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Caractérisation sémantique de tipa préposition

Ao iniciar este capítulo que fala das universidades saídas da mente criadora de Darcy Ribeiro: a Universidade de Brasília e a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, que o escolheu como patrono, escolhemos um fragmento de seu discurso de retorno à UnB, para receber o título doutor honoris causa, após trinta anos da criação da Universidade.

“Meu sentimento é de reencontro com minha filha querida, já passada dos trinta anos. (…) Poucas coisas me doeram mais, talvez nenhuma me doeu mais, como saber que um dia, a imensa maioria dos sábios que trouxera pra cá, em defesa da dignidade dessa universidade, por não aceitarem seu avassalamento, saíram em diáspora mundo afora. (…) Cada um deles levaria no peito, pela vida afora, um fundo sentimento de Orfandade, pela Universidade sonhada e perdida. Ainda hoje, onde estiverem, recordam aqueles poucos anos alegres e criativos de convivência amiga” (Ribeiro, 2001).

Como um sonhador que perseguia as utopias que buscava até o fim, Darcy Ribeiro lutava por fazer valer suas ideias na prática, como um intelectual proactivo, mas sempre surpreendido pelos fatos da realidade, que não se intimidava, seguindo em frente.

Em entrevista para esta tese, Adriano Moreira define bem o perfil de Darcy

Ribeiro, quando diz:92

“A universidade tem três funções tradicionalmente, tem que investigar, tem que ensinar e tem que coordenar a interdisciplina. É muito difícil que (Deus) ponha as três capacidades na mesma cabeça e quando aparece uma pessoa que tem as três capacidades, como era o caso de (Darcy), o (Darcy) tinha as três capacidades, o investigar, o ensinar e o coordenar e isso tem que ser relacionado com essa ideia que não basta conceber, é preciso saber fazer e, portanto o saber tem que ser transmitido de maneira que a sociedade mude.”

Quando se faz referência às marcas de Darcy Ribeiro, na génese das universidades que concebeu e que as considerava como “filhas diletas”, fala-se de um ideal de ensino superior que, além da revolução curricular, tivesse,

também, um compromisso político-social com os jovens, as comunidades que acolhem essas instituições e, sobretudo, as demandas da região em seus anseios económicos, culturais, sociais e políticos.

Assim, as marcas deixadas por ele na UnB estão centradas não só na sua estrutura como no currículo e na tese da preparação das futuras gerações de doutores e pesquisadores, que a UnB deveria formar.

Na realidade, até o momento da criação da universidade de Brasília, as instituições de ensino superior eram formadas por faculdades isoladas (Ribeiro, 2007). É Darcy que cria essa estrutura inovadora, que derruba o sistema de cátedras, na medida em que havia uma série de privilégios para os chefes de departamentos catedráticos, sendo que muitos deles nem sequer tinham efetivamente pós-graduação stricto sensu.

O foco dado por Darcy Ribeiro à pesquisa vai criar um novo tipo de situação funcional que representa um significativo avanço no que diz respeito à estrutura universitária. Ele queria uma instituição que fosse uma espécie de “casa da consciência crítica”, onde todos os professores buscassem discutir e problematizar questões acadêmicas e questões nacionais, do contexto político- econômico-cultural-social do país.

Darcy dizia, que havia “muito cacique para pouco índio” se referindo ao excesso

de cátedras e aos “phdeuses”93, professores, muitos com idade avançada, tidos

como verdadeiros senhores, donos de cátedras que só colocava para estudar quem eles desejavam. A UnB acaba com esses vícios e sugere um sistema de concursos, com trabalhos de pesquisa e títulos, enfatizando a importância do professor pesquisador.

93 Phdeuses. Expressão popularmente usada para fazer referência aos professores de universidade que se consideravam deuses em sua área de especialização.

Quando aborda as reações às inovações propostas pela UnB, Darcy Ribeiro comenta:

“(…) ao ser proposta a Universidade de Brasília, provocou irritação, ciúme, raiva, em quantos catedráticos imbecis e ruins havia nesse país, porque nós afirmamos que íamos acabar com a cátedra vitalícia e, em nome da liberdade da docência, eles queriam continuar com a cátedra. Esses ficaram muito contentes quando os professores que estavam em Brasília foram demitidos. Não queriam segurança para professor nenhum, queriam mesmo é continuarem desservindo a educação brasileira. Então Brasília foi um passar a limpo que mexeu a fundo com a universidade brasileira” (Ribeiro, 2010, p. 44).

Falas como essa acabaram por conferir a Darcy muitos desafetos, pois a sua sinceridade e as suas críticas bem argumentadas faziam dele um obstáculo às falácias do sistema de Ensino Superior vigente.

Já no caso da UENF, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, as marcas de Darcy Ribeiro estão no seu nascedouro, ou seja, efetivamente na sua génese, na ideia inicial de criar no norte fluminense uma instituição de nível superior capaz de atender às especificidades da região e às demandas locais por profissionais qualificados.

Preocupado com a situação da região do norte do Estado do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro quis lutar contra o atraso imperante nos municípios locais, que tinham toda uma tradição na agropecuária e usinas de cana-de-açúcar que com o tempo perderam a importância devido à queda do açúcar no mercado internacional, planeando uma universidade para esta região cujas pesquisas

priorizassem o desenvolvimento regional e, consequentemente, o

desenvolvimento do país.

É ele próprio, Darcy Ribeiro, quem diz textualmente:

“É nesse quadro que nasce a UENF, para fazer-se herdeira das tradições regionais do saber popular e erudito, mas comprometida a conquistar o que lá precisa florescer para que toda a região se integre na Civilização Emergente, fundada na ciência e na técnica. Sua missão é adornar-se, cultivar e ensinar as ciências e as tecnologias de ponta, que constituem o património cultural da humanidade para colocá-los a serviço da

modernização e do progresso económico e social da região e do Brasil” (Ribeiro, 1993)

Assim, o nascimento da UENF estava ligado em primeiro plano à preocupação de Darcy em alavancar o progresso de uma região rica de recursos, mas culturalmente atrasada, até mesmo em razão da desfasagem com os novos produtos das ciências e das tecnologias

Sobre essa questão, Miglievich-Ribeiro e Sales (2011, p. 26) referem que “havia uma missão histórica de acelerar as potencialidades económicas do norte do Estado do Rio de Janeiro e sendo Campos dos Goytacazes a maior cidade em extensão e população”, a sede da universidade foi confirmada nesse município de aproximadamente 500 mil habitantes.

Por outro lado, a conceção curricular de Darcy Ribeiro, que acabara de vivenciar

as experiências da Secretaria Extraordinária94 ligada à Educação do Governo

Brizola trazia em seu bojo uma vertente cultural, pois até mesmo uma escola de cinema foi pensada pra a UENF.

Uma outra questão, que revela a marca darcyniana de pensar a universidade, refere-se à questão social uma vez que Darcy Ribeiro sempre esteve preocupado com as pessoas mais humildes que, por falta de condições materiais, não conseguem aceder à universidade. Muitas famílias pobres acalentam o sonho dos filhos estudarem numa universidade pública e Darcy Ribeiro sempre defendeu para todos e não somente para os filhos das elites.

É Darcy Ribeiro quem diz que na UENF seria diferente o acesso:

“A primeira consequência de noção é que, num país de recursos escassos como o nosso, é criminoso todo o gasto supérfluo de bens. A devoção primeira que a UENF espera de seus corpos é o zelo por suas instalações, por seu património, inclusive pela utilização que se dá às disponibilidades de uso comum. Nada mais imoral existe do que a tendência, tantas vezes revelada no Brasil, de encarar o bem público como coisa sem dono, de ninguém, que se possa mal gastar. O mau uso de materiais, ou

94 Secretaria Extraordinária foi um sector criado no Governo do estado, no período em que Leonel Brizola governou o Estado do Rio de Janeiro (1991-1994). Era uma Secretaria que só atendia aos Centros.

seu gasto abusivo, é um fruto que deve ser punido severamente, a começar pela expulsão da Universidade, seguida de processo criminal” (Ribeiro, 1993, s.p.)

Essa abordagem demonstra a tese de Darcy de que é o brasileiro pobre que, em sua penúria, sustenta a universidade. Nessa perspetiva havia na génese da UENF o compromisso social de seu criar, com uma região marcada pela monocultura, o atraso, o obsoletismo das máquinas ultrapassa as das usinas que produziam açúcar.

Wanderley de Souza95 comenta seu envolvimento no projeto da UENF:

“A UENF (…) primeiro, a Universidade toda integral com dedicação exclusiva, a exigência que seja toda de doutores que se dedicassem à atividade do ensino e pesquisa. Então essa foi uma característica marcante para as universidades naquela época, uma vez que nenhuma tinha 100% de doutores. Então um ponto importante do projeto foi ter 100% de doutores, o que vem se mantendo até hoje!”

Conforme sinaliza Cruz

“O caso do Norte Fluminense permite relativizar e complexificar os nexos entre crescimento, desenvolvimento, trabalho, emprego e renda. Ele é representativo dos espaços do território nacional, herdeiros de práticas produtivas e políticas tradicionais, sob domínio de oligarquias rurais, quase sempre representantes de uma economia monoculturosa, com estruturas de poder e relações sociais preservadas pela modernização conservadora do país” (Cruz, 2004, pp. 22-23).

Essa realidade do Norte Fluminense foi um dos motivos que levou Darcy a investir na UENF, muito antes do petróleo se tornar a economia forte da região.

A marca de Darcy Ribeiro está impressa na origem da UnB e da UENF, embora por circunstâncias intrínsecas e extrínsecas tenham-se perdido com o tempo.

Ana Lucia Sanguedo Boynard Mendonça96 fala sobre suas impressões sobre a

UENF:

“Penso que ele tentou estabelecer este marco com a UnB e não conseguiu. Ele dizia que a UnB era “a filha que caiu na vida”.

95 Entrevista para esta Tese – Anexo III. 96 Entrevista para esta Tese – Anexo I.