Doravante, serão expostos os principais pontos concernentes ao inventário de todos os tipos subjacentes de movimentos. Os traços prosódicos pressupõem um mudança durante a produção de lexemas nucleares, já que eles são executados sequencialmente no tempo. De acordo com Brentari (1998, p. 129, tradução nossa), “todos os sinais monomórficos bem- formados têm algum tipo de movimento”.65 As diversas definições para o termo ‘movimento’ têm causado algumas “discórdias” teóricas entre os pesquisadores da área de língua de sinais. Abaixo, serão apresentadas, segundo Brentari (1998), algumas visões de como o parâmetro M tem sido visualizado:
Visão em relação ao parâmetro M Exemplo(s)
Como um rótulo para os segmentos. Nos modelos HT, HM e moraico. Como um rótulo para qualquer aspecto dinâmico
do fluxo do sinal.
Movimentos transicionais e movimentos internos da palavra.
Como um rótulo somente para aqueles aspectos dinâmicos dos sinais que estão dentro da palavra.
Mudança da CM, mudança na Or, movimento com trajetória, mudança do setting, e movimento vibrante.
Quadro 25 – Diferentes visões em relação ao parâmetro M.
O MP, por sua vez, adotará as seguintes definições:
a. Movimentos com trajetória: são articuladas pelas juntas do(s) cotovelo(s) ou do(s) ombro(s), resultando numa mudança discreta do local de articulação no espaço do sinal no corpo ou no espaço externo em frente ao sinalizante. Ex.:
LOOK (olhar);
b. Traços de Trajetória: são dominados pelo nó trajetória na ramificação dos TP, especificando a forma ou a direção de um movimento ou num pivô do braço. Ex.: SORRY (sinto muito), LOOK (olhar), DAY (dia);
c. Movimentos Locais: são articulados pelas juntas dos dedos ou dos punhos, resultando numa mudança da CM ou orientação das mãos, ou um movimento vibrante. Ex.: UNDERSTAND (entender), DIE (morrer), COLOR (cor);
d. Movimentos Simples: envolvem um movimento de trajetória ou local simples. Ex.: LOOK (olhar), UNDERSTAND (entender), DIE (morrer);
e. Movimentos Complexos: envolvem duas ou mais trajetórias coocorrentes ou movimentos locais. Ex.: POOR (pobre), BETTER (melhor), MEETING (reunião, encontro), OLD (velho);
f. Movimentos Lexicais: são especificações na representação subjacente para um lexema ou afixo. Ex.: todos os exemplos citados anteriormente – (a)-(e);
g. Movimentos Transicionais: são movimentos epentéticos ao nível do sintagma. Ex.: entre MOTHER (mãe) e GIVE (dar).
A estrutura dos TP encontra-se abaixo ilustrada:
Quadro 26 – A estrutura dos traços prosódicos (TP).
Fonte: BRENTARI, 1998, p. 130 (tradução nossa).
Existem teóricos que seguem uma vertente que acreditam que a ASL não possui traços de movimento, considerando-se que todos os movimentos são resultados da interpolação entre os pontos de estagnação (STACK (1988), UYECHI (1995)). Nessa vertente, os “movimentos” são vistos como afixos múltiplos que se modificam devido à mudança na orientação e na locação.
No MP, a visão é completamente distinta. De acordo com Brentari (1998), a gramática da ASL requer os traços de direção. Em relação à ação de juntas específicas, os movimentos da ASL incidem em duas classes de movimentos simples. Certos movimentos podem ser especificados no nó dos TP como formas abstratas, as quais podem ser realizadas pelos ombros, cotovelos ou punhos. Outros movimentos são invariavelmente executados pelas mesmas juntas especificadas pelos traços de input. Um último tipo de movimento pode ser ampliado ou reduzido pelo espraiamento de uma junta contígua. Alguns sinais possuem tanto o formato prosódico abstrato quanto uma mudança na CM específica (p. ex. TAKE (pegar, tomar), THROW (arremessar)) ou dois movimentos em juntas particulares (p. ex. CAN’T-DO-
IT (não-posso-fazer-isso)). Esses são os exemplos de sinais com movimentos complexos
(BRENTARI, 1998).
Arqueado, retilíneo e circular são as três formas abstratas que podem ser definidas no nó dos traços prosódicos.
Os movimentos retilíneos são os únicos que ocorrem em todos os componentes do léxico. Esses movimentos são os que mais possuem subtipos e são encaixados como movimentos epentéticos quando as restrições requerem epêntese. Nem todos os movimentos retilíneos necessitam ser definidos subjacentemente no nó de traços prosódicos. Um traço [direção] no nó trajetória somente pode ser executado como um movimento retilíneo, logo, nestes casos, o traço [retilíneo] no nó TI é redundante (BRENTARI, 1998).
Os movimentos arqueados ocorrem como formas abstratas primariamente nas formas classificadoras e nos afixos. Entretanto, algumas formas nucleares são definidas para tais movimentos. Os movimentos circulares e retilíneos ocorrem com maior frequência como formas abstratas nos lexemas nucleares.
Somente as formas abstratas – arqueado, circular e retilíneo – são representadas unicamente no nó TI. Os outros traços de movimento ([alternado], [direção], [traçado], e [repetido]) podem aparecer em qualquer local da estrutura.
Com base na Teoria do “Enhacement” Fonético (STEVENS e KEYSER, 1989; STEVENS, KEYSE e KAWASAKI, 1986), que tem sido proposta para as línguas faladas, o MP adota uma forma de representação do sinal que pode explicar a variabilidade fonética. De acordo com essa teoria, os traços – [soante], [contínuo] e [coronal] – são primários. Os traços secundários – [vozeado], [estridente] e [ nasal] podem “aprimorar” os primeiros traços de maneira específica. Brentari (1998) destaca que o que a tem motivado a utilizar a teoria em questão no MP diz respeito à saliência perceptiva dos movimentos da ASL que podem ser similarmente enfraquecidos ou fortalecidos.
Uma primeira hipótese considera que:
[...] os nós de classe prosódica estão distribuídos de acordo com a adjacência fisiológica, posicionando os ombros num final de uma série de possíveis juntas utilizadas para articular um movimento e as juntas dos dedos num outro final (BRENTARI, 1998, p. 133, tradução nossa).66
Então, a ramificação dos nós de classe dos traços prosódicos do mais distal para o mais proximal contemplaria:
abertura Δ < orientação Δ < trajetória < setting Δ
Brentari (1998) afirma ainda que as operações de redução fonética (phonetic
reduction) e de aumento fonético (phonetic enhancement) são denominadas, respectivamente,
distalização (distalization) e proximalização (proximalization). Os movimentos migram por causa de fatores fisiológicos, considerações de natureza social ou interação entre sinalizantes e receptores. A sinalização de pessoas que são acometidas da Doença de Parkinson é, geralmente, caracterizada por movimentos distalizados (BRENTARI; POIZNER, 1994), e tem-se constatado que os movimentos dos sinais de crianças mais jovens são, frequentemente, proximalizados (CONLIN et al., 1998).
Os traços de trajetória devem estar articuladamente alinhados em relação a um plano de articulação; eles são representados no nó trajetória da ramificação traços prosódicos. Todos os traços de trajetória especificam um movimento ou dentro do plano de articulação ou a um ângulo de 90º do plano de articulação. Os traços de trajetória (Fig. 73) podem ser:
a. [direção]: uma trajetória retilínea fonologicamente especificada executada com um angulo de 90º para (registrado [>|]) ou de (registrado [|>]) um determinado plano de articulação, ou de um determinado ponto ou para um determinado ponto (p. ex. “GIVE” (dar), “SUBSCRIBE” (assinar, inscrever(-se));
b. [traçado]: uma linha com o formato arqueada, retilínea ou circular articulada em relação a um ponto único dentro de um plano (p. ex. “RAINBOW” (arco-íris), “BLACK” (negro), e “SORRY” (desculpa), respectivamente);
c. [pivô]: um movimento no qual o cotovelo está fixado (p. ex. “DAY” (dia), “MORNING” (manhã));
66 Texto de partida: “[…] the prosodic class nodes are arranged according to phisiological adjacency, placing
shoulders at one end of a range of possibles joints used to articulate a movement and finger joints at the other end.”
d. [repetido]: um movimento retilíneo que é repetido em uma ou várias direções. Esse tipo de traço também pode ocorrer em sinais que descrevam trajetórias angulares de 90º ou 180º (ou seja, nos sinais bidirecionais);
e. [alternado] (apenas os sinais de 2-mãos): um movimento realizado pelas duas mãos, no qual há uma defasagem de 180º, já que os articuladores movem-se alternadamente.
Figura 73 – Superfície de realização dos traços de trajetória.
Os traços de trajetória também são requeridos para a representação da distribuição do [contato]. Na ASL, os sinais de “NAME” (nome) e “CALL” (chamar) contém um traço de trajetória subjacente. Em relação ao relacionamento entre os traços de trajetória e o [contato], Brentari (1998, p. 141) afirma que:
a. Os sinais cuja representação contenham um traço de [direção] entram em [contato] ou no início do movimento com trajetória (numa [direção: |>] para um ponto) ou no final do movimento com trajetória (numa [direção: >|] para um ponto);
b. Os sinais cuja representação contenham um traço de [traçado] mantêm o [contato] durante a realização do movimento com trajetória.
O Princípio da Direção-da-Transferência (Direction-of-Transfer Principle) diz respeito à direção expressada pelo movimento com trajetória e/ou à direção expressada pela orientação. Em relação à direção expressada pelo movimento, quando o sinal expressa a transferência de um tema para longe do sujeito, a trajetória move-se do lócus espacial associado ao sinalizante (no caso padrão) ou do lócus espacial do sujeito declaradamente marcado. Quando o sinal expressa a transferência de um tema em direção ao sujeito, a trajetória move-se em direção ao lócus espacial associado ao sujeito (no caso padrão) ou em direção ao lócus espacial do sujeito declaradamente marcado. Em relação à direção expressada pela orientação, quando a orientação for relevante para expressar a transferência de um tema, o dorso da mão é orientada a favor do sinalizante (no caso padrão) ou em direção ao lócus do sujeito declaradamente marcado.
“A mudança do setting [setting change] é o movimento entre dois valores num plano ao qual o articulador pode se mover” (BRENTARI, 1998, p. 151, tradução nossa).67 Os traços relativos ao setting são realizados como movimentos articulados pelo ombro, no caso padrão. Dentro de um determinado plano, uma forma de especificar um movimento é a partir da “identificação” de dois pontos de referencia. Cada tipo de plano (x, y e z, conforme anteriormente explicitado) possui duas possibilidade de ajuste para os traços do setting.
As mudanças de orientação são os movimentos que são articulados pela junta do pulso. Diferentemente das juntas dos dedos, que só executam dois tipos de movimento (flexão x extensão), a junta do pulso pode executar fisicamente três tipos de movimento:
I. Rotação – movimentação da mão de uma posição de pronação para supinação ou vice-versa;
II. flexão ou extensão;
III. adução ou abdução, ou movimento lado-a-lado.
Se durante a execução do sinal houver abertura ou fechamento dos dedos, o respectivo traço ([aberto] ou [fechado]) deve ser notado no ramo abertura dos TP.
Alguns sinais possuem “movimentos vibrantes” (TM – trilled movements). Os TM podem ser produzidos em variados sítios articulatórios: na boca, nos locais que fazem parte do parâmetro CM (como a mão e o punho), e nos locais que fazem parte dos parâmetros L ou M do sinal.
67 Texto de partida: “A setting change is the movement between two values in a plane in which the articulator