Na história econômica do Brasil, diversos percalços e fragilidades estão presentes: dependência externa, câmbio administrado, descontrole inflacionário, mudança de padrão monetário com diversos cortes de zero, negociações extensas de dívida com a comunidade financeira internacional, suspensões/moratória de pagamentos a essa comunidade, reestruturação/rompimento com o Fundo Monetário Internacional, acordos stand-by e crises políticas. Viola (2005), em um relato sobre a América Latina, destaca o progresso do Brasil na adoção de instituições de mercado:
“Dentro da América Latina os destinos têm sido diferenciados se tomamos a situação relativa dos países com maior modernidade econômica e política em 1990 (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Uruguai e Venezuela) e os comparamos com seu desempenho no período que vai até 2005.
...no Brasil, que era uma economia estatizada com uma democracia incipiente, fechado ao mundo em 1990, tem havido progressos consideráveis (mesmo que insuficientes e heterogêneos) em termos de reformas e instituições de mercado, um relativamente bom funcionamento da democracia em todos os níveis de governo e uma crescente abertura ao mundo. Resumindo esta dinâmica bastante heterogênea, temos: um progresso dramático do Chile, progressos importantes ainda que insuficientes México, Brasil e Costa Rica, estagnação do Uruguai, e declínio da Argentina, Colômbia e Venezuela.”160
Antes do Plano Real de 1994, o Brasil era reconhecido pela sua elevadíssima taxa de inflação. A inflação reduziu-se drasticamente com a adoção desse Plano, mas o País não conseguiu apresentar elevadas taxas de crescimento, enfrentando as crises financeiras internacionais da década de 90, nas quais sempre adotou medidas que
160 Viola, Eduardo. Transformações na Posição do Brasil no Sistema Internacional (1990-2005). Revista
provocam retração na economia (aumento das taxas de juros e pacote fiscal de contenção de despesas).
Na crise mexicana, o Brasil manteve a sobrevalorização do Real para o combate da inflação, meta mais relevante naquele instante, dado o drama histórico para controlar a alta dos preços, com as falhas sucessivas nos planos econômicos anteriores ao de 94. Na seqüência da crise asiática, o Brasil perdeu US$ 20 bilhões em reservas em poucos dias, que foram recuperadas com as privatizações. Na crise russa, elevaram-se os juros para manter a atratividade ao capital internacional, mas mesmo assim as perdas nas reservas chegaram a US$ 30 bilhões161.
Depois de ultrapassar a crise do México e a crise da Ásia, sem alterar o seu regime de banda cambial, o Brasil não conseguiu manter sua política de câmbio, em seguida aos acontecimentos econômicos que ocorreram após a crise da Rússia. Em setembro de 1998, seguiu-se um problema de perda de liquidez no mercado dos países desenvolvidos com a crise da LTCM, nos Estados Unidos.
Em janeiro de 1998, a Long Term Capital Manegement (LTCM) era reconhecida como a maior firma do mundo em hedge fund (fundos exclusivos destinados a grandes investidores e que, por envolverem volume alto de recursos, têm tributação diferenciada. Esses fundos são bastante controversos pelo potencial de impacto que têm nos países). Essa firma de gerenciamento de fundos tinha dois prêmios Nobel de economia em sua diretoria: Robert Merton e Myron Scholes, especialistas em riscos do mercado financeiro. A LTCM mantinha posições compradas em títulos de alto risco e alto retorno (como dívidas de países emergentes) e posições vendidas em títulos de baixo retorno (como títulos do Tesouro norte-americano). A firma tinha investido mais de 25 vezes o seu capital em vários ativos, incluindo títulos públicos russos. A queda do rublo e a quase inadimplência russa deixaram os investidores em pânico. Em fins de agosto de 1998, a LTCM tinha perdido US$ 1,2 bilhão e estava com alavancagem de 50 ativos para 1 de capital. Em meados de setembro, a alavancagem alcançou 150 para 1. O
Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos) chamou um grupo de instituições
161 Almeida, Paulo Roberto de. Finanças Internacionais do Brasil: Uma Perspectiva de Meio Século
(1954-2004). Em O Crescimento e As Relações Internacionais no Brasil. Org. José Flávio Sombra Saraiva e Amado Luís Cervo, Brasília, Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, 2005.
para evitar a liquidação da LTCM. No dia 23 de setembro de 1998, 16 instituições financeiras mundiais investiram US$ 3,6 bilhões em troca de 90% dos ativos da LTCM e evitaram a liquidação. Os credores se transformaram em acionistas162.
Um pacote de ajuda financeira internacional foi disponibilizado para o Brasil, no dia 13 de novembro de 1998. Sendo US$ 9 bilhões de dólares das instituições multilaterais BIRD (Banco Mundial) e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e US$ 20 bilhões em até três meses do FMI e de membros do BIS (Bank of International Settlement) ou até US$ 32 milhões no prazo de um ano. Esses valores dependiam do grau de implementação de um ajuste fiscal.
O Brasil ainda conseguia preservar o seu sistema de banda cambial, em fins de 1998, mas, como destaca Goldfajn (2000), a crise da Rússia e a crise de liquidez internacional provocaram alterações bruscas no portfólio do investidor estrangeiro, o que não aconteceu nas crises anteriores. Ademais, em seguida às crises da Rússia e da LTCM, veio um fato político/financeiro doméstico que abalou ainda mais a confiança dos credores externos: anúncio da moratória do Estado de Minas Gerais das dívidas renegociadas pelo governo central (Lei 9.496 de 11 de setembro de 1997), em 6 de janeiro de 1999, pelo governador Itamar Franco (ex-presidente do País e agora adversário político do presidente Fernando Henrique Cardoso).
O dólar no Brasil começou avaliado na semana de 11 de janeiro a 15 de janeiro de 1999 em R$ 1,21 e terminou negociado por R$ 1,42 numa alta de 17%, depois de alcançar picos de R$ 1,60. Antes mesmo da fatídica quarta-feira, dia 13 de janeiro, quando o recente empossado presidente do Banco Central Chico Lopes elevou o teto da banda cambial de R$ 1,22 para R$ 1,32, os dólares deixavam o País em grande escala. Saíram do País US$ 4 bilhões em três dias. O principal título da dívida externa brasileira (C-Bond) recuo u de 54,50% do valor de face para 50%, o pior nível desde agosto de 1998. O índice da Bolsa de São Paulo (Bovespa) chegou a cair 10%, fazenda acionar o "circuit breaker", que pára o pregão. Manter a banda cambial não era mais possível. No dia 15 de janeiro o Banco Central permitiu a livre oscilação da taxa de câmbio. O País agora é a fonte de contágio financeiro internacional. Tivemos o “efeito
162 Fleuriet, Michel. A Arte e a Ciência das Finanças – Uma Introdução ao Mercado Financeiro. Editora
tequila” da crise do México e agora o mundo conheceu o “efeito samba”, com as bolsas de valores de todo mundo registrando queda.