2.2 La dépendance est-elle un risque ?
2.2.1 Dé…nitions de la dépendance et délimitation du risque
Lá na Gruta do Angico fez seu pouso derradeiro No sertão alagoano morre o rei dos cangaceiros
Fez a justiça no punho, a lei era o seu aço Conhecido Lampião, o grande Rei do Cangaço
João Carreiro Nesta tese de doutoramento, analisamos, descrevemos e interpretamos as representações discursivas de Lampião e seu bando de cangaceiros em notícias de jornais mossoroenses publicados na década de vinte (1927) do século passado, de quando da invasão do bando à cidade de Mossoró, em treze de junho daquele mesmo ano. Essas representações foram analisadas tendo por base um conjunto de operações semânticas de construção de representações discursivas, conceituadas a partir dos trabalhos de Adam (2011), Grize (1990), Neves (2006), Castilho (2010) e Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2010): referenciação, predicação, modificação, localização espacial e temporal, conexão e analogia.
Para Lampião, foram construídas as seguintes representações discursivas: bandido, chefe de cangaceiros, subornador e derrotado. Essas representações revelam os pontos de vista jornais e desfavorecem a imagem do cangaceiro Lampião, porque lhe atribuem características negativas ou pejorativas. Em certos enunciados das notícias, que compreendem fragmentos de outros textos que estão inseridos dentro das notícias, como, por exemplo, os bilhetes escritos por Lampião e pelo coronel Rodolfo Fernandes, alteram-se os pontos de vista do enunciador e, portanto, as representações discursivas construídas para o cangaceiro. Nesses enunciados, são construídas representações de líder e autoridade para o cangaceiro Lampião (Cap. Virgolino), ou seja, representações que favorecem sua imagem.
Por sua vez, para os cangaceiros do bando de Lampião foram construídas as seguintes representações discursivas: grupo, bando, bandidos, companheiros, matilha sanguinária, bandoleiros, cangaceiros, facínoras, horda assaltante, feras e
selvagens. Essas representações são associadas à imagem de Lampião, especialmente a partir dos modificadores empregados, que estabelecem entre eles uma relação de dependência: chefiados por Lampião, de Lampião, chefiado por Virgolino Ferreira. Neste ponto, entendemos que as representações são construídas para os cangaceiros em razão da própria imagem de Lampião, de modo que a identidade de um está intimamente atrelada a do outro.
Essas representações foram analisadas tendo em vista certos fenômenos linguísticos utilizados na produção dos textos das notícias que assinalam a construção de imagens sobre os objetos de discurso – no caso, Lampião e os cangaceiros de seu bando. Esses fenômenos, por sua vez, foram interpretados com base em operações semânticas de construção de representações discursivas anteriormente expressas, conforme apresentamos no quadro seguinte:
Operações semânticas de análise Recursos linguístico-textuais
Referenciação Substantivos, pronomes, nomes próprios e expressões de valor nominal
(sintagmas nominais). Modificadores Adjetivos, locuções adjetivas ou
expressões de valor adjetivo. Predicação Verbos de ação e de estado no
pretérito, presente, infinitivo e gerúndio. Termos circunstantes Adjuntos adverbiais de modo, de
negação e de causa.
Localização espacial Advérbios, adjuntos adverbiais de lugar e expressões indicadoras de espaço. Localização temporal Advérbio de tempo, adjuntos adverbiais
de tempo, tempo dos processos verbais e outras expressões indicadoras de
tempo.
Conexão Conjunções, preposições e pronomes relativos.
Quadro 42: Síntese das operações semânticas de construção de representações discursivas versus os recursos linguístico-textuais.
Fonte: Autor.
A operação semântica de referenciação compreendeu o emprego de substantivos, pronomes ou expressões de valor nominal que (re)designam Lampião e os cangaceiros de seu bando. Na sua maioria, os nomes possuem uma carga semântica pejorativa, favorecendo a construção de representações discursivas negativas para Lampião e os cangaceiros. Essas representações são ainda mais acentuadas a partir do emprego de adjetivos modificadores que caracterizam,
descrevem ou especificam os referentes, atribuindo-lhes traços depreciativos ou desfavoráveis à imagem de Lampião e dos cangaceiros.
Gramaticalmente, grande parte dos referentes que designam Lampião e os cangaceiros de seu bando assume função sintática de sujeito, agente da passiva ou complemento do processo verbal. Eles são colocados na posição de sujeito agente dos processos verbais, os quais praticam, na maioria das vezes, ações violentas em detrimento de suas vítimas. Estas ações dizem respeito justamente à operação semântica de predicação.
Na predicação, observamos a recorrência frequente de verbos de ação, empregados na terceira pessoa do singular e do plural, no pretérito do indicativo, que indicam ações pontuais, concretizadas. Esses verbos, de modo geral, constroem uma cadeia semântica de ações violentas e criminosas, que favorecem a construção das representações discursivas sugeridas pelos referentes das proposições para Lampião e seu bando de cangaceiros.
Alguns deles são modificados por termos circunstantes, que compreendem expressões de valor adverbial que modificam os processos verbais e indicando as circunstâncias em que se desenvolve a ação verbal (a predicação). Nas notícias analisadas, encontramos termos circunstantes que atribuem, principalmente, circunstâncias de modo, causa e negação. Neste último caso, o advérbio de negação é empregado, principalmente, para negar uma possível atitude heroica de Lampião e seu bando, buscando desqualificá-los como indivíduos sem coragem e audácia.
No que diz respeito à localização espacial e temporal, constatamos que esta operação compreende os termos que expressam as circunstâncias de espaço e tempo em que se desenvolvem os participantes e as ações dos processos verbais. Apesar de teoricamente compreenderem uma mesma operação semântica de análise, dada a semelhança de comportamento sintático e semântico, por questões didático-metodológicas, tratamos a localização espacial e a localização temporal em itens separados, mas correlacionando-as sempre que necessário.
Foram diversos os espaços descritos nas notícias. O locativo espacial mais recorrente foi Mossoró, espaço geográfico principal onde se desenvolveram as ações descritas nas narrativas, incluindo o acontecimento principal narrado nas notícias – a invasão do bando à cidade Mossoró. Em seguida, apresentam
expressiva recorrência os locativos esta cidade (dêitico que recategoriza o locativo Mossoró) e as trincheiras (espaço onde efetivamente ocorreram as lutas entre os bandoleiros de Lampião e soldados e civis mossoroenses). Cabe ainda considerar a ocorrência de locativos como Apodi (cidade onde primeiramente os cangaceiros atacaram antes de Mossoró) e Limoeiro (cidade do Ceará para onde fugiram os cangaceiros após resistência em Mossoró).
De um modo geral, os locativos espaciais mobilizados nas notícias podem ser organizados em subcategorias, descritas com exemplos na listagem a seguir:
i) Região: Nordeste, Nordeste Brasileiro.
ii) Estado: Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas. iii) Cidade: Mossoró, Apodi, Limoeiro.
iv) Povoado: São Sebastião, O sítio Sipó, Cajazeiras. v) Ruas: O Alto da Conceição, Praça 6 de Janeiro.
vi) Locais físicos específicos: Estação da Estrada de Ferro de Mossoró, O prédio da União dos Artistas, A ponte da Estação da Estrada de Ferro de Mossoró, O Grande Hotel, A Casa Colombo.
vii) Locais físicos genéricos: As trincheiras, As ruas, Vilas, Povoados e Fazendas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Alagoas, Uma casa.
viii) Expressões locativas de distância: Distante daquele sete léguas, Poucos quilômetros, Daqui a meia légua.
ix) Expressões locativas de espaço: Dentro da rua, O lado de baixo, Por trás da Igreja de São Vicente, Ao seu lado, O outro lado do rio.
x) Expressões dêiticas: Esta cidade [Mossoró], Ali [Mossoró], Aqui [Mossoró], Daqui [Mossoró], Perto daqui [Fazenda Oiticica], Dêsse Estado [Ceará], Aqui [Cativeiro].
A observação e análise dos locativos espaciais nos permite reconstruir a cenografia onde se desenvolveram os processos verbais desempenhados pelos participantes dos enunciados. Como defende Queiroz (2013), podem ser considerados como importantes operadores de textualidade, porque além de organizarem a topografia dos textos, organizam também, no caso das notícias analisadas, os percursos de Lampião e seu bando antes, durante e depois da
invasão à cidade Mossoró. Trataram-se, pois, como visto, de elementos essenciais à compreensão dos textos analisados nesta tese.
Por sua vez, observamos que a localização temporal diz respeito às expressões adverbiais que indicam o tempo em que se desenvolve a ação do processo verbal. Nas notícias analisadas, verificamos a ocorrência de expressões indicadoras de tempo, gramaticalmente representadas por advérbios ou locuções adverbiais de tempo. Cabe ressaltar o destaque que apresentaram expressões de valor numérico que indicam tempo (locuções adverbiais de tempo de valor numérico), especialmente hora, dia mês e ano, com a finalidade de situar cronologicamente os acontecimentos narrados nas notícias, especialmente o assalto dos cangaceiros a Mossoró.
Os conectores, como vimos, são elementos que permitem a conexão entre as partes que compõem os enunciados (ou as proposições) e entre o conjunto de proposições que formam o todo semântico na construção das representações discursivas em um texto. Os conectores empregados nos textos das notícias são gramaticalmente representados por conjunções e expressões de valor adverbial e pronominal essenciais à construção de representações discursivas dos temas tratados nas notícias analisadas, especialmente de Lampião e de seu bando de cangaceiros. De acordo com Queiroz (2013), além de ligar os enunciados entre si para construir as redes semânticas que constituem a progressão temática do discurso, os conectores articulam o conjunto de sequências para formar a unidade de sentido, constituindo a cadeia isotópica que cria efeitos de sentidos temáticos: ora Lampião é tratado como sujeito importante, porque é chefe de grupo de bandidos, ora como um salteador, que merece todo descrédito; ora o bando é tratado como grupo de bandidos, ora como companheiros.
As relações de analogias (e comparações) ocorrem, principalmente, por meio do emprego de metáforas que constroem representações discursivas dos cangaceiros lampeônicos como feras ou grupo de indivíduos que praticam atos selvagens. Para Lampião, sugerem a construção de representações discursivas como homem de instintos diabólicos, de caráter pervertido. Em ambos os casos, as anáforas são utilizadas para reforçar a construção de uma imagem negativa de Lampião e de seu grupo, conforme pregava a imprensa da época em nome do governo e das classes sociais majoritárias.
Essas operações contribuíram de forma significativa para que pudéssemos compreender as formas pelas quais são construídas as representações discursivas identificadas nas notícias que compõem nosso corpus para Lampião e seu bando de cangaceiros. Observamos que as notícias revelam os pontos de vista dos próprios jornais, que representavam, essencialmente, os interesses de comerciantes, de políticos, do próprio governo e da população mossoroense de modo geral – mesmo sendo a notícia um gênero que preza pela imparcialidade. Lampião e seus cangaceiros eram enxergados por esse público como ameaça à tranquilidade e à ordem da cidade de Mossoró. Nesse ponto, nosso trabalho apresenta contribuição para compreensão de aspectos históricos relativos ao cangaço, tendo em vista que, por meio do texto, buscamos compreender os efeitos de sentido que são construídos sobre Lampião e seus cangaceiros no gênero notícia da década de vinte do século passado.
Portanto, acreditamos ter o nosso trabalho cumprindo os seus objetivos pretendidos. Além disso, acreditamos também ter contribuído de forma significativa para os estudos linguísticos do texto, especialmente para aqueles que tematizam questões relacionadas à construção de representações discursivas dos temas ou assuntos tratados, especialmente em gêneros jornalísticos, no caso o gênero notícia. A proposição da operação semântica de análise de termos circunstantes, ao invés de modificador da preposição, revela também uma contribuição teórica para os estudos em Análise Textual dos Discursos, tendo tratar-se de uma mudança terminológica e conceitual relevante às análises dos termos que atribuem circunstâncias às predicações.
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E02M. O famigerado Lampião e seu grupo de asseclas atacam Mossoró. E03M. É morto o bandido Colchete e preso o lombrosiano Jararaca. E04M. Os reféns do bando sinistro.
E05M. A fuga precipitada da matilha sanguinária em demanda do Ceará.