Freud abordou principalmente o conceito de inibição e, apesar de não ter explorado o conceito de debilidade diretamente, de forma indireta tocou o tema da deficiência em alguns de seus trabalhos. Pierre Bruno (1986) assinala ter encontrado o vocábulo “denkschwache” - que corresponde à debilidade, nos trabalhos de Freud sobre inibição, sendo que a palavra mais utilizada para inibição, em alemão, é “hemmung”. Fato que nos permite aproximar o binômio: inibição e debilidade.
Para trabalhar o tema inibição em Freud destacamos alguns de seus textos: Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, de 1910; O
Estranho, de 1919, e Dostoiévski e o parricídio, de 1929. Em nossa análise,
Freud já percebia que existia uma condição natural ao ser humano que lhe causava inibição em suas funções e emite considerações sobre as obras e alguns aspectos das vidas de Leonardo da Vinci e de Dostoiévski, dois gênios da humanidade, para discorrer sobre este conceito. Achamos extremamente pertinente explorar esses textos freudianos, ressaltando o fato de realizar esta pesquisa sobre a debilidade através de considerações sobre dois gênios da humanidade. Também compartilhamos a leitura e análise do livro O Idiota, de Dostoiévski, para ilustrar alguns aspectos do conceito de debilidade. Vale ressaltar que esta obra literária foi citada por Lacan e outros psicanalistas, como veremos em seguida.
O conceito de inibição (Hemmung) em Freud surge na elaboração da Primeira Tópica;39 Freud a define como uma parada ou bloqueio de uma ação motora, ou uma interrupção na cadeia de pensamento, o que afeta o processo de aprendizagem. No texto Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua
39 Freud utilizou a terminologia tópica (derivado do latim topos) para definir o aparelho psíquico
em duas etapas essências de sua elaboração teórica. Na primeira concepção tópica ele define o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, no período que vai de 1900-1920. Na segunda tópica ele distingue o isso, o eu e o supereu, compreendida no período de 1920-1939. (Cf. Roudinesco, 1998)
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infância, encontramos uma das primeiras abordagens deste tema a partir da
análise de Freud da inibição em Leonardo da Vinci. (Cf. Freud, 1910a/1980) Em sua pesquisa sobre Leonardo da Vinci (1452-1519), Freud constata que ele era conhecido por não terminar seus trabalhos e já percebe que existe aí “uma
inibição na execução definitiva para a qual não encontramos justificativa, mesmo considerando que o artista nunca consegue realizar seu ideal”. (Ibid., p.
63).
Neste texto, Freud correlaciona a inibição à tentativa frustrada do pequeno sujeito em satisfazer sua curiosidade sobre o nascimento dos bebês, e considera esta a pergunta crucial para todo ser humano. Para o autor, na infância existe uma falta de maturidade orgânica para elaborar a resposta a essa pergunta essencial sobre os bebês e suas origens. Na falta de construção de uma resposta própria, pois mesmo sendo esclarecido por um adulto, isso não é o suficiente, a busca de satisfação da curiosidade e o desenvolvimento de sua própria teoria levam a criança a fazer novas perguntas de forma intermitente e a realizar sua própria pesquisa sobre a sexualidade. A frustração e a inibição aparecem no sujeito por não obter a resposta adequada a essa pergunta crucial: “A impressão causada por esse fracasso em sua primeira
tentativa de independência intelectual parece ser de caráter duradouro e profundamente depressivo”. (Ibid., p. 73)
Freud destaca que nem sempre a pesquisa sexual participa do destino da sexualidade, e quando não acontece pode trazer algumas consequências para o sujeito. A inibição é um dos destinos da sexualidade e, neste caso, “a
curiosidade permanecerá inibida e a liberdade da atividade intelectual poderá ficar limitada durante todo o decorrer de sua vida”. (Ibid., p. 73). Num segundo
destino, o sujeito poderia desenvolver uma compulsão, um sintoma obsessivo, que mantém uma preocupação pesquisadora com características compulsivas, de modo que, sob uma forma distorcida e não-livre o “sentimento que advém
da intelectualização e explicação das coisas substitui a satisfação sexual”.
101 inibição ou da obsessão intelectual, permite que a pulsão40 escape ao recalque e seja sublimada desde o começo.
É interessante notar que neste mesmo texto Freud afirma a necessidade de se abandonar preconceitos estabelecidos para se fazer um estudo da patologia humana, e afirma:
Não mais consideramos que a saúde e a doença, ou que os normais e os neuróticos se diferenciem tanto uns dos outros e que traços neuróticos devam necessariamente ser tomados como prova de uma inferioridade geral. (Ibid., p. 119)
Freud considera a inibição como um mecanismo psíquico que possui uma dinâmica41 própria fazendo parte de uma neurose, à qual qualquer ser humano está susceptível e nem mesmo Leonardo da Vinci escapou. Destacamos que em Freud a inibição é compreendida como natural à condição humana.
Em Inibição, sintoma e angústia, texto de 1926, Freud aprofunda a reflexão sobre a definição da inibição, articulando com os outros conceitos: sintoma e angústia. Trobas (2003) afirma que a partir deste texto a inibição adquire um valor conceitual para a psicanálise. Freud a define como uma ação do eu, realizando uma restrição a uma função, “é a expressão de uma restrição
do ego [...] a fim de evitar um conflito com o id”. (Ibid., p. 109-110) Neste texto,
Freud distinguiu, inicialmente, a inibição do sintoma, afirmando que “um
sintoma, por outro lado, realmente denota a presença de algum processo patológico”. (Ibid., p. 97) O sintoma seria uma manifestação da modificação
patológica destas mesmas funções, podendo estar ou não ligado a uma inibição.
Esta distinção entre sintoma e inibição, Freud exemplifica com o caso Hans (um caso analisado por Freud), considerando como sintoma a fobia de
40 Pulsão (trieb), termo empregado por Freud a partir de 1905, designa a carga energética que
se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente. (Cf. Roudinesco, 1998) Ao considerar a economia psíquica, este termo utilizado pela psicanálise é diferenciado do instinto e correlacionado à sexualidade. Esta é uma noção primordial da teoria freudiana, mas, como nos diz Lacan, é também a mais enigmática. (Cf. Lacan, 1960/2005)
41 Dinâmica, em psicanálise, qualifica uma perspectiva que considera os fenômenos psíquicos
resultantes de conflitos e de composição de forças que exercem certa pressão, de ordem pulsional.
102 Hans por cavalos e como inibição o seu impedimento de sair às ruas. A inibição teria, então, uma forma parcial como as estratégias para se evitar um objeto fóbico e uma inibição global que “paralisa o sujeito em sua relação com o
mundo”. (Trobas, 2003, p. 26) Trobas demarca que nessa definição Freud
delimita a inibição como sendo um processo do eu, enquanto o sintoma seria do Id, do inconsciente.
Ao associar a inibição a uma função, Freud (1926/1980) destacou algumas funções que estariam sujeitas a essa dinâmica, como: a função sexual, da nutrição, da locomoção, do trabalho, além de outras inibições específicas. Em um segundo momento, Freud aproxima a inibição de uma função ao sintoma, destacando que estão ambos os processos correlacionados à angústia. Na teoria freudiana, inibição e sintoma são processos distintos e por vezes ligados, sendo que a inibição pode representar um sintoma, mas ambos possuem a mesma função para o sujeito: apaziguar a angústia.
Trobas elucida essa teorização freudiana dizendo que ambos representam um mecanismo de defesa da angústia. O sintoma tem a função de realizar uma satisfação pulsional substituta e conveniente a fim de impedir o retorno do que foi recalcado. O sintoma obedece, assim, ao princípio do prazer na tentativa de manter a homeostase libidinal, evitando a todo custo a ruptura dessa homeostase. Do ponto de vista da dinâmica psíquica, tudo se passa na inibição como se houvesse um contra investimento:
é dizer que a nível consciente e pré-consciente se investe de libido no eu, se investe de representações que vão velar obstaculizar, construir um dique contra a pressão das representações inconscientes, precisamente as não tratadas pela repressão, não tratadas pela formação do sintoma, que ameaçam emergir no eu. (Trobas, 2003, p.26, tradução nossa)
Neste sentido, Trobas afirma que a inibição pode ser acompanhada de um sintoma ou não, e, neste caso, pode ocorrer uma forma de suplência do sintoma na inibição, principalmente nas inibições globais.
É no texto de 1919, O Inquietante (“Das Unheimliche”),42 que o tema da deficiência aparece em Freud. Freud assinala que quando nos deparamos com
42 Das Unheimliche, título do artigo de Freud em alemão. A palavra alemã Unheimliche
103 uma cena de ataque epiléptico, ou mesmo com alguma deficiência, temos a sensação de estranheza, ou inquietação por nos remeter a algo familiar. Essa estranheza se origina da proximidade que tais experiências têm com o complexo de castração, como algo recalcado e oculto que não queremos saber; ele afirma que o temor de toda a deficiência é, na verdade, o temor da castração. A deficiência mental, portanto, remete a algo que é conhecido do sujeito e lhe causa estranhamento exatamente por remeter a uma situação familiar. Mas Freud vai além, afirmando que esse fenômeno também está presente diante da visão inesperada da própria imagem refletida no espelho, de um outro que remete a si mesmo, assim como a visão do duplo. Esse “estranhamento” evoca a questão da alteridade, o que nos causa desconforto, e mesmo, angústia. Este trabalho de Freud nos auxilia a entender o processo de segregação das pessoas com deficiência, o que exploraremos no próximo capítulo, e traz pontos importantes sobre a própria questão da debilidade, que veremos mais adiante com Lacan.
Além de Leonardo da Vinci, Freud analisou algumas obras e aspectos da vida de Dostoiévski no texto de 1928, Dostoiévski e o parricídio. Este é mais um texto freudiano que permite explorar o tema da debilidade através de um outro gênio da história da humanidade. O autor russo era acometido por crises epilépticas e Freud abordou o tema da epilepsia43 e dos fenômenos de crise, além de ter feito uma análise do caráter de Dostoiévski. Freud afirmou neste texto que a epilepsia surge em alguns casos de debilidade e pode trazer lesões cerebrais, “as pessoas vítimas da epilepsia podem dar uma impressão de
obtusidade e desenvolvimento interrompido, tal como a enfermidade frequentemente acompanha a idiotia mais palpável e os mais grosseiros defeitos cerebrais...” (Freud, 1928, p. 208) Freud ressaltou que essas crises
contêm toda uma variação, em circunstâncias completamente diferentes e, portanto, não considerava toda forma de epilepsia como uma deficiência. Não significando algo que é inquietante, sinistro, secreto e oculto. A primeira tradução dos escritos de Freud realizada por Salomão a partir da tradução do inglês considerou o vocábulo “estranho”, em português; mas, em 2010, a tradução de Paulo César de Souza da obra em alemão adota o termo “inquietante”.
43 Segundo o CID 10 (OMS,) a epilepsia está categorizada como um transtorno episódico e
paroxístico G40 e 41. Trata-se de uma alteração na atividade elétrica do cérebro, temporária e reversível, que produz manifestações motoras, sensitivas, sensoriais, psíquicas ou neurovegetativas.
104 queremos nos aprofundar na questão da epilepsia, apesar de haver uma correlação histórica sobre a epilepsia a uma afecção neurológica e a deficiência mental.
O que destacamos neste texto é o fato de Freud afirmar que existem aspectos da vida psíquica do sujeito que podem desencadear uma crise epiléptica. O psicanalista distinguiu uma epilepsia orgânica de uma epilepsia ‘afetiva’ para estes casos. Se, por um lado, com esta diferenciação existia a intenção de dissociar todo tipo de epilepsia à deficiência, por outro, essa diferença estrutural entre o que seja orgânico e afetivo para caracterizar a deficiência, sustentou a celeuma que já havia sobre o conceito da deficiência mental durante séculos. De qualquer forma, neste argumento de Freud fica evidente a questão do desejo e de uma causa psíquica desencadeando uma ação orgânica, como uma crise epiléptica.
Para o psicanalista, a crise e a ausência contêm um significado de morte que pode significar tanto a morte de alguém querido quanto o desejo de morte de alguém, que viria como uma forma de punição. “A crise teria um valor de
punição”, uma autopunição contra um desejo de morte de um pai odiado, por
exemplo. (Ibid., p. 211) Freud não deixa de constatar e assinalar que as crises de Dostoiévski foram caracterizadas como as crises de grande mal após o assassinato de seu pai, a partir de seus 18 anos, pois antes, na sua infância, essas crises tinham uma característica de apenas um sono letárgico. Passaremos à teoria Lacaniana para depois explorar outras questões referentes à obra de Dostoiévski e a debilidade.