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INTRODUCTION PARTIELLE

DANS LE MILIEU SOCIO-PROFESSIONNEL PRE-EXPLORATION

4. LA PROMOTION INTER-REGIONALE 2011-

4.1. Qui sont-ils?

Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, Que objeto de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, verme Imbecil; depositário do verdadeiro, cloaca da incerteza e do erro;

Glória e dejeto do universo. Quem resolverá essa confusão? Pascal

O processo de desidealização do humano não é algo fácil de ser feito. Isso se deve em parte ao fato da sociedade se constituir em que o ideal de homem e mulher é estabelecido a partir de modelos idealizados. A cultura impõe modelos e parâmetros para que as pessoas possam se guiar no caminho da inserção social, cultural e econômica. Recebeu-se como herança do Iluminismo um modelo de indivíduo que deve primar pela razão, sendo esta a orientadora de todas as ações e

escolhas no mundo (BARROS, 2010). Um indivíduo racional, livre e vivendo de acordo com os padrões estabelecidos socialmente é o modelo impresso no registro da identidade humana ao longo da modernidade que se perpetuou até os dias atuais. Desse modo, torna-se muito difícil aceitar a inclusão do que é diferente ou que foge dos padrões estabelecidos socialmente.

Em seu livro O Método 5 Edgar Morin (2007, p. 28) leva a pensar sobre o processo da “hominização” e sobre a constituição da espécie humana sob “as desordens e os acasos” do mundo físico e biológico. Trata-se de uma aventura, como refere o autor. Num mundo onde o indivíduo humano (sabidamente mais frágil do que muitas espécies de animais) encontrava-se submetido aos desafios ecológicos, aos acidentes geográficos, aos conflitos entre espécies em que os mais fortes venciam, sobreviver e aprimorar o desenvolvimento da espécie humana foi uma vitória.

Nesse fluxo de forças, entre ordem e desordem, a espécie humana foi emancipando-se e instituindo seu modo de viver e habitar o mundo. Para Morin (2007) um ser “só se torna plenamente humano quando o conceito de homem comporta uma dupla entrada: uma entrada biofísica e uma entrada psicossociocultural, uma remetendo à outra” (p. 34). Encontramos aqui o homo

sapiens, um ser evoluído, dotado de linguagem, de cultura, de sociabilidade e de

razão.

Entretanto, Morin (1999, p. 7) esclarece que ser homo sapiens “implica ser igualmente demens”. O demens diz respeito à desmesura que habita todos os humanos, ou seja, àquela parte da desrazão, da irracionalidade que se faz aflorar em determinados momentos da vida de qualquer ser humano. A metade homo

demens faz a pessoa:

(...) manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; em carregar consigo uma fonte permanente de delírio; em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação. (MORIN, 1999, p. 7)

O homo sapiens demens é parte razão, parte paixão, sem uma “fronteira nítida”

entre os dois polos. Essa dicotomia requer um diálogo entre as partes antagônicas e não a repressão de uma. Entretanto, esse diálogo provoca tensão devido às contrariedades que coabitam no mesmo homo (MORIN, 1999, p. 53). As múltiplas

contrariedades que constituem o humano (racional e irracional, bom e mau, alegria e tristeza, altruísmo e egoísmo, por exemplo) afetam os encontros e as relações que estabelece com os outros humanos. Esse homo sofre a influência do seu meio sociocultural e é subjetivado a partir das experiências concretas e subjetivas que vivencia.

O autor refere que o homo sapiens é um ser incompleto e insuficiente se não considerar a sua parte demens. As paixões e loucuras do ser humano buscam misturar-se às suas razão e sabedoria. Esse tempero dá sentido para a existência e impulsiona o humano para a vida. A vida que é esse misto de racional e irracional (MORIN, 1999; 2007). E a “afetividade serve de ligação entre o homo sapiens e o

homo demens” (MORIN, 2007, p. 120).

Pode-se refletir, a partir do que foi colocado acima, que o equívoco da modernidade possa ter sido a tentativa de reprimir o demens colocando a razão como centro da existência humana e estabelecendo um padrão de normalidade para os comportamentos humanos na sociedade. O que escapa a esse padrão é tomado como anormal ou irracional. Toda vez em que não é possível explicar determinado comportamento ou ação humana recorre-se à racionalidade e à tentativa de explicações através, por exemplo, da doença e da biologia. Barros (2010) salienta que “a razão não é a força motriz que anima o agir humano. Não raras são as ocasiões em que o homem age e depois pensa nas consequências” (p. 144). Diante da dificuldade de lidar com o intempestivo, com a parte irracional do humano e com as consequências advindas, a estratégia foi criar um padrão de normalidade e de exclusão para o que está fora deste.

Entretanto, se for considerado que o demens é parte constitutiva do humano e que essa parte foi “domada” pela razão, pode-se começar a entender o que se passa com o humano quando da erupção do seu demens “adormecido”. Quer-se dizer com isso que os atos de violência, de criminalidade e de autodestruição, por exemplo, que todos estão acostumados a presenciar na vida contemporânea, podem ser expressão dessa parte humana que ficou sucumbida pela racionalidade. Loucura e razão não se excluem, como refere Morin (2007). A contemporaneidade, já com antecedentes na modernidade, criou estratégias de controle do irracional através da disciplina e da ordem imposta pelas instituições como a família, a escola, a Igreja, as empresas e até mesmo a mídia.

Os crimes e a violência podem ser lidos como a manifestação do homo

demens que habita os humanos. Assim como as grandes obras de arte, a literatura e

a criatividade humana (MORIN, 2007). Contudo, as manifestações estipuladas como negativas e prejudiciais para o social são passíveis de repressão, punição e controle pelo poder do Estado. Há, nesse contexto, uma contradição apontada por Barros (2010, p. 144) e que se refere ao indivíduo do sistema prisional. Esse humano “de carne e osso que habita nosso planeta”, salienta a autora, “não coincide com o homem do sistema prisional”. O primeiro é movido pelo misto de bem e mal; o segundo é o homem racional do iluminismo, que “prefere o bem ao mal” (p. 144). Tem-se, então, um sistema prisional que legisla em cima de uma racionalidade que efetivamente não considera o demens humano, ou seja, o fato de que “os homens não são naturalmente bons” (BARROS, 2010, p. 146).

E é esse humano que se encontra na vida e no trabalho nas instituições penais: contraditório, intenso, frágil, forte, sofrido, marcado pelas experiências que vive e que é habitado pelo demens que se reivindica espaços de expressão e reconhecimento.

Diante dessas considerações, retoma-se o propósito de apenas iniciar uma discussão acerca do humano e de sua condição de existência no mundo contemporâneo. Não é fechada a questão e nem mesmo tem-se a pretensão de obter respostas conclusivas. Apenas são ensaiadas algumas considerações a partir das indagações surgidas no percurso da vivência junto ao manicômio judiciário e se deixa em aberto para outros pensamentos, outras questões e outros modos de compreender o humano.

6 NARRATIVAS DE VIDA: VIVER FORA DEPOIS DE MUITO TEMPO DENTRO

O texto que segue relata parte da experiência de uma psicóloga que encontrou na pesquisa mais um modo de exercitar a escuta e problematizar sua prática. Estudar teoricamente o tema aqui proposto, trabalhar no campo da saúde mental, participar do GT e ouvir narrativas provocou um intenso processo de multiplicação de pontos para indagação e problematização das diferentes formas de inserção, intervenção e instituição do trabalho no que se refere às políticas de cuidado do portador de sofrimento psíquico.

As memórias dessa experiência de escuta são carregadas de olhares que contam histórias que não se pode comunicar através da escrita e põem em cheque cotidianamente o saber acadêmico construído com tanta pompa nas instituições vocacionadas para tal. Talvez por isso o sentimento de urgência em contar esse processo de investigação e dialogar sobre os resultados percebidos. Trata-se da necessidade de favorecer a formulação de estratégias de enfrentamento do aprisionamento do pensar e do criar. Este aprisionamento impossibilita a formulação de estratégias para que se possa viver (conviver) em territórios marcados pela igualdade.