5. EPILOGUE
5.2 Et si c’était à refaire ?
Ainda em 1912, em função das dissidências ocorridas no movimento psicanalítico e também do início de problemas de relacionamento com Jung e Stekel,
Freud cria um Comitê Secreto, composto apenas dos mais fiéis partidários – a quem distribui um entalhe, por eles transformado em um anel de fidelidade. Deste Comitê
Secreto, formado com o incentivo de Jones, fazem parte (além do próprio Jones):
Abraham, Ferenczi, Rank, Hanns Sachs e Anton von Freund. Em setembro, após passar cinco anos em Toronto, onde lutara pela implantação das idéias freudianas nos Estados Unidos, Jones é acusado novamente por motivos "sexuais", e resolve então voltar a morar em Londres, na Inglaterra (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 122/416).
Em outubro, após ter lido tudo que Freud havia escrito, Andreas-Salomé consegue que ele a admita como membro da WPV, e se instala temporariamente em Viena, para estudar psicanálise. Inicia então um romance com Viktor Tausk, psiquiatra e psicanalista austríaco, divorciado e dezoito anos mais jovem que ela, bonito e melancólico. Ele a inicia na prática da psicanálise, pois a seu lado visita hospitais e observa casos de seu interesse. Com Tausk e Freud, Andreas-Salomé reconstitui, nesta época, um triângulo semelhante ao que formara anteriormente com Nietzsche e Rée. Torna-se também amiga da família de Freud, especialmente de sua filha Anna. Posteriormente, Andreas-Salomé instalar-se-ia definitivamente em Göttingen, Alemanha, trabalhando como psicanalista em tempo integral (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 23-24).
Em um incidente ocorrido ainda no ano de 1912, Jung acusa Freud injustamente de não lhe dar a devida importância. Está discussão arrastar-se-ia penosamente por meses, quando seria então esclarecida por Freud, o que não impediria Jung de continuar a atacá-lo por outros motivos. Em novembro, Jung faz uma conferência sobre psicanálise nos Estados Unidos, onde deixa de lado a sexualidade infantil, a etiologia sexual das neuroses, o complexo de Édipo, e redefine abertamente a libido, incluindo nela uma energia psíquica geral. Posteriormente, comenta com Freud que "sua versão da psicanálise" havia conseguido conquistar pessoas que ficavam desconcertadas com o problema da sexualidade na neurose. Completa dizendo estar em seu direito ao "falar a verdade como a via". Também em novembro, Stekel retira-se da WPV (Gay, 1999, pp. 219-222).
Em 1913, após receber inúmeras cartas acusatórias e agressivas de Jung, Freud lhe responde com a sugestão de que fossem encerradas todas as suas relações pessoais.
Em maio, Ferenczi, juntamente com outros membros, cria na Hungria a Sociedade
Psicanalítica de Budapeste. Jung principia – em agosto – o uso do termo Psicologia Analítica para designar o seu trabalho. Contudo, no IV Congresso da IPA, em Munique,
Alemanha, realizado no mês de setembro, Jung é reeleito presidente da IPA, por 52 votos a 22. Em outubro, Jones (com outros membros), funda a Sociedade Psicanalítica
de Londres (LPS). Também em 1913, Hermine von Hug-Hellmuth é admitida como
membro da WPV. Torna-se, depois de Freud – que o havia feito como supervisor – a primeira psicanalista de crianças. Irá desenvolver, para a análise infantil, atividades de jogo e desenho (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 357/806).
Também neste ano, a conselho de Freud, Jones passa dois meses em Budapeste, Hungria, para uma análise didática com Ferenczi (relação que acabaria por trazer para o movimento psicanalítico mais problemas que soluções). Freud então tinha como paciente Loe Kann, a pedido de Jones. Quando Jones inicia seu tratamento com Ferenczi, Kann encontra-se prestes a deixá-lo para se casar com outro homem, mas ele não sabe disso. Jones também não fica sabendo que Freud informa Ferenczi de tudo que ocorre nas sessões com Kann, e que Ferenczi repassa ao mestre o andamento de sua própria análise. Ferenczi descreve Jones a Freud como alguém voltado às intrigas, aos triunfos secretos e à perfídia. Freud apega-se bastante a Kann, de uma forma paternal e assexuada, e ela viria a tornar-se uma grande amiga de sua filha Anna (Roudinesco & Plon, 1998, p. 416).
SOB QUE MÁSCARA RETORNARÁ O RECALCADO?27
Ainda em 1913, Freud publica um artigo intitulado A disposição à neurose
obsessiva – uma contribuição ao problemas da escolha da neurose. Neste texto, Freud
discute os motivos que levam uma pessoa a adoecer de uma neurose específica, e não de outra. Considera haver dois fatores dominantes na "escolha" da neurose: o acidental e o constitucional – lembrando que, na época, a proposição geral é de que as neuroses derivam exclusivamente de uma disposição inata do indivíduo. Afirma que, tanto a função sexual, quanto diversas funções egóicas, precisam passar por um longo e complicado desenvolvimento antes de chegar ao modo de funcionamento característico
do adulto "normal". Contudo, a função fixar-se-ia em alguns pontos das fases por que passa o indivíduo na infância, retornando a estes mesmos pontos se ele posteriormente adoece em função de perturbações externas (Freud, 1976e, pp. 399-400).
Freud considera que as "disposições" são inibidoras do desenvolvimento do indivíduo, e que se deve deixar à biologia a tarefa de determinar que fatores podem ocasionar tais inibições – aponta inclusive para a teoria temporal de Fliess como uma possível resposta para o problema. Freud intitula como psiconeurose também a "demência precoce". A ordem de aparecimento das neuroses seria, primeiramente, a histeria, cujas formas de manifestação podem ser encontradas ainda na primeira infância, em seguida, a neurose obsessiva, que apresenta seus primeiros sintomas entre seis e oito anos, por fim, a paranóia e a "demência precoce" (parafrenias) só apareceriam depois da puberdade e durante a vida adulta (Freud, 1976e, pp. 400-401).
Freud salienta que as doenças que por último se manifestam são aquelas que implicam em uma fixação em uma fase libidinal anterior à escolha objetal, ou seja, nas fases auto-erótica e narcisista. Quanto às neuroses de transferência propriamente ditas, a histeria e a neurose obsessiva, a fixação deverá ser encontrada em fases posteriores de desenvolvimento libidinal. Em sua busca do entendimento da neurose obsessiva, Freud conclui que, entre a fase narcisista (que se segue à auto-erótica) e a fase da escolha objetal ligada à genitalidade, haveria uma outra, na qual o objeto é externo ao sujeito, mas como a primazia das zonas genitais ainda não foi estabelecida, trata-se também de uma organização pré-genital28. Nesta fase de desenvolvimento dominariam as pulsões anal-eróticas e sádicas (Freud, 1976e, pp. 401-404).
Se desejarmos colocar nossa hipótese em contato com linhas biológicas de pensamento, não devemos esquecer que a antítese entre masculino e feminino, que é introduzida pela função reprodutora, não pode ainda estar presente no estádio da escolha objetal pré-genital. Encontramos, em seu lugar, a antítese entre tendências com objetivo ativo e com objetivo passivo, a qual, posteriormente, se torna firmemente ligada à existente entre os sexos. A atividade é suprimida pelo instinto comum de domínio, que chamamos sadismo quando o encontramos a serviço da função sexual; e, mesmo na vida sexual normal plenamente desenvolvida, ele tem importantes serviços subsidiários a desempenhar. A tendência passiva é alimentada pelo erotismo anal, cuja zona erógena corresponde à antiga e indiferenciada cloaca. Uma acentuação deste erotismo anal no estágio pré-genital de organização deixa
28 Segundo Strachey (1976), esta é a primeira vez que Freud utiliza o termo pré-genital em um texto. Vale
lembrar também que este artigo é inaugural na divisão esquemática, por Freud, do desenvolvimento infantil em fases libidinais, embora a idéia já se encontre esboçada em textos anteriores (p. 396).
atrás de si uma predisposição significante ao homossexualismo, nos homens, quando o estádio seguinte da função sexual, a primazia dos órgãos genitais, é atingido (Freud, 1976e, p. 405).
No parágrafo acima, encontra-se a habitual relação masculino/ativo/sadismo e feminino/passivo/masoquismo. A pulsão sádica é vista por Freud como tendo "importantes serviços" a desempenhar na vida sexual de um homem, possivelmente porque, para "vencer a resistência" das mulheres (não só na primeira de suas relações sexuais), o homem teria que utilizar sua agressividade. Resta saber quais seriam tais "importantes serviços" além da obtenção de prazer pelo homem. Pode ser que Freud demonstre uma exagerada preocupação com a preservação da espécie.
Também na citação anterior, Freud afirma que o ânus deve seu erotismo ao fato de ser uma diferenciação da cloaca. Segundo André (1996), esta afirmação estaria baseada na fantasia infantil de que os bebês nascem pelo ânus. Contudo, "a cloaca animal aponta para uma confusão corporal. Na teoria infantil (na versão de Freud), só há confusão na ordem de representações. [...]. É o adulto que chama de 'cloacal' aquilo que, para a criança, parece ser 'claramente' anal" (p. 30).
Freud prossegue afirmando que, na formação do caráter, encontram-se as mesmas forças pulsionais encontradas na constituição das neuroses. Contudo, nesse caso, não ocorre o fracasso do recalcamento – ele não entra em ação ou alcança facilmente o objetivo de substituir o recalcado por formações reativas29 e sublimações. Por este motivo, os processos de formação de caráter seriam mais difíceis de compreender na análise que aqueles da formação da neurose. Mas, na mulher, após a menopausa, pode haver uma regressão30 da sexualidade à fase pré-genital sádico-anal, e o aparecimento de um caráter obsessivo. Nesse caso, não parece haver nenhuma resistência à regressão, como ocorre no caso da neurose. Possivelmente, a fase sádico-
29 Formação reativa: atitude ou sentimento de sentido oposto a um desejo recalcado, constituído em
reação negativa a este desejo (Laplanche & Pontalis, 2000, p. 200).
30 O termo regressão, no sentido temporal de retorno da libido a fases anteriores de desenvolvimento,
aparece neste texto pela primeira vez. Contudo, podem ser encontradas indicações, já nos Três ensaios... de uma regressão libidinal a modos anteriores de organização (Laplanche & Pontalis, 2000, pp. 440-441). Obviamente, o fato do termo – com este sentido – só aparecer neste texto, deve-se ao fato de que, como já visto, ser nele também que aparece claramente a separação do desenvolvimento infantil em fases
anal seria não apenas a precursora da fase genital31, mas também sua sucessora, retornando após os órgãos genitais terem desempenhado sua função (Freud, 1976e, pp. 406-407).
Na seqüência, Freud discute a ignorância em que se encontra, na época, com relação às fases de desenvolvimento do ego. Com base em algumas tentativas teóricas que teriam sido feitas por Ferenczi, Freud, não sem hesitação, afirma que existe uma possibilidade de haver, na disposição à neurose obsessiva, uma ultrapassagem cronológica do desenvolvimento da libido pelo desenvolvimento do ego32. Em função do sadismo presente nesta fase da libido, em que as pulsões sexuais ainda não atingiram sua forma final, poder-se-ia considerar que a origem da moralidade estaria no fato de que, "na ordem de desenvolvimento, o ódio é precursor do amor" (Freud, 1976e, p. 408).
Freud termina este texto com uma rápida discussão da predisposição à histeria. Esta neurose estaria relacionada com a fase final do desenvolvimento da libido, caracterizada pela primazia dos órgãos genitais e pela introdução da função de reprodução. Haveria então um recalcamento dessa aquisição, sem contudo haver uma regressão à fase pré-genital. Porém, nas crianças do sexo feminino, a sexualidade é
dominada e dirigida por um órgão masculino (o clitóris), e amiúde se comporta como a sexualidade dos meninos. Esta sexualidade masculina tem de ser abandonada mediante uma última onda de desenvolvimento, na puberdade, e a vagina, órgão derivado da cloaca, tem de ser elevada a zona erógena dominante. Ora, é muito comum na neurose histérica que esta sexualidade masculina reprimida seja reativada e, então, que a luta defensiva por parte dos instintos egossintônicos seja dirigida contra ela (Freud, 1976e, p. 409).
André (1996) ressalta o fato de que, novamente utilizando como base para suas observações as fantasias sexuais infantis, Freud deixaria de levar em conta que, em sua própria teoria sobre estas fantasias, elas não seriam fruto de uma confusão anal/genital, mas da completa ignorância da vagina, até mesmo para o inconsciente. Ao deixar de considerar esse fato e afirmar que a vagina é um "órgão derivado da cloaca", Freud
31 Como se pode perceber, Freud ainda não utiliza, neste texto, sua noção de fase fálica que, segundo
Strachey (1976, p. 397), só irá aparecer em 1923, no artigo intitulado A organização genital infantil (ver Freud, 1976i).
32 Nesta parte de seu texto, Freud parece estar se referindo mais ao superego que ao ego. Deve-se
considerar o fato de que o uso do termo superego, sob a pena de Freud, segundo Laplanche e Pontalis (2000), só irá ocorrer à partir de 1923, no texto intitulado O ego e o id (p. 498).
abria – sem perceber – um flanco para que uma série de discípulos viessem, futuramente, a questionar o desconhecimento da vagina nas meninas (p. 30).
PERTURBANDO O SONO DO MUNDO33
Em função de seus rompimentos com Adler, Stekel e Jung, em janeiro de 1914 Freud publica A história do movimento psicanalítico, onde conta de que forma chegara às suas conclusões preliminares, bases da teoria e técnica psicanalíticas. Afirma que a transferência e a resistência são as descobertas mais importantes da psicanálise e, portanto, seus sustentáculos.
Qualquer linha de investigação que reconheça esses dois fatos e os tome como ponto de partida de seu trabalho tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos meus. Mas quem quer que aborde outros aspectos do problema evitando essas duas hipóteses dificilmente poderá escapar à acusação de apropriação indébita por tentativa de imitação, se insistir em chamar- se a si próprio de psicanalista (Freud, 1974a, p. 26).
Prossegue afirmando que outro produto do trabalho psicanalítico é a hipótese da sexualidade infantil. A convicção, tanto da existência, quanto da importância da sexualidade infantil, só pode ser obtida na busca da origem dos sintomas neuróticos. Outro ponto fundamental da psicanálise seria a interpretação dos sonhos. Considera, então que, se suas descobertas no campo psicanalítico são capazes de provocar resistência em seus pacientes, também o farão naquelas pessoas que tiverem um contato aparentemente apenas intelectual com sua teoria. De fato, a justificativa para isso seria emocional, e não intelectual (Freud, 1974a, pp. 27-34).
Freud rebate em seguida as críticas feitas até então à psicanálise e, de alguma forma, agradece o trabalho de seus discípulos mais fiéis, ao ajudá-lo no desenvolvimento e, especialmente, na divulgação da obra psicanalítica. Acompanha o desenvolvimento da teoria e do movimento até a época, e explicita os motivos das separações de Adler e Jung, afirmando que suas revisões da psicanálise significam, na verdade, a criação de outras correntes de pensamento (Freud, 1974a, pp. 36-82).
33 No texto abaixo citado, Freud afirma que cedo percebera, em sua carreira médica, que passara a fazer
parte do grupo daqueles que "perturbam o sono do mundo" (frase de um personagem de uma peça de Hebbel, conforme citado por Freud, 1974a, p. 32).
Em abril de 1914, Jung finalmente renuncia à presidência da IPA. Abraham assume então este cargo, a pedido de Freud. Contudo, Freud prosseguiria perturbando também o sono de um de seus discípulos mais fiéis: em junho, sem que Jones saiba, assiste ao casamento de Loe Kann, em Budapeste. Em julho, Anna Freud – então com dezoito anos – que estivera trabalhando num centro de assistência diurna para filhos de operários, e que acabara de prestar seus primeiros exames como professora, viaja para Londres, onde Jones a acolhe e se põe a cortejá-la. Anna comenta tal fato com Loe, que alerta Freud, e o mesmo é bastante duro com a filha, deixando claro não aceitar tal relação, dizendo que Jones não seria um bom marido para ela, e que ele não lhe daria a mesma liberdade que havia dado às suas irmãs mais velhas de escolher seu companheiro. Na verdade, a partir deste dia, Freud começa a desviar de Anna todos os seus pretendentes. Quase quarenta anos depois (em 1953), em uma carta de Jones a Anna, este ainda declararia seu amor por ela e seu ressentimento por Freud, que teria impedido o progresso da relação (Roudinesco & Plon, 1998, pp. 11/258/416).
Também em 1914, Ferenczi recebe como paciente para análise uma mulher que se tornaria muito importante dentro do movimento psicanalítico: Melanie Klein. Ela teria tido contato pela primeira vez com a obra psicanalítica neste mesmo ano, com a leitura do artigo de Freud Sobre os sonhos, de 1901. Klein procura a análise no ano da morte de sua mãe e do nascimento de seu terceiro filho. Começa então a participar das atividades da Sociedade Psicanalítica de Budapeste (Roudinesco & Plon, 1998, p. 431).
Ironicamente, esta mulher que entrava para o movimento psicanalítico justamente no ano em que Freud barrara o relacionamento entre sua filha e Jones, tornar-se-ia, posteriormente, a maior rival de Anna na psicanálise de crianças. Suas interpretações a respeito da sexualidade infantil também a levariam a discordar de Freud no tocante ao desenvolvimento da menina. Sua permanência e mesmo seu sucesso dentro da psicanálise contarão com o apoio fundamental de Jones. Segundo Sayers (1992), Freud irá considerar esse apoio como uma revanche pelos acontecimentos de 1914 (p. 152).