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O sonhar social recupera a visão tradicional do sonhar como algo que fazia parte do discurso conversacional da vida cotidiana. Aborígines e povos ancestrais têm usado os sonhos para informar sua vida diária. Clássicos da literatura universal, tais como o Gilgamesh (3000 a.C), a Bíblia e o Corão reportam sonhos que iluminavam a condição de vida das pessoas, destacando os dilemas e problemas enfrentados e oferecendo soluções. O sonho era visto predominantemente como um fenômeno cultural e não como uma ferramenta para a compreensão da psiquê individual. Vimos algo sobre as diferentes formas culturais de se compreender os sonhos na primeira Seção deste estudo. Coube a Freud o trabalho pioneiro de focalizar o aspecto individual, terapêutico do sonho, perdendo-se, em contrapartida, os aspectos culturais e sistêmicos do sonhar (Lawrence, 2005).

O sonhar social se caracteriza como uma atividade de intervenção coletiva sobre sonhos individuais, explorando-os em busca de uma transformação do pensar e de novos pensamentos. Essa intervenção consiste no uso dos métodos da associação livre, amplificação, e pensamento sistêmico, de modo a fazer vínculos e encontrar conexões entre os sonhos. A habilidade humana de transformar o pensamento expressa-se de diversas maneiras: uma palavra é mudada, um conceito é repensado, uma ideia é desenvolvida, um poema é escrito, um trabalho de arte é criado, uma lei científica é formulada (Lawrence, 2005). O sonhar social, ao identificar padrões que conectam os vários sonhos, revela aspectos subjacentes do grupo, organização ou sociedade e coloca questões sobre a natureza social do sonhar.

Seguindo as tradições de Jung e Bion, Lawrence (2005) acredita que o pensar e as produções criativas associadas a ele têm raízes na matriz indiferenciada do imaginário inconsciente que subjaz ao imaginário consciente que usamos no dia a dia. A “matriz do sonhar social” é uma forma e um processo. Como forma, é uma configuração de pessoas que ocupam um único espaço, ou continente, ou receptáculo para pensar sobre o conteúdo dos

sonhos e para considerar e descobrir seu significado oculto e infinito. Como processo, a matriz é “um sistema, ou rede, de emoções e pensamentos, que está presente em todos os relacionamentos sociais mas é inadvertida e não conhecida na maior parte das vezes” (Lawrence, 2005, p. 14). A matriz espelha os processos inconscientes da vida de vigília que provocam o sonhar durante o sono.

O sonhar social torna possível uma mudança da tradicional polaridade “consciente – inconsciente” para “finito – infinito”. Lawrence propõe a distinção entre “conhecimento finito” e “conhecimento infinito” para ressaltar o fato de que os seres humanos, a partir da experiência social, fazem uso de “hipóteses de trabalho” como um método científico para desenvolver cultura e conhecimento. Além disso, neste contexto, a ideia de conhecimento “finito-infinito” faz mais sentido porque é um conceito compartilhado e é potencialmente comum a todos os indivíduos à medida em que mais e mais mentes se relacionam (Lawrence, 2005). Faz sentido usar as categorias de inconsciente e consciente quando se pensa sobre assuntos pessoais. Em contraste, o sonhar social dirige a atenção para a cultura e para o “conhecido não pensado” compartilhado, conduzindo-nos para além das preocupações pessoais ego-centradas (Lawrence, 2005). Nessa perspectiva, altera-se a função do sonhar: de método terapêutico de exploração individual para método de existência no espaço imaginativo no qual torna-se possível explorar novas possibilidades para a vida social e cultural.

A mudança de foco do sonhador para o sonho alivia o sonhador da necessidade de defender seu mundo interior privado, engajando-o na aventura cooperativa de criar conhecimento para compreender o meio social. Convencionalmente, como indivíduos, costumamos analisar os sonhos como entidades separadas, enxergando as partes como símbolos e atuando como detetives para identificar as dimensões psíquicas privadas da vida do sonhador. Na matriz, os sonhos são relacionados sistematicamente, assim como o pensar. Cada sonho é visto como um fractal de outro, pois o sonhar revela-se em padrões repetitivos: um sonho é parte da sequência total de sonhos. Trabalhando com os significados potenciais dos sonhos, atenta-se para os padrões que conectam os sonhos. No sonhar social, o método do pensar sistêmico pode ser usado para encontrar um foco dos sistemas abertos: um ponto de vista mais holístico. Isto é o resultado de uma combinação do pensar analítico e do pensar sintético. O pensamento analítico ganha em discriminação das partes o que perde na compreensão da interação dessas partes; o pensamento sintético, em contrapartida, procura identificar os temas comuns como padrões repetitivos em um sistema ou uma situação e estabelecer conexões. Nas palavras de Lawrence (2005):

Matriz do sonhar social 82

O benefício imediato da matriz do sonhar social é que o pensar é expandido e transformado à medida que os participantes reconhecem que nova informação está contida no sonhar. Isto é mais efetivo do que qualquer escrutínio finito, consciente. Como tem sido comprovado experimentalmente, os poderes de busca subliminares do inconsciente são superiores à visão racional consciente. No sonhar social torna-se possível não apenas conectar os padrões conscientes, mas também identificar e explicitar os padrões inconscientes. Sonhar social combina o uso da lógica da consciência e a não-lógica do inconsciente. Assim, os padrões que conectam o pensar finito com o que está no infinito, ou o não-conhecido, são discernidos.5 (pp. 15-16)

O pensar pode ser de quatro espécies: o “pensar como ser”, o “pensar como vir-a- ser”, o “pensar como sonho” e o “pensar como o conhecido não-pensado” (Lawrence, 2005, pp. 20-21). O “pensar como ser” é o pensar sobre a condição humana, pano de fundo de tudo o que fazemos, sempre presente. “Pensar como vir-a-ser” é o pensar sobre meios para avançar, transformar, imaginando um futuro desejável e como ele pode ser alcançado. Estes dois modos de pensamento tendem a existir à luz da consciência. Os outros dois, “pensar como sonhar” e “pensar como o conhecido não-pensado” (Bollas, 1997) têm origem no inconsciente, ou infinito.

“Pensar como sonhar” é a maneira pela qual os seres humanos experienciam emocionalmente suas ações cotidianas enquanto estão adormecidos. As pessoas acessam sua poderosa vida inconsciente que está presente em seu sonhar e sua cultura. O “conhecido não- pensado” é registrado em nosso mundo interior como resultado de eventos da vida “esquecidos” que evocam uma memória da experiência inicial quando eventos similares são experienciados subsequentemente. Essa mobilização da memória causa o pensar. Assim emerge de nossa memória inconsciente algo que nós sabíamos mas que não sabíamos que sabíamos e sobre o qual não tivemos oportunidade de pensar. Esses quatro modos de pensar relacionam-se sistemicamente.

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Tradução livre do autor. No original: “The immediate benefit of the social dreaming matrix is that thinking is expanded and transformed as the participants begin to regonize that new information is embedded in the dreaming. This is more effective than any conscious, finite scrutiny. As has been proven experimentally, the unconscious, subliminal scanning powers of the unconscious/infinite are superior to conscious, rational vision. In social dreaming it becomes possible not only to link the conscious patterns, but also to identify and make explicit the unconscious ones. Social dreaming combines the use of the logic of counsciousness and the no-logic of the unconscious. Thus, the patterns that connect finite thinking with what is in the-infinite, or the not-known, are discerned.” (Lawrence, 2005, pp. 15-16)