4. ECLAIRAGES
4.9 Enseignements de l’enquête comportement de départ en retraite
nações. O autor aborda o trabalho em vários tipos de sociedade como a escravista, servil medieval, da revolução industrial e das novas técnicas empresariais do século XX como o taylorismo. Ressalta também a atenção que o trabalho recebeu do Estado no fascismo e no
41 Obra de Paulo Sérgio do Carmo, formado em Sociologia e mestre em Filosofia, professor de Sociologia e Filosofia. A obra foi escrita em 1992, dedicada a todos os que se interessam pela discussão do mundo do trabalho.
comunismo; bem como analisa o trabalho na sociedade brasileira desde a época colonial até os dias atuais.
A obra faz uma reflexão sobre o prestígio conferido ao trabalho na sociedade atual e uma discussão sobre os possíveis rumos do trabalho após a introdução de novas tecnologias e sobre como reagirá um modelo econômico sustentado no desperdício de recursos naturais não-renováveis . Se o “reino da liberdade” de Marx é impossível de se realizar, o autor diz que se deve pelo menos lançar mão do imperativo dos trabalhadores europeus: “trabalhar menos para que todos trabalhem e vivam melhor” (CARMO, 1992, p. 80).
A atenção se voltará para alguns aspectos da obra de Carmo. O primeiro olhar recai sobre a definição de trabalho. A definição de trabalho parece estar fundamentada em Marx, no capítulo V de O capital.
Podemos definir o trabalho como toda atividade realizada pelo homem civilizado que transforma a natureza pela inteligência. Há mediação entre o homem e natureza: domando-a ele a seu desejo, visa a extrair dela sua subsistência. Realizando essa atividade, o homem se transforma, se autoproduz e, ao se relacionar com outros homens, na realização da atividade, estabelece a base das relações sociais. Dessa forma, a diferença entre o homem e o animal fica evidente, pois o ninho do pássaro ou a casa da abelha, por exemplo, são atividades regidas pelo instinto, programadas, nas quais não há a intervenção da inteligência. De acordo com Karl Marx, pensador e político alemão, a capacidade de projeção da consciência na idealização de uma casa é que distingue o pior arquiteto da mais hábil abelha. Visto dessa forma, o trabalho é um ato de liberdade. Ele se torna alienado quando é parcelarizado, rotinizado, despersonalizado e leva o homem a sentir-se alheio, distante ou estranho àquilo que produz. As imposições de um poder burocrático que decide pelo trabalhador fazem do trabalho o dominador da natureza e da natureza humana (CARMO, 1992, p. 15-16 – itálico do autor).
Para o autor, o trabalhador, no mundo das mercadorias, “também se torna mercadoria, distanciando-se dos outros homens e até de si mesmo. A perda da autonomia em suas atividades faz com que ele não se reconheça mais como o responsável pelo produto do trabalho realizado” (ibidem).
O autor também busca o sentido da palavra trabalho, remetendo ao latim tripalium (instrumento de tortura). No latim vulgar, ela significa pena ou servidão do homem à natureza. Observa que o trabalho foi se transformando ao longo da história. “Inicialmente considerado esforço de sobrevivência, o trabalho transformou-se ao longo da história em ação produtiva, ocupação e, para muitos, algo gratificante em termos existenciais” (ibidem).
O conceito de ideologia também precisa ser evidenciado, visto que o seu livro trata da “ideologia do trabalho”. Em seu sentido amplo, “a ideologia foi usado na metade do século XIX por Marx, que via na luta de classes o motor da história” (ibidem). A idéia está solta e
não há uma explicitação do que seja “luta de classes como motor da história”. Após afirmar que o sentido da palavra ideologia varia muito de autor para autor, Carmo, em síntese, afirma que considera a ideologia como “uma representação imaginária do real, de que os homens se servem para agir, ou um conjunto de idéias impostas para o exercício da dominação, e, também, uma falsa consciência” (ibidem). Conclui que o trabalho não poderia ficar alheio à ideologia.
Após fazer um resgate do trabalho ao longo da história, Carmo analisa a consolidação da sociedade capitalista e o surgimento da crítica a esse modo de produção. Constata que o capitalismo consolidou um período de grande desenvolvimento econômico e industrial e a nova maneira de organizar o trabalho como decisiva para esse processo. Ao lado de grande desenvolvimento industrial, houve também o crescimento da miséria, salários baixos, desemprego, entre outros males. Era uma época de muita crise, sendo que os capitalistas , sempre que puderam, combateram a resistência dos trabalhadores.
Uma das críticas mais contundentes ao modelo capitalista foi feita por Marx, “cuja influência se estendeu a toda parte do mundo” (idem, p. 37).
Ele ficou fascinado pela produtividade sem precedentes na sociedade ocidental e dedicou numerosas páginas de críticas à condição degradante em que se encontravam os trabalhadores. Baseando-se na dinâmica econômica, Marx procurou dotar o trabalhador de uma bagagem teórica e prática capaz de reverter sua condição de explorado. Segundo ele, só o trabalho gera riqueza, e justamente quem produz a ela não tem direito. Sua idéia é a de que pelo trabalho o homem deixa de ser escravo dos desígnios da natureza, moldando a matéria bruta à sua necessidade. Nessa atividade o homem se ‘naturaliza e a natureza se ‘humaniza’. Quem olha a vida econômica através da circulação exterior das riquezas tem a impressão de uma igualdade entre dar e receber; no entanto, quem penetra na intimidade da produção fabril verifica que é o homem que aliena sua força de trabalho para gerar riquezas privadas. Nesse tipo de atividade, o homem se torna infeliz, não desenvolve sua potencialidade, sente-se como algo externo a si mesmo ‘e só se sente ele próprio quando fora do trabalho’; no trabalho, sente-se ‘fora de si mesmo’, diz Marx (idem, pp. 37-38).
Carmo salienta que muitos acham que o nome mais apropriado à obra O Capital de Marx não seria esse e sim O Trabalho, visto que é o trabalho, na realidade, “o personagem central na teoria marxista, que dá sustentáculo ao capital” (ibidem). Para Marx, “o objetivo da revolução socialista não se cumpre com a emancipação da classe trabalhadora, mas com a liberação do homem em relação ao trabalho” (ibidem). Cita também a experiência que a escritora e filósofa francesa Simone Weil fez, submetendo-se ao trabalho fabril. conforme ela, “‘o ópio do povo’ – que Marx acreditava ser a religião – é, na realidade, o trabalho”. Para ela, a esperança está na liberação final do fardo do trabalho, esse deveria ser o verdadeiro objetivo dos movimentos trabalhistas.
Carmo afirma que a ideologia do trabalho foi seguida por boa parte dos marxistas ortodoxos, que continuaram a exaltar o trabalho “ao elevá-lo a fator essencial da vida real dos homens” (idem, p. 39). Existiu e existem os críticos à sociedade do trabalho, como, por exemplo, Paul Lafargue, em o direito à preguiça, porém “o nosso tempo, considerado o ‘século do trabalho’, nos faz dedicar a essa atividade toda a nossa existência” (idem, p. 40).
Após descrever o taylorismo, o fordismo, bem como as experiências do nazi-facismo, e do socialismo soviético, o modelo japonês de produção e a industrialização no Brasil, Carmo apresenta no último capítulo – um reino ameaçado? – algumas possibilidades para o futuro da sociedade do trabalho.
O autor descreve que com freqüência aparece alguém prevendo o fim da sociedade do trabalho. A causa para isso ocorrer estaria relacionada ao avanço da revolução da microeletrônica. Enfatiza que já na década de 60, o economista J. K. Galbraith previa o fim do trabalho penoso, monótono e repetitivo. Sonho esse já vivido na Inglaterra do século XVIII, com o advento da máquina a vapor, só que não realizado ainda. Cita também as idéias da filósofa Hannah Arendt, que na década de 50 previu que dentro de um curto espaço de tempo as fábricas seriam esvaziadas e, com isso, a humanidade estaria livre do fardo do trabalho. Constata, no entanto, que na prática esse sonho de livrar o homem do trabalho somente se realiza para alguns à custa do trabalho de outros.
Na prática, a era moderna, ao invés de libertar o homem do trabalho, glorifica-o, visto que “a era moderna trouxe consigo a glorificação do trabalho e, conseqüentemente, transformou o mundo em que vivemos em uma ‘sociedade operária’” (idem, p. 75). Ainda mais: “à medida que essa ‘sociedade de trabalhadores’ caminhasse para a libertação do trabalho, criar-se-ia um vazio, pois ela ‘não conhece outras atividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade’” (ibidem). Segundo Arendt, o paradoxo está posto: ao glorificar o trabalho, defronta-se com a “possibilidades de se tornar uma sociedade de trabalhadores sem trabalho” (ibidem).
O autor menciona o desemprego como prova concreta e maior preocupação da maioria dos países. Com muita dificuldade são mantidos os postos de trabalho. Esses são mantidos “graças à prática contínua da fabricação de bens de consumo imediatos e aos grandes investimentos na indústria armamentista”. De acordo com Carmo, o fato de se fabricar bens pouco duráveis é o que possibilita gerar empregos. “É da lógica do sistema fabricar produtos frágeis e rapidamente deterioráveis, que logo serão substituídos por outros, geralmente mais sofisticados” (idem, p. 76), ainda mais: “O desperdício e as necessidades artificiais fornecem essa lógica absurda para manter a economia” (ibidem).
O lazer alienado também entra na lógica da sociedade do trabalho, uma vez que, “para consumir os produtos da indústria do lazer, os indivíduos têm de trabalhar mais, completando o círculo vicioso” (ibidem). Os estudos de Geoges Friedmann, diz Carmo, demonstram que os trabalhadores supriam seu tempo livre com outro trabalho, sendo que o principal motivo não era o salário baixo, mas sim a falta do que fazer no tempo livre, bem como o desejo de ganhar mais para consumir mais. O consumo é um estímulo para o trabalho.
O autor procura entender por que ocorre essa intensa devoção ao trabalho. Isso ocorre porque “a maioria das pessoas muitas vezes tem nele o único elo social fora do convívio familiar” (idem, p. 77). Freud, ressalta Carmo, destacou que o trabalho, além de garantir a subsistência, oferece ao indivíduo a possibilidade de libertá-lo das pulsões narcisistas, agressivas e mesmo eróticas que constituem a sua libido. Outra explicação para a glorificação do trabalho está relacionada à compensação para a vida que o trabalho também pode oferecer, visto que ele pode preencher grande parte da existência humana. Também pode ser aceito o argumento de que, quando se nasce, já se encontra uma sociedade pronta, com seus valores estabelecidos, não havendo um questionamento do porquê das coisas. Cabe a pergunta: afinal, por que trabalhamos? O autor diz que de imediato as respostas podem estar associados à sobrevivência, pois é natural trabalhar. No entanto, logo se percebe que o trabalho deixa de ser um meio para se tornar um fim em si mesmo.
Em os caminhos do paraíso, Carmo cita os estudos de André Gorz, que afirma existir um futuro promissor à humanidade.
A revolução tecnológica aboliu enorme quantidade de trabalho e, para sanar o custo social elevado, propôs uma escolha à sociedade: “de um lado, uma elite de trabalhadores protegidos e estáveis, empregados com tempo integral; de outro, uma massa de desempregados e de trabalhadores sem qualificação”. É necessário unir esses dois pólos a aumentar a eficiência produtiva, sem cair, porém, no produtivismo, a fim de que cada um tenha bastante tempo para fazer o que quiser. A redução drástica da jornada de trabalho proposta por ele já é possível, de imediato. Assegura o autor: “se me disseres que é utópico, eu respondo que o que é utópico é pensar que se pode continuar como está”(idem, p. 78).
A razão para tal esperança está nos surpreendentes resultados da revolução da microeletrônica. Para ajudar na discussão acerca da utilização da tecnologia e liberação do trabalho, Carmo cita um texto do professor espanhol Mariano Enguita, que faz uma reflexão a respeito da tecnologia submetida à lógica capitalista e conclui que o trabalho não será nunca um reino de liberdade, portanto, é necessário começar a falar de uma cultura do ócio e do tempo livre.
Para concluir o capítulo e a obra, Carmo recorre a Marx. Segundo o autor, Marx entende que “a riqueza de uma sociedade poder ser medida pela redução da quantidade de trabalho necessária para a sobrevivência. A liberdade começaria no momento em que desaparecesse definitivamente o trabalho” (idem, p. 80). Se isso ainda não é possível, contudo, no momento é possível trabalhar menos para todos poderem trabalhar, ou seja, para Carmo, a redução da jornada de trabalho seria uma saída possível.
6.2. O TRABALHO NA ECONOMIA GLOBAL - Paulo Sérgio do Carmo – obra