Section II : La procédure de reconnaissance ou d’exécution des sentences arbitrales
B. Les modalités de reconnaissance ou d’exequatur des sentences rendues hors
Os poemas do livro são coerentes com esse entrelaçamento da morte do sentido com a morte do ser. Seguem-se algumas leituras mais ou menos analíticas de cada uma dessas composições.
“Sofrimento” (LISBOA, 2004, p. 23). Esse texto apresenta cer-
tamente uma concepção de morte, ou mais propriamente de perda, mas relaciona-se também à escrita. Os elementos geradores da relação de continente e conteúdo que estruturam o poema são “oceano” e “sal”. O sal integra-se à água do mar, mas pode-se separá-lo dela. Assim ocorre com o espírito em relação ao corpo, música com instrumento, impulso com alavanca, selo com obra (o selo representa aqui o sinal, a marca característica da obra), luz com estrela. Os elementos integrantes dessas realidades constituem “O maravilhoso. O imortal”, a essência perpétua de seres que se vão. Na morte, o que se perde é a parte bruta, o corpo, a contingência, mas, para a voz poética, “era o que eu mais amava”. Como no poema “Tua memória”, ficar de posse apenas do es- pírito, da lembrança, por mais depurada que seja, não satisfaz.
“Tua memória” (LISBOA, 2004, p. 24). Essa é uma compo-
sição que remete ao passado e à perda. Uma perda, entretanto, que de certa forma é ganho. Os primeiros versos do poema são uma metáfora: “Tua memória / é um cubo de cristal”. Os elementos que se trans- portam de “cubo de cristal” para “memória” são, inicialmente, ligados à ideia de desbaste de excessos, de contenção. Na segunda estrofe, há um acúmulo de substantivos e seus determinantes, que retomam a ideia de contenção e a ampliam para a noção de conservação, interiorização, terminando por uma imagem semelhante à de Mário Quintana sobre o espelho partido: “lua talhada / de ângulos”. Também aqui temos uma lua fragmentada, que permite vários ângulos de abordagem.
O cubo de cristal admite várias faces, que, ao mesmo tempo que apresentam diversas imagens, aprisionam-nas em seu bojo, não per- mitem que elas adquiram vida no exterior, contendo as emoções: “Ah, o ardor que não flui!”. “Dádiva e aresta”: ao mesmo tempo que é um
dom, uma oferta, uma joia, esse cubo de cristal da lembrança é a aresta que limita, que estanca, que aprisiona.
“Passarinho” (LISBOA, 2004, p. 45). A morte como perda irre-
parável e dolorosa, de que se sofre com conformada renúncia, inapelável desistência, é apresentada nesse delicado poema. O personagem metafó- rico é um passarinho que perdeu seu companheiro e a alegria de viver. A privação amorosa ou amiga do companheiro conduz à tristeza profunda, que beira a morte. As estrofes finais, começadas por “Era dele que te vinha...?” resgatam as delícias da vida amorosa, o sentido feliz da exis- tência, que não está mais presente. “Passarinho quieto, quieto.”
“Vem, doce morte” (LISBOA, 2004, p. 28). Em outra figuração,
a morte é dona da vida, dispõe dela quando quer, como aparece no poema abaixo:
Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores – secreto – não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento. Quando queiras. Ao meio-dia, súbito espetáculo deslumbrante e inédito de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies com celeiros refertos e intocados. Quando queiras. Presentes as estrelas ou já esquivas, na madrugada com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes e os cristais endurecem de frio.
Tenho o corpo tão leve (quando queiras) que a teu primeiro sopro cederei distraída como um pensamento cortado
A INSENSATEZ DA ESCRITURA: ensaios de literatura 199
pela visão da lua
em que acaso – mais alto – refloresça.
A morte é que decide o momento de sua chegada: “Quando queiras”. Ao crepúsculo, ela é o “delicado acontecimento” que a pai- sagem prenuncia; ao meio-dia, ela aparece plena, como um “espetáculo deslumbrante”; na madrugada, quando “os campos recolhem as se- mentes / e os cristais endurecem de frio”; enfim, pode a morte chegar que o ser poético está pronto. A morte aqui está ligada tanto à inevitabi- lidade quanto à doçura, à delicadeza. Ela virá mansa, silenciosa, quando ela quiser.
“O garço” (LISBOA, 2004, p. 47). A morte aqui sorrateira, en-
ganosa e, ao mesmo tempo, sedutora. Olhos garços são olhos gázeos, esverdeados ou verde-azulados. Inicialmente, o poema confere à Parca (provavelmente Átropos, a irremovível, que corta o fio da vida e se identifica, portanto, com a morte) o esgazeado dos olhos, uma incerta luz esverdeada que aparece prematuramente como a morte inesperada, que leva uns e poupa outros, “como / certas folhas desprendidas”.
O garço dos olhos da morte é enganoso, seu rasto é delével, sua pista dissolve-se pelo caminho, sua “franja de lucilação”, ou esteira bri- lhante, não é compacta, mas rarefeita. Ao final, o garço é identificado com a matéria viva que a morte suga para formar seu rio infernal, o grande espelho que reflete a imagem morta dos vivos, a imagem impre- cisa, etérea, garça.
“Flor da morte” (LISBOA, 2004, p. 7). A ideia da morte sorra-
teira, sinuosa como uma serpente, comparece em “Flor da morte”, texto que dá nome ao livro. A imagem inicial é a audição de “um estalo de brotos” de madrugada. Esse estalo lembra o nascer de algo tocado pela luz. A imagem não evoca a continuidade da “chuva nas lisas pedras”, nem do “suspiro do vento nas grades”. A cena é a de uma borboleta desvincu- lando-se do casulo: “É como se a alma se desprendesse da matéria”.
Esse é o momento mágico e ao mesmo tempo fatal, que é o mo- mento da chegada da morte. É a chegada que não se busca e não se