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Nous avons produit un monde complexe

Dans le document Frank Bournois Thierry Chavel (Page 197-200)

Com o intuito de se tentar sistematizar um protocolo de avaliação fonológica adequado à língua brasileira de sinais, elaboramos esse instrumento de avaliação fonológica – FONOLIBRAS –, à luz dos pressupostos teóricos do Modelo Prosódico aplicado à língua de sinais. Os outros pressupostos teóricos previamente explanados, bem como as pesquisas concernentes à fonologia dos sinais, também serviram de norte para a confecção desse instrumento.

Parece-nos que os primeiros questionamentos que tenderíamos a pensar seriam: o que avaliar? E, por que avaliar? Contudo, essas questões poderiam se desdobrar em outras: para que avaliar? E, como avaliar? Todos esses questionamentos fazem parte da rotina da clínica fonoaudiológica, porquanto não é possível tomar a linguagem como objeto de avaliação sem refletir sobre a mesma. A avaliação da linguagem não é relevante apenas aos fonoaudiólogos ou terapeutas da fala, que são os profissionais que tratam da linguagem clinicamente, mas também os linguistas necessitam avaliar a linguagem com o objetivo de observar, analisar, interpretar e propor modelos teóricos a partir dos fenômenos linguísticos examinados.

A avaliação é um dos maiores instrumentos dos terapeutas da fala e linguagem, e, como tal, se usada apropriadamente, pode facilitar muito o trabalho a ser executado. Uma boa avaliação leva a um diagnóstico preciso,

à identificação da etiologia e proporciona as bases para uma intervenção eficaz (BOLLI-MOTA, 2001, p. 17).

Considerando-se que “uma boa avaliação leva a um diagnóstico preciso”, os indivíduos surdos que possuam “desvios” na aquisição da língua de sinais podem não estar sendo avaliados em profundidade, já que, inevitavelmente, há carência de testes padronizados para a avaliação da Libras, em todos os níveis linguísticos.

Pensar em avaliação da língua de sinais é imperativo. Considerando-se que ainda são insipientes instrumentos de avaliação sistematizados para esse propósito, os fonoaudiólogos71 e linguistas clínicos ainda não podem contar com instrumental para avaliar a Libras, sobretudo no que diz respeito ao aspecto fonológico. Conforme pontuamos no Capítulo 1, no ano de 2011, Quadros e Cruz (2011, p. 45) propõem o IALS (Instrumento de Avaliação da Língua de Sinais), que visa “verificar o nível de desenvolvimento linguístico, acompanhar o processo de aquisição da linguagem e estabelecer medidas de intervenção ou estimulação linguística”. Evidentemente, o Instrumento proposto por Quadros e Cruz (2011) não teve como objetivo principal avaliar a fonologia da Libras em profundidade, visto que o foco principal da obra é a avaliação da linguagem compreensiva e expressiva. Essas autoras pontuam, a este respeito, que: “Não há instrumentos de avaliação especialmente produzidos para avaliar a linguagem na Língua Brasileira de Sinais – Libras” (QUADROS; CRUZ, 2011, p. 13).

Ao discutirem a questão da avaliação da linguagem em crianças surdas, Quadros e Cruz (2001) expõem que existem diferentes formas de avaliar a linguagem. O profissional que se adjudica dessa tarefa pode optar por uma avaliação formal, ou informal ou ainda utilizar ambas. A avaliação informal visa observar o comportamento linguístico da criança durante atividades de interação (jogos, brincadeiras, conversas com diferentes interlocutores – com ele próprio, com os pais, com familiares ou outros surdos). Já a avaliação formal tem como objetivo a observação do comportamento linguísticos a partir das respostas obtidas por intermédio da aplicação de instrumentos de avaliação padronizados.

Uma das grandes vantagens da utilização de instrumentos padronizados é que os dados podem ser obtidos em diferentes momentos, a fim de que o processo de aquisição e desenvolvimento linguístico possa ser observado e comparado em diferentes períodos. Na

                                                                                                               

71 É pertinente pontuar aqui que o instrumental proposto pode ser de grande valia aos fonoaudiólogos que

seguem uma abordagem bilíngue no trabalho com sujeitos surdos. Para os fonoaudiológos que seguem a vertente oralista, esse instrumento de avaliação pode não ser útil, e, por essa razão, seria pertinente que esses profissionais consultassem outros instrumentos cujo enfoque de avaliação é a linguagem oral.

clínica fonoaudiológica, é muito corriqueira a utilização de instrumentos padronizados, já que eles fornecem o mesmo padrão de coleta e análise dos dados, o que facilita a comparação dos mesmos e a observação da evolução linguística.

Partindo-se da questão primordial – “o que avaliar?” –, Acosta et al. (2003, p. 20) afirmam que, para se responder a essa pergunta, é necessário saber nitidamente “quais são as bases anatômicas e funcionais, as dimensões e os processos de linguagem”. Esses pontos serão dispostos no quadro a seguir, conforme pontuam os autores citados.

Conteúdos do plano de avaliação

Bases anatômicas e funcionais

a. AUDIÇÃO b. FONAÇÃO

Respiração: tipo, ritmo, tempo e apneia

Motricidade bucofonatória

Voz: tom, timbre e intensidade

Dimensões da linguagem

a. FORMA DA LINGUAGEM

Fonologia: Implica uma avaliação da compreensão e produção do sistema

fonológico da criança, tanto em nível segmentar quanto não-segmentar.

Morfologia e sintaxe: A avaliação está voltada à análise de como a criança

constrói as palavras por meio da combinação de unidades e ao estudo das estruturas das frases e da relação entre seus componentes.

b. CONTEÚDO DA LINGUAGEM

Semântica: Estudo pormenorizado do significado léxico e número de

palavras que a criança entende e utiliza. Estuda-se o significado referencial, as categorias semânticas, as relações de significado entre as palavras (similaridade, oposição, reciprocidade, inclusão) e a linguagem figurativa. c. USO DA LINGUAGEM

Pragmática: Estudo das funções comunicativas, da dêixis e do discurso (habilidades conversacionais, compromisso conversacional, fluência, etc.).

Processos de linguagem

a. COMPREENSÃO

Há uma tendência maior em analisar o que a criança diz do que aquilo que é capaz de compreender. Realizada de forma individual, deve-se perceber o que a criança compreende a partir de estímulos concretos, que não tenham sinais adicionais (gestos indicativos, mimica, etc.).

b. PRODUÇÃO

Procura-se conhecer a linguagem que a criança produz ou a que ela é capaz de produzir, se for ajudada a fazê-lo.

Desenvolvimento cognitivo

Considerando-se a estreita relação entre linguagem e desenvolvimento cognitivo, a obtenção de dados relativos ao desenvolvimento da inteligência poderão ajudar a explicar distintos ritmos na aquisição da linguagem.72

Quadro 28 – O que avaliar?

Fonte: ACOSTA et al. (2003, p. 20-22).

Diante do quadro apresentado acima (Quadro 28), pode-se notar que a reflexão acerca de “o que avaliar” conduz ao “como”, “por que” e “para que” fazer avaliação. Quanto aos procedimentos e estratégias de avaliação, Acosta et al. (2003) consideram os seguintes grupos: (a) testes padronizados; (b) escalas de desenvolvimento; (c) observação do                                                                                                                

72 Para essa assertiva, esses autores se baseiam nos trabalhos de Bloom (1974), Brown (1973), Bowerman

comportamento; e, (d) testes não padronizados. Os testes padronizados buscam apresentar de maneira mais detalhada possível uma análise global da linguagem nos seus diferentes aspectos, propiciando um nível quantificado, isto é, “uma idade de linguagem”. As escalas do desenvolvimento buscam examinar a linguagem da criança sob um ponto de vista maturativo, oferecendo um perfil que será utilizado para comparação ao longo do período de reeducação. A técnica de observação do comportamento visa estudar a linguagem em situações naturais de forma não estruturada, i. e., “o examinador terá de observar e registrar o comportamento verbal da criança” (ACOSTA et. al., 2003, p. 24). Já os testes não-padronizados, que vem sendo utilizado cada vez mais pelos profissionais que atuam no campo das alterações da linguagem (sic ACOSTA et al., 2003), utilizam-se das seguintes estratégias:

1. Coleta, transcrição e análise de uma amostra da linguagem: a. Coleta da amostra e normas para a interação:

“a produção verbal espontânea é a estratégia ou procedimento de avaliação que nos oferece uma descrição mais exata do nível real do desenvolvimento linguístico da criança” (ACOSTA et al., 2003, p 24). As produções costumam ser registradas em vídeo ou fita cassete. A idade da criança deve ser considerada, e, além disso, a situação de interação deve ser a mais atraente possível para a criança.

b. Transcrição e análise da amostra de linguagem:

Tanto as produções (verbais e não-verbais) da criança quanto do examinador devem ser transcritas ortograficamente ou literalmente, bem como o contexto em que são produzidas essas interações. “A análise concreta dependerá das dimensões de linguagem que mais nos interessem e das exigências do nosso contexto de trabalho” (ACOSTA et al., 2003, p 24).

2. Avaliação da compreensão (algumas das tarefas para avaliar a compreensão passam pela análise das produções gestuais ou gráficas, diante de estímulos visuais e/ou verbais):

a. Indicação do desenho pertinente à frase dada (solicita-se à criança para apontar o desenho ou ação que esteja de acordo com a ordem verbal dado pelo avaliador);

b. Execução de uma ordem verbal com material figurativo ou simbólico (avalia a capacidade de a criança demonstrar a compreensão da sintaxe complexa e da memória de curto prazo).

3. Imitação provocada73;

Busca-se obter informações acerca da capacidade de a criança processar auditivamente as frases na ausência de um contexto e determinar a capacidade de memória relativa às frases.

4. Produção provocada.

“[...] o uso de tarefas ou formatos a fim de provocar e obter aspectos específicos da linguagem da criança” (ACOSTA et al., 2003, p. 29). Essa técnica tem sido utilizada para avaliar, dentre outros aspectos, o uso de frases negativas ou interrogativas, além de determinadas locuções ou flexões verbais.

Apesar de os autores acima referenciados tratarem especificamente de avaliação da linguagem na perspectiva da oralidade, alguns dos pressupostos gerais são pertinentes quando pensamos em avaliação de uma maneira geral. No próximo tópico, reflexionaremos mais especificamente sobre o processo de avaliação fonológica no tocante à língua de sinais.

Dans le document Frank Bournois Thierry Chavel (Page 197-200)