Em A invenção do presente, Melucci (2001a) faz um esboço do que considera as novas demandas e o perfil dos novos movimentos sociais, cujo grande e paradoxal conflito é inventar o presente. Talvez mais que um conflito, inventar-se no presente é a condição existencial imposta pelo complexo sistema mundial em sua relação com os movimentos sociais. De lineares, cumulativos e globais, os processos sociais se tornam descontínuos, articulados e diferenciados.
conceitos que exprimem nossa incapacidade para sequer definir as mutações que se sucedem no sistema social, bem como as relações entre a dinâmica societária pós-industrial e as características dos atores que compõem o tecido social. Conseqüentemente, a ação coletiva tem um novo papel a desempenhar nesta mudança. A própria natureza fragmentária da ação social na sociedade complexa exige canais de representação política e atores institucionais capazes de transformar em “políticos” os enfrentamentos conflituais que lhe sucedem. As transformações sociais e econômicas, a transição democrática e o processo de decomposição e reorganização da matriz sociopolítica ocorridos no final do século XX trouxeram uma mudança significativa na natureza dos atores e dos movimentos sociais. Reconhece-se que o movimento operário não é mais homogêneo porque no seu interior coexistem grupos que, com suas demandas, requerem interlocução com o sistema organizativo e com o sistema político.
Melucci (2001a) explica essa mudança de perspectiva sinalizando que até o final do século XX a história e a sociologia do trabalho reuniam a multiplicidade de atores e interesses sob uma condição social comum: o movimento operário. As organizações sociais da década de 1970 estruturaram-se em torno de interesses relativamente estáveis, com base territorial, profissional e social bastante definidas. No capitalismo industrial vislumbrava-se uma mudança que se imporia por intermédio de um paradigma evolutivo determinado. A ação social caracterizava-se pela existência de um movimento social central, que por sua vez definia um conflito central, objetivava uma mudança social global e tinha o povo como único sujeito da história.
Todavia, este modelo não se ajusta à ação coletiva contemporânea. Os marxistas centraram suas análises no modo de produção capitalista e em sua transformação. Com isso, radicaram o conflito na estrutura social e, em particular, na estrutura econômica. Contrariando o argumento marxista, Melucci informa que, mesmo no capitalismo industrial, os movimentos sociais não eram uma resposta à crise do sistema ou uma reação à exploração econômica. O que existia era um confronto em torno da lógica de produção industrial. E a crise era, de fato, um sinal de desagregamento do sistema, de disfunção nos mecanismos de adaptação. Desequilíbrio, paralisia ou bloqueio dos subsistemas.
O autor diverge dos estudiosos do collective behavior, para os quais o agir coletivo é produto das crenças e das representações dos atores. Para estes, os atores respondem a certas disfunções do sistema social. Por meio de suas crenças, objetivos e valores comuns, produzem uma representação coletiva na qual se reconhecem. Para aceitar a explicação fundada na “condição comum” dos atores, Melucci (1991) nota que é preciso confiar cegamente na
capacidade dos atores de perceber, avaliar e decidir o que os “congrega”. Desse pressuposto, deve-se ignorar os processos que permitem ou impedem estes atores de definirem a situação que lhes agrupa num campo de ação comum. Esta explicação oculta ou talvez desconsidera a motivação dos atores, as diferenças individuais como parte desta escolha de que cada ator lança mão para reconhecer-se no outro e querer tornar-se parte de um “nós”.
Ao postular uma atualização na análise da ação coletiva, Melucci sustenta que a condição juvenil é crucial para a compreensão da estrutura social contemporânea. E o conflito é um elemento central na relação que os novos atores estabelecem com a sociedade. Primeiro, porque a sociedade não é mais a tradução monolítica de um poder dominante e de regras culturais que orientam a vida das pessoas. Ela se assemelha mais a um campo interdependente, continuamente constituído por conflitos e por significados culturais opostos. Segundo, porque os jovens são atores não porque criam um campo de conflito, mas porque os conflitos sociais aportam elementos conjunturais à sua condição, exigindo sua presença no campo. O que explica a centralidade da condição juvenil, o que transforma o dado (grupos etários) num fenômeno são, portanto, as contradições do próprio sistema social.
A passagem da sociedade industrial para a sociedade de risco não ocorreu sem reflexos no ordenamento social. No conflito fundamental que caracteriza este novo modelo estão radicadas contradições políticas, culturais, ideológicas e econômicas que ele mesmo produz. Desinstitucionalização, desenraizamento, pressão para a individualização, centralidade no presente, recusa da palavra, conformismo, instabilidade são marcas da condição juvenil que não podem ser naturalizadas ou reduzidas a processos identitários individuais. De acordo com Melucci (1997), os conflitos não são uma dimensão originária da sociedade, mas podem ser explicados em termos de relações sociais porque se desenvolvem nas áreas do sistema mais expostas aos investimentos simbólicos e informacionais. É na atuação frente às contradições políticas, ideológicas e culturais do sistema que determinados grupos sociais tornam-se atores.
Isto quer dizer que o sistema não intervém sobre as formas de pertencimento de um indivíduo, mas sobre suas singularidades, sobre sua capacidade simbólica individual, exigindo que cada um defina o sentido de sua própria ação. Com isto, os processos sociais deixam de ser resultado das forças naturais, das leis necessárias da história ou ainda, produto das representações dos atores. São produto de ações, de escolhas e decisões.
E os sistemas contemporâneos não podem ser tomados como um produto da lógica dominante, mas como um campo no qual encontram-se interesses, grupos e forças sociais. Sua capacidade de gerar conflitos antagônicos reside nos requisitos contraditórios de sua
própria ação: de um lado, oferece os recursos simbólicos para a individualização, autonomização e auto-realização dos atores e de outro, para garantir sua própria integração, controla os níveis simbólicos da ação exigindo que estes funcionem como terminais de identificação do sistema.
Para compreender o funcionamento destes mecanismos, Melucci (2001a) propõe uma análise do sistema de welfare que não se restrinja às suas formas de poder, de regulação e de legitimação, mas que envolva as necessidades e direitos sociais que se inscrevem cada vez mais no âmbito dos produtos culturais. Somente este modo de encarar o sistema de welfare pode explicitar os processos de discriminação e de exclusão62, as lógicas de compensação e de substituição que o capitalismo utiliza para controlar as tensões e o potencial do conflito. Essa complexa e diferenciada distribuição dos ônus e serviços aos diversos grupos e categorias sociais exprime a capacidade do sistema de gerenciar sua própria crise.
Ao dizer que os movimentos sociais indicam uma profunda transformação na lógica e nos processos que orientam as sociedades complexas, Melucci está convencido de que a variabilidade e a multiplicidade da ação coletiva são nada menos que o modo pelo qual os atores respondem à variabilidade da condição social de seu grupo. O autor informa que as interpretações dos movimentos emergentes nas sociedades complexas têm sido reduzidas aos efeitos da crise econômica (interpretação na qual são encerrados os movimentos juvenis, movimentos de mulheres, a relação entre desocupação e guetos urbanos) ou são considerados movimentos de contestação de grupos sociais excluídos da representação política. Estas
62 Martins (2002) questiona o uso recorrente do conceito de exclusão para referir-se aos sujeitos que sofrem as
novas formas de marginalização sócio-econômica. A exclusão é, para o autor, o sintoma de uma transformação social que faz de todos nós seres descartáveis, reduzidos à condição de coisa. O trabalhador residual está incluído nos setores secundários e irrelevantes da produção. É capturado como consumidor, ainda que marginal. Suas necessidades, mesmo limitadas pela sua capacidade de trabalho residual, são necessidades que o integram na sociedade do consumo. Ao distribuir os recursos simbólicos de individualização, o sistema distribui também numerosos modelos simbólicos por meio dos quais captura e controla os indivíduos. Os signos de consumo constituem um destes modelos por onde passa a negação da exclusão. É assim que “o pobre” do capitalismo industrial foi substituído pelo pobre aparente e disfarçado numa plena e impotente integração social simbólica. Todavia, este mesmo trabalhador está excluído das possibilidades de participação social: não pode fazer greve, não pode recusar o trabalho e, por isso mesmo, não pode participar da produção e da reprodução de novas relações sociais. Paradoxalmente, a “[…] sociedade que exclui é a mesma sociedade que inclui e integra, que cria formas desumanas de participação, na medida em que faz delas condição de privilégios e não de direitos” (MARTINS, 2002, p. 11). Quando elabora sua crítica ao conceito de exclusão, Martins quer enfatizar a imprecisão de conceitos que hoje são profusamente utilizados para designar ou para explicar os problemas enfrentados pela sociedade contemporânea. A categoria excluído, subtraída do conceito de exclusão, tem sido utilizada para explicar as novas relações sociais e os novos personagens que aparecem no cenário social nas últimas décadas. É justamente aí que está o equívoco interpretativo dos fenômenos sociais observado por Martins (2002) e Melucci (1991): a categoria excluído não é verificável na prática sociológica, como a categoria trabalhador assalariado. Para Martins, há um desencontro entre o modo como “as vítimas da adversidade” se situam e o modo como são situadas por nós, acadêmicos e militantes. Nossa busca investigativa deve pressupor que a vítima tem consciência do seu problema e que esta sua consciência pode ou não coincidir com aquilo que pensa o sociólogo.
interpretações de tipo funcionalista reduzem a marginalidade sofrida por estes grupos a uma forma de exclusão ou reação aos desequilíbrios sociais e impedem observar que
Nas sociedades com alta densidade de informação, a produção não diz respeito somente aos recursos econômicos, mas investe em relações sociais, símbolos, identidade, necessidades individuais. O controle sobre a produção não coincide com a propriedade por parte de um grupo social reconhecível, mas se move, ao contrário, rumo aos grandes aparatos de decisão técnica e política. O desenvolvimento dos sistemas complexos não é garantido pelo simples controle sobre a força de trabalho e pela transformação de recursos naturais. É necessária uma intervenção crescente sobre processos relacionais e sobre sistemas simbólicos (MELUCCI, 2001, p. 79-80).
Numa sociedade em que produzir significa controlar complexos sistemas de informações, de símbolos e de relações sociais, os atores não são reconhecidos na unicidade de uma categoria, mas por seus múltiplos pertencimentos sociais e sistemas de regras pelos quais constroem suas identidades. Ocorre que a identidade, que antes era construída numa esfera coletiva, hoje é definida e orientada por meio da ação individual que, por sua vez, é regulada por processos capilares, diferenciados e pontuais de difusão dos modelos simbólicos. É neste campo que se movem os conflitos e onde emergem os atores. Agora, o conflito não atinge somente o processo produtivo, mas também o tempo, o espaço, as relações e os indivíduos. Estes devem, continuamente, lutar pela apropriação do sentido de sua ação contra os aparatos de controle e manipulação da identidade interpostos pelo sistema.
A estrutura tradicional das desigualdades é apenas um dos componentes nesta nova ordem que se fundamenta na produção e distribuição desigual dos recursos para individualização. A exclusão não se restringe aos recursos materiais, mas estende-se aos recursos típicos de uma sociedade baseada na informação, aqueles que permitem a cada um desenvolver sua capacidade de ser sujeito autônomo de sua própria ação. Em resposta aos des- ordenamentos sociais, os novos movimentos caracterizam-se por deslocar o conflito da arena econômica para o nível simbólico.
Para Dubet (1993), estes movimentos se esforçam por dizer que seus conflitos
[...] ne concernent plus directemente les problèmes de la production et de l’économie, ils se situent dans le champ de la culture, de la sociabilité, de la ville, des valeurs, et paraissent bousculer les formes classiques de gestion du conflit social et de la représentation politique, ils mettent aussi em scène de nouveaux acteurs comme «les minorités», les femmes, les jeunes, les classes moyennes fortement scolarisées63 (DUBET, 1993, p. 61, grifos do autor).
63 “[…] não emergem diretamente dos problemas da produção e da economia, mas se situam no campo da
Insiste o autor que a novidade trazida pelos novos movimentos sociais está menos na natureza do conflito e das relações sociais em jogo e mais nos processos de mobilização adotados. Estes novos atores
[...] opposeraient une expérience subjective et expressive aux logiques instrumentales du «sisteme», des organisations et de des intérêts. Tout se passe comme si, rationalisation et loi du marche aindant, les acteurs sociaux se constituaient su une sphère subjective et «morale», «vécue», «contre» les contraintes des organisations et de l’action instrumentale. [...] Les nouveaux mouvements, impuissants à lier fortement des identités attribuées et des intérêts communs, s’efforcet plutôt de construire des expériences, de mettre en jeu une expressivité «flottante», ce qui n’interdit nullement d’em souligner des aspects plus intrumentaux64(DUBET, 1993, p. 69).
O que distingue a constituição dos novos atores é que os conflitos nos quais se inserem parecem expressar muito enfaticamente o retorno da clássica oposição entre o instrumentalismo e a expressividade no tocante à ação coletiva. Contudo, assevera Dubet (1993), não é a mesma forma de oposição dual funcionalista. Há uma oposição dissociativa entre o ator e o sistema. Os novos movimentos sociais opõem sua experiência subjetiva e expressiva às lógicas instrumentais do sistema. Por meio de uma singular ação coletiva, reapropriam-se dos signos culturais oferecidos e subtraídos pelo sistema, reivindicam o direito de ser eles mesmos e constroem sua identidade dentro-fora do circuito controlado pelo sistema.
Melucci (1991) declara que estes movimentos sociais são “profetas do presente” e se alguns destes novos atores ainda usam velhas linguagens é porque ainda não têm uma linguagem própria, mas agem sob circunstâncias que os diferem sensivelmente dos movimentos que os precederam. A começar, se os conflitos emergentes tolhem as heterogeneidades e a escassa negociabilidade das lutas, os grupos sociais se mobilizam também em torno de objetivos pouco negociáveis e irredutíveis à mediação política. Às causas que podem ser demarcadas por campos rígidos, respondem com a inflexibilidade de suas pautas reivindicativas.
A pouca focalização sobre o sistema político e o interesse limitado pela tomada do gestão do conflito social e da representação política, eles colocam em cena novos atores como as ‘minorias’, as mulheres, os jovens, as classes médias fortemente escolarizadas” (DUBET, 1993, p. 61, grifos do autor, tradução nossa).
64 “[…] oporiam uma experiência subjetiva e expressiva às lógicas instrumentais do “sistema”, das organizações
com seus interesses. Tudo se passa como se, em meio à racionalização e as leis do mercado, os atores se constituíssem sob uma esfera subjetiva e “moral”, “vivida” contra os contraintes da organização e da ação instrumental. […] Os novos movimentos sociais impulsionam a relacionar fortemente identidades atribuídas a interesses comuns, se esforçam mais por construir experiências, por colocar em evidência uma expressividade “flutuante”, o que não impede, todavia, de sublinhar nesta expressividade seus aspectos mais instrumentais”
poder evidencia que estes atores coletivos querem controlar suas próprias condições de existência e querem um espaço independente do sistema. Por essa razão, buscam a participação direta, rejeitando a representação, a identificação globalizante e institucionalizada dos sindicatos e partidos políticos65. Contra uma tendência do sistema em privatizar o coletivo e publicizar o individual, os atores respondem com a confluência do público e do privado. No momento em que nossas questões mais íntimas e profundas são subtraídas e submetidas às regras e ritos do agir social – são invadidas pela intervenção da mídia, por exemplo –, os novos atores as transformam em lugares de mobilização, de resistência e de formação do conflito.
É neste quadro que aparecem três características importantes para a sacralidade do grupo, da vida cotidiana. A primeira é o que Melucci (2001a) denomina “utopia regressiva de conteúdo direta ou indiretamente religioso”, a segunda é o “lugar atribuído à natureza” e a terceira é a “crescente referência ao papel do indivíduo”. Estes três aspectos – a busca de uma transcendência da ordem do social; o apelo à natureza como uma definição cultural e um modo de resistência ao controle e à racionalização; o papel exercido pelo indivíduo na representação cultural das necessidades – associados aos conteúdos cada vez mais abrangentes da ação coletiva, complementam o quadro descritivo de movimentos sociais que, com sua existência, testemunham
[…] uma mudança profunda no estatuto do indivíduo e dos seus problemas.
(DUBET, 1993, p. 69, grifos do autor, tradução nossa).
65 Para Melucci (2001a), ao recusar o modelo de ação coletiva pautado nas lutas do movimento operário, os
novos movimentos sociais não querem exprimir franca oposição a esta forma de luta social. O que pretendem com sua recusa é distinguir e demarcar os conflitos tradicionais, que se resolvem pela tomada de decisões e de representações na esfera política, e os conflitos emergentes, que necessitam ser tratados abertamente para tornar visível a lógica oculta do sistema que os criou. Um exemplo do que Melucci chama de conflitos emergentes aparece nas pesquisas realizadas em 1988 e 1989, com atores sociais do movimento das enfermeiras e movimento gay francês, comentadas por Dubet (1993). O autor assinala as modificações que estão ocorrendo nas formas de mobilização e destaca como o instrumentalismo e a expressividade estão no cerne destas novas formas de mobilização. No primeiro estudo, fica evidente uma crise no sistema de representação sindical, pois há uma recusa da identidade imposta e um distanciamento das bases na relação com seus dirigentes. Evidencia-se a busca por construir individualmente sua própria identidade, ao mesmo tempo em que estes grupos requerem, em algumas situações, a ação reguladora do Estado. Mas o que fica retratado neste movimento é que os temas da dignidade, da relevância social e do engajamento pessoal aparecem “na ordem do dia” (HASSENTEUFEL; IMBERT ET KERGOAT, s.d. apud DUBET, 1993). A trajetória do movimento gay na França é ainda mais emblemática, inclusive por sua similaridade com a trajetória do movimento gay no Brasil. Após o período de sua fundação (1968-1971), o movimento se despolitiza, ou melhor dizendo, a política perde sua centralidade na ação coletiva. É a reivindicação do direito à diferença que se instala. Entretanto, uma análise do seu interior mostra que o movimento busca definir sua capacidade de romper com a clandestinidade e construir uma sociabilidade reivindicativa. Ao transformar a imagem de sua própria identidade, o movimento cria uma “legitimidade doméstica”, mudando radicalmente as representações culturais da homossexualidade. Ao constituir outras definições de normalidade e patologia, o movimento gay supera o direito à diferença, afirma um modo de vida e se torna um ator cultural (QUEIROZ, s.d. apud DUBET, 1993).
Com a sua ação, eles afirmam que é necessário o individual sem perder nada da sua especificidade; e que é necessário, portanto, atribuir aos problemas do quotidiano, às relações afetivas, às motivações profundas do agir individual o lugar que lhes pertence em uma sociedade programada: de serem terreno sobre os quais emergem conflitos sociais fundamentais (MELUCCI, 2001a, p. 86).
Os movimentos sociais que emergem deste cenário são, para Melucci, resultantes da mobilização de atores coletivos que se definem por uma específica solidariedade e lutam contra um adversário pela apropriação e controle dos recursos socialmente valorizados por ambos. A ação coletiva a) se manifesta através da ruptura do limite de compatibilidade entre a própria ação e o sistema na qual se situa; b) apresenta um conflito e c) empurra o conflito para além das fronteiras do sistema de relações sociais, rompendo as regras do jogo, propondo objetivos não negociáveis e questionando a legitimidade do poder.
Isto equivale a dizer que a ação coletiva é um fenômeno que assume a mesma complexidade do sistema social. A mobilização coletiva tem uma estrutura fragmentada, reticular e policéfala. O movimento social é composto de unidades diversificadas e autônomas que dedicam parte de seus recursos a uma solidariedade interna. Mantém redes de comunicação e contato completamente distintas das formas tradicionais. As informações e os modelos de comportamento são reticulares, se entrecruzam, passam de uma unidade à outra, garantindo a homogeneidade do conjunto. O papel de liderança é circular, difuso, vinculado e