O fato de ser conhecida como „mulher de negócio‟, dedicada e experiente na vida, não lhe imunizava à condição de vulnerabilidade à química do corpo, expressa em forma de desejo e à fraqueza do coração que lhe resultou em paixão. Dentre seus diversos „casos”, um a marcou mais profundamente, sobretudo pela situação do cliente ser sempre o provedor da mulher. Este, que aqui chamaremos de Américo, assumiu, na relação, um papel inverso: o de amante de aluguel, ou
seja, gigolô. Era um jovem de família abastada da cidade, de traços finos e elegante, porém expressava uma certa fragilidade235. Silas era bacharel em Direito e foi enviado para o rio de Janeiro onde fez o curso de Postalista , tudo financiado por Gerusa com a anuência da família dele. De volta, assumiu emprego nos Correios e continuou o romance. Além do perfil social, o desempenho sexual e a elegância, Américo encantava Gerusa por ser um excelente dançarino, principalmente de tangos e boleros, estilos musicais que mais contagiavam as baladas das noites na zona. Com ele teve uma filha, com quem reside atualmente.
Américo foi a razão de muitos momentos de prazer e alegria, mas também de sua maior decepção na vida. Ao retornar do Rio, Américo:
Arrumou um namoro com uma professora, minha e dele, de Educação Física. Ai, não prestou. Na hora do casamento eu cortei ele e cortei ela [...].fria, como eu estou aqui, sem beber, sem coisa nenhuma. Aí o Dr. Valter Alencar era o advogado de renome aqui em Teresina. Aí ele requereu o habeas corpus e me tirou e disse Jerusa é melhor você viajar236 .
Gerusa já havia premeditado tudo, deixando uma carta para o Dr. Valter Alencar tirá-la da prisão. A cerimônia de casamento ocorria às 5 horas da tarde na Igreja Catedral de N.S. das Dores, celebrada pelo arcebispo de Teresina D. Severino Vieira de Melo. Na hora do “sim”, Jerusa avançou para agredir os noivos armada de um porta-gilete com duas lâminas. O Deputado Antonio Gaioso ainda tentou interceptá-la, mas não conseguiu. O noivo teve o rosto cortado e a noiva o véu rasgado e um corte nas costas. Jerusa foi presa. Ela diz:
Na hora do sim, eu disse: o sim alegre, eu pá, pá, pá. Ai o bispo, me lembro como se fosse hoje, d. Severino Vieira de Melo, era o bispo da cidade, disse você está amaldiçoada. Amaldiçoada é uma porra! Eu disse: a gente manda um cara se formar, gasta e dinheiro para ele fazer isso. Eu não queria que ele se casasse comigo não, rapaz, mas que pelo menos ele me desse respeito237.
Esse episódio foi a “gota d´agua” para o fim do relacionamento. Antes, defendendo Silas em uma briga, Jerusa agrediu um homem a golpes de garrafa. Por ser impertinente e intransigente, em determinados momentos, foi presa 53 vezes, por praticar grandes e pequenos distúrbios. Sobre o que fez, responde: “Eu fiz porque queria mesmo, porque eu era danada, tão tal é que o Garrincha me chamava de „dama da Noite”. Mesmo danada, como se reconhece, Gerusa
235 Ocultaremos o verdadeiro nome de Silas, bem como de sua família por questões éticas. A descrição fisionômica (grifos nossos) é com base em uma fotografia que nos foi mostrado por Jerusa no dia da entrevista (08/05/05). 236 Entrevista com Gerusa no dia 08/01/05.
ajudou muitas prostitutas, quando estavam famintas, doentes, ou quando vinham a óbito. “Na hora que morria uma, iam me chamar, para fazer o enterro238”
Também o lado romântico e de Gerusa, o tempo não conseguiu apagar, a memória registrou o que a sua sensibilidade captou como imagem. Indagada sobre a cidade que ainda existe na sua memória, a primeira imagem a que se reportou foi a praça e os cinemas. A praça Pedro II foi muito bonita, aquilo tinha uns pés de rosa, meu filho, que chamava atenção [...] tudo muito bonita, cor-de-rosa, amarela e branca [...]. tinha o cinema Éden e o cinema São Luis. O Bar Carnaúba? Tomei muitos grogues ali239.
Após vários anos em São Luis, Gerusa retornou a Teresina onde passou a exercer a função de gerente de cabaré. Foi trabalhar para Maroca, proprietária de três cabarés, no bairro Piçarra e adjacências. “O Casarão” e “A Particular” na Piçarra e o “Brasília” próximo ao rio Poti, hoje bairro Cristo Rei. Entretanto, nunca deixou a boemia, conciliando entretanto as funções de dirigente de cabaré e de mãe. Mantinha uma casa mobiliada na Avenida Campos, com uma empregada que cuidava de suas filhas. Quase sempre ia dormir em casa.
Assim, levou a vida por mais de vinte e cinco anos, até quando o corpo não mais resistia àquela vida. Aposentou-se pela Previdência, recolheu-se ao anonimato indo morar sozinha numa casa, no bairro Renascença, até quando, algum tempo depois, já adoentada, não viu outra alternativa a não ser ir morar com sua filha e netos no bairro Monte Castelo.
A história de vida de Gerusa é um exemplo que contraria a concepção equivocada do movimento feminista nos seus primeiros momentos, em considerar que toda forma de prostituição significa uma forma de “escravidão” para a mulher. Para muitas, prostituir-se, numa sociedade de raízes patriarcais, significa ser mais dona de si, mais livre, para decidir sobre sua vida, sem ter que subordinar-se a nenhum homem. Para Nickie Roberts: “O feminismo teria negligenciado a luta das prostitutas no sentido de entender a sua livre escolha e respeitar a sua opção”240
.
Gerusa disse que não se arrepende da vida que teve como “dama da noite”. Sempre se portou como uma verdadeira senhora de si:
238Gerusa. Entrevista, em 08/01/05 239 Jerusa. Entrevista, 08/01/05
240 ROBERTS, Nickie. As Prostitutas na História. Tradução de Magda Lopes. Rio de Janeiro. Ed. Rosa dos Tempos, 1998, p.398
A única coisa que não fiz e poderia ter feito é ter ido embora para o Rio de Janeiro com José Pires de Melo. Me arrependi, arrependi, arrependi... Voltar ao tempo e fazer tudo de novo? Eu não voltaria241...
Outra prostituta que marcou época na história de Teresina foi Francisca Batista da Costa, conhecida pelo pseudônimo de Franscisquinha. Foi uma das mulheres da noite que viveu a prostituição nos anos de 1960 a 1970, tornando-se depois uma das mais jovens madames no mundo da prostituição em Teresina nesse período pesquisado. Em 1991, o Jornal Comando de Timon, fez uma longa matéria com Francisquinha que revelou partes importantes de sua história de vida, numa edição especial de 27 de julho a 3 de agosto de 1991.
Francisquinha revelou que saiu de casa aos 15 anos de idade “porque se tornou mulher.”242 Maranhense, escolarizada, jovem e bela, teve a sorte de ser retirada de dentro de um cabaré em Fortaleza para ser a esposa de Coronel do Exército. Casamento que durou apenas dois anos. Por problemas familiares, esse casamento não deu certo. A avó dele nunca quis conhecê-la porque dizia que ela era negra.
Algum tempo depois, conheceu outro homem com que teve um relacionamento por cerca de 30 anos, segundo ela, o maior de sua vida, mas, no entanto, nunca morou com ele. Ele vive no Rio de Janeiro, mas o relacionamento continuou por todo esse período. Ao contrário de outras madames que tiveram suas vidas arruinadas por se relacionarem afetiva e sexualmente com gigolôs, antes de entrar em decadência, aos 51 anos resolveu fechar seu estabelecimento e partir para outro tipo de empreendimento abrindo um restaurante. Mas afirma, mesmo sem revelar o seu nome, que deve a esse amante, “Tudo que é um terreno financeiro, sentimentais e em relação à educação que teve”243
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241 Jerusa. Entrevista, em 08/01/05 242 Jornal Comando, 27/07/1991. p . 9. 243 Idem, idem.
Foto 17 - Gerusa e Portela, amigas de cabaré, em festa Junina Fonte:
Diz que entrou no mundo da prostituição por circunstâncias da situação em que vivia. E assegura: “Ninguém entra porque quer, é esta sociedade imunda e corrupta que faz com que as moças pobres entrem na prostituição. Muitas vêm pensando que é fácil, mas eu te garanto, é uma vida fácil muito difícil”.244
E alerta a todas as moças que levam esta vida para que não se iludam, tudo é passageiro, todas as glórias, todos os confortos, tudo é efêmero. E lembra de Dona Maroca245 que teve os homens mais poderosos na sua casa e morreu na miséria, de uma forma triste. E acredita conformada que se um dia precisar bater a porta dos homens que visitavam sua casa, eles lhes virarão as costas[...].246
Mas nunca se envergonhou de sua profissão e diz: “Entro em qualquer lugar de cabeça erguida, me sinto uma cidadã como outra qualquer. Nunca desvirtuei uma virgem ou uma mulher casada, e quando soube que alguém se deu bem na vida, jamais chamei pra vir aqui.
Segundo ela, muitas mulheres que estiveram na sua casa casaram com pessoas de bem. No seu estabelecimento nunca houve brigas e ela jamais precisou ir à Polícia. Apesar de ter
244 Idem, idem.
245 Maroca foi uma prostituta famosa, que se tornou proprietária de cabaré, cujo clientes eram membros da elite. Localizava-se no bairro Piçarra.
algumas figuras de Teresina que lhe deram o calote, saindo sem pagar a conta, deixando apenas um vale que não valia nada. Ela prefere não dizer o nome com medo de represálias.
Seu estabelecimento situado na Av. São Raimundo recebia “visitas” de políticos e empresários de alto escalão, além de outros senhores vip que visitavam a capital do Piauí. Ela não cita nomes porque o sigilo faz parte de sua ética profissional. Muitos deles eram casados, mais uma razão para preservar o sigilo de seus nomes e evitar escândalos.
Foto 18 - Francisquinha e sua “meninas!