A hipótese levantada que estrutura a presente Dissertação de Mestrado é a de que há milênios as mais variadas populações dos continentes da África e da Ásia – mais principalmente os povos que se encontravam entre a costa leste africana e os povos da costa oeste da Ásia – estão em contínuo encontro através de rotas marítimas e terrestres, deslocamentos humanos, fluxos migratórios, e trocas comerciais. Estruturando civilizações inteiras que somente são inteligíveis como obra comum dos esforços realizados entre os continentes da África e da Ásia (FONSECA, 2015; LÉVI-STRAUSS, 2000).
Nesse sentido, o processo de colonização euro-ocidental destes continentes estabeleceu a ruptura dos contatos e a relação milenar estabelecida entre os povos da África e da Ásia, que apenas é restabelecida, a partir da Conferência de Bandung (único movimento capaz de entrelaçar as diversas experiências coloniais entre os povos afro-orientais) e dos esforços realizados pelo Partido Comunista Chinês que contribuiu de forma direta no processo de descolonização e reconquista da independência do continente africano.
É justamente nesse contexto, mais especificamente na década de 1960, que se estabelecem o início das relações sinoangolanas, sendo um elo fundamental para o desdobramento e a continuidade do conflito colonial, exercendo influência em aspectos educacionais dos movimentos independentistas de Angola, gerando estruturas bélicas aos
33 combatentes no conflito e treinamento militar, que fortaleceram assim os três principais e rivais grupos independentistas que lutavam pela descolonização de Angola.
1.4 Metodologia
A presente Dissertação de Mestrado apresenta-se dentro do quadro teórico metodológico de uma pesquisa qualitativa, por abarcar procedimentos metodológicos dentro deste processo de realização de pesquisa cientifica. Tal enquadramento se faz com base na síntese das características gerais de uma pesquisa qualitativa apresentada Hartmut Günther (2006), onde:
Seguindo o pensamento de Dilthey citado acima, Flick e cols. (2000) apontam a primazia da compreensão como princípio do conhecimento, que
prefere estudar relações complexas ao invés de explicá-las por meio do isolamento de variáveis. Uma segunda característica geral é a construção da realidade. A pesquisa é percebida como um ato subjetivo de construção. Os
autores afirmam que a descoberta e a construção de teorias são objetos de
estudo desta abordagem. Um quarto aspecto geral da pesquisa qualitativa, conforme estes autores, é que apesar da crescente importância de material visual, a pesquisa qualitativa é uma ciência baseada em textos, ou seja, a
coleta de dados produz textos que nas diferentes técnicas analíticas são interpretados hermeneuticamente (GÜNTHER, 2006. p. 202).
Questões como a compreensão do objeto, a geração do conhecimento, a reconstrução dessa dada realidade a partir de bases teóricas, a utilização de material visual e uma “ciência baseada em textos” aparecerão como base da realização desta presente Dissertação de Mestrado, assim como elementos da historicidade como obtenção para o conhecimento de
uma dada realidade, tão cara para a pesquisa qualitativa. Tanto para Günther (2006), quanto para a perspectiva hermenêutica, o trabalho científico de uma pesquisa qualitativa deve estar aproximado da teoria crítica, como forma de promover a emancipação do homem.
Por outro lado, a hermenêutica está orientada para a compreensão da participação dos actores numa «forma de vida» intersubjectiva e, por conseguinte, para melhorar a comunicação humana ou o autoconhecimento. A teoria crítica está ligada a um «interesse de emancipação» porque procura ultrapassar cada um dos anteriores tipos de interesses considerados separadamente, procurando libertar os indivíduos da dominação: não só da dominação de outros, mas também da dominação de forças que não entendem ou controlam (incluindo forças que são em si criações humanas) (GIDDENS, 1993. p. 76-77).
34 Sendo assim, nesta presente Dissertação de Mestrado contaremos com um levantamento bibliográfico – de origem nacional e internacional – acerca da temática e livros acadêmicos, assim como a utilização de relatórios oficiais dos governos da República Popular da China e da República de Angola, sobre as relações econômicas e os vínculos históricos entre a República Popular da China e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa em África, também conhecida pelo termo CPLP, que foram emitidos pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Centro de Estudos Chineses da Fundação Rockefeller (CEC).
Esta ampla consulta em fontes primárias e secundárias acerca da relação e dos contatos afroasiáticos, fazem parte de um dos procedimentos mais antigos na realização da pesquisa cientifica, e denominada na maioria das vezes por análise de documentos:
Além de procedimentos tradicionais de leitura e resumo de idéias, é possível extrair e sumarizar resultados por meio de meta-análise (e.g., Rosenthal, 1984). A utilização de documentos como fonte sistemática de dados foi iniciada por Leopold von Ranke, o pai da história científica na primeira parte do século XIX (Grafton, 1997). Desde então, desenvolveram-se tanto técnicas mais quantitativas quanto qualitativas para lidar com fontes secundárias e documentais. Dependendo da natureza dos documentos existem as mais diferentes maneiras de encará-los, desde relatos verbais e respostas a perguntas de pesquisadores futuros, até segmentos de texto selecionados como “sujeitos” entre um corpo lingüístico grande, por meio de procedimentos de amostragem (GÜNTHER, 2006. p. 205).
A presente Dissertação de Mestrado contará também com uma pequena sondagem visual acerca da presença chinesa em África no contexto das lutas pela independência do continente africano, mais especificamente entre as décadas de 1960 e 1970, e o faremos, a partir de três focos de coletas:
a) Através de sites especializados em buscas pela internet, a partir de palavras-chaves em
quatro idiomas (Espanhol, Inglês, Mandarim e Português);
b) Através de acervos digitalizados pelo atual Museu da Conferência de Bandung (também conhecido por Gedung Merdeka) e por acervos disponibilizados pelas
embaixadas chinesas em África;
c) Por meio de acervo bibliográfico acerca da propaganda realizada pelo Partido Comunista Chinês – ao longo da década de 1960 e meados da década de 1970 – do
35 qual utilizaremos principalmente a obra de Michel Wolf (2011) intitulada Chinese Propaganda Posters.
Nesse sentido, fica válido ressaltar que a utilização de fontes teóricas e documentos de países como a República Popular da China implicarão no respeito e manutenção das formas ortográficas vigentes naquele país, a partir das simplificações da grafia impostas por Máo Zédōng, em 1956. Ou seja, procuramos ao longo desta Dissertação de Mestrado, reproduzir de
forma fiel os respectivos termos da língua Pǔtōnghuà (mandarim), o que implicará,
impreterivelmente na publicação dos caracteres chineses neste documento14, chamados de
Hànzì (汉字).
Sendo assim, a totalidade dos nomes chineses nesta Dissertação de Mestrado será transcrita, a partir da forma oficial da grafia chinesa, chamada de Pīnyīn (拼音)15, para facilitar a leitura dos caracteres chineses utilizados por parte dos leitores que não possuem a compreensão da escrita e pronúncia dos caracteres chineses, salvo apenas quando os nomes chineses utilizados nesta Dissertação de Mestrado forem oriundos de fontes euro-ocidentais e grafias latinas, em respeito as fontes utilizadas e as padronizações vigentes pela ABNT, que nos impedem de alterá-las.
Porém, nos casos onde a grafia Pīnyīn difere drasticamente da forma conhecida pelo
Ocidente (como por exemplo, Macau, em vez de Àomén; Hong Kong, em vez de Xi ng gǎng;
e Chiang Kai-Shek, em vez de Jiǎng Jiè shí) e dificulta o reconhecimento do leitor, optaremos sempre pela manutenção da ortografia ocidental, evitando assim incompatibilidades na compreensão de nosso texto.
14 A respeito da grafia chinesa, fica válido ressaltar que os Hànzì “escritos à mão às vezes diferem muito de suas
formas tipográficas” (ROWLEY, 2003. p. 12), sendo assim, os caracteres utilizados poderão apresentar poucas variações quanto a sua forma, quando comparados a outros caracteres (de origem chinesa e/ou japonesa, devido à oposição bipolar dos caracteres, classificados oficialmente por Tradicionais e Simplificados), por isso
optaremos sempre pela utilização dos caracteres simplificados e invariavelmente pelo formato Sòngtǐ (formato
padrão para textos oficiais), evitando assim os caracteres Zhèngkǎi (fonte chinesa informal para textos e uso na
internet em geral), ou então o Shǒuxiětǐ (fonte chinesa para computadores, que se assemelha à escrita chinesa
feita à mão). Tais medidas visam única e exclusivamente, fornecer uma padronização e simplificação da escrita chinesa para leitores não familiarizados com variações de escrita e pronúncia da língua Pǔtōnghuà (mandarim). 15 Formalmente conhecido como Hànyǔ pīnyīn (汉语拼音), é um dos diversos sistemas de romanização e
transliteração da língua Pǔtōnghuà (o mandarim), que surge no contexto de simplificação do idioma para
alcançar os analfabetos do país propostas pelo Partido Comunista Chinês em 1956 e se popularizou como padrão de ensino do Pǔtōnghuà como segunda língua. A opção por este sistema de romanização se justifica pela sua
solidez, difusão e atualidade, pois não se faz justo, escolher sistemas de romanização e transliteração da língua chinesa que entraram em falência com a emergência do século XX.
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