3.1 La cohorte comme configuration
3.1.2 Hypoth` eses sur les effets de l’´ evolution des interd´ e-
Brandão e Spinillo (1998) discutem as metodologias adotadas nas pesquisas na área para avaliar a compreensão de textos. Segundo a análise conduzida pelas autoras ao caracterizar as diferentes metodologias, cada metodologia avalia diferentes facetas da compreensão de textos.
Recentemente, Mahon (2002) e Spinillo e Mahon (2007) procedem a uma discussão, também de natureza metodológica, sobre a pesquisa em compreensão de textos, mostrando outras maneiras de se caracterizar as pesquisas na área. Segundo as autoras, os diversos estudos que se propõem a investigar e avaliar a compreensão de textos utilizam tarefas variadas que podem ser agrupadas em dois tipos de metodologia, a saber, a metodologia off-line e a metodologia on-line.
As nomenclaturas off-line e on-line fazem alusão ao momento de investigação da compreensão, se após uma leitura completa do texto (off-line) ou se no momento em que a leitura está ocorrendo (on-line), portanto ambas as metodologias não fazem qualquer referência a recursos digitais.
A metodologia off-line consiste em investigar a compreensão de textos após o texto inteiro ter sido lido, por meio de tarefas tais como identificar temas centrais, fornecer título a um texto lido, fazer um resumo, recontar um texto lido ou responder perguntas (literais
ou inferenciais). Esta é a metodologia mais utilizada em estudos na área, e investiga a capacidade inferencial após a leitura.
Já a metodologia on-line é pouco usual: ela se propõe a investigar a compreensão de textos durante a leitura dos mesmos. A leitura do texto é interrompida em partes previamente determinadas, e após cada interrupção são feitas perguntas de compreensão ao leitor. Essas perguntas podem ser sobre o que já foi lido (informações literais ou inferenciais) e/ou sobre as previsões do leitor acerca de como se dará a continuidade do texto. É válido ressaltar que as inferências de previsão apenas podem ser investigadas na metodologia on-line, visto que a própria natureza da metodologia off-line não permite ao investigador acompanhar esse aspecto da compreensão.
Outra diferença entre as metodologias on-line e off-line é que a primeira exige menos da memória de trabalho do leitor, propiciando assim a utilização de textos mais longos nas pesquisas em compreensão de textos.
Mahon (2002) aponta que a metodologia on-line parte do princípio que a compreensão de textos é elaborada paulatinamente, numa sequência em que as informações lidas recentemente são integradas com as informações anteriormente lidas, e estas são associadas aos conhecimentos prévios daquele que lê. A leitura interrompida e as perguntas propiciam ao leitor atentar para certas informações veiculadas na passagem lida. Desta forma, a metodologia on-line permite ao investigador presenciar o momento mais próximo da geração de inferências, permitindo-lhe, assim, acompanhar o processo de representação mental do leitor à medida que este considera as informações do texto na construção de sua compreensão. A mesma autora ressalta que a metodologia on-line facilita que o leitor atente para os detalhes nas informações presentes no texto, o que pode contribuir para uma boa compreensão de texto.
Kintsch (2005) considera que as perguntas de compreensão podem cumprir dois papéis distintos: servem para avaliar a aprendizagem, e atuam enquanto instrumento pedagógico para a promoção da construção de conhecimento. No presente estudo entende- se que as perguntas on-line de conteúdo realizadas durante a leitura o texto servem a este segundo objetivo, ou seja, auxiliam o leitor a elaborar sua representação mental acerca do que lê. Já as perguntas off-line realizadas avaliam o resultado da compreensão.
A metodologia on-line envolve uma interação não só entre texto escrito e leitor, mas entre estes e um terceiro interlocutor que apresenta as perguntas ao leitor. As intervenções linguísticas desse interlocutor, de acordo com Santa-Clara, Ferro e Ferreira (2004) longe de serem neutras, ajudam o leitor a elaborar sua compreensão do texto. As autoras, em pesquisa realizada acerca do papel da linguagem do pesquisador na construção da compreensão de um texto, analisaram uma sequência discursiva entre uma criança de 10 anos de idade, estudante da quarta série do ensino fundamental, e uma pesquisadora, durante uma tarefa de compreensão de um texto narrativo. A criança em questão fazia parte de um grupo de 28 crianças que foram avaliadas individualmente. Após a leitura do texto, cada criança era solicitada a responder perguntas padronizadas acerca do mesmo.
Embora o estudo original apresentasse a proposta tradicional de padronização e neutralidade a fim de obter um bom controle de variáveis, ao analisarem o citado recorte discursivo, Santa-Clara, Ferro e Ferreira (2004) observaram que a pesquisadora realizou intervenções verbais que não estavam previstas no roteiro inicial. Essas intervenções surgiram na interação pesquisadora-criança tanto em resposta da entrevistadora a uma comunicação não-verbal da criança, como em momentos em que a resposta dada pela criança não era a resposta esperada pela mesma. A partir dessas intervenções a criança foi re-elaborando a sua compreensão do texto.
Sendo assim, Santa-Clara, Ferro e Ferreira (2004) pontuaram que as intervenções verbais da entrevistadora se constituíram em ações discursivas, capazes de gerar transformações em uma compreensão textual inicialmente pobre, modificando-a e recriando-a na direção de uma compreensão de texto coerente e adequada. A interação verbal entre o entrevistador e o entrevistado, no citado estudo, mostrou favorecer a geração de inferências e, portanto, favorecer a construção de uma compreensão de texto apropriada. Tanto na metodologia on-line quanto na metodologia off-line podem ainda ser feitas perguntas complementares após cada pergunta inferencial. Tais perguntas têm o objetivo de esclarecer as bases de geração das inferências e o nível de consciência do leitor sobre o seu processo inferencial (MAHON, 2002). As perguntas complementares consistem em indagações acerca das respostas fornecidas pelo leitor a perguntas relativas ao conteúdo do texto, a fim de que o leitor justifique as respostas dadas. Mahon (2002) ressalta que as perguntas complementares estimulam uma atividade metacognitiva por parte do leitor.
Brandão (2005), em estudo no qual utilizou a metodologia off-line para investigar as bases de conhecimento que leitores iniciantes utilizam ao responder questões de compreensão, concluiu que leitores iniciantes já apresentam capacidade de justificar suas respostas, e que na maioria das vezes a base textual é a principal fonte de conhecimento utilizada por tais leitores em suas respostas. A autora também aponta uma associação entre uma melhor habilidade de compreensão e a habilidade de produzir justificativas mais elaboradas para suas respostas.
Em um estudo sobre o uso de conhecimentos gerais em respostas de compreensão de textos, Brandão e Oakhill (2005), ao analisarem as justificativas dadas por crianças de sete e oito anos para suas respostas, observaram que a solicitação dessas justificativas tende a ajudar a identificar com maior precisão as dificuldades de compreensão do leitor. Além disso, as autoras fazem uma reflexão pontuando que é possível que tal solicitação
sirva ainda para promover uma compreensão mais eficiente, visto que estimula o leitor a pensar sobre suas respostas, podendo discuti-las, revê-las e modificá-las se achar necessário. Sendo assim, levantam a possibilidade de que a solicitação de justificativas para as respostas dadas possa se constituir em uma ferramenta útil para a melhora da compreensão de textos. É preciso ressaltar, porém, que o referido estudo foi realizado na metodologia off-line, não tendo sido investigado o papel das justificativas quando se trata de tarefa realizada na metodologia on-line.
É importante atentar para o fato de que as metodologias off-line e on-line são amplamente utilizadas para avaliar a compreensão de textos, porém o papel potencial das metodologias em melhorar essa compreensão permanece algo a ser pesquisado. Embora diversos estudos sobre a compreensão de textos apontem que ela pode ser de fato melhorada por meio de intervenções, ainda não foi investigado de que forma diferentes metodologias podem promover a boa compreensão de textos.