• Aucun résultat trouvé

A demanda pelo projeto do Terminal Marítimo surge quando companhias que faziam o transporte da Bélgica à Grã-Bretanha se viram ameaçadas pela a construção do túnel do Canal da Mancha. Buscava-se, segundo Koolhaas, um edifício colossal com amplo programa. O

       

282

Como lembra Vidler, estas dicotomias levaram a dualismos nos quais a função foi reduzida à integridade estrutural ou economia especial, e a “metafisica” da beleza como um enlevo spiritual ou efeito sublime. Cf. ibidem, p. 245.

283

  98  partido do OMA foi projetar uma arquitetura que se destacasse na paisagem à beira-mar e pudesse simbolizar aquelas necessidades específicas. Como reconhece Koolhaas, as primeiras decisões acerca do projeto não envolviam funcionalidade, mas “ tratava-se de um mito que teria que ser construído”284.

O projeto intitulado Working Babel parece, a principio, desenvolver-se numa dupla estratégia, onde se articulam proposta iconográfica e arquitetura operativa, analogamente ao que viu Koolhaas em Nova York. Nos estudos de juventude o arquiteto despertou para os potenciais ao mesmo tempo icônicos e “condensadores” de dois tipos arquitetônicos, a saber, a agulha e o globo. A primeira é a estrutura mais fina capaz de impactar a paisagem, o segundo é a forma que abriga o maior volume interno com a menor superfície externa. E como destacou Koolhaas, o vocabulário formal do manhattanismo é “ uma dialética entre essas duas formas, a agulha querendo se converter em globo, e o globo, tentando, vez por outra, se transformar em agulha”.285 No Terminal Zeebrudge a estratégia projetual é semelhante: seus autores optam por um corpo unitário capaz de abrigar um programa pretensioso e múltiplo, cujo resultado é a hibridização entre uma esfera, aquela com maior potencial para gerar densidade, e uma forma verticalizada, aqui um cone invertido. Outra referência a partir da qual se entende o Terminal em Zeebrudge é o projeto do auditório do Instituto Lenin, de 1927, projetado por Ivan Leonidov – um dos arquitetos russos estudado por Koolhaas em sua juventude.

O programa é organizado do seguinte modo. Os dois níveis de subsolo abrigam o tráfego de caminhões e automóveis até as embarcações. Sobre esses, tem-se uma estação de ônibus. Em seguida, dois pavimentos de estacionamento serpenteiam em uma espiral ascendente, culminando no térreo. Neste, a massa edificada é elevada com uma estrutura treliçada, de modo a abrir um grande espaço público voltado a uma vista panorâmica do mar e do campo. Acima, o cone se divide em dois segmentos verticais: à esquerda se localiza um hotel e à direita escritórios e administração. Cria-se na parte superior um vazio soba cúpula de vidro, de onde se pode avistar acima o ceu, abaixo os níveis de estacionamento. Tem-se, assim, um edifício com status de farol diante do mar. Como lembra Moneo, o projeto impactante do OMA tem a escala e a pretensão do projeto sociopolitico da cidade de Zeebrudge enquanto cruzamento de caminhos de uma Europa prospectiva, progressista, economicamente propulsora.

Vale atentar para o recurso aos espaços vazios, pois esses serão recorrentes nos projetos dotados de Bigness. Como destaca Moneo, os vazios são “espaços disponíveis”, onde a estrutura se solta da superfície externa. Aqui, estes se orientam, buscando as vistas

       

284

Entrevista Com Estudantes, p. 18.

285

  99  consideradas privilegiadas: usufruem dela os transeuntes do lobby, os quartos do hotel e a arquibancada na parte superior. Outro aspecto importante do Terminal é levantado por Alejandro Zaera. O arquiteto espanhol lembra que o edifício é pensado como um corpo atravessado por fluxos diversos, como uma “ corporeidade inarticulada e supercondutora, capaz de permitir a passagem dos fluxos”286 . O edifício explora intencionalmente essas interpenetrações, fazendo o entorno confluir para o edifício e o interior irradiar para a cidade, à medida que se torna um encontro de vias e reorganiza os percursos de pedestres, as passarelas que levam até os barcos.

Com a torre de topo abobadado, o recurso de Koolhaas à Bigness foi uma busca pelo impacto do desmesurado – próximo do mítico e do sobrenatural – , sem recorrer a valores extra-mundanos. O OMA cria um mito para a sociedade moderna, ou melhor, reinsere propriedades míticas em demandas e valores que nem de longe são transcendentais ou perenes, mas laicos e impermanentes. E aqui seu “sublime barato” funciona bem como categoria explicativa.

       

286

 100  17)Koolhaas- OMA, Terminal Marítimo em Zeebrudge (1989)

 101  18)Koolhaas- OMA, Terminal Marítimo em Zeebrudge (1989)

 102  19)Koolhaas- OMA, Terminal Marítimo em Zeebrudge (1989)

 103  A partir de agora fica mais claro em que sentido a estratégia do OMA é dupla: a vontade de fazer de Zeebrudge o importante cruzamento de caminhos europeus se desdobra em dois gestos, quais sejam, um é construir um edifício com forma agigantada e impactante na paisagem, capaz de atrair para si as atenções e os fluxos diversos, o outro é criar espaços definidores de fluxos, conectivos. Contudo, a dualidade da estratégia projetual é apenas aparente. O que une esses procedimentos é a tentativa de utilizar a arquitetura – em sua proposta iconográfica e em seus dispositivos operativos – a serviço de uma excitação em diferentes níveis: estimular a intensificação da vida urbana, mas também excitação visual obtida pela pregnância da forma e, ainda, pelo impacto do edifício na paisagem.

Não sem causa Jean François Chevrier afirma que no Terminal o OMA descobre “ uma maneira de reabilitar a arquitetura como uma arte ambiciosa, que pode ao mesmo tempo organizar uma mistura instável de atividades, aproximar uma multiplicidade heterogênea e fixar símbolos coletivos”.287Neste, lembra Chevrier, Koolhaas reencontra “o sonho moderno, corbuseano, de uma complexidade urbana internalizada”288 Com isto o Terminal Marítimo traz integradas as estratégias híbridas do OMA, aquilo que Moneo chama de “cocktail architecture”289: tentativa de gerar adensamento, experimentação espacial e, ainda, proposta iconográfica sob formas não- fragmentadas.