ser apropriada pelo trabalhador” (idem, p. 203). Ribeiro também entende que o
trabalho livre e a máquina não libertaram o homem do esforço físico, pelo contrário, a
maquinaria serviu para impor a disciplina de tempo e trabalho e ameaçar o trabalhador com o desemprego.
Em outro subtítulo, Na razão do mercado, o medo, Ribeiro destaca o perigo iminente
da revolução ante a exploração do trabalho. “A máxima produtividade transformou a
sociedade do trabalho em sociedade da barbárie” (idem, p. 203), marcada pela luta entre capital e o trabalho. Marx e Engels, a partir do Manifesto Comunista, de 1848, “radicalizaram a crítica ao sistema de fábrica” (idem, p. 203). Não tem reforma no modo capitalista, “só a erradicação da exploração do capital sobre o trabalho, liderada pelas massas proletárias, traria soluções sociais positivas” (idem, p. 203). Ribeiro observa que as críticas feitas ao modo capitalista trouxeram algumas melhorias à classe trabalhadora. Cita que o próprio Engels, “escrevendo em1892, reconhecia algumas melhorias nas condições dos trabalhadores de Londres” (idem, p. 204). O autor recorreu a Marx somente nesse momento, citando algumas idéias rápidas do “Manifesto do Partido Comunista”, desconsiderando todo o trabalho de Marx, principalmente na obra dedicada à explicação da produção e reprodução do capital - O Capital -, começando pela mercadoria e indo a fundo na análise do processo de formação do capital, explicitando, entre outros conceitos, a teoria do valor, os processos de trabalho, salário , preço, lucro, mais-valia, entre outros.
Na seqüência da apresentação do seu texto, Ribeiro desenvolve uma reflexão sobre aquilo que chama de o apogeu do mundo liberal. Nesse tópico, o autor analisa o “taylorismo” e o “fordismo” como respostas do capital às inquietações dos trabalhadores. Trata-se de buscar maior “produtividade, sofisticando mais a divisão do trabalho [...] era preciso formar o homem dócil, em oposição ao trabalhador politizado e sindicalizado” (idem, p. 204). O taylorismo e fordismo “são estratégias para domesticar o trabalhador” (idem, p. 204).
Outro tópico apresentado refere-se ao trabalho e à alienação35. A alienação se manifesta no momento em que o
trabalhador, como indivíduo, não possui vontade própria sobre o que e como produzir – esse poder de decisão não lhe pertence, como não lhe pertence o fruto de seu trabalho. A identidade que o trabalho lhe proporciona é algo estranho à sua vontade. Essa identidade lhe é imposta; ele não se reconhece. Confinado ao local da produção, o trabalhador não define seu ritmo de trabalho, seu salário, suas condições de moradia, seu tempo de lazer. Transforma-se em sujeito alienado (idem, p. 206, grifos meu).
Verifica-se que o autor não se referencia em nenhum autor para analisar o fenômeno da alienação e, referindo-se ao trabalhador, afirma ainda mais: “sua identidade, ao mesmo tempo em que é sua, não lhe pertence. Foi-lhe atribuída por outro. Ou, mais precisamente, é o mercado que a define” (idem, p. 206). Por isso, para o autor, a “alienação” é sinônimo de
coisificação, desumanização do homem por meio do trabalho. Milhões de “indivíduos
assalariados produzem riqueza, mas só acumulam miséria” (idem, p. 207). Percebe-se aí a idéia do autor de trabalhador como miserável. O autor também identifica a idéia de alienação com ansiedade e insatisfação, e atinge outras camadas da sociedade. Enfatiza ele: “no entanto, o fenômeno da alienação não atinge somente os ‘miseráveis’, mesmo entre aqueles que recebem altos salários, é fácil contatar o elevado grau de insatisfação e ansiedade” (idem, p. 207). O final desse tópico retrata um tom moralizante afirmando que “parte dessa insatisfação é fruto da moderna sociedade de consumo, caracterizada pela ausência de paradigmas éticos e de sociabilidade” (idem, p. 207).
Nos tópicos seguintes, a realização no mercado consumidor e os caminhos para a
realização, o autor procura fazer uma crítica ao mercado consumidor, chamando a atenção
para a existência de milhões de excluídos e sobre as possibilidades de o homem encontrar
alguma realização no trabalho. As soluções apontadas para a sociedade capitalista atual estão
ruptura radical com a lógica do capital. As pessoas não se comprometem com a conquista da
cidadania plena, em que “toda a sociedade sai ganhando” devido “ao egoísmo dos homens,
sempre querendo mais e mais lucros, e pela impotência das massas, decorrente do processo de alienação” (idem, p. 212). O autor afirma que “é possível viver com mais dignidade e mais humanidade. Lutar para eliminar os bolsões de pobreza absoluta que envolvem milhões de pessoas é conquistar condições mínimas de felicidade, o que supõe a solidariedade entre todos” (idem, p. 212). Ainda mais,
caminhar em direção da maior satisfação de viver significa romper com o reinado da alienação, em que a vontade da maioria é dominada por poucos. Significa resgatar os princípios do homem-cidadão e transformar o debate sobre a valorização do trabalho numa questão política. A conquista da dignidade não interessa apenas àqueles que vivem do trabalho, mas é fundamental para toda a sociedade (idem, p. 212).
Portanto, a realização no trabalho é possível dentro da lógica do capital. Até que ponto o autor ajudou a explicar, a fazer a crítica ao processo de trabalho, submetido à lógica do capital é algo no mínimo incipiente, que necessita de mais aprofundamento. Entender por
trabalho toda atividade do homem transformando a natureza, ou denomina-se trabalho a ação transformadora (material ou intelectual) do homem, realizada na natureza e na sociedade em que vive, parece ajudar muito pouco a explicar o trabalho submetido à lógica da
produção e reprodução do capital, na lógica da sociedade capitalista. O autor mal arranhou o entendimento do processo de trabalho em geral, não entrou na análise do trabalho abstrato e no trabalho produtivo de capital, que parece ser decisivo na compreensão do trabalho no modo capitalista. Quando o autor procurou jogar luzes para o futuro, para as utopias
libertárias, ficou preso na conquista da cidadania plena, não apontando como seria o trabalho
numa sociedade em que a classe trabalhadora estaria emancipada da lógica do capital.
4.2. FUNDAMENTOS DA FILOSOFIA. Obra de filosofia para o ensino médio de