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PROCESSUS DE COLONISATION JUSQU’A L’ARRIVÉE DE LA COCA

Quando Getúlio Vargas aboliu o Estado Novo, em 1945, ao final da 2a Grande Guerra Mundial, predominavam no cenário político brasileiro as forças dos partidos comunistas, agrários e ligas camponesas. Foi dada ampla liberdade a todos os partidos políticos para que se organizassem democraticamente, inscrevendo os seus candidatos aos vários cargos eletivos. Foi então que se legalizou o Partido Comunista do Brasil, que indicou o seu chefe, Luiz Carlos Prestes, como candidato à sucessão de Getulio Vargas.

O Cardeal de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, considerando que o Padre Sabóia era um líder do meio estudantil e do movimento operário, a ele confiou a organização de uma grande concentração de repúdio ao comunismo. Foi escolhida a data de 14 de julho de 1945, e o evento aconteceu na Praça da Sé. O Padre Sabóia mobilizou os operários e os estudantes e escolheu oradores adequados, com aceitação popular. A praça ficou apinhada e houve ataques e refutação à ideologia marxista. Foi chamada “Noite de Nossa Senhora”, pois a imagem da Virgem Aparecida viera à capital do Estado de São Paulo. 142

Sobre esta concentração, manifestou-se o Padre Sabóia, em seu relatório periódico aos seus colaboradores, nos seguintes termos:

[...] “No dia 14, foi conferência ao ar livre: Praça da Sé. Noite de Nossa Senhora. Posição da Igreja diante do Comunismo e do Capitalismo. Esta noite de Nossa Senhora, a primeira das concentrações católicas deste ano, a que deu aos católicos a sensação de que a “casa é deles” e foi seguida de muitas outras, “foi como toque de despertar”, disse o Sr. Arcebispo. Conseqüentemente, começaram as ‘Semanas de Cristo Rei’ em quase todas as paróquias operárias. O Pe. Arlindo Vieira, por exemplo, veio pregar na Lapa. A Ação Social ajudou na organização das Semanas e diretamente no Itaim e na Penha.

Arengas e palestras sucederam-se no Ipiranga e Moinho Velho. No fim de julho, ainda houve um tríduo de pregações sobre Santo Inácio no Colégio São Luís, e no dia 31, dia em que todos os expedicionários desfilaram por São Paulo, houve no Salão da Caetano de Campos uma palestra comemorativa sobre o título: “Está a mocidade esquecida da democracia?”. Um dia, um bom amigo, Renato Pedroso, prontificou-se a colaborar. E lá ia a Ribeirão Preto fazer uma conferência e voltar o Presidente da Ação Social. Para cedo ter que dar outro pulo a Belo Horizonte. Uma semana de Conferências. Depois, Concentração Católica em Santos. Foi a 7 de Setembro. Ida e volta em gasogênio, sem atrasos. Conferência na praça pública. Em setembro ainda, palestra sobre Cooperativismo, na Escola de Comércio Álvares Penteado. E de novo o Municipal, a conferência ‘meio pessimista’, “Retrato do Brasil”, que o Instituto de Direito Social arranjou para ser repetida na Biblioteca Municipal.” [...] .143

A propaganda comunista, e também a de outros partidos, tomou conta então de todos os meios de comunicação, na imprensa falada e escrita e em comícios realizados em praça pública. O Padre Sabóia não podia ficar indiferente a todo esse movimento, principalmente por ser opositor à infiltração do comunismo, que pregava o ateísmo materialista e a luta de classes na sociedade. Ele escreveu muitos artigos em jornais e revistas, fez palestras no rádio e na televisão, alertando os católicos, procurando desmascarar os ardis dos inimigos da religião e pregando os seus ideais e o que considerava a verdadeira liberdade com argumentos sólidos.

No mês de novembro de 1945 o Padre Sabóia de Medeiros lançou um desafio a Luiz Carlos Prestes, presidente do Partido Comunista do Brasil, para uma sabatina, um debate público, que seria realizado no Vale do Anhangabaú.

O Partido Comunista do Brasil, por seu lado, procurava movimentar a população e justificar a ausência do chefe Luiz Carlos Prestes na sabatina como sendo motivada pela mudança do local do debate, conforme a comunicação escrita da Secretaria de Divulgação do Comitê Estadual de São Paulo do Partido Comunista do Brasil: [figura 7]

FIGURA 7: CARTA DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL

A carta seguinte, enviada pelo Sr. Mario Scott, secretário do Comitê Estadual de São Paulo do Partido Comunista do Brasil, ao jornal O Diário [de São Paulo], para ser publicada no dia do debate, sugerindo que o Partido Comunista estaria sendo vítima de calúnias, demonstra a preocupação sobre o debate que ocorreria nesse mesmo dia: [figura 8]

FIGURA 8: CARTA DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL

O teor desta carta contradiz o comunicado anterior, ficando explícito que, com a aprovação do camarada Prestes, o Comitê Estadual do Partido Comunista do Brasil designou outros elementos do Partido para responder às questões da sabatina, em lugar de Prestes.

O Padre Sabóia recebeu apoio de muitas pessoas e entidades católicas pelo seu gesto. Um dos telegramas de apoio recebido pelo Padre Sabóia foi enviado pelo Doutor José Evangelista de Andrade, com os dizeres:

“Liga Eleitoral Católica empolgada com a sua desassombrada atitude, presta sua solidariedade, aguardando irradiação da sabatina pela Junta Regional.” Dr. José Evangelista de Andrade, Presidente. 144

A mudança do local previsto para o encontro foi imposta pelas autoridades, que temiam a ocorrência de tumultos, e proibiram que o debate fosse realizado em local público, para evitar aglomerações. O que seria um debate público foi transformado em um debate radiofônico, entre o Padre Sabóia e o então candidato comunista a deputado federal José Maria Crispim, que substituiu o seu chefe Luiz Carlos Prestes. O Padre Sabóia falaria dos estúdios da Rádio Excelsior, enquanto Crispim falaria da sede do Partido Comunista do Brasil.

Esse episódio foi marcante e teve grande importância para a população de São Paulo. Foi noticiado detalhadamente, anos depois, em uma reportagem da revista O

Cruzeiro, intitulada “Um Legionário do Bem”, datada de 27 de agosto de 1949. 145

“O TRABALHO INSANO DE UM SACERDOTE JESUÍTA PARA CONSEGUIR QUE SEIS MIL PESSOAS CONTRIBUAM COM MIL CRUZEIROS CADA UMA PARA A FACULDADE DE ENGENHARIA INDUSTRIAL, CLÍNICA SANTO INÁCIO E TODAS AS DESPESAS DA BENEMÉRITA AÇÃO SOCIAL.”

144 O original deste telegrama pertence ao acervo do professor Joaquim Ferreira Filho. 145 A. Silva & R. Maia, “Um Legionário do Bem”, pp. 52-56.

SÃO PAULO – Agosto

“O Padre Sabóia de Medeiros em São Paulo, hoje, é tão conhecido como um níquel de tostão. A sua popularidade é tal e ele é tão admirado pelas suas atitudes e iniciativas – que poderia eleger-se sem propaganda a qualquer posto parlamentar. O seu prestígio e a sua fama nasceram há quatro anos atrás, quando pôs a knock-out o ex-deputado vermelho, José Maria Crispim. Estava-se então em novembro de 45, em plena campanha eleitoral. Ia ser eleito o Presidente da República e também os deputados federais e senadores. Os bolchevistas caboclos haviam lançado o nome de Yedo Fiúza, um engenheiro tão obscuro como a noite, e cuja desonestidade no D.N.E.R. [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem] foi posta em pratos limpos pelo jornalista Carlos de Lacerda. E a propaganda comunista pegou fogo. Os partidos conservadores, por seu turno, estavam mergulhados na campanha, de modo que tinham como que se esquecido de combater o dilúvio de mentiras e demagogia, que os moscovitas espalhavam aos quatro ventos. Nenhum partido, nenhum candidato se levantava contra eles (porque, no fundo, todos estavam esperando que o chefe Prestes mandasse os seus escravos votarem em fulano ou em sicrano). Foi quando surgiu a figura resoluta do Pe. Sabóia de Medeiros. Lançou um desafio a Luiz Carlos Prestes, para um debate público. Seria um duelo sensacional: Igreja Católica versus Marxismo. O Padre Sabóia lançou o desafio dentro de toda formalidade. Mandou seu próprio chofer levar uma carta protocolada à sede do Partido Comunista, contendo o repto a Prestes. Foi a conta. Os jornalecos vermelhos, tanto de São Paulo como do Rio, puseram-se a tocar o velho disco: “Provocador”, “Reacionário”, “Clero a serviço de interesses imperialistas”, “Perturbador da ordem”. Todavia, do

lado do Padre Sabóia se colocou, imediatamente, a imprensa democrática e livre. Os Diários Associados deram-lhe inteiro apoio. E o desafio lançado pelo jesuíta ganhou vulto, propagou- se, tornou-se um caso nacional. Mas o chefe Prestes não dava uma resposta ao padre. Quinze dias a opinião pública ficou numa ansiosa expectativa. E somente na tarde do dia marcado para a polêmica é que o chefe vermelho respondeu, mandando em seu lugar o então candidato a deputado federal José Maria Crispim. Diante disso, o interventor Macedo Soares resolveu proibir o debate público, que seria realizado no Vale do Anhangabaú. Certamente, os comunistas provocariam um conflito, e cumpria manter a ordem e evitar talvez o sangue. De modo que o duelo se realizou através do rádio, o padre falando da Rádio Excelsior, o deputado falando da sede do P.C. Durante duas horas, milhões de paulistas e brasileiros estiveram ouvindo a pugna sem precedentes. Pouco antes da meia noite, Crispim, crivado de perguntas, entregou os pontos. Deixara sem resposta uma série de perguntas do sacerdote sobre a crítica da economia política, sobre o “materialismo histórico” e sobre a própria filosofia marxista. Mas, como se fosse o vencedor, Crispim disse que estava satisfeito com as respostas do padre, e pediu licença para retirar-se do combate. Ainda hoje o povo diz que José Maria Crispim foi eleito pelo Padre Sabóia, pela publicidade que o sacerdote então lhe deu. De modo que para compensar a derrota, Prestes mandou sua legião de autômatos descarregarem a votação em Crispim. Mas o Partido Comunista passou, e com ele José Maria Crispim. Ninguém mais se lembra dele. Ao passo que o padre Sabóia, alertando a consciência cívica do país naquela ocasião, e pondo por terra um homem de confiança de Prestes, angariou uma soma de popularidade e simpatia do povo, que

poucos homens públicos da atualidade conseguiriam alcançar. Agora, com o país dentro da tranqüilidade, o padre Sabóia está empregando sua energia de homem de inteligência e de trabalho numa grandiosa obra de ação social, realizando em São Paulo a mesma jornada que um grupo de jesuítas franceses estão levando avante em Paris – a “Action Populaire”. E é tão corajosa a iniciativa dos padres franceses, no terreno social e trabalhista, que a organização deles é hoje conhecida como “casa dos padres socialistas”. Pois “é o que está executando nesta capital paulista o padre Roberto Sabóia de Medeiros”.

Contrariamente à opinião manifestada nesta reportagem, o Padre Sabóia não gostou do resultado do debate, conforme expressou na carta ao Provincial datada de 5 de dezembro de 1945:

[...] “Imagine as inumeráveis cartas cheias de indignação que o senhor já terá recebido. Deus escreve direito por linhas tortas, é a única consolação que me ocorre. A tal Sabatina de fato resultou num desastre. Não tanto pela propaganda que fez do Comunismo, quanto pela impressão de que o homem não ganhou mas também não perdeu. Acontece que eu estava cansado, mal pude escrever a lápis algumas linhas e durante o debate, cada vez que ele escapava eu me irritava e tomei um tom agressivo que contrastava com o tom frio que ele manteve. O ‘Zé povinho’ admirou a habilidade com que ele pulava de um lado para outro como se fosse um circo de cavalinho. No primeiro momento a impressão foi de que o Crispim fora liquidado, no dia seguinte, os comunistas estavam ainda meio tontos. Mas, veio logo a reação e hoje, gregos e troianos dão ganho de causa a ele. Os admiradores debandam. De fato, fui inepto no debate. Não fiz o homem voltar

ao nó do problema. Não houve ninguém que me dissesse “calma, sangue frio”. Fui muito certo de liquidar o caso em dois tempos. E eis o dano que causei à Igreja e à Companhia. Nos jornais já apareceram caricaturas minhas. Muitos me telegrafaram me felicitando às centenas de telegramas. Os benévolos dizem que eu tive compaixão. Os malévolos que estou de mãos dadas com eles. Estou acabrunhado e pessoalmente abraço de coração a humilhação. Na próxima reunião do Clero vou pedir desculpas a todo o Clero. Ao senhor peço desculpas e penitência. Qual a política ou a conduta a seguir? Esperar outra ocasião? No dia seguinte um maluco propôs outro debate. O senhor Arcebispo gostou da Sabatina, embora reconhecesse que eu poderia ter apertado muito mais o adversário. Um artigo meu para os jornais de amanhã foi aprovado; a rádio difusora pelas ondas curtas e longas, segundas, quartas e sextas-feiras, irradiará, às dez da noite, comentários meus à Sabatina, explicando pontos que ficaram obscuros.” 146

A resposta do Padre Provincial ao Padre Sabóia veio após uma semana, no dia 12 de dezembro de 1945, nos seguintes termos:

“A respeito da sua sabatina através do rádio, transmitida por várias estações emissoras. Em Belo Horizonte os nossos padres ressaltaram o entusiasmo pelo modo brilhante com que V. R. se portou. Acredito que não há razões para se impressionar com as críticas negativas a respeito desta entrevista. Recomendo que nada faça sem prévio consentimento do seu Superior e do senhor Arcebispo. A campanha contra o Clero e a Igreja, tanto em BH

como aqui e nas capitais dos Estados, acentua-se com violência assustadora.” 147

No Anexo 2 deste trabalho, na página 365, estão reproduzidas cópias de algumas das centenas de cartas recebidas pelo Padre Sabóia após o debate, algumas delas manifestando apoio irrestrito ao desempenho do padre e outras lhe fazendo duras críticas. Nesse anexo também se encontram as respostas enviadas aos missivistas. As cartas anônimas, que são muitas, não foram reproduzidas, pois não permitiram ao Padre Sabóia o direito de resposta.

A luta do Padre Sabóia contra o comunismo estendeu-se por alguns anos. Em uma carta enviada a seu pai, datada de 1 de janeiro de 1948, ele relatava:

“Estive no Rio para uma conferência sobre o Comunismo para a Escola do Estado Maior da Aeronáutica. Por aqui tudo de vento em popa. [...] Um grande abraço. Roberto”. 148