4. ECLAIRAGES
4.3 Etat des lieux de l’offre de soins de psychiatrie
trabalho e sociedade. A autoria da referida unidade é de Nelson Dacio Tomazi.
Na introdução da unidade, o autor levanta duas questões que ele próprio procura responder. A primeira é para que existe o trabalho? Poder-se-ia responder afirmando que “o trabalho existe para satisfazer as necessidades humanas, desde as mais simples... Até as mais complexas... Enfim, todas as necessidades físicas e espirituais” (TOMAZI, 2000, p. 34). A segunda questão é quem “inventou” o trabalho? Tomazi não responde diretamente, mas afirma que estudando as diversas formas sociais, “encontram-se não só os mais variados modos de organização do trabalho, como também maneiras muito diferentes de se valorizar essa atividade, assim como diferenças na sua relação com as outras esferas da vida social”. (idem, p. 34).
A unidade trabalho e sociedade apresenta três capítulos. O primeiro analisa as sociedades tribais, a sociedade greco-romana e a sociedade feudal; o segundo capítulo analisa
mais detidamente o trabalho na sociedade capitalista; e o terceiro desenvolve a análise da questão do trabalho no Brasil. Como o objeto de estudo deste trabalho está centrado na compreensão da categoria trabalho na sociedade capitalista, deter-se-á na análise do segundo capítulo da unidade, que trata do trabalho na sociedade capitalista.
Tomazi menciona que a compreensão do trabalho na sociedade capitalista deve levar em conta não uma única sociedade capitalista, mas muitas, que se constituíram nas mais
diversas regiões do planeta. Em tese, o capitalismo se constitui de modo diferente nos vários
países. Entretanto, afirma Tomazi, o que elas têm em comum é a forma como a produção
material se desenvolve. A sociedade capitalista caracteriza-se pela propriedade privada, o trabalho assalariado, o sistema de troca e uma determinada divisão social do trabalho.
Após fazer essas observações, Tomazi procura demonstrar como o trabalho se
transforma em mercadoria.
Pode-se afirmar que o trabalho se transforma em força de trabalho quando se torna uma mercadoria que pode ser comprada e vendida. E, para que ele se transforme em mercadoria, é necessário que o trabalhador seja desvinculado de seus meios de produção, ficando apenas com sua força de trabalho para vender. O trabalho assalariado existiu desde a Antigüidade, mas não de maneira tão extensiva e dominante como no capitalismo (idem, pp. 46 e 47).
Sem citar que está se referenciando em O Capital de Marx, como poderá ser visto no capítulo seguinte, Tomazi explicita, historicamente, como foi se dando o processo de constituição da sociedade capitalista; o processo de acumulação primitiva; a cooperação simples; a manufatura ou a cooperação avançada, na qual o trabalho passa a ser coletivo.
Essas mudanças que ocorreram na forma de produzir as mercadorias levaram a uma nova concepção de trabalho, mudou-se a maneira de pensar a respeito do ato de trabalhar. Desde as sociedades escravistas antigas, o trabalho era visto como algo penoso, vil, difícil, uma verdadeira tortura – “tripallium”. As mudanças ocorridas fizeram com que o trabalho
passasse a ser visto como o criador de toda a riqueza. O significado do trabalho passou a ser
objeto de discussão. Os protestantes começaram a ver o trabalho como fonte de vida, virtude, caminho para a salvação. O sociólogo alemão Max Weber procura demonstrar essa nova postura dos cristãos ante o trabalho, Tomazi entende que “a concepção protestante e puritana em relação ao trabalho vai servir muito bem à burguesia comercial, e depois à industrial, que precisava de trabalhadores dedicados, sóbrios em relação às condições de trabalho e aos baixos salários” (idem, p. 49). O autor reconhece que os Iluministas também contribuem para essa nova concepção de trabalho. Por meio da ciência, da técnica e das artes mecânicas se
entende que essas duas posições alteraram profundamente a concepção sobre o trabalho e são dominantes até os dias de hoje.
Num outro subtema, Tomazi vai descrever trabalho e capital: uma relação
conflituosa, no qual procura demonstrar que a implantação das fábricas e a utilização das
máquinas em substituição da força humana acabam por tirar do trabalhador suas habilidades e transferi-las para as máquinas. O trabalhador não precisa mais dominar um ofício. “É nesse contexto que se pode analisar com mais atenção a questão do conflito e da contradição entre trabalho e capital, pois é aí que aparece claramente o processo de exploração do trabalhador” (idem, p. 50). Para Tomazi, a relação entre iguais é apenas aparente, pois, uma vez contratado, o trabalhador deve trabalhar as horas que o capitalista determinar. Uma certa quantidade de horas diárias para produzir o valor do seu salário e as demais horas de graça para o capitalista. As horas trabalhadas e não pagas possibilitam a acumulação de capital. “O capital nada mais é do que trabalho não pago, isto é, aquela parte que o trabalhador produz e que não lhe é paga – mais-valia – para os bolsos do patrão” (idem, p. 50).
Tomazi expressa sua compreensão a respeito das duas formas de mais-valia, a saber: absoluta e relativa.
Para obter mais lucros, os capitalistas aumentam as horas de trabalho, gerando aí a mais-valia absoluta, ou então, passam a utilizar equipamentos e diversas tecnologias para tornar o trabalho mais produtivo, decorrendo daí a mais-valia relativa, ou seja, mais produção e mais lucro com o mesmo número de trabalhadores, cujos salários continuam sendo os mesmos
(idem, p. 50).
Tomazi entende que esse processo de exploração da classe trabalhadora feita pelos capitalistas leva aos conflitos entre as classes. A partir do momento em que os trabalhadores percebem que estão trabalhando mais e recebendo menos; cada vez mais miseráveis, partem para a ofensiva. Vários tipos de enfrentamentos ocorrem, tais como o movimento dos “destruidores de máquinas”, “as greves”, “revoltas”. Os operários começam sua organização por todo o mundo, iniciando pela Europa.
O autor reconhece a contribuição de Marx no estudo do trabalho na sociedade capitalista. “Essa forma de analisar a questão do trabalho na sociedade capitalista foi desenvolvida por Karl Marx, no século XIX, que procurou demonstrar a existência de um conflito de classes entre trabalhadores e capitalistas, elemento este que é inerente à sociedade burguesa” (idem, p. 51). No entanto, Tomazi assinala que outros autores analisam o trabalho na sociedade capitalista de maneira diferente, como é o caso de Émile Durkheim, que reconhece que a moderna sociedade industrial traz consigo uma forma superior de
solidariedade, e não o conflito. Trata-se da solidariedade mecânica e orgânica. Os conflitos
seriam superados a partir de instituições e normas integradoras que permitissem que a
solidariedade advinda da divisão do trabalho pudesse se expressar.
Na seqüência, o autor explica o desenvolvimento da indústria capitalista a partir daquilo que se conhece por fordismo e taylorismo. As mudanças introduzidas no processo de produção intensificaram ainda mais a exploração capitalista. Nos períodos mais recentes, o capitalismo vem passando por nova transformação, uma nova fase no processo produtivo
capitalista, que poder-se-ia chamar de pós-fordismo ou da acumulação flexível, que se
caracteriza por “flexibilização dos meios de trabalho, incluindo aí a automação; flexibilização e mobilidade dos mercados de trabalho; flexibilização dos produtos e também dos padrões de consumo” (idem, p. 54). A conseqüência dessa nova fase é o desemprego estrutural, tanto nos países periféricos, bem como nos países de economias mais avançadas. As repercussões mais problemáticas são nos países periféricos, onde não existe um sistema de proteção aos desempregados, deixando-os numa situação desesperadora.
Tomazi aponta como alternativa para o desemprego a redução da jornada de trabalho.
Elevar o número de trabalhadores ocupados através da diminuição das horas de trabalho semanais.
Após a apresentação do capítulo o trabalho na sociedade capitalista, Tomazi propõe alguns textos para discussão. Dentre eles, apresenta um de Marx, a jornada de trabalho no
capitalismo, tirado da obra O Capital, v. 1, cap. VIII (MARX, 2003), no qual Marx analisa a
jornada de trabalho na Inglaterra, que, muitas vezes, podia ser de até 16 horas diárias, provocando doenças e morte prematura ao trabalhador. Marx entende que a produção capitalista, que é essencialmente produção de mais-valia, absorção de mais trabalho, prolonga a jornada de trabalho, aniquilando a própria força de trabalho.
2.4. APRENDENDO SOCIOLOGIA: a paixão de conhecer a vida. Obra de Paulo