CHAPITRE V : CADRE ET CHOIX
V. Contexte de l’expérimentation
V.3. L’enseignement de la littérature
No próximo tópico, pretende-se apresentar como cada componente do grupo assume um diferente papel e se comporta de acordo com as atribuições que lhes são determinadas no processo.
5.3 O papel dos consumidores: o que representam?
Como já haviam salientado Sahlins (2003) e Douglas e Isherwood (2009), a antropologia do consumo entende que o ato de consumir está estreitamente relacionado a fatores culturais e sociais, e que, muitas vezes, esse ato é realizado de maneira grupal, em que os indivíduos buscam se inserir em determinada comunidade com base na participação desse grupo. O que se pretende, neste tópico, é analisar como foram estabelecidas as relações entre os agentes que participavam da Feira de forma coletiva. Por meio das observações, foi possível verificar algumas particularidades nos papéis que cada consumidor assumia.
É interessante observar, por o exemplo, o papel dos homens. A grande maioria dos grupos tinha presença da figura masculina. Duas funções básicas pareciam ser atribuídas a eles, mesmo que de forma não planejada. A primeira era de carregadores. Eles eram os responsáveis por transportarem as mercadorias adquiridas, mesmo porque, frequentemente, acompanhavam mulheres grávidas em estágio avançado de gestação.
O fato de serem tratados como coadjuvantes no processo não lhes parecia incômodo algum; pelo contrário, percebeu-se que os homens demonstravam satisfação em fazerem parte e contribuírem de alguma forma. Aos homens, quase nunca cabia a tarefa de escolher algo que poderia ser usado pela criança, a não ser que fosse algo relacionado ao time de futebol. As tendas mais procuradas por eles eram aquelas que comercializavam essas mercadorias. Em raros momentos, escutou-se a seguinte frase: “escolhe você também”. Eram algumas mães buscando uma participação mais efetiva dos pais. Essa passagem remete a um dos registros sobre esse assunto.
Parece que foi combinado. Hoje foi o meu quinto dia de observação, estou quase na metade da minha etnografia e, sem dúvida, a característica mais evidente no comportamento dos consumidores até então analisados se refere aos homens que acompanham os grupos. Em todas as minhas imersões a campo, notei que eles desempenham um papel secundário, um papel mais braçal. Foram eleitos os carregadores oficiais. Nada de se espantar. Por diversas vezes eu mesmo desempenhei essa função. Seria inerente ao homem não saber escolher algo que seja útil para seu próprio filho? Uma coisa é certa, eles não pareciam nada incomodados. Dedicavam-se às suas atividades e as desempenhavam da melhor maneira possível, mas, também, que segredo pode haver em carregar sacolas? Segredo não tem, mas pude perceber que aquela sacola não representava somente o pedaço grande de plástico cheio de traquitanas. O cuidado dos homens ao tratarem o material externava algo mais, eles pareciam estar tomando conta de algo valiosíssimo, e era. Percebi que a sacola era um símbolo que representava proteção (DIÁRIO DE CAMPO, 25/09/2011).
A outra função que cabia aos homens do grupo está associada aos aspectos financeiros do processo. Eles eram os responsáveis pela negociação e pagamento das mercadorias. O papel mais prático intensificava a participação desses indivíduos no ritual de frenquentarem a Feira. Ao receberem o poder para lidar com os atendentes, os detentores do dinheiro parecem se transformar: era como assistir a uma mutação. Antes, submissos e ofuscados pela presença da mãe, que olhava e escolhia os produtos, agora eles passam a ser o centro das atenções. A Feira possibilita que o cliente opte por realizar o pagamento das mais diversas formas. Assim sendo, eles utilizavam de toda sua persuasão e argumentação, objetivando realizar um bom negócio.
De uma maneira bem menos exacerbada, mas com características semelhantes, o comportamento dos consumidores masculinos, ao realizarem suas negociações, lembra o que Veblen (1983) relatou sobre a ostentação de dispêndio, em que o fator econômico serve como forma de representação social que o indivíduo adota perante sua comunidade, como manifestação simbólica na busca de reconhecimento.
O olhar de pesquisador permitiu estimar o tempo de permanência de algumas pessoas na Feira. Durante a rota de observação, encontrava-se o mesmo grupo de pessoas, diversas vezes, em lugares diferentes, em espaços que chegavam a até duas horas de intervalo. Não foi possível estabelecer, exatamente, por quanto tempo as pessoas ficam no local, porém identificaram-se indícios de que aquela atividade era realizada de forma prolongada e exaustiva. O trecho do diário de campo, datado de 06/11/2011, trata dessa questão.
Hoje, terminei minhas observações mais cansado do que nos outros dias. Assim como eu, acredito que outras pessoas também sentiram o desgaste do forte calor que faz hoje em Goiânia. A escada do descanso estava especialmente lotada hoje. Há tempos, consta em minhas notas de campo esse termo: “escada do descanso”. Resolvi, então, transcrevê-lo para o diário, pois percebi que se trata de um símbolo interessante no comportamento dos consumidores.
A predominância no local é o sexo masculino, o que era de se esperar. As atividades braçais iam pesar em algum momento. Ao se sentarem na escada, sozinhos, parecem estar num momento de introspecção. Não interagem com ninguém e cada um desfruta daquele momento da sua forma. Um toma a sua cerveja Antártica (não a minha preferida, mas cairia muito bem naquela hora), outro usa o fone de ouvido para passar o tempo, ou, simplesmente, permanecem ali, parados, cuidando de suas sacolas com o devido zelo, aguardando o sinal de alguém quando for o momento de desempenharem, novamente, o seu papel na história.