Uma das questões feita à equipe que concebeu o primeiro curso de formação foi em relação aos conhecimentos prévios dos alunos do curso de tutoria, se haviam sido considerados para subsidiar decisões sobre as estratégias a serem utilizadas no curso. De acordo com os entrevistados, os conhecimentos prévios não foram considerados formalmente, pois demandaria tempo levantar tais conhecimentos e planejar as estratégias do curso em função disso. Porém, eles alegaram que os conhecimentos prévios eram considerados nas discussões sobre as estratégias de comunicação escrita dos alunos:
“nós sabíamos que haviam atividades que podiam ser dadas usando esse conhecimento prévio, mas quando a gente olhou um para a cara do outro e falou ”olha, se a gente for fazer um world map pra levantar o conhecimento prévio, pra daí fazer uma discussão do que eles já sabem, pra daí preparar uma atividade, não ia dar
tempo. Nós tivemos que customizar muito o tempo, então nós considerávamos o que eles sabiam, de certa forma todas atividades tinham uma contribuição daquilo que ele já sabia. ...Então várias das discussões eram feitas em cima dos conhecimentos prévios e dos pré-conceitos que eles tinham sobre o conteúdo, então não dava tempo de fazer um levantamento, preparar uma atividade para isso, mas o bojo de boa parte das discussões eram feitas em cima das crenças pessoais, principalmente quando você fala de língua.” (FORMADOR 4)
Havia uma pré-concepção da equipe formadora de que seria importante ensinar estratégias de ensino interativas, em que o aluno fosse considerado neste processo, pois eles acreditavam que os alunos do curso de tutoria (muitos já professores em exercício na modalidade presencial) trariam uma concepção unidirecional do processo pedagógico:
“Boa parte era docente (...) nós tínhamos por pressuposto, não declarado, que nós tínhamos professores que pensavam a interação, que pensavam a docência como criação positiva, de feedback positivo e nós tínhamos uma questão assim, muitos vão chegar com a prática docente de “Cala a boca que você está errado”, então o material foi pensado pra dar realmente vazão a discussões desse nível” (FORMADOR 4)
“nós pegávamos muito da prática e apresentávamos aqueles conceitos. Se aquilo já era da prática deles ou se não era, a gente não tinha como avaliar previamente” (FORMADOR 4)
Alguns alunos deram feedbacks, durante e após a formação em tutoria, de que haviam passado a utilizar alguns dos conteúdos aprendidos no curso para sua atuação na modalidade presencial:
“Eles deram esse feedback positivo pra gente “Olha, no presencial aplicamos o que aprendemos na EaD e deu muito certo, então de certa forma a gente alcançou esse objetivo e a gente ficava muito feliz com esses feedbacks, pessoas assim, de longa data docente, falando que “nossa, nunca tinha pensado nisso e funciona”. (FORMADOR 4)
Uma estratégia de levantamento dos conhecimentos prévios era perguntar aos alunos sobre sua experiência anterior com tutoria virtual ou sobre seus conhecimentos a
respeito do uso das tecnologias. Outro ponto importante, considerado pré-requisito para participar do curso, era ter experiência docente:
“a gente pedia, perguntava isso pra eles, quem já tinha experimentado alguma vez ser aluno, tutor etc e que descrevesse um pouco essa experiência. O que a gente tinha um pouco de receio é quando ele já era tutor a distância de algum outro curso. Pra nós era preferível pegar alguém que nunca tivesse sido tutor do que quem já tivesse sido tutor a distância de um curso particular. Por que? Porque ele vai trazer os vícios daquela proposta pedagógica, que tem uma visão de tutoria muito diferente da nossa, então eu não quero que o cara seja um mero 0800, eu quero que ele acompanhe o aluno, então pra nós era até melhor que ele não tivesse essa experiência, que viesse, assim, cru, mas então a gente fazia esse levantamento, mas pra saber às vezes, qual seria o grau de resistência que ia se apresentar” (FORMADORA 1)
“No comecinho nós fizemos só uma consulta e era necessário que eles já trouxessem previamente certas competências. Por exemplo, a gente tinha o ensino de informática, porque a gente tinha dúvida se todo mundo sabia informática, era letrado digitalmente, sabia usar digitalmente, então nós estabelecemos um conjunto de saberes sobre informática que todo mundo tinha que ter. (...) Todo mundo sabe navegar na internet, buscar um arquivo, anexar, mandar, sabe fazer uma busca, uma pesquisa, se não sabe, tem que aprender naquela semana, então isso foi exigido deles. São conhecimentos prévios, então tinham os conhecimentos didáticos, de informática e tecnologia, do conteúdo, issofoi pré-requisito também, era considerado, porque ele tinha que ter, por isso foi indicação do professor, a seleção era feita por disciplinas. Eram pessoas que já tinham, nós fizemos questão na primeira edição, ao contrário do que acontece atualmente, de exigir, inclusive, experiência docente pra que pudesse participar, aí depois nós percebemos que algumas áreas não tinha pessoas com essa experiência na quantidade suficiente, flexibilizamos um pouco, mas não flexibilizamos de tudo” (FORMADOR 2)
Um ponto que a equipe se preocupava em combater era o exercício da docência online sem o devido preparo pedagógico. Havia interesse em ensinar os futuros tutores a lidar com os alunos a partir de orientações pedagógicas importantes para o exercício docente. Como os alunos do curso de formação eram indicados por sua reconhecida competência teórica em suas áreas de conhecimento, a equipe formadora estava preocupada em garantir habilidades docentes, já que, em alguns casos, os alunos que atuariam como tutores não tinham esta experiência prévia:
“Ele tinha que saber que ensino-aprendizagem não é como acontece nas áreas exatas, um doutor que nunca entrou em sala de aula nem como monitor, de repente passa num concurso e chega lá na frente de 50, 100 alunos e daí? E agora José? O que fazer? (...) isso não é nada profissional e nada pedagógico. A pessoa aprende na prática, portanto as primeiras turmas se lascam em função da incompetência pedagógica do professor. Nós queríamos amenizar isso na tutoria, especialmente porque nós queríamos começar bem, portanto exigimos, já que nós tínhamos condições disso” (FORMADOR 2)
Na visão do FORMADOR 2, um tutor tem que ser um bom professor. No entanto, a formação em tutoria não seria capaz de garantir estes conhecimentos, visto que se trata de um curso de curta duração. Para ele, alguns conhecimentos precisam estar garantidos, pois o curso de formação em tutoria virtual ensinaria as especificidades da docência online e não a pedagogia básica:
“O que a gente ensinava no curso era: o que de especificidade um docente virtual tem que ter em relação ao docente presencial, isso sim, mas a docência presencial, subentendia-se que o profissional já tinha boa parte dos conhecimentos. (...) Existia um equívoco na concepção de que o professor presencial não precisaria saber quem é o aluno, não teria que fazer avaliação diagnóstica, não teria que fazer avaliação formativa. (...) o curso não tinha objetivo de ensinar pedagogia básica pros tutores, mas a gente tinha que orientar algumas coisas que aconteciam e que faz parte da pedagogia básica.”