A fundação da primeira capela da povoação marca o momento de afirmação da identidade da comunidade piscatória, enunciado duplamente em relação com as suas origens, através de diferentes petições apresentadas à Diocese do Porto (segundo a origem das diferentes comunidades imigradas), e relativamente às outras populações ribeirinhas, que habitam o estuário do rio. A decisão pela veneração de São Pedro marca a autonomia da comunidade e a diferença do novo assento, já que, até então, as duas margens compartiam o culto de São João Baptista, que era propriamente o orago da freguesia da Foz. A construção da primeira capela decorre entre os anos de 1894 e de 1906, data em que surge o registo de missa. No ano seguinte, é doada uma nova imagem de São Pedro que substitui a primeira existente. Em 1908, quando a capela é dada por concluída, realiza-se a primeira festa.
A origem da nova imagem, em tamanho «quase natural» reveste-se de um interesse particular. Como relata o P.e J. de Araújo121, a doação fica a dever-se a um industrial que possuía uma fábrica de moagem na rua da Restauração e tinha arrematado o recheio de uma capela desafecta ao culto, que integrava a quinta de Vale de Amores. Dadas as relações de vizinhaça com o convento de Santo António, é bem possível que a imagem fizesse parte do património daquele convento, pois sabe-se que havia aí muitas figuras de vulto:
A cerca era pobre em rendimentos, mas muito abundante em recreios – jardins, bosques, passeios, fontes, lagos, etc.; mas o que mais sobresahia n’ella, e que muito attrahia as vistas e a attenção dos visitantes, eram as muitas figuras em vulto, que se viam em toda ella; umas collocadas em galerias, outras metidas em grutas de differentes dimensões, e algumas também isoladas, e todas representavam factos da Escriptura Sagrada; assim como os factos salientes da vida de sus Patriarchas Santo António e São Francisco, e de mutios daquelles Varões que nos primeiros seculos da Igreja auctorisaram com a palavra e com a austeridade de seus costumes, e até sellaram com o proprio sangue a Santidade do Dogma Catholico.1226
A boa qualidade da imagem abona a favor da hipótese de uma dispersão do património da instituição monástica, precipitada com o incêndio que destruiu o conjunto em 1832, provocado pelos Liberais, no decurso do Cerco do Porto, e a extinção das ordens religiosas que se seguiu brevemente.
A imagem doada substitui a primeira, ficando ao culto até 1925. Contudo, a população decide nesse ano retomar a figura inicial como figura de devoção principal, remetendo a segunda imagem para a sacristia, onde irá permanecer transmutada em São Paulo. Apenas sai nas festas, tomando nessa altura a sua verdadeira invocação. Quando da demolição da primitiva capela, em 1969, esta imagem irá servir de modelo para a estátua de São Pedro, colocada na praceta reformulada em 1969, depois da demolição da capela velha.
A demolição da primeira capela da Afurada constitui o desfecho dum longo processo de resistência da população local que, inconformada com a solução encontrada para a nova igreja, procurou por todos os meios
121. Araújo, História da Afurada, 1992 : 28-29.
evitar o encerramento ao culto da primitiva edificação religiosa, implantada junto do casario da baixa. Em 1963 dá entrada um novo projecto para a capela velha, assinado pelo autor do projecto da nova igreja (fig. 4- 1). O projecto previa a reconstrução e ampliação da construção existente, recriando a memória da antiga edificação, na definição duma implantação sobrelevada e na anteposição dum alpendre na fachada.
O projecto de reconstrução da capela velha corresponde a uma tentativa de reposição do culto na primitiva edificação sediada entre as casas da povoação. Na memória descritiva há uma breve alusão aos problemas que a recepção da obra da igreja nova levantava junto da comunidade local. Contudo, o projecto da capela não se afasta - e mesmo em certa medida retoma -, alguns dos presssupostos arquitecturais que já tinham informado a primeira obra, atribuída, pelo menos em parte, ao mesmo autor:
«Procuramos uma renovação da velha capela compatível com a sua posição geográfica, atendendo ainda a razões de ordem económica e psicológica.
Assim, mantendo as linhas gerais da construção existente, procuramos um conjunto harmónico que exprimisse numa linguagem simples, a verdade e pureza próprias de uma arquitectura autêntica, sem decorações nem simbolismos.
No exterior da capela, todo branco, salienta-se apenas os rasgos verticias de iluminação
Esperamos que a torre formada por duas paredes, uma em pedra rustica, outra rebocada a branco, possa apontar enérgicamente a presença de Deus ao homem mergulhado nas preocupações terrestres.
O acesso à capela é feito através de um largo adro exterior coberto, que nos conduz ao guarda-vento; segue-se a pequena nave com nichos laterais, iluminados indirectamente, destinados às imagens existentes.»123
No ano seguinte à apresentação do projecto, há uma deliberação camarária que autoriza obras de reparação do edifício existente. No entanto, a decisão final sobre o andamento do processo é de indeferimento, considerando a exiguidade do sítio e a proximidade da margem ribeirinha que deixa a edificação exposta às cheias do rio.
«Não parece, em princípio, de aceitar a reconstrução da Capela, no local, por demasiado acanhado e comprometido. Por outro lado, a proximidade do rio e a localização do terreno na confluência das ruas Vasco da Gama e de 27 de Fevereiro, pareceram a este Gabinete, de aconselhar uma outra solução de aproveitamento do terreno que não a do levantamento de qualquer tipo de construção.»124
Além da capela, data dos primeiros tempos de formação da povoação da Afurada a criação de duas instituições que traduzem o sentido solidário da comunidade: a creche (1893-1948)125 e a organização de um sistema de salva-vidas126, que se instala em casa própria junto do rio, a partir de 1914 (o serviço é extinto em 1962). A creche ocupa um edifício próprio, implantado nuns terrenos de monte que integravam a antiga
quinta do Aveiro, notada na planta de emprazamento de meados do século XIX.
O terreno para a creche é cedido por João Andressen, que entretanto detinha a propriedade assinalada na planta de meados do século XIX. A fundação da creche, que integrou a associação de creches da freguesia de Santa Marinha e foi inaugurada em 14 de Julho de 1893, ficou a dever-se à necessidade de dar apoio a numerosas famílias da povoação, na sequência dum trágico desastre marítimo que tirou a vida a pescadores e arrais, deixando viuvas e orfãos sem quaisquer meios de subsistência e obrigadas a entrar no mercado de trabalho. A data em que ocorreu aquele desastre ficou consagrada na toponímia local, no nome da segunda rua do bairro.
Nos primeiros tempos de formação da povoação nota-se o sentido comunitário e de solidariedade que congrega a comunidade piscatória, inclusivamente no modo como se manifestam as pessoas através da expressão escrita, por exemplo quando fazem a designação da povoação como bairro, nos requerimentos dirigidos à Autarquia, e, nos primeiros anos da República, como subscrevem os pedidos, que terminam com a fórmula Saúde e Fratenidade.