EXCLUSION SOCIALE DANS DIFFÉRENTS CONTEXTES : POINTS COMMUNS ET DIFFÉRENCES
1. DES PROCESSUS GLOBAUX DERRIÈRE L’EXCLUSION SOCIALE
A obra de arte, nos seus melhores exemplos, escapa a qualquer interpretação redutora e prescritiva. Os impulsos sensoriais, emocionais, inteletuais, motores, envolvidos no processo que lhe dá existência, e essa mesma existência, não estão predefinidos e não podem ser ‘pré-vistos’. A arte envolve um processo de exploração, de descoberta, que não é finito, na medida em que continua através daqueles que vivenciam a obra. O desenho, enquanto disciplina, tem vindo a afirmar a sua autonomia e valor próprio, não subserviente em relação a outras formas de realização artística, mantendo, no entanto, uma relação indestrinçável com estas.
Saber desenhar não é apenas saber representar corretamente o que se pretende mostrar. Nem é uma mera reprodução de realidades, nem um exercício puramente formal em que se usam elementos como pontos, linhas, manchas; tal como saber escrever não é apenas saber unir letras para formar palavras ou palavras para formar frases (e assim sucessivamente). Ainda assim, é preciso começar por aí para se conseguir usar a linguagem na escrita. Assim também, em arte há que saber usar o que
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pode ser exercitado e estudado, seja qual for a ordem pela qual se trabalham o método, a técnica, os princípios, a história do desenho, os elementos estruturais da linguagem plástica, que devem ser estudados e aprendidos para que se possa, com todo esse ‘léxico’, concretizar processos de criação.
Num momento em que a arte contemporânea contempla todas as possibilidades, tem sentido perceber como os conceitos e as ferramentas essenciais – e por isso intemporais –, podem ser usados em novos contextos, em novos processos de criação, e para tal devemos procurar como bases para ensinar o que já foi aprofundado e nos pode ajudar a sedimentar ideias seguras, num mundo em que tantas formas de fazer são possíveis. Tem sentido ensinar desenho numa perspetiva não cingida a limites convencionais, para que cada aluno consiga aprender o que há de comum entre o que aprende na escola e o que pode ver no trabalho dos artistas do seu tempo e de outros, procurando que cada um domine o que é essencial: como se processa a nossa maneira de ver e experienciar o mundo, como podemos agir sobre ele e a partir dele, como os elementos estruturais de uma linguagem se podem articular e compôr, como refletir e criar de acordo com determinada conceção. Assim se tentará conceber o desenho no espaço, no entendimento de como todas estas dinâmicas essenciais funcionam para esta concretização.
A investigação, ponto de partida para a unidade didática aqui relatada, baseia-se não só no modo de ensinar e na ação do professor, mas também no estudo de uma diferente possibilidade de fazer desenho: a possibilidade de conceber o desenho como objeto, ou como ação, que pode existir no espaço que nos envolve, desprendido dos limites da folha de papel. Pretender-se-á entender, ainda, como se pode materializar esta investigação num projeto a desenvolver coletivamente com alunos.
As primeiras questões que surgem são: Como é que o desenho é desenho neste contexto? Essa conceção do desenho/ desenhar existe? Como pode existir?
Sabemos que o desenho pode ser implícito, constituinte do processo de formulação de outras formas de arte, ou pode ser “(...) decorrente do ato voluntário, dinâmico e consciente da Visão, simultaneamente método de apropriação do real e formulador de raciocínios (...)” (Mouro, 2011, p. 2). Sabemos também que “(...) no universo da arte contemporânea, a prática do desenho dentro dos limites tradicionais (a inscrição de linhas ou traços numa superfície, normalmente o papel, com a finalidade de representar algo e produzir um efeito estético) coexiste com práticas artísticas muito diversificadas onde o desenho não se conforma a esses limites.” (Faria; Wandschneider, 1999, p. 13). O desenho tem uma importância clara no contexto atual, como lugar de inquietação, invenção e inovação, que não deve ser indiferente aos alunos que iniciam o
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seu percurso nas artes visuais. Numa época em que, ao nível das artes, se perde a exigência normativa e disciplinadora que existia no passado, as possibilidades criativas do desenho são quase infinitas.
Essas possibilidades aumentaram exponencialmente no século XX, com a conquista da autonomia do desenho, como independente e não subordinado a outras disciplinas e com um estatuto não inferior às mesmas, ou seja, deixou de ser apenas um auxiliar, ou a expressão gráfica de uma ideia inicial. “Efetivamente, não podia ser outro o estatuto do desenho, em épocas que valorizavam na obra de arte o sentido de perfeição e de acabamento, a monumentalidade, o tempo que ela demorava a realizar, a nobreza dos materiais utilizados.” (Faria; Wandschneider,1999, p. 15). Com a revolução no sistema de representação visual, no Renascimento, já a exigência de representação da realidade exterior com verosimilhança elegeu o desenho como instrumento privilegiado para treinar o olho e a mão, para alcançar o rigor e a precisão na representação, para assimilar noções de perspetiva e proporção, tornando-se assim uma disciplina incontornável na aprendizagem artística, mas não tanto uma disciplina dedicada a ‘si mesma’, não permitindo que a prática do desenho se destinasse a pensar o desenho, como se pensa nos nossos dias. “A autonomização do desenho no século XX não significou o abandono do estudo como terreno de verificação de ideias e de elaboração de formas. Pelo contrário, o estudo continuou a ser procedimento corrente para muitos pintores e escultores, embora liberto dos códigos de representação e das normas que definiam a sua inserção e funcionalidade no processo criativo.” (Faria; Wandschneider,1999, p. 15-16).
Desenhar é uma forma de pensar e de gerar energia criativa, proporciona inúmeras possibilidades de experimentação, é um meio económico que permite dizer o essencial através do mínimo. A linha e o gesto, princípios na criação de obras de arte, são próprios do desenho. No entanto, “A identificação do desenho com a linha e o gesto, e da pintura com a cor e a mancha, é simplificadora (...), mas ela é instrutiva de um princípio historicamente durável de oposição entre desenho e pintura. (...) No século XX, a prática de muitos artistas, quer no campo do desenho, quer no da pintura, aboliu a distinção entre estas disciplinas.” (Faria; Wandschneider,1999, p. 17-18).
O lápis, a caneta, o carvão, a grafite, o giz, o pastel, a tinta, o guache, ou a aguarela, aplicados sobre o papel, deixaram de ser os materiais e técnicas exclusivos do desenho, adicionando-se inicialmente a colagem de papéis, de imagens e até de objetos à superfície do suporte. Num extremo oposto às práticas tradicionais, surgiram exemplos de radicalismo como a land art em que vários artistas
“(...) trabalharam diretamente na paisagem natural, realizando intervenções de grande escala, por vezes efémeras, que questionaram os fundamentos da escultura e do
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desenho, posteriormente divulgadas através de projetos, fotografias ou filmes. Em muitos casos emblemáticos, estamos perante a inscrição ou a materialização do desenho na natureza. São exemplos Mile Long Drawing (1968) de Walter di Maria (1935), duas linhas paralelas desenhadas a giz no leito de um rio seco no deserto, ao longo de uma milha;
Spiral Jetty de Robert Smithson (1938-1973), um enorme desenho geométrico feito com
pedras e terra sobre a água de um lago; ou ainda Drawing a Line in Peru de Richard Long, intervenção bem representativa dos percursos do artista na paisagem e das marcas nela deixadas – linhas, e círculos inscritos na terra ou feitos com o alinhamento de pedras – como testemunho dessa experiência a um tempo física e espiritual.” (Faria; Wandschneider,1999, p. 20).
A conceção de desenho presente neste estudo contempla o desenho que habita o espaço. O espaço tridimensional, que pode ser um espaço fechado ou uma paisagem. Já percebemos que o desenho se separou, em situações mais extremas, dos limites da superfície bidimensional. No entanto, continuam a surgir questões: Como é possível criar uma composição no espaço? É possível em tal situação conduzir o olhar do observador de modo a garantir que ele vê o que queremos desenhar?